Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Os livros nas prateleiras do IKEA

Uma recente e dolorosa experiência em Alfragide nos Armazéns IKEA, durante um dia que parecia nunca mais acabar, levou-me a ver aquela coisa das prateleiras das mobílias em exposição com outros olhos. Há dezenas de prateleiras em dezenas de móveis de cozinha, de sala de estar e de quarto, prateleiras povoadas por livros a sério. Livros verdadeiros. São centenas e centenas de livros escritos em sueco, editados em sueco e de escritores suecos mas não só. Por exemplo há livros de Vidiadhar Surajprasad Naipaul que não é sueco (nasceu em Trindade e Tobago em 1932), mas tens livros seus traduzidos em sueco. E alguns deles estão no IKEA de Alfragide.

Mas a comunicação é impossível. Ninguém lê V. S. Naipaul em sueco no nosso país. Ninguém lê os romancistas suecos que escrevem livros em sueco comprados pelo IKEA para povoar as prateleiras das mobílias de cozinha, de sala de estar e de quarto. Aí é que bate o ponto. Livros suecos em Portugal nas prateleiras do IKEA não foram, não são nem serão nunca lidos por ninguém. Se o efeito era apenas fazer sombra nas prateleiras, não era preciso ser com livros verdadeiros, porque o efeito será o mesmo seja o livro a sério ou seja a fingir. E assim há muita gente na Suécia que não lê esses livros.

A mulher do António Alçada Baptista tinha o hábito de responder quando ele lhe perguntava o que devia fazer a uma coisa fora de uso, como por exemplo uma lista telefónica, «Dê isso a um pobre!». Mas o problema é que não podemos aplicar esse exemplo ao caso do IKEA. De maneira nenhuma. Na Suécia não há pobres.

José do Carmo Francisco

Uma inesperada lição que vem de Inglaterra

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De Inglaterra não tem vindo nada de positivo nos últimos tempos. Só médicos e monstros. Monstros e médicos. Arrogância e estupidez, jornalismo de sarjeta e mais estupidez. Nojo e repulsa. Maldade em estado puro; se é que isto se pode escrever.

Pois eu rejubilei ao ler um livro inglês de Clive Gifford, Football – the ultimate guide to the beautifull game, editado para Portugal pela Sistema J como O mais belo jogo do Mundo. É óbvio que fui logo ver o que é que lá estava sobre o futebol português. Gato escaldado de água fria tem medo.

Mas não há razões de queixa. Pelo contrário: o que está escrito está correcto e é uma lição para muitos jornalistas portugueses que se limitam a «repetir os erros dos anteriores» como o caso da paranóia das Ligas. Entre 1935 e 1938 disputaram-se torneiros particulares ao mesmo tempo que continuava a ser disputado o campeonato de Portugal que teve o seu início em 1921 e durou até 1938. Como o Benfica ganhou 3 desses torneios, muitos jornalistas começaram a considerar essas provas como campeonatos, fingindo esquecer que o campeonato de Portugal só acabou em 1938.

Pois este livro não está com meias medidas: explica com muita calma que «como ficavam muitos domingos livres disputaram-se também as Ligas durante 4 anos (1935/1938) vencendo o F.C. Porto uma e o Benfica três.» Mais à frente explica que o campeonato nacional começou em 1939 quando a Federação resolveu criar a Taça de Portugal com jogos a eliminar e o campeonato a disputar por pontos e em duas voltas.

Fingir que os torneios experimentais de 1935/1938 já eram campeonatos da série que começou apenas em 1939 só para gente ignorante. E veio um livro de Inglaterra pôr os pontos nos is.

José do Carmo Francisco

«Crer é poder»

O jornal Sporting existe desde 31 de Março de 1922 e é, por isso, um dos mais antigos jornais de Clube da Europa. Saiu recentemente mais um número e lá está o que eu não queria ver: no site «www.sporting.pt» reproduzem a primeira página com um erro clamoroso. Trata-se da frase «Crer é poder» que surge em vez de «Querer é poder».

