Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Retrato breve de Paula F.

Os teus olhos são palco da fantasia
A fronte dá uma ideia de planície
Ouvidos são o registo da harmonia
Entre a profundidade e a superfície

Os lábios trazem ondas de humidade
Da água mais antiga mais essencial
As palavras que procuram a verdade
Fazem o teu mais importante capital

A tua voz é na verdade uma bandeira
Representa o teu país, o teu território
Ele não se fecha no muro de fronteira
Nem se esconde no lugar do escritório

Maior do que o cartaz de um cinema
Teu rosto acabou a diluir-se na cidade
Não cabe mais nas linhas dum poema
Passou já a ser luz, memória, saudade

Meditação para um quadro oferecido por Jorge Bretão

Trouxeste num quadro a luz da tua cidade
Eu só tenho para te dar o escuro de Lisboa
Nos dias em que anoitece sobre a verdade
E a raiva é uma nuvem que nos sobrevoa

Numa cidade cheia de prisões e hospitais
De eléctricos vagarosos com os atrelados
A vida era diferente dos bilhetes-postais
Era mais cinzenta e nós muito cansados

Anos depois veio um projecto de alegria
Na manhã de Abril hoje perdidas ilusões
Uma excelente promessa de democracia
E ficou reduzida a um ritual de eleições

Salva-nos o tempo; permanece o mistério
No usufruto duma manhã plena de festa
Os músicos que tocam frente ao Império
São toda a felicidade que nos resta

Ficheiro

Criei o ficheiro para as tuas mensagens
Que envias com a força das montanhas
Vens do lugar entre dois rios selvagens
Entre vinho, azeite, o pão e as castanhas

Quando abro o ecran é logo o primeiro
São quinze as tuas mensagens repetidas
Muito mais do que o espaço do ficheiro
Conta mais o seu lugar nas nossas vidas

Das palavras que nós trocamos à procura
De ir salvar um dia todo nuns momentos
Em que transmitimos gestos de ternura
No meio desta confusão de sentimentos

Quando oiço o teu sinal no verde ecran
Esteja onde estiver fico mesmo ligado
À tua voz doce onde é sempre manhã
E que eu levo comigo para todo o lado

«Poesia em verso»

de Rui Caeiro, Afonso Cautela e Vítor Silva Tavares

Três poetas juntam poemas em livro, com a qualificada ilustração de Luís Miguel Gaspar. É um encontro ao arrepio da literatura triunfante que vende livros em barda e aparece na TV.

Rui Caeiro lê a sua relação com a cidade em «Travessa dos Remolares». Depois de enumerar a paisagem e o povoamento, conclui: «No parco mostruário da Travessa esqueci-me de alguma coisa? / Sim e por sinal do mais importante: a montra com frangos torturados no espeto, / possível antevisão do inferno (como se a própria rua já não bastasse) / ou então resquício dos tempos da Santa Inquisição». A sua ligação ao Mundo revela-se em «Uma certa vontade de chorar»: «Porque não vais ao médico? Tornam, pressurosos, os mais chegados /logo passando a sugerir conhecidos e sonantes nomes de médicos, psicólogos, psicanalistas, tarólogos, há-os que fazem milagres. /Procuro convencê-los de que essa vontade de chorar é qualquer coisa de bom na minha vida.»

Afonso Cautela usa o humor como aproximação ao Mundo no excerto dum poema: «Se é português já se sabe que foi / sempre a queixar-se da perna que lhe dói / Deste chamado rectângulo desta chamada pátria / deste chamado país deste chamado Portugal / Que ficou como novo depois de ser pintado / e ficou à espera de um voto para deputado».

