Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 365

«Vida e Morte dos Santiagos» de Mário Ventura

A partir de uma invasão espanhola no Alentejo em 1802 (liderada pelo conde de Godoy) começam os problemas de uma família que deixa de poder comprar e vender livremente cavalos nas feiras da raia de Espanha. Trata-se de uma saga familiar que envolve mais de cem personagens e um arco temporal de três séculos. Mário Ventura recebeu com este romance dois prémios literários: Município de Lisboa e Pen Clube Português. Há edições na «Caminho» e na «Casa das Letras» além do «Círculo de Leitores» desta história que não é apenas a história de uma família e da sua busca pela posse da terra mas também uma profunda reflexão sobre a condição humana: «Ter muita terra já é sinal seguro de riqueza mesmo que nela só cultives pedras. Terra é poder e contra ela ninguém pode nada. Tão certo como eu me chamar Custódio Santiago. Quando se começa a mexer na terra, só para a obrigar a dar o que ela muitas vezes não pode ou não quer dar, nunca se sabe que males nos vão acontecer.»

Sobre este livro opinaram António Mega Ferreira (Expresso), Baptista-Bastos (J.L.), Fernando Dacosta (O Jornal), Urbano Tavares Rodrigues (Colóquio/Letras), Fernando Assis Pacheco (O Jornal) além de Júlio Conrado que, no velho Diário Popular escreveu o seguinte: «Torranjo passará à História como território feudal de que se apropriou, na voragem de turbilhonantes contendas políticas, um cigano de apelido Currales, por força dos acasos do amor conhecido mais tarde, solenemente, por Custódio Santiago».

A propósito do livro de Brito Camacho surgiu a sugestão de Manuel Barata para que se recordasse melhor este belo livro, esta acontecimento literário. Fica a breve nota.

Vinte Linhas 364

Carlos Ramos (1907-1969) guitarrista e intérprete do fado

«Carlos (Augusto da Silva) Ramos nasceu em Lisboa (Alcântara) em 10-10-1907. Começou a tocar guitarra nas tabernas do seu bairro e em 1939 acompanhou Ercília Costa numa digressão aos EUA. Tornou-se profissional do fado em 1944 no Café Luso e passou pelas adegas Mondego, Machado, Tipóia e Tágide antes de fundar em 1960 a sua casa típica – A Toca. Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Maria Teresa de Noronha, Fernanda Maria, Natércia da Conceição e Maria do Espírito Santo cantaram em A Toca. Carlos Ramos participou nos filmes Cais do Sodré, O Fado, Lavadeiras de Portugal e Fado Corrido. Actuou em Espanha, França e Brasil além dos Açores, Madeira, Cabo Verde, Angola e Moçambique. Participou em várias revistas ao lado de Hermínia Silva, Ercília Costa e Maria Albertina. Senhora do Monte, Não venhas tarde, O amor é louco, Despedida, Mas sou fadista, Saudade, Toca o mesmo, Recordar é viver ou O teu olhar são fados que consagraram a sua voz inesquecível de grande intérprete do fado. Faleceu em 6-11-1969 em Lisboa.»

Esta poderia ser a breve nota para um verbete numa enciclopédia portuguesa. Mas Carlos Ramos está ausente. Lembro-me bem de uma festa de homenagem que lhe foi feita em 1968 no Monumental e de uma fotografia que os jornais publicaram: Hermínia Silva, Madalena Iglésias, Francisco Nicholson e Armando Cortês em pose ao lado de Carlos Ramos. O artista tem uma bengala, sinal dos problemas de saúde que o viriam a matar um ano depois. Só em talheres e loiças foram mais de duzentos contos que «voaram» da sua casa típica. Carlos Ramos, artista, morreu de tristeza porque não soube ser comerciante.

