Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Balada da casa morta

Tem a data na chaminé
Mil nove e vinte e sete
O pedreiro vem de boné
E encosta uma biciclete

Chegam carros de areia
Uma carroça com cal
E a poça já ficou cheia
De água do meu quintal

Pois as pedras não são nada
Sem cal e areia em mistura
Na parede levantada
A negação da amargura

Uma casa construída
Num ano de confusão
Foi afirmação de vida
Hoje é só desolação

Caem telhas de canudo
E barrotes de madeira
Do telhado caiu tudo
Há entulho na soleira

Fernando Grade

Sobre

«Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos»

É com o maior gosto que escrevo acerca do trabalho poético de José do Carmo Francisco (JCF). Para além das muitas afinidades que temos como camaradas das Letras e, não obstante os cerca de oito anos a mais que apresento em relação ao autor de «Universário» – não posso deixar de referir que ambos fomos contemporâneos nos conceituados jornais desportivos «A Bola» e «Record», onde tivemos a honra de ser colunistas em secções individualizadas.

Este livro de agora («Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos» – Padrões Culturais Editora) vem na linha intencional, verbi gratia, de «Jogos Olímpicos» e de «Os guarda-redes morrem ao domingo».

O recorte estilístico e existencial de JCF orienta-se em função de um conceito bem concreto, não concretista, de poesia, e essa gramática pessoal nutre-se de uma aturada dissecação da realidade, como quem privilegia um mote, pega nele, observa-o sob vários ângulos, enfim, trabalha-o sempre até às últimas consequências, ao ponto em que o limão ficará sem sumo e, desta feita, o Autor passa à próxima temática estilizada.

Continuar a lerFernando Grade

Vinte Linhas 647

A primeira imagem nova de uma velha equipa

Depois do desastre tudo se recomeça. Teimosamente a vida responde à morte, a alegria deve ser reconstruída todas as manhãs ou então o Mundo seria o esplendor do desespero. Palavras e imagens, as primeiras mais à mão, as segundas mais difíceis. Vou tacteando instruções e faço como quem sabe me ensinou. Vamos a ver se resulta.

Vou buscar alento à velha equipa do Catarinense. Naquele dia da esquerda para a direita temos, de pé, o meu avô José Almeida Penas a guarda-redes. Segue-se o meu tio Joaquim Freire, tio de dois rapazes da fila de baixo – Juventino Freire, o primeiro da esquerda e António Freire, o quinto a contar da esquerda. O terceiro em pé é o João Ricardo, segue-se o Diamantino Luciano, filho do senhor Manuel a quem ninguém podia dizer «Cinco libras!». Segue-se um não identificado e, por fim, o Abílio Milhafre. Na fila de baixo temos a seguir ao Juventino Freire o José Leão, o José Coimbra e o Carlos que antecede o António Freire. Devo a Juventino Freire o gosto pelo jornalismo desportivo: era ele que assinava no jornal «O Catarinense» as crónicas de futebol. Ele e o seu bloco de apontamentos eram figuras do jogo – utilizava o parapeito da ponte sobre o Rio da Pedra como se fosse uma secretária. Tudo o que fiz no jornalismo nasceu dessa paixão que julgo que todos temos pelo jornal da nossa terra.

Eram quase todos músicos: meu avô e António Freire no filiscorne e na trompete, Juventino no saxofone contralto, meu tio Joaquim na tarola, José Coimbra nos pratos, João Ricardo no trombone e Abílio Milhafre no clarinete. Eram quase todos músicos e o seu futebol tinha uma espécie de música que subia do campo até à estrada e fazia com que as mulheres parassem de lavar a roupa para não perder o jogo no campo do Rio da Pedra.

