Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 320

Brito Camacho ou Memórias felizes na A.P.E. com Óscar Lopes, Fausto e Seizette

Fui feliz a partir do momento em que recebi o prémio de poesia da A.P.E. em 1981: fiquei amigo de Raul Marques (o outro premiado), de Armando Silva Carvalho, Fernando J.B. Martinho e Pedro Támen (júri) e de José Correia Tavares e Urbano Tavares Rodrigues que assinaram a filiação na Casa. Depois David Mourão Ferreira e Orlando da Costa receberam-me como um igual sem cuidarem se eu era «licenciado». Acaba de chegar à minha mão o livro «Quadros Alentejanos» de Brito Camacho e, num relâmpago, recordo os nossos fins de tarde na A.P.E. com Óscar Lopes a falar dos grandes clássicos esquecidos que era urgente reeditar. Eu e Fausto Lopo de Carvalho éramos ouvintes atentos. Bebíamos as palavras do nosso querido professor mas bebíamos às vezes um vinho licoroso de Carcavelos que o Fausto trazia do seu escritório na Rua do Comércio. Atenta e simpática, Seizette, a eterna secretária, adiantava a bolachinha. Eram aulas grátis do professor Óscar Lopes. Este «Quadros Alentejanos» figura ao lado dos grandes livros do Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Sei que a Seizette vais ser homenageada num jantar no Martinho e como não posso estar presente quero ir à A.P.E. levar este livro para nos lembrarmos melhor dos fins de tarde com Óscar Lopes e Fausto Lopo de Carvalho. Há nesta prosa a força da alma das pessoas da infância de Brito Camacho – «Vive-se tanto a recordar!». É bilhete para um certo tempo português em Portugal e em Aljustrel de 1862 a 1943.

Vinte Linhas 319

Recado a António Rebordão Navarro (ainda a tempo)

Soube pela Revista da Sociedade Portuguesa de Autores que o seu próximo livro tem o título de «As ruas presas às rodas» embora apareça por lapso «As luas presas às rodas». Quando fiz parte do júri de um prémio literário não sabia (obviamente) quem era o autor daquele texto e houve um lapso por parte da secretária do vereador da cultura que na listagem escreveu o nome do seu original como «As ruas presas às rosas» e deu-lhe o número «28» quando na verdade era o original nº 38. Como vê o nome do livro está e continua embruxado.

Todos nós gostamos de ter razão e somos felizes naqueles breves instantes em que temos razão no momento próprio. Ter razão fora do tempo já não é a mesma coisa. O seu livro agradou-me de tal modo que escrevi nas notas «Bom +++» mas na vida, tal como no futebol, há três resultados possíveis: vitória, derrota ou empate. Eu perdi, fui derrotado, porque o seu livro não ganhou mas agora que a publicação está anunciada, meu caro António Rebordão Navarro, permito-me enviar-lhe um recado: não se esqueça que há uma troca de linhas entre as páginas 127 e 129 do original. Uma pessoa com jeito para mexer em informática facilmente «recorta e cola» essa meia dúzia de linhas passando-as da 127 para a 129 com uma perna às costas. Não recorra a um «sem-abrigo informático» (assim como eu) que só piora as coisas.

Como vê continuo a ter uma memória razoável. Não é para todos ter estas referências tanto tempo passado sobre o concurso literário. O seu livro merece ser feliz mas não se esqueça da troca de palavras entre as páginas 127 e 129. Isso é «fundamental».

Um livro por semana 107

Os «Narcóticos – volume 2» de Camilo Castelo Branco

O espírito e o humor de Camilo iluminam estas páginas: «O leitor não se assuste. Pelo facto de chamar-se Narcóticos o meu livro, abstenha-se V. Exa. da pretensão egoísta de abrir a boca logo que abrir o livro e estirar-se de papo acima numa regalada modorra cheia de roncos assobiados em cromática infernal pelas trompas nasais. Não pretendo ser mais opiado e calmante que outro qualquer livro nacional. Estimo que adormeçam mas devagar, com os espreguiçamentos usuais nas duas Câmaras e etiquetados com frascos na grande farmácia do Diário das Cortes».