Um livro por semana 122

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«Quadros Alentejanos» de Brito Camacho

Este livro de Brito Camacho (1862-1934) figura ao lado da melhor literatura sobre o Alentejo: entre a poesia do Conde de Monsaraz («Musa Alentejana») e a prosa de Manuel da Fonseca («O fogo e as cinzas»), entre os ceifeiros e carreiros de Francisco Bugalho em «Poesias» e os feitores e negociantes de gado de Mário Ventura em «Vida e Morte dos Santiagos». Nas suas 206 página há todo um certo tempo português e alentejano, articulado a partir das memórias do autor. Por exemplo a despedida da aldeia para ir estudar longe de casa: «Tinha a certeza de que na vila não se jogava o eixo, nem o funcho nem a abelharda, jogos em que eu não era dos últimos, nem se jogava o pião, jogo em que eu era dos primeiros! A cada lugar me prende uma recordação e cada recordação é já uma saudade». Ou então o sentimento religioso: «Raro era o domingo em que a igreja não se enchia. O mulherio ocupava o corpo da igreja. Os homens enchiam as coxias, o guarda-vento e o coro, distribuindo-se ao acaso, sem preocupação de categorias. Ninguém ajoelhava à caçadora, só com um joelho em terra». Ou ainda as guerras políticas locais: «As paixões políticas eram muito vivas na minha terra; os partidos digladiavam-se ferozmente em todos os campos; um dia de eleições era um dia de batalha; muitas listas entravam na urna tintas de sangue jorrando de cabeças partidas». Ou por fim as histórias incríveis em que a vida sorria à morte: «o tio José Branco um dia recolheu ao hospital, foi dado como morto e logo transferido para a igreja para se enterrar no dia seguinte. Sucedeu que pela noite fora o velhote se aliviou da bexiga e isso lhe valeu não ser enterrado vivo». A leitura destes 6 quadros alentejanos de ontem é um enorme prazer para o leitor de hoje.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Vinte Linhas 363

«Imiscuir-se» não é o mesmo que «eximir-se» – é assim, vem nos livros

Abriu uma nova livraria em Lisboa e a minha filha mais nova esteve lá. Trouxe-me um livro sobre os campeonatos do Mundo de 1930 a 2006. Os autores são Rémulo Jónatas, Pedro Cunha, Sérgio Pires e José Pimentel. Até aqui tudo bem. O pior veio depois. Na página 142 aparece uma frase errada referente a 1982 «A Itália foi a primeira selecção a sagrar-se tricampeã do Mundo». Errada porque o Brasil em 1958, 1962 e 1970 já tinha sido tricampeão mundial. Na página 116 aparece escrito «Pelé lesionou-se no jogo contra Portugal» quando Pelé se lesionou (sofreu uma entrada violenta de Voutsov) no jogo com a Bulgária em 12-7-1966 de tal modo que não jogou contra a Hungria em 15-7-1966 ao contrário do que está escrito na página 196 («derrota com o búlgaros por 3-1 na qual Pelé não joga por lesão»). Quando jogou com Portugal em 19-7-1966 Pelé não estava nem podia estar em condições mas o treinador brasileiro apostou no «tudo por tudo» e o resultado não podia ter sido outro – a derrota do Brasil.

Na página 218 uma «caixa» intitulada «Terramoto em Moscovo» revela que depois da derrota em Portugal por 7-1 no Estádio José Alvalade os jogadores russos foram acusados de «falta de patriotismo» além de «falta de profissionalismo». E segue: «Nem o presidente do Parlamento russo, Boris Grizlov, se imiscuiu de considerar um pesadelo o estrondoso desaire de Alvalade». Ora bem «Nem o presidente se imiscuiu» não pode ser. Tem que ser «Nem o presidente se eximiu» porque imiscuir é «intrometer-se» mas eximir-se é «dispensar». A ideia era essa mas foi mal concretizada. Nem o presidente se eximiu de considerar um pesadelo o estrondoso desaire de Alvalade. Assim, sim.

Palavras em jogo 03

Charneca, Lezíria e Bairro

Vivi em Vila Franca de Xira de 1961 a 1966 e fui colega de turma do Álvaro Pato mas só há muito pouco tempo soube da existência do livro de contos do seu tio Carlos Pato que a PIDE matou com 29 anos de idade em 26 de Junho de 1950.

O livro «Alguns contos» foi editado por Alves Redol em 1951 e contém apenas três contos. O primeiro («Ao receber a jorna») tem como heroína Maria Alexandrina, trabalhadora rural que leva duas filhas para o campo porque não há creches nem infantários. Depois da semana de trabalho chega o dia de receber a jorna: «Uma cantou para que o tempo passasse; as outras ouviram caladas».

O segundo conto («Valados») mostra que o campo não é só paisagem («Tejo bom quando dá pão, mau quando o leva e não o dá») mas também lugar de luta. A falta de assistência médica é o drama em gente desta história.

