Vinte Linhas 646

Rua da Boavista – uma rua velha e triste como um ser humano

Esta manhã passei na Rua da Boavista no sentido São Paulo – Conde Barão e fiquei desolado. Uma rua que foi viva, cheia de gente atarefada, a rua por onde eu passei todos os dias úteis nos anos 90 quando trabalhava na Rua do Instituto Industrial, parece hoje morta, quase sem ninguém a cruzá-la, uma rua despovoada, muito triste, quase hostil.

A rua tinha muitas lojas, lojas grandes e pequenas de onde entravam e saíam homens de fato-macaco azul, trazendo nas mãos ferramentas e motores, torneiras e rebites, sacos de cimento e lata de tinta, as velhas lojas da Rua da Boavista estão hoje vazias e trancadas a cadeado. Em muitas delas o correio acumula-se sem ninguém o ler, muitos são os ferros que seguram o corpo esventrado dos prédios desocupados. Há um cheiro a mofo e a podre nos prédios abandonados desta rua que hoje percorri.

Já só passa nesta rua um eléctrico (o 25 dos Prazeres para a Rua da Alfândega) mas quando um qualquer manga- de- alpaca obscuro, fechado no gabinete, descobrir que o eléctrico não dá lucro, vai logo acabar com a carreira. Aqui passaram os carros eléctricos de Belém para o Poço do Bispo com direito a bilhete de operário se comprado até às sete e meia da manhã.

Uma rua na cidade é, afinal, como uma pessoa: também envelhece e fica doente. A Rua da Boavista é como uma pessoa: está velha e triste como se fosse um ser humano.

Deixei de lá passar em 1996 e voltei hoje mas o vazio assustou-me. Sei que o Mundo mudou mas não esperava que essa mudança fosse assim e tanto assim. Passar pela Rua da Boavista e encontrar uma rua desolada e vazia que outrora foi uma artéria viva e cheia de gente, não estava no meu programa.

4 thoughts on “Vinte Linhas 646”

  1. Já há muito que não passo pela rua da Boavista ,mas houve tempos em que a rua me foi muito familiar. Morava nessa rua, num prédio com arcadas, o João Villaret e passei belas noites em sua casa ouvindo o piano do irmão e a conversa, sempre brilhante, do João.
    Já não é o eléctrico que me faz falta, é, sobretudo, a inteligência e a graça do Villaret de quem fui amiga e de quem tenho infinitas saudades.

  2. Obrigado pelo comentário, Maria João. Além de passar ali a caminho do trabalho na rua do Instituto Industrial, conheci e entrevistei o director do Museu do Brinquedo de Sintra que tinha o escritório nessa rua – Arbués Moreira de seu nome. Uma vida inteira a coleccionar brinquedos.

  3. já que não brinquei com os dink toys do villaret, pelo menos entrevistei o director do museu que tem bués de briquedos. pega lá oh maria joão que é para não vires pr’àqui com vilaretes.

  4. faz assim: guarda bem guardadinha a alegria, dela, que viveste com os teus sentidos e não a troques – mas podes conhecer a avenida, uma prima ligeiramente afastada, da boavista. :-)

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