Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 424

Do Rei Leão ao gato de Fernanda

Quando em 1994 a Disney realizou «The Lion King», a sua 32ª longa-metragem, quase ninguém reparou mas pela primeira vez a história baseava-se num argumento original e não numa fábula ou num clássico da literatura infanto-juvenil. Ao mesmo tempo a banda sonora era entregue a Elton John e Hans Zimmer, fazendo inundar o ecran de frescura em melodias e em canções inesquecíveis como «Cicle of live», «Hakuna Matata» ou «Can you feel the love tonight». Dois Óscares e três Globos de Ouro foram um prémio merecido mas o maior prémio é, ainda hoje em 2009, se ouvir com prazer e com agrado esta banda sonora. Diz a lenda que os gatos foram criados quando a Arca ficou infestada de ratos. Noé ordenou que os leões espirrassem e do espirro dos leões nasceram os gatos. Deles se diz que são símbolo da luxúria e da preguiça, da hipocrisia e da astúcia, da independência e da liberdade ou seja (numa síntese) «o animal feminino por excelência».

O gato de Fernanda não pára de olhar pela janela; a ser verdade a tradição, vai chover dentro de pouco tempo. Mas se em vez de chuva for mau tempo então o gato dormirá com as quatro patas escondidas debaixo do corpo. Desde sempre associados aos homens do mar (diz-se que foram os gatos dos marinheiros que em Veneza mataram os ratos que traziam a peste do Oriente) vejo no olhar de Fernanda, numa janela do seu terceiro andar, uma torre de comando de um navio. Os marinheiros acreditavam que o gato traria vento se saltasse e traria a chuva se espirrasse. No vidro da cozinha (da torre de comando do navio) Fernanda sorri, corre as cortinas e devolve com ternura ao olhar do gato uma nova carícia antes de se despedir a caminho do consultório.

Vinte Linhas 423

A carnificina, o pintor mongol e as canções de Vitorino

Hoje foi um dia com três fases distintas. Pela manhã, saudosos do dia 16 de Junho os homens da Polícia Municipal vieram fazer a faxina da loucura dos Sapadores Bombeiros perante a indiferença da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia. Entre o delírio e a alucinação dos Bombeiros municipais que «embirra» com alguns lugares perfeitamente passíveis de serem aceites para estacionamento, cabe aos homens da Polícia Municipal fazer o piquete da loucura, multando e bloqueando as viaturas que estão bem estacionados mas não para eles, os Sapadores do delírio e da alucinação. Mas para multarem na minha rua eles passam por situações ilegais (espaço de estacionamento ocupado com assadores) e imorais (8 lugares perdidos para um estaleiro) mas nada os detém. No Largo do Carmo fiquei a saber que o pintor Ruslam Botiev, o cavaleiro da Mongólia, fez um desenho a café com o rosto da Rainha de Inglaterra, desenho esse que já foi apreciado conforme informa a sua chefe de gabinete. Soube que graças a um vizinho que é casado com uma senhora de origem irlandesa, o desenho do meu amigo Ruslam foi colocado numa das paredes do palácio da Rainha. Ao fim da tarde estive no Teatro da Trindade para assistir ao primeiro de uma série de espectáculos de música popular. Foi pioneiro o Vitorino que cantou (as suas canções de sempre) e encantou (com as canções de José Afonso) ao longo de 60 minutos. Uma pequena plateia (os pioneiros são sempre poucos) cantou em coro o refrão de «Traz outro amigo também». Para a semana há mais: Aldina Duarte às 18 horas no Teatro da Trindade. Tristezas não pagam dívidas mas nada faz esquecer a carnificina da Polícia Municipal.