O terceiro conto («Graxas») fala de um grupo de miúdos que brinca no Tejo. Nesse grupo de engraxadores nem todos sonham com o campo. Divididos entre trabalho e desporto, entre a Estação da CP e a aberta do Tejo onde nadam, eles são um elo na corrida de estafetas por um mundo melhor. Também perguntam entre si «Quando virá o dia que a gente muda de vida?» para logo um deles responder: «Não vem longe, Chico!».

Carlos Pato poderia ter sido um grande escritor. Há na tessitura dos seus contos a ampla respiração de um talento criador e um domínio perfeito da nossa língua. Mas a PIDE não deixou. Tal como não o deixou conhecer os filhos: a Clara tinha 8 meses quando o pai foi preso, o João Carlos nasceu em 2-12-1949 ou seja 5 meses depois da prisão do pai.

Palavras em jogo 02

As duzentas mulheres da Lezíria

A voz de Susan Boyle, um misto de potência e beleza, majestade e furor, limpidez e eficácia, rebentou com a escala num concurso televisivo inglês. Vergou o desdém do júri e a má vontade do público. Ocorreu-me logo a memória de um poema de Miguel Torga sobre as mulheres da Lezíria. O que na mulher escocesa de 47 anos era anonimato e solidão era, nas palavras de Torga, o esplendor da voz da Terra, a tristeza multiplicada de duzentas mulheres com os pés enterrados na água do arroz. E todas as colheitas perdidas dos sonhos por realizar. Não por acaso a canção do musical «Os Miseráveis» que levou a voz de Susan Boyle a todo o mundo se chama, em português, «Eu sonhei um sonho». Eis o poema de Torga:

São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa

Que se debruça e já nem mostra o rosto.

Cantam, plantadas n´água

Ao sol e a à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez,

Cantam baixo e parece

Que na raiz humana dos seus pés

Qualquer coisa apodrece.

Elas cantavam «o Norte e o Sul duma só vez» porque nesse tempo arrastado das migrações sazonais para o Ribatejo os ranchos de mulheres juntavam, na alta pureza das vozes a cantar, o esplendor dos sonhos enterrados no lodo com os pés de quem cantava.

Palavras em jogo 01

Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés

Meu pai não tinha sandálias de vento. No ano de 1956 meu pai tinha uma bicicleta cor de cinza e eu sempre soube distinguir, na pequena descida da Várzea do Lameirão, o som inconfundível da roda pedaleira em descanso. Para os outros era penas mais uma bicicleta; para mim era a bicicleta. Não havia outra. Foi nessa bicicleta que ele fez viagens repetidas entre Santa Catarina e Santarém para tirar a carta de condução de pesados. Eram noventa quilómetros por semana, por estradas péssimas, debaixo de chuva, levando batatas e azeite de casa para comprar todos os dias o peixe mais barato no mercado da cidade. Pedalou sacrifícios, suores, poupanças, vento agreste e o mais que natural desejo de fugir ao seu destino traçado de cavador. Ou como dizia o senhor padre Castelão na missa de domingo anunciando futuros casamentos: profissão «jornaleiro». Porque viviam, fingiam que viviam, da jorna paga aos domingos de manhã no largo maior da terra depois da missa e antes da ida à taberna. Quando meu pai voltou orgulhoso da sua carta de pesados e de serviço público, o patrão resolveu contratar um motorista nascido numa aldeia perto de Alcobaça. Vingou-se assim do seu analfabetismo total: como não conseguia tirar a carta de condução pagou uma fortuna a uns aldrabões que o receberam num café das Caldas da Rainha. Saíram pelas traseiras e deixaram-no só, sem dinheiro e sem carta de condução. Foi assim, na trilogia Deus/Pátria/ Autoridade, numa aldeia da Estremadura que aprendi o sentido exacto e total da palavra fascismo. Afinal uma palavra ainda desconhecida para mim nesse já distante ano de 1956. Bastaram dez palavras assim pronunciadas: «Tirou a carta mas vai puxar terra para os pés».