Camilo comenta o problema dos direitos de autor, discorda de Alexandre Herculano e afirma: «A literatura-mercadoria, a literatura-agiotagem tem na verdade progredido espantosamente». Mais à frente, sobre a poesia, proclama: «A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade». As eleições de 1879 originam esta observação: «O Governo progressista de 1879 fez retroceder a liberdade do sufrágio a 1845, com a diferença que antepôs à violência da paulada o suborno das consciências com mais suaves pressões, exceptuando os dorsos que as sentiram duras». A suspensão do «Boletim da Bibliografia Portuguesa», dirigida por Fernandes Tomás, merece a Camilo este reparo: «A suspensão deste periódico é um dos sintomas da podridão que nos vai relaxando e acanalhando a um raso de desprezo das letras que não tem semelhante em parte do Mundo, onde, alguma hora, houvesse livros e civilização».

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Um livro por semana 106

«Efeito borboleta e outras histórias» de José Mário Silva

Este é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta: «se uma borboleta bater as asas, algures na Amazónia, pode provocar um tornado no Texas». Aqui se percebe que o amor é difícil: «Meu amor, Esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Os meus netos venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão, talvez com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.» Aqui se percebe que a morte é inevitável: «São sete da tarde. Alberto está na sua área, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar. Depois de pedir ajuda a uma velhinha num 2CV preto vem a resposta com três notas de 50 euros – Meu filho, toma lá isto mas olha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste? – mas olhando melhor Alberto descobre uma gadanha no banco traseiro do 2CV. Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva: «Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance aos 31 anos em 2014, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, um choque eléctrico fulminante. Ninguém esperava aquilo. Depois deu-se o previsível colapso. Cenas lamentáveis num talk show. O internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto sem nada. A pose do eremita.» Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão: «Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.»

(Editora: Oficina do Livro, Capa: Neusa Dias, Revisão: Manuel Dias)

Vinte Linhas 318

Ler e publicar na era da abundância

Gabriel Zaid escreveu em 1995 o livro «Los demasiados libros» que em português deu «Livros de mais» na tradução de Miguel Graça Moura e na edição da «Temas e Debates». O ponto de partida deste livro é o passado («Graças aos livros sabemos que Sócrates desconfiava dos livros») para chegar ao presente: «Se a nossa paixão pela escrita não for controlada, num futuro próximo haverá mais gente a escrever livros do que a lê-los».

Um dos problemas é a rapidez de fabrico: «Os livros publicam-se a tal velocidade que nos tornam cada dia mais incultos. Se uma pessoa lesse um livro por dia estaria a deixar de ler outros quatro mil publicados no mesmo dia».

Surge a inevitável pergunta – «Ler para quê? E escrever para quê? – e a resposta do autor: «a medida da leitura não deve ser o número de livros lidos mas o estado em que eles nos deixaram». Isto porque há livros que não são para ler: «dicionários, enciclopédias, atlas, livros de arte, de cozinha, de consulta, bibliográficos, antologias, obras completas». E também há livros bons e maus: já Plínio (o Antigo) fazia um resumo de tudo o que lia porque pensava que não havia livro, por mau que fosse, que não contivesse algo de bom…

Lembra Gabriel Zaid que «depois de Gutenberg já apareceram a grande imprensa, o cinema, a televisão, a informática, os satélites, a Internet. E, de cada vez, profetizou-se o fim do livro; e no entanto, cada vez se publica mais e com maior facilidade». E por fim conclui: «as pessoas verdadeiramente cultas são capazes de ter em casa milhares de livros que não leram, sem perderem a compostura nem deixarem de continuar a comprar mais».

Cruz de tinta

Há uma cruz de tinta no teu dedo

Recado, lembrança, não se esqueça

Na tua mão se concentra um segredo

Que eu tento descobrir na promessa

Todos os dias no lugar do santuário

Onde teus olhos são altar principal

Nos lábios um sermão extraordinário

No teu rosto a grandeza da catedral

Há uma cruz de tinta no teu dedo

Que eu procuro decifrar devagarinho

Na abordagem feita quase a medo

Não vá a tua mão noutro caminho

E se perca no bulício desta cidade

O fascínio dum sinal já decifrado

Nas tuas mãos a tinta é a verdade

O segredo vai contigo a todo o lado

Vinte Linhas 317

«Um professor sem palmatória é um artista sem ferramenta»