Vinte Linhas 422

Aquele golo do Hugo Viana em Mortágua

Há coisas inesquecíveis como aquele golo de livre do Hugo Viana em Mortágua, corria a época desportiva de 1998/1999. O Sporting ia jogar com a Académica mas, como os «estudantes» estavam de castigo, os jogos realizavam-se a mais de 50 quilómetros da Lusa Atenas. Mas não era do lado de Lisboa – em Condeixa, em Penela ou em Pombal. Era (tinha logo de ser) do lado de Viseu, em Mortágua, num campo pelado que parecia lixa nº 2. O castigado era a Académica mas quem cumpria o castigo eram os adversários. O capitão dos «capas negras» era o Zé Castro que se batia como um leão e o guarda-redes defendia tudo. Tudo menos o livre do Hugo Viana, quase igual ao livre do jogo Braga-Benfica. Dessa equipa faziam parte o Miguel Garcia, o Ricardo Quaresma, o Tecelão, o João Paiva, o Filipe Costa e o Mangualde – que está em Chipre, vi-o agora na televisão. O árbitro do jogo foi Carlos Xistra que fez uma excelente arbitragem, sem se deixar influenciar pelo público de Mortágua – muito fanático e quase todo afecto aos «estudantes». O golo que abriu a vitória ao Braga foi quase igual ao outro em Mortágua e mostra como às vezes um pequeno pormenor pode alterar o destino de uma carreira. Depois de ter sido campeão nacional em 2001/2002 o Hugo foi para Valência mas voltou por empréstimo aos «leões». Logo por azar, pouco tempo depois, marcou em Alvalade um golo ao Braga de Jesualdo Ferreira mas um árbitro de Portalegre invalidou esse golo. Com essa vitória o Sporting passaria para a frente do Braga e assim, com o golo anulado, o Hugo desmoralizou. E a sua equipa também. Aprendeu à sua custa, sofrendo na pele, que os árbitros são sempre influentes e, muitas vezes, são decisivos.

