Vinte Linhas 693

José Rodrigues Miguéis – abençoados os alfarrabistas do Metro e da CP

José Rodrigues Miguéis é um escritor hoje raro nas nossas livrarias. Fruto da disputa numa herança, livro como «A escola do paraíso», «Páscoa feliz», ou «Saudades para Dona Genciana» não se encontram por mais que se procurem. Em boa hora editou «O Independente» o livro «A amargura dos contrastes», um conjunto de crónicas inéditas em livro. Figuras como Raúl Brandão e Raúl Proença, Nikias Skapinakis e Jorge Barradas, a vida e a arte, o homem e a cidade, tudo nestas 173 páginas é o fascinante reencontro com um mestre da literatura portuguesa. Vejamos um excerto de 1928:

«Lisboa reflecte a nossa falta de ideias gerais, de humanismo, de mediana cultura estética, de preocupações superiores e a instabilidade dos nossos nervos. É, arquitectonicamente, a capital duma nação de saloios, analfabetos e medíocres. A Lisboa, claro está, posterior ao Pombal; porque a dele e a outra, a dos descobrimentos e conquistas, é uma lembrança e uma saudade apenas. À boçalidade, incultura, indisciplina e mau-gosto dos edis têm correspondido, em geral dignamente, os cidadãos formando, ao sabor dos seus caprichos, esse caos estético a que chamamos «bairros novos». A Lisboa moderna não saiu da imaginação de artistas, arquitectos ou engenheiros; nem seque o carácter, a sobriedade duma concepção geométrica, fria, científica, como a dos novos bairros populares das cidades da Alemanha. Foi cozinhada, um pouco com os mesmos temperos intelectuais não do liberalismo nem do republicanismo mas da exploração política, industrial, dessas correntes de opinião. Percebe-se uma íntima correlação moral entre a organização das mesas eleitorais e a da arquitectura urbana… Acampamento erguido à pressa por uma legião de construtores gananciosos, bárbaros, ignaros: os tomareiros!, a malta bestial de cabouqueiros guindados a orientadores da estética da capital, a ditadores da urbs nova!»

(Recolhido e divulgado por J.C.Francisco)

7 thoughts on “Vinte Linhas 693”

  1. Não te esqueça sque o texto é de 1928 e tem o «air du temps» próprio dessa data mas sempre o estilo de José Rodrigues Miguéis…

  2. Olá, Francisco. Bom apontamento. Nunca tinha ouvido falar dos cabouqueiros ‘tomareiros’. Eu dei conta deles, mas como “patos-bravos”. Naqueles tempos não havia planificação urbanística. Ficava tudo à mercê dos “construtores tomareiros”. De bom, só tivemos Pombal e o Duarte Pacheco.
    Um abraço.

  3. Olá José do Carmo, eu também gosto muito do José Rodrigues Migueis e tenho pena que não haja livros dele disponíveis nas livrarias.
    Ignorava que por detrás dessa ausência estivesse uma guerrilha de herdeiros que, cegos, vão deixar prescrever os direitos de autor sem proveito para ninguém — nem para eles, herdeiros, nem para nós, leitores.
    O tempo passa depressa, e autores tão considerados na nossa juventude — Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Fernando Namora, etc. — estão hoje sepultados e ninguém sabe se algum dia ressuscitarão.
    Este hiato, provocado pela miserável disputa dos herdeiros, irá provavelmente fazer esquecer Migueis que não merece essa segunda morte.
    Sobre J Rodrigues Migueis, acho que li quase tudo que ele escreveu. Tenho uma especial predileção pelos seus contos ou novelas que acho muito bem escritas.
    Histórias muitas vezes passadas nos países onde viveu — Bélgica, USA — mas repassadas da saudade de Portugal.
    Com Migueis fiquei a conhecer a Lisboa do início da República, a pequena burguesia daquela época, os seus pequenos prazeres, a sua mesquinhice e também a sua generosidade.
    As pessoas ansiosas com a anarquia, a inflação, a ansiar pela ordem — que chegou na pessoa do dr. Salazar e que aqui ficou de pedra e cal durante aqueles miseráveis 48 anos.
    Assim, de repente, lembro-me de Saudades para Dona Genciana que recordo como uma história pungente passada no tempo da 1.ª República, lá para os lados das Avenidas Novas de Lisboa. Atenção: é a minha memória a falar, não tenho aqui comigo o livro onde travei conhecimento com a D. Genciana (Leah e Outras Histórias, se bem me lembro).

  4. Meu Caro Amigo – a Dona Genciana continua à janela a dizer «está chegando remessa». Por isso é que eu saúdo os alfarrabistas da CP e do Metro…

  5. Meu Caro Evaristo – é uma pena as coisas do nosso querido autor só aparecerem nestes alfarrabistas do Metro e da CP porque aquilo ainda foi assinado pela D. Camila.

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