Vinte Linhas 362

«O omãi qe dava pulus» ou Nuno Bragança com 4 anos

Acabei de ver no Centro Nacional de Cultura o filme «O omãi qe dava pulus» de João Pinto Nogueira e recordei de imediato com muita emoção o Nuno Bragança que conheci em 1982 na Editora Moraes. O filme é muito curioso, integra imagens em «super 8» e alguns depoimentos de várias figuras portuguesas que conheceram bem o autor de «A noite e o riso», «Directa» ou ainda «Square Tolstoi». Eu gostei do filme (um achado como solução) mas puxo a brasa à minha sardinha e como gosto muito de crónicas lembro uma crónica de Nuno Bragança no Diário Popular de 10-2-1982 na qual, com a sua habitual lucidez, escreve: «Quem vive do seu trabalho está farto de ver como florescem a corrupção e o contrabando, como o poder judicial favorece a criminalidade soltando a malandragem que a PSP captura, como os ministros emproados e os seus seguidores estão separados da população por um fosso intransponível, resultante de viverem numa atitude donde já não se vê nem se ouve e já da qual ninguém tem vergonha na cara em prejudicar os pobres nos pontos mais sensíveis, como se quisesse mesmo tramar a vida deles (casos da assistência hospitalar, dos preços dos medicamentos, da severidade contentora do leite distribuído pelos professores primários às crianças mais miseráveis e tantas pisadelas mais)». O título da crónica é sugestivo («O povo é sereno mas não é parvo») e termina de modo sério: «Ó pessoas sérias do PS português: estarão enfim dispostas a mostrarem quem são – ou vão mais uma vez ficar à espera de Godot?»

Vinte e sete anos depois, a crónica (escolhida por Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores como uma das cem melhores do século XX) mantém toda a actualidade.

Vinte Linhas 361

Canção ébria

Encontrei num livro de Pedro Homem de Mello o verso que procurava para demonstrar uma ideia – ninguém pode ser quem não é. Gostaria de revelar para todos um poema desse livro (Bodas vermelhas) que me parece um belíssimo texto.

*

Não há ciência: há segredo.

E a eternidade é um minuto

Não há silêncios: há medo.

Não há lágrimas: há luto.

Triste, triste, triste, triste

Tristeza de entristecer!

Dança meu bem! Que o prazer

Só ele e mais nada existe.

Olha os palácios escuros

Em que as salas são cavernas!

Olha os jardins! Troncos, muros,

Raízes fundas, eternas…

Olha tanta vida bela!

Olha tanta mocidade

Que nunca foi à janela

Ver se o dia era verdade!

Ó ruas negras sem luz!

Ó noites sem maresia!

Ó terra áspera e fria

Que tudo a cinzas reduz!

E aquela pena apressada

Pior que a treva e que a neve

Que antes que a morte a leve

Escreve e não conta nada?

Que disse a bruxa a teu pai?

Ao longe cantam… Então,

Ergue flâmulas e vai

Atrás daquela canção!

Apenas não me enganaram

As vozes dos meus sentidos

Todos os mapas ficaram

Com nomes desconhecidos.

Mar de Java? Mar Egeu?

Alcácer? Damão e Diu?

Irmãos! Quem sois? Quem sou eu?

Tive uma filha e morreu.

Tive um amigo e mentiu.

As estrelas são estrelas

Não porque assim o quiseste.

As estrelas são estrelas

Como o cipreste é cipreste.

Quantas contaste? – Nenhuma.

Quem tas apontou? – Ninguém.

Dança! Dança! Enquanto a bruma

Te esquecer… Dança meu bem!

Segundo retrato de Helena ao colo de Marta

Helena coloca a mão direita em posição
De afirmar uma ideia sua em fantasia
Desenha no seu gesto futura afirmação
Da vontade que se expressa em alegria

Os olhos que se projectam, linha serena
No horizonte de um quarto de criança
São um bilhete de identidade de Helena
E o sorriso é um passaporte de esperança

Vejo a altivez na sua franqueza do olhar
Como velhos azeitoneiros da Andaluzia
A recolherem a luz do azeite num lagar
Nos fios dourados que dão calor ao dia

No sorriso de uma criança a Primavera
Em três dos corações de quem lhe quer
No tempo mais veloz quando não espera
Vai adormecer menina e acordar mulher