Canção breve para António Osório

Traz a casa das sementes

Com enxadas e forquilhas

Nos poemas diferentes

Foi casa de maravilhas

Entre a luz da Natureza

E o esplendor da Cultura

Seu poema é a incerteza

E não lhe cansa a procura

A raiz feita de afecto

Chegou à Academia

Na vindima do projecto

Faz falta a adega fria

Se a língua é um espanto

Milagre só igual à vida

Um voz que sobe ao canto

É clamor e terra erguida

Nas adegas e nos celeiros

Com sementes e cereais

Cabem precisos, inteiros

Os corpos dos animais

E se as palavras são pão

Dum forno de muita gente

Cada poema é um grão

E o campo quer semente

À porta dum hospital

Ou escondido na capela

Toda a clínica geral

Se fecha numa janela

Numa igreja londrina

Ou no museu madrileno

Mulher atrás da cortina

É um Vermeer sereno

Ou Goya de fuzilados

Corpos caídos sem luta

Quantos tiros disparados

Na infâmia que se disputa

Entre o nojo e o delírio

Entre a morte, seu mistério

Entre o hissope e o círio

Só um remorso é critério

Se a morte é ignorada

Surge o lugar do amor

A vida não vale nada

Se lhe falta esse rumor

Velásquez tinha meninas

El Greco perto do Tejo

No volume das esquinas

Um perímetro do desejo

Entre Palmela e Azeitão

No moscatel mais doirado

O poema dá uma razão

A quem o tem trabalhado

Poeta da arte e do ofício

Entre a pedra e a verdura

O poema é o precipício

Do que o sonha e procura

Balada do consultório

Na sombra do consultório

Onde o olhar é um mundo

Do envelope ao relatório

Numa gaveta sem fundo

A desordem dos ficheiros

Entre nomes e apelidos

Vives minutos certeiros

Se ordenas os perdidos

No telemóvel esquecido

Ficam várias mensagens

As palavras, seu sentido

Ganham força de imagens

Na nuvem que mais além

Empurra o vento da serra

Entre Sintra e o Cacém

Coração em pé de guerra

Das palavras não perdidas

Há resposta no outro dia

Num poema, duas vidas

Respira outra melancolia

A vida não é o concurso

Nem o prémio de lotaria

Entre memória e discurso

O teu olhar traz poesia

É promessa de relatório

Raio X duma tristeza

Na sombra do consultório

Telemóvel sobre a mesa

Fica um perfil registado

Do teu rosto, fim do dia

Eu levo para todo o lado

O que este olhar anuncia

Vinte Linhas 421

Juízes Sociais – as coisas não podem continuar assim…

Hoje tive mais um choque brutal daqueles que puxam a gente para baixo. Convocado para uma audiência de julgamento para as 14 horas num dos juízos e numa das secções do Tribunal de Família e Menores de Lisboa, lá estava eu pontualmente ás 14 horas. Esperei e ninguém me perguntou nada. Às 14h 25m dirigi-me à secretaria do juízo (que é noutro andar) e perguntei se a audiência tinha sido adiada. Respondeu a senhora, algo aborrecida: «Aqui não fazemos a chamada!» Ora bolas, careca de saber isso estava eu ou não seja juiz social desde o ano de 1993 – ainda era no velho palácio da Justiça, ali no alto do Parque. (Recordo com saudade a coluna «Um juiz no alto do Parque» do meu amigo Manuel Geraldo no Diário de Lisboa…) Pois isto é tudo fruto das circunstâncias, o pessoal anda nervoso e saem estas respostas. Então se até o polícia que está à porta me cumprimenta como «velho» frequentador, é claro que a senhora já me conhece mas não, teve mesmo que ser assim. Lá esperei até às 15h e 10m para constatar que dos quatro convocados (dois efectivos e dois suplentes) era eu o único presente. Fui dispensado pois só podemos funcionar «em asa» e eventualmente receberei 3 euros e 99 cêntimos gastando na ida e na volta 1 euro e 58 cêntimos. Não sei nem tenho que saber das razões de cada um (cansaço, desmotivação ou outros compromissos) mas a verdade é que passar uma tarde num tribunal a participar em nome do Povo no julgamento de uma criança ou um adolescente que precisa de um rumo para a sua vida não se paga com 3 euros e 99 cêntimos. Parece que somos muito civilizados e temos o Povo nos Tribunais mas depois pagar 3 euros e 99 cêntimos de ajudas de custo aos juízes sociais não lembra ao Diabo.

ESTRADA DE MACADAME

CLXXXVIII – «Eu cá nan sei fazeri mas sei pôr defêto!»

No tempo da «estrada de macadame» uma das situações que mais me chocou ao chegar a Lisboa no ano de 1966 com 15 anos de idade, foi a quantidade de pessoas que nas ruas me perguntava e me pedia para ler os destinos inscritos nas bandeiras dos autocarros e dos eléctricos.

Percebi então que, na verdade e apesar das minhas ideias em contrário, em Lisboa havia muitos e muitos analfabetos. E não eram como os de hoje que sabem ler e escrever mas se manifestam por grunhidos e monossílabos; eles não sabiam, mesmo, ler e escrever. Até aí eu tinha visto o analfabetismo como algo de folclórico, insólito e especial tanto em Vila Franca de Xira como no Montijo e também em Santa Catarina mas deparar com muitos analfabetos na capital do nosso país foi algo que me fez estranhar, chocar e surpreender. Não estava nada à espera.

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Vinte Linhas 420

«História de Portugal» de Maria Cândida Proença

A partir do pedido expresso da sua neta Marta, a autora organizou uma História de Portugal para os mais jovens em 7 volumes. Acaba de chegar à minha banca de trabalho o terceiro volume – «Descobrimento s e Expansão».

O grande desafio não é o conhecimento da matéria mas sim a linguagem usada, sempre no ponto de equilíbrio entre o rigor científico e a simplificação que o público-alvo (dos 9 aos 14 anos) pode sugerir. O texto final contou com o apoio de sugestões de José Mattoso, Teodoro de Matos e José Subtil.

Um aspecto muito curioso desta obra diz respeito ao grafismo; além das barras cronológicas e de mais de 700 fotografias, mapas e gráficos, surge nestas páginas a ilustração em 3 dimensões – a fórmula encontrada para, a partir de genuínas gravuras de época, reconstituir mais a carácter as cenas da vida quotidiana em Portugal e no Mundo nos séculos XV e XVI.

