“Talvez Cavaco e Alegre se safassem na Estónia”. Foi desta forma pouco elegante que Vasco Pulido Valente descreveu no “Público” o debate de ontem. E que grande injustiça cometeu! Ora leiam lá o CV do senhor Arnold Rüütel. E maravilhem-se com a sua sapiência em diversos domínios da agricultura. Ou com a sua fulgurante carreira sob o jugo da URSS. Acham que Alegre ou Cavaco alguma vez mostraram cometimentos que se comparem? E olhem que o seu antecessor, Lennart Meri, era cineasta e escritor. Não; aqueles dois nem na Estónia se safariam com facilidade…
Lorenin, Valium, Mandrax
Metáfora escaquística
O Super-Mário quebra a barreira do tempo!
Fantástico: ainda antes de ter acabado o debate, já a claque de Soares exarava uma “Impressão imediata de final do debate”. Muito menos fantástico: eu (e meio mundo, calculo) consegui adivinhar o que eles iam dizer. Que “enquanto Mário Soares não chegar a estes debates”, eles vão ser bué “convencionais”. Pois, pois.
Estado em que se encontra este blogue:
Vocês não imaginam como mudaram as leis da Física nestes últimos 25 anos…
Eu hoje acordei assim…
Post à Leonardo da Binci (Aspirina Boadora)
Upgrade (ou nem por isso)
Pneumáticos
The biggest paradox about the Church is that she is at the same time essentially traditional and essentially revolutionary. But that is not as much of a paradox as it seems, because Christian tradition, unlike all others, is a living and perpetual revolution.
Thomas Merton, New Seeds of Contemplation
A tradição mística do cristianismo é desconhecida de quase todos, crentes e descrentes. Os crentes passam bem sem ela, por ser trilho demasiado exigente e até perigoso. Os descrentes ficam sem compreender o espírito do Espírito, apenas julgando as aparências. Para complicar, o entendimento mediático da mística está contaminado pelo mercado da “espiritualidade”, onde entra qualquer trafulha ou manipulador de vigésima categoria. Para complicar? Para simplificar, que a mística sempre pediu silêncio e segredo. Para melhor se descobrir.
Uma das notas imprescindíveis no acesso à mística cristã diz respeito à sua importância política. Começa nas raízes judaicas, como tudo o que é cristão, onde o papel do profeta interfere directamente no rumo político da nação. E ainda antes, na primeva busca de um território para morrer. Mais tarde, já em regime católico, os místicos são vistos como ameaças à ortodoxia da doutrina (e por muitas, e excelentes, razões). Dar a César o que é de César não significa que César esgote a dimensão política, pode até ser precisamente ao contrário. Hoje, num Ocidente que se vai despedindo dos crucifixos, a experiência mística cristã continua igual a si mesma (ou seja, genesíaca) e cria bolsas onde se pode respirar a Tradição.
Qual tradição? A da liberdade. Qual liberdade? A da disciplina. Qual disciplina? A da obediência. Qual obediência? A da vocação. Qual vocação? A da virtude. Qual virtude?… Alto! Ou melhor, sursum corda.
Não precisamos de ser cristãos para sermos cristãos. Basta sermos rebeldes.
Pirofania (2)

Estas especulações nem tiveram tempo para medrar ou estiolar; naquele Verão de brasa logo a anomalia se repetiu. Uma vez. Outra. E mais. Muitas mais. Roménia, Austrália, Califórnia, Espanha, Grécia. Em quase todos os incêndios florestais de grandes dimensões acabava por se revelar o fogo de mais uma Palavra. Sem nunca fugir à companhia do silêncio: apenas o crepitar das chamas, os rotores dos helicópteros, as interjeições pueris das equipas de filmagem. Nada de bandas sonoras grandiloquentes, recheadas de Bach ou Messiaen. Tudo aquilo dava ideia de ser banal demais, pouco espaventoso. Mas não é assim que começam todos os grandes cataclismos, sem trombetas nem pirotecnia?
Sinais de alarme começaram a tocar em todos os locais importantes. Os media receberam discretas e tão insistentes recomendações para não dar demasiada atenção àquela óbvia impostura. Mas como evitar a inutilidade do dique quando as águas já passam por cima dele? Era tarde demais.