Descobri na Livraria Alfarrabista «1870» um livrinho («Notas de um professor liceal») da autoria de João Anglin e publicado no ano de 1955 em Ponta Delgada. O que é espantoso nisto tudo é que na página 62 aparece a mesma data (1870) como referência dum grave incidente em Vila Franca do Campo: uma professora indigna desse nome infligia às suas alunas maus-tratos continuados. O comissário dos estudos Eugénio do Canto dirigiu-se ao administrador do concelho solicitando um inquérito urgente: a filha de João Oliveira Júnior tinha um tumor na sobrancelha e ferimentos nas orelhas, a de Manuel Açafroa estava quase a morrer no hospital porque tinha o osso do peito partido, a de Manuel Furtado tinha um braço deslocado. As filhas de Manuel Cantareira, Manuel de Medeiros, Serafim Tavares Pereira e Maria de Jesus também tinham razão de queixa do monstro. É neste contexto que o autor lembra «A paixão de Jane Eyre» de Charlotte Bronte e os problemas das raparigas no internato de Lowood mas também o conto «Para a Escola» de Trindade Coelho com o título desta crónica. Um episódio menos doloroso tem a ver com o Teófilo Braga que em 1860 motivou um «Conselho Escolar» no liceu de Ponta Delgada devido aos problemas que teve com o professor Coelho de Amarante (uma altercação prolongada que obstou à continuação da aula) mas tudo se resolveu a bem: o pai de Teófilo era professor no Liceu e garantiu que o filho não voltaria à aula do professor queixoso. Este, quatro anos depois, comprou e ofereceu aos melhores alunos do Liceu seis exemplares do livro «Visão dos Tempo» do mesmo Teófilo Braga. Pudessem todas as histórias acabar assim mas a maldade humana é infinita e não permite.

Um livro por semana 105

«A Batalha das Lágrimas» de Joana Ruas

Trata-se de um romance de 749 páginas que conta as histórias da História e cujo pano de fundo é a vida em Timor entre 1870 e 1910, um período que apanha em pleno o Ultimato britânico. Nesse tempo o governador de Timor repetia muitas vezes: «Estou aqui para governar e governar é submeter!».

Um viajante recém-chegado define assim o território: «Timor não tem uma biblioteca, nem um grémio, nem um teatro, nem um bilhar, nem uma orquestra, nem um meio qualquer de distracção do espírito». Resta fazer política: «Fazer política aqui reduz-se a discutir se se é pelo governador ou contar o governador». A diversidade religiosa é complicada: «Há quatro religiões aqui: a animista, a católica, a islâmica e a budista. E há a considerar a pressão do calvinismo a partir do Timor Ocidental».

A autora explica o que entende por povo de Timor: «Esta sociedade incaracterística, sem tradições definidas, invadida e perturbada pela massa de estrangeiros que a explora e abandona, continha muitas raças sem que houvesse um povo».

Poderia chamar-se este livro «O governador e a rainha» mas não. Primeiro esqueceria o papel de João Maurício, o brasileiro que liga habilmente os diversos fios da narrativa. Depois não poderia esquecer que «A batalha das lágrimas» é o nome que ficou para sempre nos relatórios escritos dos militares portugueses e na memória dos habitantes de Timor. Este livro é mais do que um livro; é um acontecimento…

(Editora: Calendário das Letras, Capa: Miguel Madeira)