Numa semana em que o presidente da Direcção deu uma entrevista à Visão onde, blasé, se queixa do tempo que perde com o Sporting, tanto a despachar assuntos como a acompanhar a equipa de futebol, aparece dias depois o jornal a dar-nos este exemplo de incompetência a lidar com a língua portuguesa. Duas tristezas entre uma quinta-feira e uma terça-feira, é muito para um «leão».

No tempo da «quarta-classe bem tirada» qualquer pessoa sabia a diferença entre «querer» e «crer», pois querer tem a ver com vontade e crer tem a ver com fé. Tal como sabia a diferença entre «cozer» na panela e «coser» com agulha. Penso também em toda a legião de jornalistas e de colaboradores que entre 1922 e 2006 escreveu no jornal Sporting dando o seu melhor. Alguns devem estar a dar voltas no gavetão.

Mas não é apenas a língua portuguesa que aparece maltratada. É o facto de sermos motivo de chacota para os outros. E isso também é um ónus pesado. Ainda há pouco tempo o director (que surge sempre nas páginas do jornal de braços cruzados) tinha confundido «arguido» com «acusado», mas foi numa página interior. Agora dar um erro crasso na primeira página e em letras grandes é mesmo para ficar envergonhado. Como dizia o Poeta – «o que não tem sentido é o sentido que tudo isto tem».

José do Carmo Francisco

Terceira canção para Maria José

Na voz de Maria José permanece, ao mesmo tempo, a frescura da água de dois rios (o Alva e o Ceira) e o peso das pedras da serra do Açor. A cidade em frente tem no asfalto negro da Almirante Reis o espelho reflector do calor desmedido deste Setembro que já não respeita o calendário nem as estações do ano. É na ligação entre a frescura da água e o peso da pedra que Maria José modula a voz para responder às agressões e ao desgaste do quotidiano da cidade. Seu ruído e seu cansaço. Sua confusão e seu efémero. Porque sem raízes na terra.

Desde que acende a primeira lâmpada na casa da manhã até ao momento de apagar a última luz da noite há, no dia de Maria José, uma sucessão de tarefas quase invisíveis. E não deixam de ser reais, efectivas e completas mas são quase invisíveis pois não existe ruído à sua volta. Vai à praça num instante, corre à padaria, quase voa até ao talho, trazendo assim, numa fracção mínima de tempo, os víveres necessários ao almoço e ao jantar.

As sobrinhas fazem, com o pai de Maria José, o vértice de um triângulo feliz. Três gerações que se juntam à mesa para uma refeição de palavras. De um lado a memória, do outro lado o futuro. Maria José faz o enlace destas duas perspectivas. As meninas querem brincar pois já sabem, mesmo sem o saberem, que há uma idade para tudo. Os adultos não brincam com brinquedos. Os adultos são pastores de memórias, sempre aflitos não vá mais uma perder-se no vazio do esquecimento. E não há cão capaz de a trazer de volta. Maria José sorri depois de mais um dia. A felicidade é sempre uma convenção. Não tem utensílios de aferição, nada nesta matéria é objectivo. Há quem seja feliz produzindo e multiplicando a felicidade dos habitantes da sua casa. À custa de uma sucessão de tarefas quase invisíveis. Tal como permanece invisível a frescura da água e o peso da pedra na voz de Maria José. Como se de repente o Instituto Superior Técnico fosse a serra do Açor, a Almirante Reis fosse o rio Alva e a Morais Soares fosse o rio Ceira. A voz de Maria José justifica, altera e precipita esta nova geografia da cidade. Entre a água e a pedra como na primeira e mais feliz manhã do Mundo.