Já sem grande fé na Ciência, a atenção do público logo tratou de procurar respostas em locais onde elas sempre abundavam. E os profissionais da religião não se esquivaram. As principais denominações aceitaram de imediato a índole sobrenatural dos Incêndios. Os cristãos tiraram o pó às suas escrituras que tudo prevêem e explicam em rodriguinhos de mistério e sossego. “Operava grandes sinais, de maneira que fazia até descer fogo do céu à terra, à vista dos homens”; assim nos anunciava o livro do Apocalipse a chegada do Anti-Cristo. Os muçulmanos, sempre de sobreaviso contra os habitantes das chamas, concordaram pela primeira vez com os teólogos infiéis, clamando as palavras do Profeta: “guardem-se do fogo que foi preparado para os incréus.”
Os judeus discordavam do carácter demoníaco do fenómeno. O episódio de Moisés com a sarça ardente predispusera-os a topar D—s nos locais mais inesperados. Eles estavam já a coleccionar com sofreguidão cada Palavra, compondo o rascunho dos novos Mandamentos para um novo Milénio.
Aviso à navegação
Sou um dos excluídos do progresso. No ermo medieval onde vivo, não há banda larga para ninguém. Vai daí, estou condenado às lentas agruras do dial-up.
Agora, acabo de aderir à Tele2, que me vai custar menos de metade da minha anterior ligação, através do Clix. Resultado? Estabilidade total. Fim das aterragens acidentais em páginas de publicidade a produtos do Clix, quando procurava coisas bem distintas. Ainda por cima, isto agora parece bastante mais rápido.
Às vezes, o barato sai… mesmo barato
José António Saraiva, o Idiota

Antes de mais, uma explicação: se chamo “Idiota” ao venerando director do “Expresso” faço-o com a dignidade inelutável da maiúscula inicial. Denoto assim a intenção de o delarar não néscio mas sim produtor de uma grande Ideia. De uma Ideia quase genial. E olhem que se trata de um visionário que há uns meses proclamou como imperativo nacional a construção de uma nova capital. Assim sendo, o nível de comparação para novas Ideias era já muito elevado; mesmo assim, Saraiva conseguiu superar todas as expectativas.
E qual é a Ideia desta semana? Simples: que todos os candidatos presidenciais resumam as suas candidaturas a uma só. “Perante a fundada suspeita de que Cavaco pode resolver as coisas logo em Janeiro, por que não concentrar na primeira volta os votos da esquerda num só candidato?” E esperem, que a coisa ainda melhora: “As sondagens funcionariam, assim, como uma espécie de primárias”.
Nem o facto de tal peregrina proposta esbarrar de frente com o que as próprias sondagens parecem garantir incomoda o bravo arquitecto. Com efeito, até uma sondagem encomendada e publicada pelo seu jornal tratou de o desmentir antecipadamente: a multiplicação de candidatos à esquerda serve para “agarrar” votantes que de outra forma deslizariam para a abstenção, e quantos mais oponentes de esquerda Cavaco tem, menor é a percentagem dos votos que ele angaria. Nada disso convence o nosso profeta: “isso é verdade para um. Mas se desistirem todos a favor de um (…) o fenómeno será inverso”. Aqui, a prosa submerge numa terminologia quase esotérica, com menção a um misterioso “revigoramento”, a um “poderoso tónico” e mesmo à antevisão sonhadora de comícios unificados, com “outro impacto e outra alegria”. Estou mesmo a imaginar, quase a ver, a alegria esfuziante de Mário Soares num comício de Alegre; ou os alegres pinotes de Louçã a vitoriar Soares.
Três candidatos a desistir em favor do quarto porque as sondagens (supostamente), e o arquitecto (declaradamente), assim o recomendam. É de iluminado. E fiquem sabendo que “a ideia é tão simples que, se os candidatos de esquerda a rejeitarem, é porque não são sinceros quando dizem que o seu grande objectivo é derrotar Cavaco Silva”. Com efeito, a Ideia é mesmo simples, fruto de um intelecto simples. Tão simples que é quase simplório.