Vinte Linhas 650

A Incrível Almadense em «Alfacinhas» de Alfredo de Mesquita

(texto dedicado a Luís Eme)

Alfredo de Mesquita (1871-1931) foi um jornalista muito conhecido e respeitado no seu tempo: escreveu nas revistas «Ocidente», «António Maria» e «A Paródia» e nos jornais «O Nacional», «Democracia Portuguesa», «Portugal», «Jornal do Comércio» e «Diário de Notícias». Natural de Angra do Heroísmo, foi diplomata em várias cidades como Roma e Hamburgo vindo a falecer em Paris. Um dos seus livros mais conhecidos é «Alfacinhas» e aqui registamos uma citação sobre as Filarmónicas:

«Existe na Outra Banda uma filarmónica que se chama a Incrível Almadense. Bem posto nome! Mas o exclusivo de incrível que essa se arrogou e que hoje já ninguém lhe contesta é que não tem razão de ser: porque incríveis são, em boa verdade, todas as filarmónicas de Portugal. Incríveis por tudo aquilo que nelas há de força de vontade, de obediência ao lamiré, de sentimento do compasso, da pertinácia do ensaio, da afinação e variado reportório. À frente da filarmónica, quando ela passa em alas, de calça branca vincada, cabeça alta, lira de oiro no boné de pala, pimpante e reluzente, só deixa o preconceito que corra a garotada expansiva, pulando de contente. Mas atrás da filarmónica todos nós corremos e vamos para onde ela for, sob o céu azul e o dardejante sol, entre explosões de bombas, risadas de foguetes, estoiros de morteiros – para a romaria e para o facto histórico, para a procissão e para os toiros, para o bodo e para a representação nacional, para o baile campestre e para a reivindicação. E isto hoje, ontem, amanhã e sempre! Sempre – não! Porque lá vem um dia em que em vez de sermos nós que vamos atrás da filarmónica, é ela, a filarmónica, que vai atrás de nós a soluçar Chopin…» – fim de citação

Poesia incompleta

Poesia incompleta e sempre assim será
Porque nunca se completa e se termina
Os poemas registam aquilo que não há
Pois confundem a praça com a esquina

E tudo de nós se afasta até certa distância
Lá onde os poemas nascem a cada dia
Por baixo os poemas velhos da infância
Por cima um rumor de paz e de alegria

Poesia incompleta e é por natureza
Há poemas inacabados a andar no ar
Na folha de papel fica a luz da mesa
Onde se inscreve o instável do lugar

Todos os dias de manhã o palimpsesto
Se renova no poema e na memória
Na linha de dividir não se vê o resto
Cada poema é uma conta provisória

Vinte Linhas 649

Muito longa memória para José Guilherme

No dia 29 de Julho morreu um grande amigo meu e eu não tomei conhecimento dessa morte nem no próprio dia nem nos dias a seguir. Soube hoje de maneira insólita, através do seu telemóvel. Falei com a viúva que me explicou um pouco do seu sofrimento mas nem o modo simpático como fui atendido me afasta do sentimento de ter andado distraído desta amizade nos últimos meses. Conheci o Zé Guilherme em A BOLA há muitos anos ainda ele não era delegado em Portugal da Federação Europeia de Historiadores e Estatísticos de Futebol. A vida deu algumas voltas e em Janeiro de 1997 fui para a redacção do Jornal Sporting. Grandes conversas nós tivemos nas manhãs de quarta-feira na Travessa da Queimada quando eu trocava um jornal «leonino» por um exemplar de A BOLA. Conversa aberta aos amigos Ivo, João Paulo e Lauro. Mesmo com o Zé Guilherme no RECORD continuámos amigos. Estivemos juntos em várias cerimónias como por exemplo a entrega (pelo Zé Guilherme) de um galardão da FEHEF na Casa do Brasil ao treinador Luís Filipe Scolari. Tínhamos em comum a paixão pela História e pela Estatística do Futebol. Mas hoje havia um motivo para trocar pontos de vista. Comprei os cadernos de A BOLA. Lá chamam «Campeonatos» aos torneios particulares e experimentais que, com o nome de I Liga, se realizaram no nosso País entre 1934/35 e 1937/38. A verdade é que entre 1921 e 1938 se disputou em Portugal o Campeonato de Portugal que, esse sim, dava o título de Campeão de Portugal. Não há dois campeonatos no mesmo ano desportivo mas como o Benfica venceu 3 das 4 Ligas entre 1934 e 1938, os historiadores dos encarnados resolveram apagar o Campeonato de Portugal para dar relevo à Liga. Pela primeira vez eu não tenho quem me dê razão. Ai que saudades, Amigo Zé Guiherme!