Um livro por semana 103

«Mata – um falar peculiar e outras curiosidades» de Manuel Barata

Houve tempos em que as localidades portuguesas aspiravam a ter uma Monografia. José Cardoso Pires fez da Monografia da Gafeira personagem do seu romance «O Delfim». Este livro de Manuel Barata, publicado por Edições Alecrim poderia ser a «Monografia da Mata». Existe na Mata (Castelo Branco) um falar peculiar. Esse é o ponto de partida. Na Mata diz-se acajadar por guardar, apalamado por adoentado, arrezoar por murmurar, assedento por mau-olhado, baldão por desleixado, banquinha por mesa-de-cabeceira ou burra por picota. Seguem-se algumas expressões populares (como sardinha no ar em vez de levar um estalo) e as alcunhas, os ofícios e as profissões do campo. Depois surgem os lagares de azeite, as mercearias, as tabernas, os cafés, as forjas, as oficinas., os sapateiros, os alfaiates, os barbeiros, os talhos, as serrações, os moleiros. Noutro capítulo recorda-se a festa do casamento que incluía o cortejo, os rebuçados, o copo de água e a terrina de sopa para as crianças. Segue-se a memória das casas: «uma porta de entrada e um corredor, no início deste uma porta que dava acesso a uma salinha e esta dava comunicação a dois quartos, um destinado ao casal e o outro aos filhos e/ou às filhas.» Também a memória das festas e procissões, danças e cavalhadas. Por fim os jogos e a culinária, o posto da GNR, a prática religiosa e a difícil sociabilidade dos seus habitantes: «A Mata esteve isolada durante séculos. A construção da actual estrada, que liga a povoação à EN 240 ocorreu já nos anos cinquenta. A anterior ligação era de terra batida. A Castelo Branco ia-se ao médico quando a coisa não passava com os remédios caseiros e rezas ou para tratar de assuntos importantes».

(Editora: Alecrim, Patrocínio: Junta de Freguesia da Mata e Intermarché (Os Mosqueteiros), Paginação e Design Gráfico: RIP 2000 Valentim Costa e Lourenço Lda.)

Um livro por semana 104

«CAMPOAMOR – Uma história de encornados, encornadores e pássaros avisadores» de Hugo Santos

O palco da história é Campoamor: «há por aqui casas que, inesperadamente, se desatam dos alicerces e se põem a subir céu acima como se tivessem asas». Uma das personagens é Amílcar Cravo que, segundo as boas e más-línguas da vila, tem um par de cornos que vão do Bairro Operário ao largo do Curral dos Coelhos». Outra personagem é Fernanda Raposo, a catequista que adverte o padre «o senhor prior não pode» mas faz tudo para que ele possa transformar o «não» em «sim». Não é de estranhar que surja no café da vila uma lista de encornados: «Felismina Coxo e Daniel Entrudo, Zulmira Ataíde e Aureliano Chambel, Fátima Grisalho e Leopoldino Pé-de-Ouro, Mónica Soveral e Ismael Martinez, Domitília Fragoso e Armelim Constantino, Fernanda Raposo e o prior da Matriz, Claudina Tremoço e Joaquim Pardalinho, Conceição Tecedeiro e Jacinto Cortesão, Cândida do Ó e Jeremito Água-Nova, Celina Abrantes e Aurélio Alvorão, Salomé Mendes e o filho do Zé António». Sem esquecer Isaura Soveral de Almeida cujo marido «saía para Évora para negócios de gado» e que descobre o amor do jardineiro e da sua criada acabando a senhora com o jardineiro num fardo de palha que havia ao fundo do casão a pedir «faz devagar para que eu sinta tudo».

Depois há os pássaros que chegam aos milhares e todos perguntam: «que faz esta passarada aqui nesta época do ano, vieram eles festejar o quê?» A resposta está na página 153: «tombam gotas de luz dos céus de Campoamor, sagra-se a Primavera no trinado dum rouxinol, reinventa-se um amor urgente». Um amor no qual a única medida é amar sem medida, um amor que muda o nome da vila de Campo Maior para Campoamor.

(Editora: Campo das Letras, Capa: Arnaldo, Nota introdutória: Urbano Tavares Rodrigues)

Um livro por semana 102

«O Século» de Lopes de Mendonça: O primeiro jornal socialista

António Pedro Lopes de Mendonça (1826-1865) figura no nosso século XIX ao lado de Garrett, Castilho e Herculano: historiador, poeta, jornalista, folhetinista, doutrinador, crítico e ensaísta. Mas também fundador e redactor anónimo de «O Século», um jornal de 11 números com 16 páginas cada, que se publicou entre 10 de Abril e 25 de Junho de 1848. Ernesto Rodrigues recupera-o para os leitores de hoje em 165 páginas de texto anotado que dedica a Manuela Rego e a Teresa Martins Marques.