45 minutes
De há uns tempos para cá, a SIC Notícias tem amputado, sem qualquer tipo de justificação, um dos melhores programas da sua grelha informativa: o mítico 60 Minutes. Não sei a que se deve o corte, mas o certo é que em vez de quatro excelentes reportagens, agora oferecem-nos apenas três excelentes reportagens. E o programa que conta os minutos fica, como dizer, assim para o coxo.
Se o problema é da SIC ou da CBS, a estação que produz estes conteúdos nos Estados Unidos da América, é-me indiferente. Num caso como no outro, parece-me que o Mário Crespo, tão propenso aos auto-elogios por apresentar aquela pérola, deve-nos uma explicaçãozinha.
Um bom Natal para ti, João Carlos Espada
Receituário
Abbey Road: Modem Talking
A grande festa de todos os acidentes

Dia 15 de Dezembro, chega o grandioso ágape natalício dos Acidentais. O lustroso evento vai ter lugar no “Frágil” (sítio um pouco “multi-qualquer-coisa”, mas enfim…). Tendo em vista a antevisão da festarola acima ilustrada, aquilo promete. Cá a malta vai organizar-se (com base no esquema da palhinha mais curta) para enviar uma embaixada à altura.
Fraldas e avanços civilizacionais
Acabo de confirmar quão difícil é desfazer o progresso e regressar a formas mais simples de fazer as coisas. Para tal, bastou-me deparar com o meu filho em casa da avó, cheio de cocó e sem uma fralda à mão. Depois de tentar remediar o problema com uma fralda de pano e uns sacos do Continente, sem alfinetes de dama nem jeito para estas engenharias, rendi-me à evidência: é-me impossível sobreviver — ou sequer manter o meu filho seco — sem fraldas descartáveis.
Que miséria. Não tarda nada, ainda descubro que já não consigo divertir-me sem ter um computador por perto…
Pirofania (1)

Como esquecer?
Anos depois, aquele minuto veio a receber a trivial honra de marcar um escaninho singular na memória de quase todos. Sempre o mesmo ponto de interrogação: “onde estavas tu quando viste pela primeira vez?” A pergunta com raiva a preencher o local onde antes poderia ter sobrevivido um résto de curiosidade educada. Sim; como esquecer?
Facto: o Incêndio original eclodiu perto de uma pequena cidade da Ligúria, Pietrabruna. Depois, claro que fomos assolados por memórias dúbias, revelações contrafeitas, juramentos de maravilhas sem prova. Mas soubemos logo, sabemo-lo agora: as imagens de Pietrabruna tinham algo de único, uma espécie de vigor sem limites. E como não sentir a presença oculta entre as linhas de varrimento, o suave fantasma que assustava e fazia tremeluzir de esforço o fósforo cansado de milhões de ecrãs? Demasiado sinal para tão pouco ruído.
Assim foi o testemunho desfocado dos primeiros segundos de espanto sem remissão. Da queda de um desconhecido tão frio e inesperado sobre todos nós.
Sim; todos vimos vezes sem conta o fragmento de reportagem da RAI, quando o helicóptero com a câmara se eleva sobre os novelos amarelos de fumo que parecem também arder por dentro. Quando o jornalista se queda engasgado por tremendos segundos. Ali, na encosta onde as labaredas avançavam pelas encostas de pinhal como uma linha fronteiriça a marcar domínios de um monarca belicoso; como poderia surgir do lume algo que não mais destruição e desperdício?
Então, nasceu face aos olhos do mundo a clara mensagem que não podia estar ali. O Primeiro Vocábulo. A linha das chamas a moldar-se à caligrafia precisa de uma só palavra, tremenda de centenas de metros de fogo incontrolável. Parada, enorme, impossível, brilhando alegre contra o pano de fundo de uma noite sem Lua, contra todas as leis em que delimitámos a Natureza.
“Rimpianto”.
Rimpianto.
Arrependimento.
A palavra italiana que o fogo então soletrou nos olhos do mundo. E que até hoje permanece tatuada na sua memória. Como poderíamos alguma vez esquecer?