Vítor Silva Tavares usa a ironia para falar do Mundo («Frente à sopa do Sidónio/vejo um velho cor de azia/todo feito num harmónio/por misericordia /Então e aquela velha/que me estende a garra esguia?/Basta: não há telha / para tanta democracia») e conclui com graça um retrato das letras lusas: «Eu queria ser peixoto/de aquário/a voltear/no esgoto/literário. Eu queria ser o mia/a miar pretoguês/ao balcão onde avia/um romance por mês./Eu queria ser antónio/e lobo como ele/a espremer do neurónio/um antunes de fel./Eu queria ser eugénio/lorca no porto/a oxigénio/depois de morto.» 
     

Desenhos de Luís Miguel Gaspar

Editora: Livraria Letra Livre

«Sortilégios da Terra», de Zetho Cunha Gonçalves

O projecto deste livro é um regresso: «Mudar de sol – regressar / à pele interior do ar.» Nascido em Nova Lisboa (1960), é em Lisboa que o poeta recorda os sortilégios da terra: «Tabaibeiro não morre de velhice / nem de sede, doente – fruto esquecido de apanhar logo se transforma em folha – escultura mudável, permanente. / Não tarda – sortilégios da terra: dá fruto.»

A poesia deste livro surge da memória de um tempo passado. Para o fazer viver de novo o poeta canta no presente: «Loengueiro não se planta – nasce: / sortilégio da terra, / no meio do mato, / pelas terras todas / do Huambo – até ao mar.» O poema não só nomeia o espaço e o tempo; inscreve-se como espaço e tempo: «Churiungo / é das palavras mais antigas – a voz, / fruto bilingue / da infância.» O poema tem a forma da cabaça porque a cabaça tem a forma de poema: «Crescem ao rés da terra / sob a manta longa / de frescura e sombra – para lugares de repouso / fermentação da quissângua e da capata – as cabaças. / Crescem ao rés da terra / imputrescíveis, / esculturados poemas – as cabaças.» O poema surge como uma ponte entre as terras do fim da Europa e as terras do fim do Mundo: «No Cutato as montanhas dançam – de gente / e de caminhos do mato / ao meio-dia em ponto. / No Cutato / entre Vila da Ponte / e o Chilandangombe / a caminho de Menongue / ou do Chitembo / abrem-se as portas das terras do fim do Mundo».

Este é um livro de quem conhece bem a terra, seus ritmos («Criança come goiaba – vai no mato: nasce goiabeira. / Quatro luas e uma chuva depois.») e seus desígnios: «a Terra que tudo dá, tudo, tudo devora!»

Editora: Bonecos Rebeldes

Bocage na Calçada do Combro

É nos olhos de Fernanda que tudo principia
Empurram a neblina no combro da calçada
Projectam muita luz na escuridão da livraria
E dão o calor do fogo ao frio da madrugada

Por acaso no trânsito tão hostil desta cidade
Um eléctrico com turistas parou em frente
Uma estrangeira fixou-se com curiosidade
Nas velhas gravuras feitas de cor e de gente

Não havia táxis, ambulâncias ou pizzarias
Só as lareiras para enfrentar os vendavais
As pessoas iam pois aos cafés e livrarias
Á procura da saúde, não iam aos hospitais

A caminho dos Fanqueiros passou Cesário
Sorriu para Bocage ali à porta da livraria
Fruto do momento surgido do imaginário
Fernanda quebrou então a sua monotonia

António Martins, o jornalista que gostava de Vermeer

A morte dum jornalista não é notícia. A menos que tenha ganho um Pulitzer, mas então passou a ser uma personalidade. Há, todavia, excepções. Morreu o António Martins, um homem que, em 79 anos de vida, passou por todas as tecnologias, por todas as redacções, por todas as modalidades.