Vinte Linhas 360

Batatas e versos – um texto de Agostinho de Campos

Quando escrevi o texto cujo título era um verso dum poema de Pedro Homem de Mello («Ninguém nos peça o que não somos») descobri nas últimas páginas do seu livro «Bodas vermelhas» um texto muito curioso e bem disposto de Agostinho de Campos. Aí vai: «Existe desde longa data uma concorrência das batatas com os versos. Concorrência feroz na qual as batatas triunfam sempre. Vendem-se mais batatas do que versos porque aquelas são mais necessárias e mais úteis à saúde de cada um e de todos. E esta situação agravou-se nos últimos tempos, por causa da crise, ou antes, das crises: da económica e da poética. As batatas são cada vez mais necessárias e os verso cada vez mais supérfluos. Materialismo. E outra coisa: as batatas conservam sempre o mesmo gosto, o que lhes assegura a fidelidade dos mercados: os versos, salvo honrosas excepções, dizem sempre o mesmo, donde resulta que, antes de lê-los já se conhece de cor e salteado o sabor que eles têm. Dá-se então a injustiça flagrante de que ninguém já compra versos pela mesmíssima razão por que toda a gente continua a comprar batatas. Acresce a isto que ninguém sabe hoje ao certo o que sejam versos e poesia. Surgiu a poesia pura que relegou para os limbos da prosa quase tudo o que ainda há poucos anos considerávamos verso; além disso chegou no aeroplano o modernismo que aboliu os velhos códigos da versificação e da métrica, a ponto de que, muitos versos de agora, sem rima, sem ritmo e sem regra, parecem prosa a muita gente». A data do texto há-de ser 1933 mais ou menos pois Pedro Homem de Mello nasceu em 1904 e é apresentado como um «menos-de-trinta-anos». A crise é a de 1929 que provocou suicídios em Nova Iorque e muitos pobres no Mundo.

Vinte Linhas 358

«Um ramo de amendoeira» de António Rego

Qualquer jornalista aspira ao recolher em livro da prosa corrida do efémero do jornal. António Rego (n. 1941) é jornalista e padre; daí este seu terceiro título (Edições Paulinas) que se junta a «Palavra entre palavras» e a «Deus na cidade». O ponto de partida é um olhar sobre o Mundo: «Parece mais fácil semear o terror que a esperança. E o caos pode tornar-se mais sedutor que a harmonia». Esse olhar começa por Portugal («Portugal não é uma repartição para envio de relatórios para Bruxelas. Somos pessoas, um povo») embora não se limite ao nosso canto na Europa: «A esperança de vida como que se voltou contra a própria vida ao oferecer tempo de sobra para nada fazer». Perante a informação diária negativa («Como povo parecemos cabisbaixos, sem perspectiva») urge «discernir os sinais para melhor se ler os acontecimentos que perturbam o olhar imediato dos homens e das mulheres, mergulhados na perplexidade desconcertante dos nossos dias». É que há sempre novos e diferentes aspectos numa realidade como, por exemplo, o futebol: «As coisas não são apenas o que são. São o que simbolizam mais as metáforas que escondem, os sentimentos que expressam, as explosões de apreço ou fúria que acordam num clube, numa equipa, num país, numa pátria». Ou então o mundo da justiça: «O Cristianismo liga o eterno ao quotidiano, inspira leis e gestos, sugere a conversão do real sem se enredar no peculiar que compete a cada profissão e a cada construtor da cidade terrestre. A justiça não é um problema prioritariamente burocrático». Fiquemos com uma nota final do jornalista/padre António Rego: «Cada um vê o mundo como quer. Conta-o como entende. Mas a nossa vocação é mais alta que as nossas histórias mesquinhas».

Vinte Linhas 357

«Ninguém nos peça o que não somos» (Pedro Homem de Mello)