José do Carmo Francisco

O avental de Vítor Pereira

Vítor Pereira é o presidente da Comissão de Árbitros da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. A primeira imagem que tive dele foi na «Bola Magazine», um texto de Cruz dos Santos sobre as suas actividades teatrais. Vejo-o ainda hoje de avental num sketch perante uma plateia atenta de um bairro periférico de Lisboa. Mais tarde li uma enorme gaffe desse senhor quando se referiu a Dário Fo como autor da peça «E não se pode exterminá-lo?» de Karl Valentim. O lance do golo do Porto contra o Sporting na segunda jornada do campeonato nasceu de um erro crasso do árbitro. O defesa Polga, já em queda, desviou a bola que era conduzida pelo avançado Postiga, e na sequência desse corte, o guarda-redes do Sporting recolheu a bola com as mãos. Todos os especialistas na matéria consideraram erro do árbitro que também esteve péssimo no capítulo disciplinar deixando sem cartões vermelhos dois jogadores do Porto. Num assomo corporativo, o inefável Vítor Pereira apareceu a assinar um «esclarecimento» técnico que nada esclarece e que visa apenas tentar esconder com palavreado vazio o erro decisivo do árbitro do jogo das Antas. Qualquer pessoa percebe que um jogador só pode «passar» uma bola se a tiver. No caso quem a tinha era o Postiga que conduzia um ataque. Já em queda e (portanto) sem qualquer gesto deliberado (que é a palavra usada nas leis do jogo), o defesa Polga apenas «desviou» a bola, apenas «cortou» o lance, não fez nenhum passe nem poderia fazer porque estava caído no relvado e quem tinha a bola era o seu adversário. Em qualquer sociedade secreta há sempre um homenzinho com avental pronto a reescrever a História. Mas para isso é preciso saber escrever. E ter razão. Coisas que não se passam com este ex-actor amador.

José do Carmo Francisco

Segunda canção para Maria José

Quinta das Conchas, lugar
Onde a tarde se desenha
Por entre a água a cantar
E um perfume de lenha
Entre a relva dos caminhos
Na sombra do arvoredo
Dou passos tão sozinhos
O meu dia é um enredo
De memórias e imagens
Testemunhos, despedidas
O teu rosto nas paisagens
Desafia as nossas vidas
De quem procura tua voz
Entre a água e esta lenha
Há som de moinhos e mós
Na tua pronúncia serrenha
Quinta das Conchas, Lilases
O parque onde tu não vais
Há um grupo de rapazes
Joga até já não poder mais
Caminho que tu não cruzas
Mas às vezes em ansiedade
Olho as saias e as blusas
E não descubro a verdade
A verdade é que não eras
Tu a mulher neste passeio
É mais uma das quimeras
Do meu tempo de receio
Receio que nunca venhas
Quinta das Conchas, lugar
Onde em tempo as azenhas
Faziam a farinha a cantar
Quinta das Conchas, Lilases
Onde o vento transfigura
Tristezas feitas tenazes
Num ribeiro de ternura
Quinta das Conchas, lugar
Ali a saudade é um posto
Onde o sol vem desenhar
Os limites do teu rosto

José do Carmo Francisco

Balada do ciganito dos CDs

Foge mãe, leva os CDs
Chegou o carro patrulha
Eu vi mas tu não os vês
São dois e vai haver bulha
Ao guarda chamo «cabrão»
Fixo as mãos na garganta
No meio desta emoção
A minha lágrima canta
Faço ameaças de morte
Ao que chega primeiro
Com um pouco de sorte
Apanho um juiz porreiro
«Resistência e coacção»
Diz este código penal
Mas na minha educação
Não existe bem nem mal
Foge mãe, leva os CDs
Com quinze anos de idade
No sistema português
Não há responsabilidade
Meus pais são vendedores
Na cidade em todo o lado
Todos os nossos valores
Cabem num plastificado
Onde notas com gordura
Se perfilam em parada
Quando vamos à procura
A nota está encontrada
Onde tudo o que não seja
Notas de um certo valor
Vale mais que uma Igreja
E muito mais que o amor
Fechou o «quarto juízo»
Hoje não vou ser julgado
Afinal do que eu preciso
É andar por todo o lado
Vender os CDs piratas
E ser só aquilo que sou
Sou menor, vejam as datas
O estado a que isto chegou