Trabalhei com ele entre 1996 e 2006 no «Sporting». Mas já o conhecia de «O Século», do «Diário Popular», de «A Bola», do «Record». Tenho uma história passada com ele numa manhã em Barroca de Alva. Eu estava num Sporting-União de Leiria do nacional de juvenis, ele estava num jogo do campeonato distrital. No intervalo fui espreitar um terceiro jogo, o do nacional de iniciados e verifiquei que o jornalista tinha faltado. Liguei-lhe para o telemóvel e não atendeu. Pensei logo no pior, um acidente, um problema de saúde. Não respondia. O Martins, feito o seu trabalho, veio à sala de imprensa para saber o meu resultado. Viu a minha cara, achou muito estranho o que se estava a passar. «Vamos desenrascar isso!» foi a sua resposta. Saiu disparado e foi ao autocarro do Estoril Praia. Minutos depois tinha a ficha do jogo dada pelo delegado dos «canarinhos». Foi comigo à cabina do Sporting e arranjou a ficha do delegado do Sporting. O treinador contou o jogo e nós fizemos a crónica que assinámos em equipa. Os leitores não tinham culpa de que o jornalista tivesse adormecido.

Uma segunda história tem a ver com a entrevista que lhe fiz em 2005, onde revelou o seu gosto pela pintura de Vermeer. Adorava «O soldado e a mulher risonha». Houve quem achasse insólito. Mas também um jornalista desportivo tem o direito de gostar de pintura. E gostar de Vermeer só lhe ficava bem.

Hoje vai ser cremado. Está uma bela manhã de sol. Não é a luz do mestre de Delft, mas é também uma luz feliz, uma luz que aquece o rosto e ajuda a doirar as lágrimas dos amigos.

Olhar o Monte (Viagem)

Vejo o monte quando olho para ti.

Tu não sabes mas o teu olhar é uma porta aberta, um convite, uma sugestão de caminho. Olho-te na cidade e penso logo no campo, penso logo na brancura das casas, no azul das barras, no castanho das telhas.

Cheguei aqui cansado, vinha a transpirar, os pés pesavam toneladas e, morto de sede, só descansei quando me deste um copo de água tirada de uma bilha no louceiro. A única música que aqui chega é a do vento, capaz de secar a roupa estendida e as tuas lágrimas.

Vejo o monte quando olho para ti.

Vejo nos teus passos o prenúncio do movimento. És tu que seguras o alguidar da roupa que vais estender entre a última casa e a primeira árvore. Tal como foste tu a sacudir o sono e a trazer à vida do monte a sua velocidade.

Há uma ordem, uma perfeita sintonia de aromas que mistura de modo sábio o odor das flores silvestres aqui à volta e o lento cozinhado por ti decidido no espaço da cozinha onde muitas vezes preparar a refeição é mais do que arte; é uma ciência.

Vejo o monte quando olho para ti.

Habito o espaço sentimental desta imagem por ti povoada. É um dia luminoso, o monte repousa e apenas o esvoaçar da roupa que tu estendeste lembra que vive aqui alguém. As tarefas quotidianas ocupam os seus locatários. Uma humidade difícil de medir percorre e liga a ternura dos teus olhos à respiração da terra.

Vejo o monte quando olho para ti.

A factura

Vejo uma vespa ao olhar a tua cintura
Da grande janela do café, pastelaria
Cansado já de esperar, estou à procura
De ouvir de novo tua voz em harmonia

Com os sons desta cidade debruçada
Sobre o Tejo tão povoado de navios
Com restos da neblina da madrugada
Já infiltrados nas palavras e nos fios

Vejo uma vespa ao olhar a tua cintura
Há uma leveza de ave nos teus passos
Que eu procuro desenhar nesta factura
Entre a luz dos olhos e os teus braços

Testemunho do encontro nesta mesa
A factura permanece na minha mão
Escrevo nela este poema de surpresa
Para provar que a ternura tem razão

Poesia de todo o Mundo na Rua da Rosa

Soube por acaso que abriu uma livraria só de poesia na Rua da Rosa nº 145 em Lisboa. Além de livraria, o espaço também inclui um bar. Lá fui hoje beber uma taça de vinho branco à saúde de livraria e do bar, incluindo nos votos o Miguel Martins, poeta e contista, recém-chegado de Cabo Verde, autor dum livro com o curioso título de «Cirrose».