A propósito de algumas ferroadas quase venenosas que aqui foram publicadas sobre o texto do Cristiano Ronaldo não podia deixar de recordar (para quem já se esqueceu) que a minha entrada no «aspirinab» foi patrocinada pelo Fernando Venâncio a propósito de um texto meu publicado na Gazeta das Caldas com o título sugestivo de «Não o ponha tão alto que ele nem é licenciado!». Tudo aquilo tinha um enquadramento: aquela frase aparecia proclamada por uma criatura que julgava exagerado tanto o espaço ocupado pelo meu verbete no Dicionário de Literatura Jacinto do Prado Coelho como a nota atribuída por Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco à tese de mestrado de Ruy Ventura sobre a minha obra poética. Eu tive o cuidado de fazer acompanhar o meu texto de duas citações – uma de José Loureiro Botas e outra da Tomás Ribeiro Colaço. Ou seja: a propósito de um incidente que me colocava no centro de uma pequena polémica eu tive o cuidado de chamar a atenção para uma outra história exemplar passada nos anos 40 com um escritor sobre o qual se dizia que não tinha nome de escritor. E também não era licenciado. Moral da história: Fernando Venâncio, que teve em 1993 a inteligência, a capacidade investigativa e o discernimento para explicar a todos nós que no tempo do Eça de Queirós quem era muito conhecido era o Pinheiro Chagas (tal como no tempo de Cesário Verde o famoso era Cláudio Nunes) terá visto nessa minha crónica um bom princípio para me convidar. Aceitei e aqui estou para o que der e vier. Quem sabe se o Valupi não verá nesta crónica sobre Cristiano Ronaldo um motivo para suspender a minha participação. Aceitarei. Mas o Pedro Homem de Mello tem razão.

Um livro por semana 121

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«Boa Morte» de Manuel de Freitas

Nestes 16 poemas de Manuel de Freitas (n. 1972) há o registo da viagem na geografia de uma ilha. «Boa Morte» é o título do último poema do livro: «Não se pode acreditar num mapa / numa vida. Apagam-se, como levadas / secas, todas as palavras que escrevi». O contraponto entre vida e literatura, aqui enunciado, surge no poema «São Martinho»: «Tenho atrás de mim um bar / e à frente um cemitério. / Assim (na opinião de um amigo) / deveria terminar não apenas o postal / mas um poema que não escrevi».

A viagem é a metáfora da vida; por essa razão os títulos de todos os poemas são lugares, paisagens povoadas como «Câmara de Lobos», «Calheta» ou «Ponta Delgada» por exemplo. Ou «Porto da Cruz»: «Não me esquecerei. O engenho de / açúcar, à direita de quem morria / lançava calmos apelos de desordem».

Entre o precário da vida («O indeclinável cerco da tristeza / levou-me aonde queria sempre estar») e o inevitável da morte («a igreja velha onde o meu pai / aprendeu música já só abre para velórios») surge o amor enquanto recusa da morte: «A aflição da luz tornava-se / mais concreta. Seguimos / sem demora para o Pico do Areeiro / com passagem pelo Poço da Neve – onde uma ave negra debruava o céu / Mas não quis morrer».

Na aparente simplicidade dum poema breve inscreve-se a interrogação maior da vida: «De repente, pai, entre / o silêncio de duas ondas / ouvimos a única pergunta: / quantas vezes / ainda nadaremos juntos?»

(Edição do autor, Capa de Luís Manuel Gaspar)

Vinte Linhas 356

Cristiano Ronaldo poderia ter morrido em 17-10-1999

O anúncio televisivo com Cristiano Ronaldo a dizer que daqui a três anos terá o dinheiro no BES arrepiou-me e trouxe-me à memória o dia 17 de Outubro de 1999. Era uma manhã gelada no pelado de Pina Manique, o jogo Casa Pia-SCP, 5ª jornada do Nacional de Iniciados. Chuva e frio ao mesmo tempo e em doses fortes. Aos 24 minutos, sem nada que o fizesse prever, o árbitro António Cardoso interrompe o jogo e chama de imediato o enfermeiro Fontinha. O jogador nº 10 do SCP estava mal. Muito mal. O pulso estava a correr como um cavalo à solta, a taquicardia foi sustida com uma injecção mas só a operação pôde mais tarde debelar o problema que era grave e congénito – o músculo do coração funcionava em duplicado. Tudo correu bem em Santa Cruz e o menino que veio da Madeira com 11 anos pôde prosseguir a carreira até aos píncaros da fama mundial. Eram seus colegas de equipa o Carlos Saleiro (que brilhou na Académica este ano) e o João Pimenta que me lembro de ver jogar no Covilhã além do Christopher que jogou no Torriense. O Carlos Marques chegou à equipa «B» do Sporting. A minha crónica no jornal «Sporting» de 19-10-1999 ficou com o título de «Triunfo no lamaçal» e referia duas contrariedades: a febre do guarda-redes Christopher e a taquicardia do Cristiano Ronaldo além da maior e mais geral – jogar num lamaçal quando o relvado estava às moscas. O treinador era Rui Palhares e o delegado era António Atanásio. O fotógrafo foi Vinicius Carriço mas só saiu uma fotografia porque era preciso espaço para as fichas dos jogos de Escolas e Infantis onde já brilhava um tal Daniel Carriço, esse mesmo. Ninguém é senhor do seu destino e por isso me arrepio quando vejo o anúncio. E sei porquê.