Fernando Pessoa na Rua da Madalena

A minha vida cabe dentro do escritório
E na sobreloja da leitaria alentejana
Nada nos meus poemas é provisório
Que escrevo nesta concreta geografia

Rua dos Fanqueiros, da Conceição
Rua da Madalena, dos Douradores
Abel Pereira da Fonseca ao balcão
Aquece o meu peito com os calores

Hoje Ofélia chama-se Inês ou Teresa
Sai às seis e desliga o computador
Cesário Verde aparece de surpresa
Na loja de ferragens fala ao vendedor

No Bairro Alto, no Hospital de S. Luís
O poeta antigo, afinal o mais moderno
É lúcido uma vez mais quando nos diz:
Eu preciso de morrer para ser eterno

Canção para um Império em S. Carlos

Dia de bodo não há querela
Senhor Luís venha à janela
Que um foguete está no ar
Venham sopas a preceito
O vinho de cheiro no peito
Esta alcatra é um manjar
E eu saúdo a Impanatriz
Luísa de mão dada com Luís
Dois confeitos num copinho
Eu cheguei do Continente
E no meio desta gente
Nunca me sinto sozinho
Eu peço a este Imparador
Papel de seda por favor
Tal como manda a canção
Peço loiro, cebolas doiradas
Toicinho em taliscas tiradas
Pau de cravo, pimenta em grão
Mas não canto ao desafio
Faço meus versos com brio
E não passo dum amador
Acabou a brincadeira
Viva a bela Ilha Terceira
Luís Bretão Imparador

Luís Veiga Leitão

Luís Veiga Leitão

– Uma memória feliz em algumas histórias exemplares

De Luís Veiga Leitão guardo diversas memórias, todas felizes. Comecei por ter o gosto de incluir um poema seu no livro «O Trabalho – Antologia Poética» que organizei com Joaquim Pessoa e Armando Cerqueira para o Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas. Mais tarde encontrámo-nos em Vila Viçosa num encontro poético promovido por Orlando Neves e no qual participavam (entre outros) Mendes de Carvalho, Raul de Carvalho e Manuel Lopes. Num divertido almoço com um grupo de senhoras que gravitavam à volta dos poetas e queriam entrar no Círculo da Poesia Portuguesa, uma das senhoras dirigiu-se a Luís Veiga Leitão (que ostentava o seu nome na camisa e era de longe o poeta mais bonito do nosso grupo) perguntando com alguma ingenuidade: «O senhor fez parte do processo dos 254 e esteve preso em Caxias, não esteve?» A resposta do nosso poeta foi de um fino humor que arrasou por completo a senhora: «Não minha senhora! Eu sou muito mais antigo. Eu estive preso mas em São Julião da Barra!» A senhora em vez de sorrir com a piada que colocava Luís Veiga Leitão ao lado de Gomes Freire de Andrade no século XIX, respondeu apenas: «Desculpe!»

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Vinte Linhas 648

Ainda os primitos franceses – o raio que os parta!

Já se foram embora os miúdos, já vizinha. São diabólicos. E não nos deixaram saudades. O mais velho numa esplanada, depois de beber apenas parte de um sumo de laranja, recebeu na mão metade de um pastel de nata e, sem dizer nada a ninguém, atirou o pastel para os pombos. Veja lá, o cabrãozinho.