Para vos dar uma ideia da variedade dos livros desta jovem livraria, aí vão alguns nomes: José Blanc de Portugal, António José Forte, Carlos Queirós, Emanuel Félix, Jorge de Sena, António Ramos Rosa, Alexandre O’Neill, David Mourão Ferreira, Francisco Bugalho, Bocage, Al Berto e Carlos de Oliveira. Dos estrangeiros, Drummond de Andrade, Adélia Prado, Agostinho Neto e Ho Chi Minh com os seus célebres poemas de prisão. E muitas antologias: poesia argentina, poesia soviética, poesia brasileira, um nunca mais acabar. O horário é das 15 às 23 horas de segunda a sábado.

Um aspecto curioso é que eles procuram ter não só as novidades mas também clássicos, como (por exemplo) a colecção «Poetas de Hoje» da Portugália e o «Círculo de Poesia» da Moraes. Pessoalmente foi emocionante descobrir um livro meu de 1982 ainda à procura de leitor ao lado de um livro da minha filha, que desapareceu horas depois.

Não queria deixar de vos dar conta desta descoberta. Sei que nunca foi tão fácil publicar livros, mas também nunca foi tão difícil colocá-los no leitor. Comprar muitos livros não quer dizer ler muito. Mas é bonito ver esta teimosia. Agora que os dias do frio estão a chegar, nada como um livro de poemas para se conjugar com uma bebida destilada ou fermentada capaz de aquecer o coração. A poesia também é uma educação sentimental.

Assistir a um jogo de futebol é perder a alma

Escrevo sobre livros desde 1978 (iniciei-me no Diário Popular) e continuo a considerar que ler um livro por semana faz bem à saúde. Se for para manter uma coluna num jornal, então ainda melhor. Ganha-se pouco, mas é muito divertido.

Esta semana calhou-me A misteriosa chama da Rainha Loana de Umberto Eco. Na página 362, o autor conta que um dia o pai o levou a ver um jogo de futebol e tudo aquilo lhe pareceu sem sentido. Logo, se o mundo não tem sentido, é porque Deus não existe. Foi falar com o Padre que lhe respondeu: «Meu filho, acreditaram em Deus grandes escritores como Dante, Manzoni e Salvaneschi e tu queres ficar atrás deles?»

Lembrei-me desta história quando li, no Record do dia 10, a atribuição de uma medalha de lata a Laurentino Dias porque o secretário de estado do Desporto insinuou que são os árbitros quem decide os campeonatos de futebol em Portugal. Por sua vez, o presidente de Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol terá desvalorizado a frase do membro do Governo, mas não deixou de dizer que este seu dito não ajudou em nada a imagem da arbitragem.

Ora, nas primeiras nove jornadas, a equipa do Porto beneficiou de cinco golos irregulares. Na segunda jornada (Sporting), na terceira (Leiria) na quinta (Paços de Ferreira), na oitava (Leixões) e na nona (Belenenses) os azuis e brancos tiveram cinco golos ilegais. Não é de estranhar que o secretário de estado tenha dito o que disse.

Eu deixei de comprar jornais e vou lê-los ao barbeiro. A vida está difícil e há cada vez mais gente a fazer o mesmo. A alma do futebol já se foi; o que fica é o clubismo. O emblema na lapela, o cartão no bolso e o cachecol na mão são as últimas memórias da alma do futebol. Memórias apenas. Porque a alma já não existe.

Raul Brandão – do «Mercure de France» ao Círculo Eça de Queirós

É uma das novidades da «saison» este «Portugal no Mercure de France – aspectos literários, artísticos, sociais, de fins do séc. XIX a meados do séc. XX». A tradução e a coordenação cabem a Madalena Cruz e Liberto Cruz e a edição é da Roma Editora. Este livro é um monumento de 707 páginas com a reunião das crónicas escritas ao longo de 50 anos por Philéas Lebesgue sobre os livros de escritores portugueses que lhe iam chegando à sua casa de La Neuville–Vault e que entre 1896 e 1951 recenseou na revista Mercure de France. Raul Brandão é um dos mais assíduos frequentadores das páginas do periódico. Desde 1896 até à sua morte inesperada no dia 5 de Dezembro de 1930.