De notar que as palavras mais estranhas e difíceis (para os jovens) integram o texto a negro com chamada de atenção para o glossário de 94 termos no fim do volume.

O período de tempo a que diz respeito o volume fica bem ilustrado por esta passagem de Damião de Góis («Crónica de D. Manuel») na página 90: «Eu vi muitas vezes na Casa da Índia mercadores com sacos cheios de moedas de ouro e de prata para fazerem os pagamentos do que deviam por conta das especiarias que compravam. E os oficiais lhes diziam que voltassem outro dia porque não havia tempo para contarem o dinheiro, tanta era a soma que se recebia todos os dias».

(Editora: Círculo de Leitores, Capa: RPVP Designers/Booktailors, Mapas: Leonor Antunes, Revisão: Conceição Candeias, Coordenação: Jorge Garcia)

Vinte Linhas 419

A Câmara de Lisboa e os alucinados do lixo

Quando era membro da Assembleia de Freguesia detectei que as obras num prédio da Rua da Atalaia me tinham tirado a vista do Tejo. Na Junta e na Assembleia disseram que não valia a pena protestar porque «na Câmara eles não fazem nada». Aqui à porta tenho o muro dum colégio de freiras mas os alucinados dos Sapadores Bombeiros só deixam estacionar em 4 lugares quando podem ser 12. Em suma – má vontade, delírio e autismo. Mais abaixo há o colégio dos Calafates onde os mesmos Sapadores só deixam estacionar 2 quando podem ser 6 lugares. E a Câmara não faz nada para defesa dos moradores pelos 8 lugares perdidos na Travessa da Boa Hora. Mas restaurantes continuam a roubar lugares de estacionamento para colocarem assadores e mesas nos dias de mais freguesia sempre sem multa. Uma pessoa aqui da rua recebeu agora uma carta registada para pagar 90 euros de multa por ter deixado à porta um saco com papéis às 15h 25m dum certo dia de 2008. Incrível e espantoso. Alguém se deu ao trabalho de abrir o saco de plástico e vasculhar para descobrir um nome. Fez fotografias e instaurou um processo de contra-ordenação mas esqueceu-se de perguntar à pessoa em causa se conhecia o regulamento. Se tivesse procurado saber saberia que essa pessoa viveu 5 anos noutra cidade a tirar um curso universitário. Bastava isso para perceber que essa pessoa fez o mesmo que fazia em Évora onde o regulamento é diferente. Mas para esta gente não basta o delírio, é necessária a alucinação. São os alucinados do lixo. Fecham-se em gabinetes e decretam as multas – uma gente que não vive, apenas destrói a vida dos outros. Kafka não faria melhor; com esta gente entra-nos em casa o mundo do delírio e da alucinação.