Depois deixaram um caderno de telefones todo giro, daqueles da EXPO 98, ou seja do Oceanário. Não sabemos quem foi mas foi um deles. A verdade é que o caderno apareceu no telhado do prédio vizinho. Alguém o atirou. Com muita paciência o meu marido tirou o caderno, pegou em duas vassouras e empurrou devagar até à última telha. Depois com jeito lá fez subir o caderno entre os dois paus. Percebeu-se que é deles pelo primeiro número da lista: MAMAN 003395011 – os últimos algarismos não se percebem nem isso é importante.

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Vinte Linhas 646

Rua da Boavista – uma rua velha e triste como um ser humano

Esta manhã passei na Rua da Boavista no sentido São Paulo – Conde Barão e fiquei desolado. Uma rua que foi viva, cheia de gente atarefada, a rua por onde eu passei todos os dias úteis nos anos 90 quando trabalhava na Rua do Instituto Industrial, parece hoje morta, quase sem ninguém a cruzá-la, uma rua despovoada, muito triste, quase hostil.

A rua tinha muitas lojas, lojas grandes e pequenas de onde entravam e saíam homens de fato-macaco azul, trazendo nas mãos ferramentas e motores, torneiras e rebites, sacos de cimento e lata de tinta, as velhas lojas da Rua da Boavista estão hoje vazias e trancadas a cadeado. Em muitas delas o correio acumula-se sem ninguém o ler, muitos são os ferros que seguram o corpo esventrado dos prédios desocupados. Há um cheiro a mofo e a podre nos prédios abandonados desta rua que hoje percorri.

Já só passa nesta rua um eléctrico (o 25 dos Prazeres para a Rua da Alfândega) mas quando um qualquer manga- de- alpaca obscuro, fechado no gabinete, descobrir que o eléctrico não dá lucro, vai logo acabar com a carreira. Aqui passaram os carros eléctricos de Belém para o Poço do Bispo com direito a bilhete de operário se comprado até às sete e meia da manhã.

Uma rua na cidade é, afinal, como uma pessoa: também envelhece e fica doente. A Rua da Boavista é como uma pessoa: está velha e triste como se fosse um ser humano.

Deixei de lá passar em 1996 e voltei hoje mas o vazio assustou-me. Sei que o Mundo mudou mas não esperava que essa mudança fosse assim e tanto assim. Passar pela Rua da Boavista e encontrar uma rua desolada e vazia que outrora foi uma artéria viva e cheia de gente, não estava no meu programa.

Canção breve para dois retratos

Dois retratos tipo passe na cabina
Do centro comercial movimentado
Entre o passeio na quebra da rotina
E o som das gentes no café ao lado

Tomás mais habituado a fotografias
Mas Lucas olha de surpresa a cidade
Cinco anos são mil e oitocentos dias
Quatro meses são apenas novidade

Lucas no seu olhar confia e acredita
No Mundo à sua volta na praceta
A mãe que lhe dá ternura é bonita
O pai vê o retrato quando projecta

Um Mundo novo sai do estirador
Onde Lucas vai ter o seu lugar
Tomás é pai pequeno, protector
Na praceta onde o verbo é amar

Nota de Leitura

Aurélio Lopes – «Videntes e confidentes» (Um estudo sobre as aparições de Fátima)

O antropólogo Aurélio Lopes (que se estreou em 1995 em livro com «Religião Popular do Ribatejo») apresentou na FNAC do Chiado no passado dia 13 de Maio o seu mais recente livro «Videntes e Confidentes» – uma publicação da Editora COSMOS. Embora subintitulada «Um estudo sobre as aparições de Fátima» a obra engloba outros três aspectos: «Mulheres e Deusas», «Aparições» e «A construção do Sagrado».

Um dos temas mais curiosos tem a ver com a multiplicação quase milagrosa de testemunhos, muitos deles até contraditórios, como refere o escritor fatimita Sebastião Martins dos Reis ou seja, «ao sabor do critério estreito de uma interpretação pessoalíssima».