Horas depois do lançamento deste livro, estou no Círculo Eça de Queirós ali ao Chiado e assisto à apresentação de um livro de entrevistas de António Ferro a Salazar. Não vejo Rita Ferro, velha conhecida minha da revista Ler, mas Mafalda e António oferecem-me uma verdadeira preciosidade. Trata-se do fac-símile do protesto dos homens de letras, jornalistas e artistas portugueses em 17 de Julho de 1923 contra a Censura policial à peça teatral «Mar Alto» de António Ferro.

Numa lista de escritores, jornalistas e artistas plásticos que inclui António Sérgio, Fernando Pessoa, Norberto de Araújo, Aquilino Ribeiro, Alfredo Cortez, Luís de Montalvor, Artur Portela, Eduardo Malta, Augusto Santa Rita e Mário Saa, a presença do nosso querido major em primeiro lugar num protesto contra a «precipitada e injustificável proibição de um drama por uma autoridade policial» é hoje, em 2007, um sinal.

Mudam os tempos, mudam as vontades, mas não mudam as coisas essenciais da vida.

Camilo nas Escadinhas do Duque

Quando há editoras a serem compradas em lotes, trata-se aqui de ler a certidão de nascimento de uma nova editora: Bonecos Rebeldes veio ao mundo num dos lugares mais bonitos de Lisboa – as Escadinhas do Duque. Mais em concreto no nº 19 A.

O regicídio e João Franco de Rocha Martins foram a aposta na área da História. Depois surgiram três livros de poesia: O livro da pobreza e da morte de Rainer Maria Rilke, A árvore seca de Alexei Bueno e Sortilégios da terra de Zetho Cunha Gonçalves. No campo da prosa temos Daniel Defoe com Diário da peste de Londres, e de novo Rilke com O pintor de nuvens e outros contos. Estão disponíveis no catálogo desta editora três livros para jovens leitores: A caçada real de Zetho Cunha Gonçalves e A dama de ouros e O paraíso dos cães com os heróis Bob e Bobette. Sem esquecer O Príncipe Valente e o Tarzan de Russ Manning numa edição que utiliza as matrizes originais, é impressa em papel couché e tem esmerados textos informativos.

Por fim chamo a atenção para a edição de Os Narcóticos de Camilo Castelo Branco, um escritor que é de todos os tempos. Vejamos apenas algumas linhas sobre a perseguição aos judeus no tempo de D. João III: «A Inquisição foi uma fatalidade necessária então. Talvez que a perseguição actual aos judeus da Alemanha não tenha outra explicação e, por isso, ao senhor Fernando Palha e a nós se nos afigura monstruosa. Aproximemos D. João III de 1536 do imperador Guilherme de 1882 e vermos à distância de trezentos anos os mesmos quadros revoltante e uma bandeira religiosa hipocritamente desfraldada e espadanada de sangue.»

O Aspirina B é um dos padrinhos desta nova editora. Aqui foram divulgados alguns dos seus projectos. Hoje a editora é uma realidade.

Retrato breve de Filipa em Vila Franca

Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Continuar a lerRetrato breve de Filipa em Vila Franca