As casas de Blackheath Park

São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

A outra metade é feita de tijolos

Tristes porque são todos iguais

Na sua tão repetida monotonia
À volta da avenida fica o arvoredo

Antigo como as casas dos guardas

Lembra um velho tempo de quintas

Com cavalos e carroças no mercado

Hoje só recordado aos domingos
Esquilos nos ramos, corvos na relva

De noite raposas fogem assustadas

Dos poucos táxis a circular na rua

Na escuridão fria da noite inglesa

À hora dos comboios mais raros
Envolvido nas rotinas das escolas

Levo na mão o meu neto de manhã

E vou buscá-lo perto do meio-dia

Pego na pasta azul com o seu nome

E levo o saco da fruta que ele espera

Todos os dias trocam o livro da mala

São elefantes, borboletas e ovelhas

Entram na floresta que eu lhe conto

E tremem de medo dos monstros

Como eu tremo de medo da doença
São todas de madeira e de vidro

As casas de Blackheath Park

Frágeis perante a neve a chegar

Tal como eu frente ao pâncreas

Que de súbito há-de ficar cansado

Tudo é intenso e frágil nos dedos

Maneira de eu dizer adeus à vida

Todos os momentos são preciosos

Para que o meu neto me lembre

E não se esqueça de me recordar

Vinte Linhas 418

As ameixas de Outubro

Na manhã de domingo, entre os numerosos suplementos dos jornais, por cima do som do saxofone tenor à porta da estação do comboio, para além dos grupos nas mesas do lado de fora do café a aproveitar todos os minutos de sol, surge o esplendor do mercado semanal de Blackheath. Ainda há pequenas quintas entre Dartford e Dover, entre Rochester e Whitstable, essa magnífica Whitstable com as suas casinhas de madeira junto aos últimos seixos da praia em frente ao início estuário do Tamisa.

Por isso os feirantes vendem ostras e peixes diversos, cenouras e batatas, couves e tomates, galinhas e carne de porco, leite e maçãs, empadas e flores, pão e ovos. Aos domingos, o espaço do parque da estação de caminho de ferro está livre de automóveis, as pessoas ficam em casa, às nove e meia as igrejas abrem-se às crianças e o seu ruído alegre é tolerado pelos celebrantes. Blackheath já foi uma terra de ninguém, algures entre Greenwich e Lewisham. Por isso as caravanas de ciganos ficavam aqui sabendo que nenhum município os iria expulsar. O mercado de domingo tem o aspecto das feiras antigas (carne, peixe, vegetais, leite, pão) mas sem os saltimbancos. Os furgões comerciais com refrigeração datam o mercado de 2009 mas, de súbito, as ameixas, as inesperadas ameixas de Outubro, instalam a dúvida no tempo. Em Portugal as ameixas aparecem em Junho pelo Santo António. De um momento para o outro a incerteza no calendário. As ameixas de Outubro, algures perto da cada onde viveu John Stuart Mill e onde Charles Gounod escreveu música, fazem a insólita pontuação do tempo nas manhãs de domingo, entre os jornais e o som do saxofone tenor à porta da estação do comboio.

Vinte Linhas 417

«Cacilhas» de Luís Alves Milheiro

A História não se esgota na posteridade dos poderosos – reis, príncipes, guerreiros e navegadores. Os oprimidos e anónimos, muitas vezes sem acesso à escrita, também são História e merecem que os livros os não esqueçam. No bairro da cidade, na vila ou na aldeia, o pulsar da vida justifica a atenção do historiador. Depois de «Cacilhas – A gastronomia, a pesca e as tradições locais» com Fernando Barão, Luís Alves Milheiro regressa ao tema Cacilhas com um livro a focar o comércio, a indústria, o turismo e o desenvolvimento socio-cultural e político desta localidade ribeirinha.

Cacilhas despertou nos séculos XIX e XX o interesse de famílias estrangeiras que aqui criaram empresas: os Buknall, os Shultz, os Armstrong, os Sygmington e os Ferguson na indústria corticeira; os Parry e os Oakley na construção naval e os Black na indústria de fiação e no negócio do carvão. Entretanto já desde 1797 funcionavam em Cacilhas os grandes armazéns de vinho de Bento José Pereira Júnior.

Essa actividade de armazenagem e venda de vinho, azeite, vinagre, cortiça e conservas de peixe surge nos livros «Os Tanoeiros» e «Cais do Ginjal» de Romeu Correia e nos quadros de José Malhoa, Manuel Henrique Pinto, António Ramalho, Alfredo Keil e João Vaz ou, ainda, num poema de José Carlos Ary dos Santos sobre os cacilheiros: «Leva namorados, marujos / soldados e trabalhadores / E parte dum cais / que cheira a jornais / morangos e flores / Regressa contente / levou muita gente / e nunca se cansa / Parece um barquinho / lançado no Tejo / por uma criança.» Dito de doutra maneira: os anónimos e periféricos em relação ao poder também podem ser – e são – história.