O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

Vinte Linhas 355

«A Ericeira vista por quarto gerações Franco Caiado» entre 1895 e 2007

Publicado pela Mar de Letras, organizado por José Constantino Costa e com prefácio de Maria da Conceição Reis, este livro divulga um tempo significativo (1895-2007) da história da Ericeira no testemunho de quatro gerações. A família Franco Caiado tem raízes na Ericeira desde 1630. O ponto de partida do livro são os escritos de António Franco Caiado (1871-1941) que regressou de África em 11-1-1895, pegou na casa comercial da família e iniciou o registo dos factos marcantes da Ericeira. Veja-se o 5-10-1910: «Rebentou a República. De manhã, pelas 10 horas fundeou aqui defronte o vaso de guerra. O comandante veio a terra, montou num cavalo e foi a toda a pressa a Mafra convidar a família real a embarcar, o que fizeram pelas 3 da tarde». José Leão Franco Caiado (1905-1969) escreveu sobre os anos de 1931 a 1968 tendo registado em 20-6-1945 a «visita emocionada da última rainha de Portugal» ao lugar de onde partiu para o exílio em 1910. Pio António Caiado (n. 1930) participa com o maior número de páginas (68) e recorda figuras da Ericeira como os médicos da terra (Bento Franco, António José Caiado e Manuel Peralta) e os de fora (Álvaro Malta, Arsénio Cordeiro e Fernando Namora), os padres da vila (Padre Zé, Padre Monteiro) e o Padre Cruz que em 1929 já tinha fama de santo. Recorda os fadistas (o Airoso, o Grande, o Pirolito, o Zé de Mafra e o Francisco Gato) e os que eram apontados pelos seus defeitos (Luís Pateta, Américo Marreco, Tanganho) sem esquecer o Catitinha que andava nas praias a alertar as crianças para o perigo dos automóveis; dizia-se que lhe morreu um filho atropelado. O quarto texto pertence a Nuno Franco Caiado (n.1959) para quem «olhar a terra é ver um amontoado de casas num sítio proibido mas devidamente permitido por alguma personagem dotada de excepcional incompetência cognitiva». Conclui de forma certeira: «A Ericeira de hoje é parte de um subúrbio mas continua a mobilizar entusiastas com as praias, as Furnas, as Ribas, os restaurantes e as vistas que restam.»

Um livro por semana 120

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«Tribunais Políticos» entre 1926 e 1974

Os processos dos chamados «crimes políticos e sociais» e os ditos «crimes contra a segurança do Estado» que foram julgados em Portugal entre 1926 e 1974 pelos Tribunais Militares e pelos Tribunais Plenários, são o ponto de partida para este trabalho de Irene Pimentel, João Madeira, Luís Farinha e Maria Inácia Rezola com a coordenação de Fernando Rosas. São 3975 réus julgados entre 1933 e 1945 e 3888 réus julgados entre 1945 e 1974, 61 por cento dos quais são oriundos do mundo operário (indústria, transportes, agricultura) emparceirando numa espécie de frente popular com aqueles sectores que eram a base do republicanismo radical (pequenos industriais, comerciantes e proprietários) e os empregados dos serviços das cidades – caixeiros, funcionários públicos e empregados de escritório. Os advogados de defesa destes réus são em número notável e algo inesperado: 320 no período inicial de 1926 a 1945 e 386 a partir dessa data até 1974. Os juízes entre 1945 e 1974 são ao todo 81 e a justiça democrática saída do «25 de Abril» foi muito lenta e generosa para com eles. Várias das mais sinistras figuras dos Tribunais Plenários terminaram gloriosamente as suas carreiras nas cadeiras prestigiadas do Supremo Tribunal de Justiça. E nunca pediram desculpa às suas vítimas.