Pára-quedistas, matulões e matulonas em Vila Franca

A inauguração do Museu do Neo-realismo em Vila Franca de Xira teve a precedê-lo um conjunto de «eventos» mais ou menos pós-modernos que pelo seu teor insólito me surpreenderam. Não estava nada à espera de ouvir os nomes dos escritores e artistas plásticos do movimento neo-realista gritados por umas meninas que, num primeiro andar, assim distraíam as pessoas que aguentavam ao sol a possibilidade de entrarem no Museu.
Tudo bem: na EXPO 98 era assim para entreter o pagode com palmas enquanto os eventos não começavam. Atiraram bonecos de plástico com pára-quedas e a seguir desceram dois homens em cordas na frontaria do edifício. Depois não percebi a guarda de honra feita por dois jovens atletas de esgrima que devem ter sofrido muito debaixo daqueles quentes fatos. Ao meu lado desmaiou uma menina que estava fardada tipo Hospedeira de Portugal a dar as boas vindas aos convidados. Com boa vontade lá apareceu um copo de água e um pacote de arroz. Pobre pequena que não vai ter saudades de tamanha multidão.
Lá dentro foi o ainda mais inesperado. Dois matulões faziam pesos e halteres ao lado dos quadros famosos do movimento neo-realista. Ao mesmo tempo diversas matulonas passeavam os seus fatos de lycra e as suas botas pretas numa espécie de tentativa de produzir torcicolos aos convidados. Uma delas usava um minúsculo chapéu-de-chuva. Lembrei-me logo de Catherine Deneuve e de Françoise Dorelac dançando em «Os chapéus-de-chuva de Cherburg».
Não percebi nada, mas deve ser da idade. Não vou ter tempo de perceber. Já tenho 56 anos, por isso estou na segunda parte da vida. E sei que não vai haver prolongamento.

Os archotes apagados na livraria de Fernanda

Tudo pode ser simbólico. Depende do nosso olhar. Com uma vida inteira passada entre livros, Fernanda resolveu abrir uma livraria na Calçada do Combro, perto de outros alfarrabistas com nome na praça. Mas que praça? Uma praça que permite um apuro de 3 euros ao fim de um dia de trabalho. Três euros não pagam a água nem a luz, muito menos o trabalho de quem atravessou os arredores da grande cidade num comboio matinal e sonolento. E completou a viagem até à Baixa Chiado num Metro a abarrotar de gente. Mudou o sentido da vida das pessoas.Há quarenta anos era vulgar as pessoas do meu círculo de amizades uma certa tristeza perante um livro importante que ainda não tínhamos lido, um compositor cuja música ainda não tínhamos descoberto, um filme que não tínhamos ido ver ou uma peça de teatro da qual só tínhamos ouvido falar. Um velho alfarrabista sintetizou a ideia numa entrevista ao «Correio da Manhã» no Verão do ano passado: «antigamente as pessoas tinham orgulho dos livros raros e antigos que tinham em casa; hoje procuram ter uma casa de férias no Algarve e se possível uma outra casa de férias no Brasil.»  O ter ganhou a corrida ao ser – parece fora de dúvida esta certeza enunciada assim de chofre. Quando fundou a livraria, Fernanda teve a ideia de colocar dois archotes à porta. Ela sabe, a sua intuição diz-lhe, que o fogo é a palavra. Os archotes apagados na porta da livraria são um sinal dos tempos. Ter a porta aberta durante um dia para apurar três euros é também um sinal dos tempos. Tempos difíceis para a palavra, para a escrita, para a alegria. Tudo submerso no ruído da cidade. Um ruído que tudo envolve e tudo ajuda a ficar esquecido na monotonia dos dias sucessivos e cinzentos.

O falso Sporting-Benfica de 1907

No passado dia 29 de Setembro, o jornal A Bola publicava uma foto supostamente «histórica»: os presidentes do Sporting e do Benfica em alegre confraternização num campo pelado de Carcavelos, celebrando o centenário do primeiro derby entre «leões» e «águias».

Ora, a verdade é que o Sport Lisboa e Benfica só foi fundado em Setembro de 1908 e não poderia ter disputado nenhum derby em 1907. Consultando os jornais da época vê-se, na página 2 do Diário de Notícias de 2-12-1907, na rubrica «Vida Sportiva», uma notícia sobre o jogo entre o Sporting Clube de Portugal e o Sport Lisboa, cujo resultado foi de dois «goals» contra um. O jornal O Século dá uma notícia mais desenvolvida, sendo os elementos os mesmos.