(Edição: Junta de Freguesia de Cacilhas, Apoio: Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, Capa: Alfredo Keil, Foto: Elsa Carvalho, Prefácio: Diamantino Lourenço)

Balada do meu amor

(sobre um tema de Pedro Homem de Melo)

O meu amor anda em fama
Mesmo assim lhe quero bem

Saltam pedaços de lama
Não acertam em ninguém

E batem a todas as portas
Profetas de voz medonha
Á noite às horas mortas
Não se percebe a vergonha

Do Aljube ao Limoeiro
Vai a distância de um grito
No olhar do carcereiro
Está tudo o que não foi dito

Entre Peniche e Caxias
Não pude escolher prisão
Na pele negra dos dias
Brilha o fogo da paixão

Fosse da boca a vermelho
Ou dos teus olhos escuros
Minha vida foi um espelho
Partido contra os muros

Nas prisões sou condenado
Sofro estranhas sentenças
Procurei por todo o lado
Só encontrei indiferenças

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Gazeta 149

«A oração é uma forma de poesia, a poesia é uma forma de oração»

Do tempo da Estrada de Macadame a oração que mais vivamente recordo é a «Salvé, Rainha». Soube outro dia numa conversa entre escritores que o poeta Mário Cesariny considerava esta oração um dos mais belos poemas de todos os tempos. Vale a pena recordar: «Salve, Rainha / mãe de misericórdia / vida, doçura, esperança nossa, salve! / A Vós bradamos / os degredados filhos de Eva. / A Vós suspiramos, gemendo e chorando / neste vale de lágrimas / Eia, pois, advogada nossa / esses Vossos olhos misericordiosos / a nós volvei. / E depois deste desterro / nos mostrai Jesus, bendito fruto / do Vosso ventre. / Ó clemente, ó piedosa / ó doce Virgem Maria. / Rogai por nós, Santa Mãe de Deus / para que sejamos dignos das promessas de Cristo.»

Esta revelação de um poeta da dimensão de Mário Cesariny sobre o valor poético de uma oração tão conhecida e tão rezada em todo o Mundo, levou-me a fazer, eu mesmo, uma reflexão sobre esta relação entre a poesia e a oração. O mesmo é dizer entre oração e poesia. Vejamos:

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Fátima Murta

Fátima Murta – Quando o poema se confunde com a oração

Desde sempre os poetas tiveram a coragem de chamar todas as coisas pelos seus nomes. Pois se a vida é tão breve e o amor tão incerto que outra oposição podemos fazer à morte além da criação de poemas, pequenos alicerces na grande casa da posteridade?

A posição do poeta é coincidente com a do crente. Ambos ajoelham em silêncio e ambos levantam do chão a palavra cansada para ligar de novo dois mundos separados pela distância, pelas sombras e pelo esquecimento.

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Crónica Açores

O pêlo branco de Faustino

O livro «Estórias de Alvalade» de Luís Miguel Pereira, editado pela «Prime Books» tem na sua página 137 um curioso depoimento de Artur Agostinho, apresentado como ex-relator desportivo, actor e empresário: «Relatei muitos golos do Travassos, do Peyroteo, do Tavares da Silva… golos de grande recorte técnico como os do Vasques ou aqueles golos do Faustino, a quem chamavam o Pêlo Branco.» Isto é o que está no livro mas Artur Agostinho nunca poderia ter dito isto. De facto Faustino da Silva Pinto, nascido em São Paulo no dia 30 de Agosto de 1937 e jogador do Sporting Clube de Portugal no tempo de futebolistas de grande categoria como David Julius, Fernando, Lúcio e Seminário era conhecido como o Pelé branco de São Paulo. O seu ídolo no Brasil era o grande Leónidas e Faustino veio para o Sporting depois de ter dado nas vistas no Palmeiras, no Santa Cruz e no São Paulo. Ora ser o Pelé branco não é o mesmo que ser o Pêlo branco. Esta não lembrava ao diabo. Só há uma explicação. A pressa era tanta que veio ao de cima o desconhecimento e a ignorância dos factos. Possivelmente o depoimento foi gravado e ao ser transcrito foi mal percebido. Daí Pêlo em vez de Pelé. Mas depois não houve um revisor talvez porque como diz um empresário de jornais «isso não é preciso porque os computadores já fazem a revisão.» Só que esse pobre diabo não percebe a diferença entre revisão ortográfica e leitura do sentido. O sentido de uma frase só uma pessoa o pode perceber. Os computadores apenas reparam nos erros de ortografia. Nada mais. Fiquemos pela frase de Fernando Pessoa -«o que não tem sentido é o sentido que tudo isto tem.»