José do Carmo Francisco

Balada da Rua Serpa Pinto

Mulheres na Serpa Pinto
Termómetros da cidade
Longas horas de amargura
Momentos de felicidade
Trazem a luz e o calor
À pedra das manhãs frias
Trazem frescura às tardes
Da rua dos nossos dias
Quando sacodem o sono
Farrapos de melancolia
Sabem que tudo na casa
Depende dessa energia
Dessa força transmitida
Dessa afirmação de ser
Todos os dias da vida
A razão de ser mulher
Na vida multiplicada
Na voz que sempre resiste
E acaba por vir cantar
Nos dias em que está triste
E transportam devoção
Na viagem mais profana
Fazer um tempo de festa
Mesmo em dia de semana
É a voz que ganha altura
Sobre as paredes das casas
Passam em bandos alegres
Só lhes falta terem asas
Mulheres que mudam a rua
Só porque vão a passar
Transformam toda a verdade
De quem espera num lugar
A grande revelação
Das dúvidas que elabora
No lado mais escondido
Que é o lado de fora
Vem a chuva vem o vento
Caem lágrimas em pingos
Esquecem os dias escuros
E só pensam nos domingos
Ficam as lojas vazias
Enche-se a rua de gente
É o Mundo que se altera
E passa a ser diferente
Passam mulheres só sombra
Logo atrás surgem meninas
No rio sem afluentes
Há barragens pequeninas
Por onde a água se fixa
À espera da combustão
Do peso forte da voz
Com o peso leve da mão
Num encontro imaginado
A viagem ao contrário
Entre o mais pequeno beco
E o Largo de Seminário

José do Carmo Francisco

Canção para Maria José

Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares
Ficar num tempo parado
Sem horários ou rotinas
O que eu sinto a teu lado
Nas tuas mãos pequeninas
Onde a ternura desagua
Como se fosse o estuário
Da paixão que anda na rua
No tempo sem calendário
Onde o calor e a gordura
Faz passar tão depressa
Quem esqueceu a procura
E não levanta a cabeça
Estamos em sessenta e seis
Na Rua Morais Soares
A memória não tem leis
Nem tem mapa de lugares
De repente é o passado
Que nos convida à viagem
Um eléctrico de atrelado
Vem irromper na paisagem
Lá estão homens, mulheres
Guarda-freios, cobradores
Se vais à Patrício Prazeres
Eu vou para onde tu fores
Nas escadas da estação
Saída da Morais Soares
Este calor da tua mão
Faz um apelo a ficares

José do Carmo Francisco

«Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Este livro de crónicas descreve uma viagem no tempo português dos anos 50 e 60 em duas cidades: Horta e Lisboa. Na Horta os filmes vistos no Salão do Sporting Clube da Horta vinham revelar um mundo «vasto e variado onde havia muito mais na vida que frequentar as aulas, regressar a casa no cortejo dos alunos do Liceu, vestir o fato aos domingos, pentear o cabelo, escovar os sapatos, espera as meninas depois da missa.» Já em Lisboa o autor vem encontrar cafés não iguais ao Internacional ou ao Volga mas onde era ainda possível «trocar ideias, impressões, experiências, contar anedotas, comentar estreias, novas publicações, jornais, discutir, conspirar, escrever poemas e manifestos».

Mas escrever sobre a «maior cidade pequena do Mundo», como lhe chamou Pedro da Silveira, é também lembrar os mestres e maquinistas dos barcos do Canal que arriscaram as suas vidas para salvar outras vidas, doentes em perigo, mulheres em trabalho de parto: Mestre Guilherme, mestre Alfredo Saca, mestre Augusto Pau de Lérias, mestre Simão.

Há aqui memórias de livros e autores, etapas de uma outra viagem de Mário Fraião: Jorge de Sena, Fernando Arrabal, Gonzalo Torrente Ballester, Teixeira de Sousa, Francisco Coloane, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Carlos Faria, José Martins Garcia, Rui Duarte Rodrigues, Almeida Garrett, Pedro da Silveira. Mas sempre, acima de tudo e para além de tudo, o fascínio das viagens: «Pedaços de nós mesmos que sugerem o dia de São Vapor nas ilhas pequenas, as partidas na doca da Horta, as despedidas, mulheres a chorar, um caixeiro-viajante a contar anedotas, os bagageiros transportando as malas e os sacos de viagem pelas escadas íngremes e muito estreitas, os diversos sinais de aviso aos passageiros, a espumas das hélices. O apito final. Largaram-se os cabos, «adeus, adeus», soltam-se os lenços, chapéus e cachecóis. Alguns vão a Lisboa tratar de assuntos particulares. Outros, talvez, não voltam nunca mais.»