Mas o livro Repórteres e reportagens de primeira página, de Jacinto Baptista e António Valdemar, na sua página 41 e sob o título «O primeiro Sporting-Benfica em 1907», vai mais longe. Ao citar as duas notícias do dia 2-12-1907, os seus autores tentam (num certo sentido) emendar a história: acrescentam um parêntesis recto e as palavras «e Benfica». Fazem essa operação duas vezes como quem repreende os zelosos jornalistas de 1907.

Simplesmente, os jornalistas de então limitaram-se a escrever a verdade: em 1907 não havia o Sport Lisboa e Benfica, que só foi fundado em Setembro de 1908. Logo não houve nenhum derby em 1907.

Os basbaques de 2007 (a começar pelos presidentes dos clubes) lá engoliram mais esta patranha do jornal A Bola.

José do Carmo Francisco

Um inesperado poema de Óscar Lopes

Em 1984, a Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto editou o livro A Ilha dos Amores. Foi aí que descobri o único poema que conheço de Óscar Lopes. Chama-se «Segunda pessoa» e aqui fica para os leitores do Aspirina.

Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-te na boca.
norte magnético num desespero em surdina.

És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.

Óscar Lopes
(recolhido por José do Carmo Francisco)

Pequeno romance de António e Luísa

Bom dia em Portimão
Boa noite em Alcoutim
A força de uma paixão
Que parece não ter fim

Bodas de prata, cruzeiro
Entre Mar e Guadiana
Amor fica em primeiro
Sete dias por semana

O que António precisa
Para sorrir de alegria
Está na voz de Luísa
Onde a paixão principia

Quando foram à procura
Sementeira de esperança
E a vida foi muito dura
Lá por terras de França

O tempo passa e corre
Em todos os dias da vida
Mas nos filhos não morre
Esta paixão perseguida

Numa filha que continua
No ofício e na profissão
A vida que sendo sua
É um fruto desta paixão

No filho que joga e estuda
Quatro linhas dum relvado
E todos os dias se muda
A expressão do resultado

Com António, com Luísa
Mãos dadas passo a passo
Esta paixão é uma divisa
No tempo e no seu espaço

José do Carmo Francisco

Dois selvagens ao piano ou a guerra das flores

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A revista Lux do passado dia 4 de Junho trazia esta bacorada atribuída em discurso directo a um tal José Piano que com um seu irmão (também Piano) mantém uma loja de flores na Avenida da República: «Não é preciso comprar numa florista a cheirar a flores para mortos, pode fazê-lo numa florista com bom ar e sem ter de gastar muito dinheiro com isso.»

Trata-se de um gesto miserável que repete um outro no passado mês de Março na revista «N.S.» do Diário de Notícias, quando uns pobres de espírito que são donos de umas lojas de flores aqui no Bairro Alto chamaram às outras floristas da nossa zona «floristas de esquina». A jornalista Vera Moura assinalou-me a repulsa que lhe causou ter que escrever (transcrevendo) essas ridículas palavras, mas obviamente teve que as reproduzir tal como foram afirmadas por esses pobres de espírito.

Todos nós sabemos que isto está mal, a luta pela sobrevivência está a atingir proporções terríveis. Mas há um mínimo de dignidade que é preciso manter. Um pobre diabo, só porque tem uma loja de flores, não pode insultar os outros que também possuem lojas de flores. Não tem esse direito. Chamar a alguém «florista de esquina», ou dizer que esse alguém vende «flores para mortos», é uma atitude infame que não tem perdão. Até porque essas pessoas podem não saber francês ou tocar piano, mas são pessoas dignas, simpáticas e competentes no seu trabalho que ajudam a tornar a nossa vida um pouco menos cinzenta.

Apetece-me dizer a esses selvagens ao piano e a esses pobres de espírito uma fala popular que ouvi há pouco tempo aqui na rua: «Gandas malucos, vão vomitar para outro prédio!»

José do Carmo Francisco