Na verdade Lúcia, nas entrevistas e inquéritos a que é submetida em 1917 e nos diálogos breves e simples que ao tempo estabelece, responde quando lhe solicitam um maior rigor nas declarações: «não me recordo já bem», «podia ter sido isso, não sei», «cuido que sim», «cuido que foi em», «talvez não entendesse bem», «parece-me que não» ou simplesmente não responde.

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O nosso Bairro cercado

(a Fernando Grade)

Hoje a nossa malta já não vai aos jogos

De hóquei em patins no ringue do Lisgás

Nem a Campo de Ourique pelo Passos.

Só a nossa marcha é que não desiste

E continua a ensaiar as suas marcações

Dois meses antes do desfile da Avenida.

Sabias? A nossa marcha ganhou o prémio

E foi o melhor poema dos bairros de Lisboa

Em mil novecentos e noventa e quatro.

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A Sé de Leiria ou 16 fragmentos de um esquecimento

Não vejo nesta Sé a caixa com os ossos do meu bispo
Nem hoje nem em Agosto de 1961 quando aqui rezei
Pelos exames de admissão ao Liceu e Escola Técnica

Estranhei os sinos da Sé e os galos madrugadores
Mais que o colchão de palha tão igual ao do quartel
Que iria ter anos mais tarde nas Caldas da Rainha

Comecemos: nasci numa terra de escritores esquecidos
José António da Silva Rebelo não é só bispo de Bragança
Também é autor dum livro hoje na Biblioteca da Ajuda

Lembranças sobre a felicidade de Portugal foi escrito
No seu tempo de administrador da Casa Pia de Lisboa
E foi sem surpresa dedicado a D. Miguel no ano de 1828

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Sobre uma paisagem de Cesare Novi

Turismo de habitação, agricultura
Nas janelas abertas à ventania
Quem chega a este cabo não procura
Porque descobre o alfabeto da alegria

O caminho vai dar ao arco das piçarras
No meio ficam as casas do caseiro
O mar imita o som das guitarras
Que entra na porta aberta do celeiro

Para dar ao tempo a luz da melodia
Que tem no mar o foco da vertigem
Península do sossego onde acaba o dia
Que tem na madrugada a sua origem

Aqui o tempo suspende os segredos
Do viajante que sente a serenidade
Deixa na mala a angústia e os medos
Entre o verde e o azul tudo é verdade

Vinte linhas 645

Os Príncipes do ferro-velho

Olhe vizinha, os meus primos franceses já se foram embora. Não sabe? São os netos da minha prima que é francesa e viveu em Portugal em 1971 e conheceu o meu primo na Ericeira. Pedi-lhe uma fotografia mas a revelação ficou para mais tarde. Até hoje. Os dois miúdos diabólicos são netos dela, e meus primos em terceiro grau. O meu marido chama-lhe os príncipes do ferro-velho porque se portam como se fosse príncipes mas são uns pobres mal-educados, uns tristes. Logo no dia em que chegaram, fomos busca-los ao Aeroporto e deixaram a porta do carro aberta. O meu marido não percebeu e andou com o automóvel de marcha atrás devagarinho e bateu logo num carro estacionado. Por acaso era de uma pessoa aqui da rua e como já tinha outras pancadas não houve problema. Os gajos devem julgar que são alguém. Não fecham a porta dos automóveis e não usam a escova do piaçaba na casa de banho. Não sei se pensam mas se pensam julgam-se alguém superior e o inferior vem atrás para limpar a porcaria deles. Fomos ao Museu da Marinha e a minha prima comprou algumas recordações – livros, miniaturas, t-shirts. Estava tudo num saco plástico e depois de comprar pastéis de Belém fomos para uma esplanada. Explicamos aos dois que a Avó ia comprar sumos de fruta para acompanhar os pastéis. O mais pequeno de um momento para o outro desapareceu no meio daquelas oliveiras entre a estrada e a linha do eléctrico. O meu marido ficou aflito e pediu ao mais velho para ir à procura do pequeno. Minutos depois apareceu com ele mas o puto não queria vir. Perguntada a Avó o que é que passaria pela cabeça do que fugiu numa cidade que não conhece e de uma mesa onde a esperava, respondeu ela: São crianças não pensam. No regresso no passeio a Belém ele bateu com o carro num pilarete. Vinha nervoso com os miúdos que são diabólicos e ele já não tem idade para aturar estes príncipes do ferro-velho.