Um livro para ler e devorar, tal a paixão quer percorre as suas páginas.

Fotos: Júlio Vitorino da Silveira
Edição: Albagrafe Lda.

José do Carmo Francisco

Poema das sete viúvas de Moura

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Na rua das sete viúvas
Travessa do Fala Só
À noite tiram as luvas
E vão jogar dominó
Depois de lavar a loiça
Fica um pano a tapar
Um barulho que se oiça
O encontro é o lugar
Das sete viúvas na rua
Sete viúvas no espaço
A luz é dada pela Lua
O encontro é o abraço
Na rua de sombras tortas
À noite pára o trabalho
Depois fecham as portas
E dividem um baralho
São sete falta um parceiro
Para formar duas mesas
Ninguém joga a dinheiro
Nem espera por surpresas
Na rua de sombras tortas
Por causa da geometria
As memórias quase mortas
Procuram a luz do dia
Rua das sete mulheres
Onde me deixo ficar
Num arquivo de saberes
Na vertical do lugar
Rua dos sete sentidos
Em busca da direcção
Tantos amores perdidos
No espaço do coração
Rua das sete virtudes
Dentro de cada casa
Água fria em almudes
Calor de fogo na brasa
Rua das sete canções
Cantadas muito baixinho
Por quem faz dos serões
Maneira de ser vizinho
Rua das sete senhoras
Nesta rua de um só lado
O relógio não tem horas
Todo o tempo é passado
Rua dos sete caminhos
Onde nasce uma moral
Todos dormimos sozinhos
Mesmo em cama de casal

José do Carmo Francisco

Moda campaniça

Nas terras do Alentejo
É tudo tão asseado
As casa e os corações
Sempre tudo anda lavado

Popular – Baixo Alentejo

Nesta tarde de nevoeiro
Onde o olhar se espreguiça
Vem do lado do Barreiro
O som de uma campaniça
Vem do lado do Barreiro
Passa por cima do Tejo
Mas o som chega inteiro
Como no Baixo Alentejo
Oiço o coro já se arrasta
No fundo da minha rua
Mas o coro não me basta
Quero ouvir a voz que é tua
Eu faço de cada poema
As cordas de uma viola
E escondo-me no cinema
Sempre que falto à escola
Julgo ver o teu olhar
Na linha do horizonte
Silhueta a atravessar
A estrada para o monte
São casa, são corações
Onde quero ser habitante
Procuro nestas canções
Chegar ainda mais adiante
Quero ouvir-te em directo
Sem recurso ao diferido
Quero um poema concreto
O título está estabelecido
O título está no teu nome
Os versos são os teus dedos
Os meus olhos têm fome
Do doce dos teus segredos

José do Carmo Francisco

Os olhos de Rosário

É nos olhos de Rosário que se principia
Todo o ritmo dos momentos desta casa
Há neles o verde do pinhal, a ventania
E a chama da lareira, sempre em brasa

Nunca desiste do seu olhar, preocupada
Para que tudo seja para todos harmonia
Acorda sempre com a luz da madrugada
E só descansa quando chega o fim do dia

E mesmo a voz é no olhar que se desenha
E até as mãos partem do olhar à procura
Trazendo nas palavras um calor de lenha
E nos seus gestos um bálsamo de ternura

São faróis que durante uma tempestade
Ajudam os outros a encontrar a bonança
Os olhos de Rosário são a luz e a verdade
Que nasce todos os dias – e não se cansa

José do Carmo Francisco

Laurent Filipe

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Tal como este som que me chega devagar
De uma fonte que o ouvido não determina
Mas capaz de alterar o espírito deste lugar

O som da trompete leva-me numa viagem
E estou de novo no coreto de uma aldeia
Numa festa de Verão mas uma paisagem
Tão diferente desta outra, mais fria e feia

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Com as sílabas dispostas numas camadas
Numa vagarosa construção que dissemina
Uma luz capaz de abrir as salas fechadas