Da poesia, da oração, do amor e da morte

Os Estados existem com seus rituais, suas fronteiras e seus hinos mas as pessoas, sejam essas pessoas cidadãos ou súbditos, não se regem pela mesma norma. Um exemplo: em Abril de 1897 disputou-se entre Madrid e Ávila o primeiro campeonato de Espanha de ciclismo de estrada, a prova que ficou conhecida como os «100 quilómetros de Ávila». Apesar de os favoritos serem oriundos de Réus, Valência e Torrijos, o vencedor foi José Bento Pessoa que veio com a sua bicicleta Raleigh duma cidade portuguesa chamada Figueira da Foz. Outro exemplo: já em 1829 o pintor Bernardo López Piquer tinha registado em óleo sobre tela a figura de Maria Isabel de Bragança, portuguesa, mulher de Fernando VII, grande aficionada das Belas Artes e fundadora do Museu do Prado.

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Açores Abril

Uma questão de palavras

Um dos grandes problemas do nosso jornalismo desportivo actual radica na oposição qualidade versus quantidade. Em quinze anos saltou-se de três jornais trissemanários (A Bola, Record e Gazeta dos Desportos) para três jornais diários com uma média de 46 páginas cada um (A Bola, Record e O Jogo). Ora não é possível fazer todos os dias nas actuais condições o jornalismo com alguma qualidade que se fazia nos jornais antigos. Dou apenas dois exemplos. O Sport Lisboa e Benfica foi fundado em 1908 mas festejou o seu falso centenário em 2004 com a complacência dos três jornais diários em cujas páginas nenhuma voz se levantou para dizer a verdade. Outro dia o Lyon venceu o Werder Bremen por 7-2 e o título de uma crónica não assinada num dos jornais desportivos diários era este: «Apetite foraz de Lyon» quando deveria ter sido «Apetite voraz de Lyon». Não é só um problema de dislexia transposto para o jornalismo. É também a ausência de revisores, essa classe perfeitamente dispensável para alguns administradores de jornais que dizem muito compenetrados a sorrir: «Os computadores fazem isso» Santa ignorância a dos administradores: os computadores podem vigiar a ortografia mas só um ser humano com a sua inteligência e intuição pode perceber o sentido. Como aquela história da expressão «chicória» humana atribuída por um jornalista ao Dr. Dias da Cunha em vez de escória humana que ele tinha dito de facto. Uma questão de palavras…

Luís Veiga Leitão

– Uma memória feliz em algumas histórias exemplares

De Luís Veiga Leitão guardo diversas memórias, todas felizes. Comecei por ter o gosto de incluir um poema seu no livro «O Trabalho – Antologia Poética» que organizei com Joaquim Pessoa e Armando Cerqueira para o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. Mais tarde encontrámo-nos em Vila Viçosa num encontro poético promovido por Orlando Neves e no qual participavam (entre outros) Mendes de Carvalho, Raul de Carvalho e Manuel Lopes. Num divertido almoço com um grupo de senhoras que gravitavam à volta dos poetas e queriam entrar no Círculo da Poesia Portuguesa, uma das senhoras dirigiu-se a Luís Veiga Leitão (que ostentava o seu nome na camisa e era de longe o poeta mais bonito do nosso grupo) perguntando com alguma ingenuidade: «O senhor fez parte do processo dos 254 e esteve preso em Caxias, não esteve?» A resposta do nosso poeta foi de um fino humor que arrasou por completo a senhora: «Não minha senhora! Eu sou muito mais antigo. Eu estive preso mas em São Julião da Barra!» A senhora em vez de sorrir com a piada que colocava Luís Veiga Leitão ao lado de Gomes Freire de Andrade no século XIX, respondeu apenas: «Desculpe!»