Vejamos de modo breve como Lopes de Mendonça escreve sobre a República em 1848: «A república não tem classes, não tem distinções, não tem interesses rivais: as lutas são as das ideias e a sua expressão é, tem de ser manifestada pela imprensa. Ás revoluções armadas hão-de suceder as reformas pacíficas; às paixões, os sentimentos; aos certames de partido, os combates de princípios. Alcançar-se-há esse ideal que debalde têm querido realizar as monarquias representativas? O sistema republicano acolherá no seu seio o princípio da perfectibilidade humana sem que ele ressurja de espaço a espaço tinto de sangue?»

Incansável jornalista e homem de ideias, Lopes de Mendonça responde à pergunta «O que quer o socialismo?» deste modo: «A fraternidade substituída ao individualismo: isto é, o indivíduo ligado pelos sentimentos e pelas instituições à sociedade: a associação em vez da concorrência, isto é um regime industrial que iguale as condições dos três agentes da produção, o capital, o talento e o trabalho».

A capa deste livro que vem revelar um novo aspecto na história das ideias do século XIX em Portugal, reproduz um quadro do pintor Gaspar David Friedrich (Nuvens passageiras).

(Edição: Ernesto Rodrigues, Execução Gráfica: Textype Lda.)

Vinte Linhas 316

Uma cidade de futebol ou Os fotógrafos de Estaline não se cansam

Descobri o livro intitulado «Uma cidade de futebol», edição Assírio & Alvim/Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa. Embora refira os autores dos textos (Paulo Catrica, Nuno Domingos, Miguel Amado e José de Monterroso Teixeira) nada diz sobre o autor das legendas. Vê-se logo o BI do dito na página 34 «Equipa de futebol do Sport Lisboa e Benfica 1906/1907» Repete o erro na página 35. Fundado em 13 de Setembro de 1908, o Sport Lisboa e Benfica não existia em 1906, nenhum documento anterior a 1908 refere o Sport Lisboa e Benfica. Está na massa do sangue dos fotógrafos de Estaline a permanente reescrita da história do desporto em Portugal. Em 2002 dois nortenhos lançaram o livro «A paixão do Povo» e embora «historiadores» lá caíram no mesmo erro de rasurar a verdade histórica. João Nuno Coelho e Francisco Pinheiro ousam escrever «decidiu bem quem decidiu pela data oficial…» ou seja, decidiu bem quem trocou 1908 por 1904. Nas tabelas do campeonato de Lisboa de 1906/7 lá aparece Sport Lisboa e Benfica em vez de Sport Lisboa. Depois em 1981/2 o Sporting ganhou a Taça de Portugal por 4-0 ao Braga mas no livro aparece 2-1. A seguir ao referem-se ao livro «Glória e Vida de Três Gigantes» e omitem o meu nome que está na ficha técnica ao lado de António Simões e Homero Serpa. Depois há um livro de Álvaro Magalhães («História natural do futebol») também da Assírio & Alvim (já é sina) que cita um poema da escritora Ivone Chinita (minha amiga falecida em 1983) que integra um livro por mim organizado e editado em 1989 («O desporto na poesia portuguesa») mas sem citar a origem quase como se tivesse andado com ela na costura em Grândola. Para concluir: fotógrafos de Estaline, já chega!

Um livro por semana 101

«Contos, fábulas & outras ficções» de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é o mais avassalador de quantos polígrafos o século XX deu à literatura portuguesa. Em boa hora a editora «Bonecos Rebeldes» resolveu publicar uma recolha de Zetho Cunha Gonçalves que junta textos de ficção narrativa publicados em jornais e revistas pelo próprio Fernando Pessoa. «Contos, fábulas & outras ficções» é um livro irreverente e indisciplinador, um hino à liberdade e um libelo contra toda e qualquer forma de censura, prepotência, submissão e conformismo. Na página 83 deste livro aparece «A origem do conto do vigário» no qual Fernando Pessoa explica à sua maneira a origem da expressão «conto do vigário» como tendo a ver com as façanhas de um tal Manuel Peres Vigário, lavrador ribatejano que teria enrolado seus irmãos num negócio de vinho. Mas a versão que eu tenho como correcta sobre a expressão vem de Vasco Botelho do Amaral e tem a ver com o conto do vigário «lisboeta» digamos assim. O burlão diz ao papalvo que o vigário da sua freguesia lhe confiou uma grande quantia para entregar a alguém quantia essa que está no embrulho – chamado paco. A pessoa que vai na conversa entrega o dinheiro pedido, acreditando que dentro do embrulho estão as notas que largamente compensarão o dinheiro emprestado em troca. E assim «vai no embrulho» pois, aberto o dito, vê que dentro dele só havia papel de jornal inútil e não as notas que seduzem os incautos. Estaremos perante uma invenção, mais uma, de Fernando Pessoa que teria aproveitado a expressão «conto do vigário» para imaginar uma história que viria a publicar no jornal «Sol» em 30-10-1926? Quem tem razão – Vasco Botelho do Amaral ou Fernando Pessoa? Será que a razão está com os dois? Responda quem souber…