Não me vou cansar de ouvir estas canções
Onde a música é um calor de fogo e brasa
O fraseado acumula os motivos e as razões
Uma trompete veio modificar a luz da casa

Se pudesse escrevia os poemas em surdina
Foi comprada no Custódio Cardoso Pereira
A música continua quando o resto é a ruína
Aquece a minha vida no Inverno sem lareira

José do Carmo Francisco

Tratam-se todos por você…

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Em 1908, Raul Brandão escreveu um capítulo muito curioso das suas Memórias (publicadas em 1919) que terá algum interesse recordar aqui. Quando nos queixamos de que a malta nova hoje não se preocupa em falar ou escrever utilizando o português escorreito e limpo, faz sorrir esta nota sobre aquilo que alguém definiu ao tempo como gente «smart». Vejamos.

«Distingue-se das outras por várias coisas; por exemplo: desprezo absoluto pela prudente instituição do chaperon (esses entretêm-se com o bluff) – desprezo absoluto pelas boas maneiras, pela cortesia corrente (só se cumprimentam as pessoas que passam de perto e essas mesmas com marcada indiferença) – ignorância completas das regras da gramática (isso seria falar difícil) e da ortografia. Cultivam só o corpo diplomático e a religião; vestem bem, jogam muito, dançam muito e bem e flirtam na perfeição. Votaram ao ostracismo algumas palavras que nós dizemos e que são possidónias como: chávena, trem, farmácia, Carnaval, etc. Tratam-se todos por você, alguns têm muita piada e usam todos um ar muito chateado. É da praxe, o calão.»

E para completar, aquilo a que hoje chamamos comunicação social:

«Esta sociedade que anda todos os dias nos jornais, vem do alto até baixo, da aristocracia ao povo, forma uma lista infindável, tem um cronista célebre, o senhor Luiz Trigueiros e pode ser vista às tardes no Dia e de manhã no Diário Nacional…»

José do Carmo Francisco

Dança comigo

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sobre um óleo de António Carmo

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos, e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei, mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar, mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

José do Carmo Francisco

Um simples apito salvou a vida do Acácio Paulino

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A vida é a arte do encontro – já dizia o Vinícius de Moraes, o branco mais negro do Brasil. Outro dia encontrei por acaso o Acácio Paulino que já não via há uns anos. Fomos colegas no BPA e já desse tempo eu sabia da sua paixão pelo mergulho. Mas não sabia que ele tinha estado, em Dezembro passado, mais de oito horas arrastado pelo mar no pequeno conjunto de ilhotas dos Farilhões, ali perto de Peniche. Mergulhando no Rabo de Asno, foi levado pelas correntes na direcção oposta a Peniche e lá conseguiu voltar para trás até ao Farilhão do Nordeste.

Entretanto a mulher insistia, mas as autoridades do Maritime Rescue Coordinatiom Centre diziam que a utilização do helicóptero está «sob consideração». Quando souberam que ele estava vivo e que tinha sido localizado por uns biólogos que ouviram o seu apito, ficaram surpreendidos. Julgavam-no morto, como mortos ficaram, dias mais tarde, os tripulantes do «Luz do Sameiro» perto da Nazaré. Depois de saberem do alerta dos biólogos, lá mandaram um barco dos Socorros a Náufragos, mas sem cobertores nem oxigénio. Enfim.

Dias depois li que uma senhora, lá para cima para Lamego, comunicou que estava perdida e tinha tido um acidente, e levantou logo um helicóptero a procurá-la. Depois soube-se que estava em casa de uma amiga sem qualquer beliscadura. Para essa senhora, praticante do desporto líquido, não houve hesitações. Para o Acácio Paulino ainda estavam a ponderar, ainda estava sob consideração… Um simples apito que lhe custou apenas cinco dólares nos EUA salvou-lhe a vida. Esta vida. Que não tem outra.

Este nosso pequeno país tem mesmo duas velocidades. É conforme…

José do Carmo Francisco

Um inesperado poema de António Lopes Ribeiro

A livraria-alfarrabista «1870» (ali à Praça das Flores) proporcionou-me o encontro com um livro no mínimo curioso: trata-se da reunião em volume das crónicas que António Lopes Ribeiro publicou a partir de Abril de 1963 no jornal O Primeiro de Janeiro do Porto.