Vinte Linhas 644

«Bumbo» – uma palavra que pode ter escapado a Afonso Praça

Ainda a propósito do livro «Dicionário do calão» de Afonso Praça, referido no «aspirinab» há tempos, ficou por mencionar um pormenor que pode ter escapado ao autor. No verbete da palavra «cena» refere-se a expressão «bumbos a rappar» mas a palavra «bumbo» não surge no dicionário com verbete próprio.

No dicionário da Sociedade de Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, a palavra «bumbo» tem um sentido diferente do que surge no verbete do livro de Afonso Praça: «selha alta em que expõe à venda o peixe no mercado da lota». Ora o que poderia ser impresso no Dicionário do calão seria algo como isto: «bumbo» – rapaz preto ou negro. A origem do uso pode estar no facto de em Angola se utilizar a palavra «bumbar» para designar o acto de trabalhar. Logo o «bumbo» será o trabalhador e, num certo sentido, o escravo do trabalho. Existe a expressão «trabalhei como um negro» para se referir «trabalhei muito». Um outro sentido pode estar associado à palavra «bumbo». A expressão «bumbar» significa «sovar, espancar» e «bumba» designa «pancadaria ou tunda». O contexto faz lembrar os versos de uma canção de Angola:

«Fuba podre, peixe podre,

pano ruim, cinquenta angolares

porrada se refilares»

Enquanto fui redactor efectivo do jornal Sporting de 1997 a 2006 ouvi muitas vezes a pergunta a jogadores «leoninos», muitos deles negros, nestes termos: «Quem é aquele bumbo numero sete deles?» Era eu que tinha a constituição das equipas…

Insulina

Esta caneta de insulina
Com que escrevo ao fim do dia
Não me dá e nem me ensina
Como desenhar a poesia

Num só registo uma verdade
Mudar o destino da doença
Por cima do rumor da cidade
Um livro marca a diferença

E descem de forma repentina
Os valores do açúcar em jejum
No sorriso de Ana Cristina
Se liga o privado ao comum

Rua do Salitre à esquina
Lá onde a dor fica vencida
Uma caneta de insulina
Muda de todo a minha vida

Vinte Linhas 643

Dissertação no Cais da Rocha Conde de Óbidos

Pelos olhos de Marta digo adeus à cidade onde passei o dia.

Cheguei no primeiro comboio da manhã e regresso a Cascais ainda com algumas horas de Sol – não por acaso o Turismo lhe chamou nos anos 40 a Costa do Sol.

Entre a estrada negra e o estuário azul do Tejo, o comboio é uma linha de escrita com o Bugio a servir de imaginado ponto final.

Termina o estuário e logo começa o oceano.

Na imagem dos navios porta-contentores que se dilui no horizonte, surge a memória dos grandes transatlânticos com centenas de turistas e dos grandes cargueiros com mercadoria a granel.

Pelos olhos de Marta percebo a ruptura de dois tempos determinados. No mesmo espaço sinto os anos 60 (com seus eléctricos de atrelado, seus autocarros de dois andares, seus táxis verde e preto) e sinto o tempo de hoje, o tempo actual, com o Metropolitano a despejar passageiros ansiosos na plataforma do comboio para Cascais.

Desapareceram os polícias sinaleiros.

Mudam os táxis, mudam os eléctricos, mudam os autocarros, muda toda a velocidade de quem se despede de Lisboa no fim de um dia de trabalho e parte em direcção em Cascais.

Na Costa do Sol. No olhar de Marta que projecta o sorriso de Carlota ao lado de Maria. Quem as vê ao longe julga perceber que são três meninas a caminho do mar, voltando as costas ao inferno do trânsito do fim da tarde.