(Editora: Bonecos Rebeldes, Organização, prefácio e notas: Zetho Cunha Gonçalves, Capa: Fernando Martins, Foto: Teresa Gonçalves)

Vinte Linhas 315

Dos selos da Lituânia às ruas presas às rodas

Fazer parte de um júri de um prémio literário tem destas consequências: nem sempre o original que nós mais valorizamos vence o concurso. E havendo três membros do júri basta os outros dois se juntarem numa opinião convergente para o (digamos) nosso original perder por 2-1. De qualquer modo a qualidade vem sempre ao de cima e, mais tarde ou mais cedo, o original (digamos) não vencedor acaba por ser publicado, saindo do silêncio das gavetas para o bulício das ruas.

Foi isto que aconteceu comigo em dois anos seguidos. Num concurso de livros de poemas gostei muito (mesmo muito) de um original com um título muito curioso – «Os selos da Lituânia». Na altura não sabia nem podia saber que o seu autor era Amadeu Baptista. Hoje sei que esse belíssimo livro já foi publicado apesar de não ter recebido o (digamos) meu prémio. O ano passado noutro concurso, agora de ficção narrativa, fiquei encantado com uma história de um taxista do Porto, exemplarmente escrita, com um ritmo e uma riqueza vocabular imensa, uma destreza absoluta na organização narrativa. Chamava-se o livro «As ruas presas às rodas». Hoje fiquei a saber que o seu autor é António Rebordão Navarro. Fiquei descansado porque a minha intuição não me traiu – uma vez mais. Acertei na qualidade deste livro em prosa como tinha acertado nos poemas do original «Os selos da Lituânia». A vida é feita destas coisas: derrotas e vitórias. Às vezes meias-derrotas e meias-vitórias que é assim que eu defino estes acidentes de percurso. O importante é cada um ser igual a si próprio. Coerente, justo, correcto. Não atropelar os direitos dos outros. Assim ganha sempre mesmo quando perde.

Um livro por semana 100



«Uma memória de Pereiros» de Joaquim do Nascimento

São 14 crónicas de revisitação («Nasci nos Pereiros e ali vivi até aos doze anos») e daí o subtítulo – «Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro – 1930-1980». A geografia sentimental é vasta: «A fonte da aldeia, a azenha ou lagar do azeite e o forno, tal como a igreja, as capelas, o cemitério, as tabernas, ou sotos quando vendiam tecidos, a escola do Combro e as salas de aula que precederam esta, se alguém ainda as conseguir identificar, os velhos caminhos, o rio e os seus açudes e pontes, o moinho da tia Elisa, a caminho de Valongo mas ainda do lado de cá do rio, tudo isto constitui a memória colectiva do povo dos Pereiros». Tudo começa na paisagem («As árvores da minha terra são os sobreiros, embora uma ou outra oliveira de tronco carcomido pelos anos possa figurar em segundo lugar») e acaba no povoamento: «Nos Pereiros, ao pedreiro, ao carpinteiro, ao ferreiro, ao ferrador, ao sapateiro chamava-se artista». Fiquemos pela crónica sobre a carreira: «Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias e nos ligava pela EN 222 à Vila, ao Comboio e ao Mundo. A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava todas as manhãs, pelas oito e trinta minutos a caminho do Pinhão e regressava às quatro e meia da tarde. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento podia desqualificar um cidadão. Nesse curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando quem tinha chegado e imaginando o destino de quem seguia».