Uma vez pedi-lhe um depoimento sobre o poeta Daniel Filipe e ele escreveu um texto enxuto e sem emendas, um texto manuscrito entenda-se. Saiu numa edição especial do jornal «Poetas e Trovadores» que dirigi com Joaquim Pessoa e Travanca Rego em 1982 e 1983. Ainda hoje guardo esse belo depoimento sobre Daniel Filipe – um poeta quase esquecido e que é também um brilhante cronista.

Luís Veiga Leitão distinguia os amigos com cartas escritas à mão num modelo com um pastor a tocar flauta. Uma das suas cartas foi por mim oferecida para um leilão a favor da Associação Portuguesa de Escritores e foi arrematada no Fórum Picoas pelo galerista que era proprietário da Galeria 111 no Campo Grande.

Uma última história que recordo com ternura: o desabafo que teve para comigo em Moimenta da Beira depois de uma homenagem da Câmara Municipal que colocou uma placa na casa onde o poeta nasceu: «Não se sabe. Não se sabe. A minha tia tem a ideia de que foi ali mas isso também não interessa muito.» E é verdade. O que interessa é que foi em Moimenta que nasceu o poeta Luís Veiga Leitão, um grande poeta português do século XX e de sempre. Uma das vozes mais puras e genuínas da nossa tradição lírica.

Isto, já agora, se eu não estou em erro…

O livro da minha vida – Dia Mundial do Livro

«Uma abelha na chuva» de Carlos de Oliveira

Ler «Uma abelha na chuva» em 1969 numa Lisboa temerosa, vagarosa e desenhada a preto-e-branco foi, para mim, a descoberta de um escritor e de um mundo. Carlos de Oliveira escrevia romances como quem escrevia poemas, sem excessos palavrosos, com uma carpintaria essencial. As personagens movem-se na Gândara, a região onde o autor viveu a sua meninice: «terra areenta, infértil, dunas, lagoas pantanosas, pinhais, casas de adobe». As duas figuras-chave do livro continuam ainda hoje para mim inesquecíveis – Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre. E o conflito entre a aristocracia decadente e a burguesia em ascensão: amor e desprezo, ciúme e prazer, ódio e ternura. Notável é neste livro de 1953 como o autor pressente (mais de vinte anos antes…) o regresso dos «retornados» e os seus conflitos pessoais e sociais. Eu tinha dezoito anos e a minha paixão pela literatura nascera no Ciclo Preparatório em Vila Franca de Xira com os poemas de Cesário Verde e com os contos de D. João da Câmara e de José Loureiro Botas. O primeiro dava-me o Mundo, o segundo dava-me a Cidade, o terceiro dava-me o Campo no Inverno e a Praia no Verão. Mais tarde as fotografias de Augusto Cabrita e o filme de Fernando Lopes com Laura Soveral e João Guedes nos principais papéis vieram dar outra visibilidade ao livro em cujas páginas a morte duma abelha pode ser também a metáfora da morte dum certo tempo português. E este romance é a perfeita memória descritiva dessa mesma morte. Porque tudo aqui funciona em harmonia, o tempo interior das personagens, seus sonhos e angústias, mistura-se de forma feliz, acertada e completa com o tempo geográfico, uma aldeia perto das lagoas pantanosas mas a dois passos do mar onde as ondas das marés vivas levarão de noite o corpo do cocheiro assassinado. «Uma abelha na chuva» é um excelente ponto de partida para alguém descobrir o autor de uma das mais importantes obras de poesia e romance do século XX. Ainda me lembro, tantos anos depois, das últimas palavras do romance depois de alguém num grupo de mulheres chamar o Dr. Neto porque a Clara em desespero se tinha atirado ao poço da olaria: «A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

Nota final – Só o facto de pensar que estas palavras possam vir a ser traduzidas para brasilês deixa-me, desde já, arrepiado.