Para quem tenha a memória apenas do apresentador do «Museu de Cinema» ao lado do inefável António Melo e do seu sumido «boa nôte», não deixa de ser uma surpresa este poema sobre um menor atropelado no seguimento de opiniões sobre a nossa civilização perfeitamente actuais, passados 44 anos: «No Domingo de Páscoa registou-se maior número de mortos e feridos nas estradas de França do que nas cidades violentadas a ferro e fogo de Argel e de Orão. O automóvel bateu aos pontos o terrorismo. Sem falar nas corridas de morte com automóvel nos países que proíbem as corridas de touros. Um carro marra muito mais do que um Miura ou um Palha mas as sociedades protectoras dos animais não querem saber da sorte do bicho homem.»

Mas vamos ao poema «Menor atropelado»:

Ia a correr atrás de um arco
(Corria como ninguém!)
Na véspera andara de barco
E levara um sopapo da mãe.

Agora, jaz estendido
Naquela curva da estrada
Tens os bracitos ao comprido
E a cabeça esmigalhada.

Que foi? Foi um automóvel
Que passou em correria
Ele é que já não corre; jaz imóvel
(Padre nosso, Ave Maria…)

O condutor deu um grito
Ele – não soltou um ai
(Vai ser o bom e o bonito
Quando disserem ao pai)

Nossa Senhora nos valha!
Pois não tinha anjo da guarda?

Antes fosse de um tiro de espingarda
Mais tarde para ganhar uma medalha.

recolhido por José do Carmo Francisco

Fernando Venâncio no «Retrato de Portugal»

Ainda não foi publicado mas eu tive acesso antecipado ao livro Retrato de Portugal. Com o subtítulo de «Factos e Documentos», editado pelo Círculo de Leitores e coordenado por António Reis, este volume de 350 páginas será editado em português e em inglês, sendo apoiado pelo Instituto Camões e pela Presidência (portuguesa) do Conselho da União Europeia.

Os capítulos são: O Estado, a sociedade, o território, a língua portuguesa, a comunicação social, a sociedade do conhecimento e da informação, o desporto, o ambiente, a economia, a educação, o património cultural, a literatura, a arquitectura, as artes visuais, as artes do espectáculo, o cinema, o design e a moda. Basta uma rápida olhadela pelos nomes dos colaboradores e colaboradoras (uma delas é a inefável Maria de Lurdes Rodrigues) para se perceber que é o olhar totalmente «pê yes» que formula este retrato de Portugal.

Mas a mim em particular interessou-me o capítulo respeitante à Literatura, assinado por Fernando Pinto do Amaral. Lá aparece Fernando Venâncio «encaixotado» entre Catarina Fonseca e Miguel Esteves Cardoso. A primeira tem uma «fértil imaginação romanesca» e o seguindo tem um «humor corrosivo». Quanto a Fernando Venâncio cabe-lhe o espaço catalogador de «inspiração subtilmente queirosiana». Motivo de orgulho para o «aspirinab» penso eu. Por isso aqui divulgo esta notícia. Porque as notícias não devem ficar fechadas nas gavetas das secretárias. E se os blogs são os descendentes das tertúlias aqui fica matéria para animada conversa de tertúlia.

José do Carmo Francisco

Paulo Bragança

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Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é (ela mesma) a nossa origem
Há um país, uma nação dentro do peito
Estar a ouvir é estar à beira da vertigem

Há uma luz que se prolonga na extensão
Há uma viagem a fazer dentro da voz
Ouvir-te é ser o destino de uma oração
A ligar de novo quem se julgava a sós

Chamar-lhe pura é pecar mas por defeito
A tua voz é a que sabe juntar água e terra
Cantas e és o rio que fugiu já do seu leito
À procura de novos campos para a guerra

Quando tu cantas não há águas paradas
Na terra fértil da humidade, teu terreno
E há uma guerra, batalhas, emboscadas
Lá onde chega a tua voz e o teu veneno

José do Carmo Francisco