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade, Apoio: Associação Amigos de Pereiros)

Vinte Linhas 314

Ruslam Botiev dá um «bom dia a Portugal»

Esta chuva que parece não ter fim é trazida por uma frente polar fria que nenhum anticiclone açoriano detém. Pode encher barragens mas prejudica a vida de muita gente. O meu amigo Ruslam Botiev, artista plástico mongol apaixonado por Lisboa, costuma fazer do passeio ao lado da porta da Basílica dos Mártires o seu atelier-exposição. Esta chuva só o prejudica a ele e aos seus quadros de pequeno formato. Um destes dias tenho que lhe dizer que os seus desenhos sobre Lisboa, suas ruas e suas gentes, seus transportes públicos e suas estátuas, seus telhados e seus gatos, me faz recordar o traço de Nuno San Payo. Parece-me óbvio que Ruslam Botiev, o sorridente artista plástico que veio da Mongólia, só por mero acaso poderá ter ouvido sequer falar dos desenhos de Nuno San Payo que integram um álbum intitulado «Calendário de Lisboa», editado em 1948 pela Livraria Popular de Francisco Franco. Ruslam Botiev entra todos os dias em Lisboa pelo comboio da ponte 25 de Abril. E, porque gosta da cidade dos alfacinhas apesar de ser natural da Mongólia, chamou «bom dia a Portugal» a uma série de desenhos seus feitos sobre Lisboa. Depois de ter vivido em Murça onde trabalhou sob diversas formas a figura da «porca de Murça», Ruslam Botiev veio para Lisboa e veio para ficar na Rua Garrett. Quando a tempestade passar, quando o sol chegar com a sua força contra a frente polar fria, eu hei-de oferecer ao meu amigo Ruslam Botiev uma reprodução da série «calendário de Lisboa» de Nuno San Payo provando nas parecenças do traço com a sua série «bom dia a Portugal» porque quando se ama uma cidade todos os desenhos de todos os artistas acabam por ser, afinal e no fim de contas, muito parecidos entre si.

Vinte Linhas 313

O exclusivo do Benfica em troca de uma noticia censurada

No passado dia 28 pelas 13 horas um jornalista do Diário de Noticias contactou o presidente do Getafe, Angel Torres por causa da contratação do guarda-redes Stojkovic. Durante a conversa (e sem ninguém lhe perguntar) o dirigente espanhol adiantou que Quique Flores lhe tinha dito o melhor possível de Quim guarda-redes do Benfica confirmando não ter problemas em prescindir dele pois tinha três jogadores de qualidade semelhante para o lugar. Alguém do Benfica, durante a tarde tentou desmentir que Quique Flores tivesse falado com o dirigente do Getafe sobre Quim. Já durante a noite um elemento do Benfica contactou o jornalista propondo a retirada da notícia por troca com um exclusivo mas sem revelar qual. No dia seguinte uma rádio conotada com o Benfica colocou no ar declarações do presidente do Getafe a confirmar que Quim lhe foi oferecido mas a desmentir, numa frase inacabada, ter falado com Quique Flores. Acto contínuo o site do Benfica emitia um comunicado em que o clube dizia estranhar as declarações proferida ao Diário de Notícias. A pesada máquina do Benfica funcionou mais uma vez. Como já tinha funcionado no falso centenário de 2004 e na paranóia das Ligas de 1935 a 1938 – como se o Campeonato de Portugal tivesse sido apagado da História do Futebol Português. Lembrei-me logo de uma cena do Eusébio que no meio da confusão dos festejos num dos campeonatos dos anos 60 agrediu um pobre adepto que só queria festejar. Pois no dia seguinte lá estava a «boa imprensa» no hospital a registar a entrega de uma camisola e de uma bola autografada. Isto já foi há 40 anos mas aquela gente não se cansa de tentar reescrever a história. Uma vez mais.

Breve canção para «A balada das baleias»

Tantas bocas à espera

Da riqueza da baleia

Na lancha da Primavera

Não tememos maré-cheia

Os velhos lobos-do-mar

Sentados na nostalgia

Já nada podem pescar

Quando chega o fim do dia

Botes, lanchas e vapores

Na Vigia da Queimada

As vozes dos trancadores

São tempestade poupada

Quando o mar é labirinto

Quando saudade é memória

Tudo aquilo que eu sinto

Faz nascer a nova história

Aqui no centro do Mundo

Casa dos botes, meu lar

Sentimento mais profundo

Tem a fundura do mar

Com chapéu ou em cabelo

Há nestes homens cansados

As muralhas dum castelo

Batido por todos os lados

Mulheres são como sereias

Lanchas com nome escrito

Fazem as horas mais cheias

Quando se pesca em conflito

As Filarmónicas perdidas

Chegam o som junto ao cais

No mapa das nossas vidas

Há baleias de nunca mais

__

(nota: A Balada das Baleias é um livro de Sérgio Ávila, Ermelindo Ávila e Sidónio Bettencourt, da Ver Açor Editores)