Esta edição com 663 páginas do Círculo de Leitores e da Temas e Debates integra no seu final uma lista tão completa quanto possível dos réus julgados nos tribunais do Estado Novo. Alguns dos processos foram distribuídos às diversas comarcas do país e o seu rasto perdeu-se no escuro dos arquivos.

(Editoras: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: António Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 354

Direitos dos animais – entre o delírio e a alucinação

Três ou quatro autarquias portuguesas proíbem touradas e logo surge um alarido – mas há em Portugal mais de trezentas câmara municipais. Este número não tem qualquer expressão. A Assembleia da República rejeitou um projecto de lei para proibir os animais nos circos – ainda bem que o delírio não foi por diante porque mais importantes são os postos de trabalhos dos empregados dos circos. Leio na «NS» um texto de Joel Neto que refere um documentário da RTP2 no qual um adepto transmontano do tuning afaga um cão e explica aos companheiros incrédulos: «Então? É um ser humano como nós!»

Esta nova doença da civilização faz com que os animais sejam vistos por muita gente como mais importantes que as pessoas. Há tempos fiz parte de um júri de um prémio literário autárquico de literatura infanto-juvenil e descobri que um conjunto de originais a concurso fazia dos «animaizinhos» (em vez das crianças) os protagonistas das histórias. Noutra situação, durante uma reportagem, ouvi o lamento de um pároco que tinha celebrado o casamento de uma senhora e ao perguntar-lhe dois anos depois para quando a alegria de ter um filho ouviu esta resposta – «Oh! Ainda agora gastei quatrocentos contos com a operação da minha cadela…»

O grande problema desta falsa questão é que os animais só poderiam ter direitos se pudessem ter deveres. Qualquer pessoa que tenha estudado os princípios fundamentais do Direito sabe isso. Uma coisa é pensar que os animais não devem ser maltratados; outra, bem diferente, é tentar fazer passar a mensagem de que os animais têm direitos. Dizer que os animais dos circos são maltratados já é outro domínio – delírio e alucinação

Um livro por semana 118

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«Salão Portugal» de Vítor Serpa

São 15 viagens à infância do autor: «O meu mundo era Lisboa; o meu país, Belém; a minha aldeia, a Travessa da Memória». Esta infância, tempo no qual não há preço nem para os beijos nem para as lágrimas, tem uma geografia: «A fronteira sul era o Tejo, a norte era a Ajuda, a leste era a Boa-Hora, a poente o Restelo. Os meninos que lá viviam não brincavam connosco nem faziam trocas dos bonecos da bola». Cromos entre o «não tenho» e o «fica para a troca»: «o Ramin, o Falé, o Rita, o Paz, o Rocha». Nesta infância há diferenças entre dona e senhora: «a mulher do peixe, varina velha e cansada, não se chamava dona mas senhora». Aprende-se o primeiro amor (Leila) que veio com o circo Filadélfia, chamava-se Dores e desapareceu numa manhã de nevoeiro. Aprende-se o segundo amor (Sissi) no Salão Portugal: «Na minha frente a deslumbrante visão da Romy Schneider, haveríamos de andar de mão dada». A Escola Primária («os heróis da Pátria eram vizinhos de Deus») faz a ponte para a memória do atentado contra D. José: «Saíra o rei por amor. Outros terão saído por ódio. Tudo acabou em cinzas e sal». Da montra da D. Vitória onde Cochise, Zorro, Silver, Jim Clarck, Buda e a Senhora de Fátima vivem em fantasia, a narrativa salta para a verdade da viúva de 26 anos com o marido morto em Tete que, farta de ser chamada «gaja, mulherzinha e reles» se lança à linha do comboio deixando um bilhete: «Amar-te-ei sempre. Ainda mais na morte do que na vida. Laura» No tempo definido («operários presos pela PIDE, crianças internadas com tuberculose») o registo dual do texto oscila entre a vida («o Matateu foi para o Atlético») e a morte: «Que orgulho pode uma mãe ter pela morte de um filho? Só porque militares fardados lhe chegaram à porta e lhe dizem que o filho morreu pela Pátria?» Entre a vida e a morte, fica o lugar do sonho: «Era a Baixa de Lisboa. As mulheres, elegantes. Os homens, ricos. Os carros, luminosos. As montras, apetecíveis».

(Editora: Dom Quixote, Capa: Henrique Cayatte, Fotos: André Alves e Horace Bristol)