Um livro por semana 24

«A sagração da Primavera» de Aurélio Lopes

Depois de «Devoção e poder nas Festas do Espírito Santo» em 2004, o antropólogo Aurélio Lopes (natural dos Cunqueiros) volta a publicar um trabalho de grande fôlego: perto de 300 páginas nas quais pretende «levantar pistas de investigação para a compreensão das raízes remotas de muitas das nossas tradições primaveris, ainda existentes ou de recente desaparecimento.»

Organizado entre o Domingo de Ramos e o São João, este estudo incide também sobre o 1º de Maio e o Dia da Espiga. E começa por responder a três perguntas: «Porquê, ainda hoje, um pouco por todo o país, se enchem, nestes tempos, as igrejas de flores e ramagens e, em tempos passados, de andorinhas? Porque se apanham giestas (maias) e com elas se enfeitam e protegem habitações, animais e pessoas? Porque persistem práticas como o colher da espiga nos nossos campos, bosques ou searas?»

Ainda hoje em muitas povoações portuguesas se usa colocar maias (ramos de flores, cruzes e coroas) nas portas das casas e dos currais mas, explica o autor, «maias ou maios são igualmente as efígies ou as crianças que neste dia são adornados e coroados com flores, e também a árvore (árvore de maio) em redor da qual se dança e canta. Maias são ainda as mais comuns das flores silvestres da época, as giestas e, até, no norte transmontano, os cânticos (cantar as maias) que presidiam, em tempos idos, à solicitação de dádivas. Maio é o tempo que decorre, as personificações que o corporizam, as subversões daí emanantes e as conexões florais que aí se interligam em fecunda simbiose.»

(Editora: Edições Cosmos, Capa: Brian Sroud, Apoio: Câmara Municipal de Santarém)

Um livro por semana 25

«Salir d´Outrora» de Carlos Marques Querido

Já foram recenseados nesta coluna diversos livros sobre reis portugueses. Mas isso é (como diz o Povo) outra história. Este livro trata da História daquela gente que não deixa de ser importante só porque não é conhecida. Estas crónicas, antes publicadas nas páginas da «Gazeta das Caldas», tratam duma memória qualificada de Salir de Matos mas também de Santa Catarina, Alvorninha, Benedita e Carvalhal Benfeito, povoações que ao longo de quase setecentos anos tiveram verdadeiras «guerras» com o Mosteiro de Alcobaça. O autor baseia as crónicas em documentos (Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Cartórios Paroquiais, Arquivos Municipais) porque sem documentos não há história mas sim lenda e este não é um livro de lendas. Nestas páginas desfilam figuras de destaque como o arquitecto de Salir de Matos, o conjurado do Carvalhal e o morgado do Formigal (século XVII) ou o deputado do Carvalhal e o Bispo de Santa Catarina (século XIX). Mas não só. Também as pessoas humildes que vivem e trabalham nas vilas dos coutos de Alcobaça são protagonistas. Eles e os seus problemas a propósito de águas e açudes, cadeias e pelourinhos, azenhas, lagares ou moinhos. E do relego – espécie de monopólio da venda do vinho. São terríveis as páginas sobre as vítimas da Inquisição em Salir de Matos: Duarte Lopes, Simão Luís, Francisco Álvares e Violante Gomes sofrem terríveis perseguições até à morte. Tal como são terríveis as páginas da vida de Maria da Purificação, uma jovem mulher casada com um homem mais velho que lhe dava jóias e vestidos mas não lhe dava aquilo que ela queria – usufruir da intensa vida social de Lisboa, muito mais intensa que os Casais da Ponte, onde tinha sido criada.

(Editora: PH – Estudos e Documentos, Grafismo: Inês Querido, Prefácio: Iria Gonçalves, Introdução: Nicolau Borges
)