Pirofania (2)

Estas especulações nem tiveram tempo para medrar ou estiolar; naquele Verão de brasa logo a anomalia se repetiu. Uma vez. Outra. E mais. Muitas mais. Roménia, Austrália, Califórnia, Espanha, Grécia. Em quase todos os incêndios florestais de grandes dimensões acabava por se revelar o fogo de mais uma Palavra. Sem nunca fugir à companhia do silêncio: apenas o crepitar das chamas, os rotores dos helicópteros, as interjeições pueris das equipas de filmagem. Nada de bandas sonoras grandiloquentes, recheadas de Bach ou Messiaen. Tudo aquilo dava ideia de ser banal demais, pouco espaventoso. Mas não é assim que começam todos os grandes cataclismos, sem trombetas nem pirotecnia?
Sinais de alarme começaram a tocar em todos os locais importantes. Os media receberam discretas e tão insistentes recomendações para não dar demasiada atenção àquela óbvia impostura. Mas como evitar a inutilidade do dique quando as águas já passam por cima dele? Era tarde demais.
Já sem grande fé na Ciência, a atenção do público logo tratou de procurar respostas em locais onde elas sempre abundavam. E os profissionais da religião não se esquivaram. As principais denominações aceitaram de imediato a índole sobrenatural dos Incêndios. Os cristãos tiraram o pó às suas escrituras que tudo prevêem e explicam em rodriguinhos de mistério e sossego. “Operava grandes sinais, de maneira que fazia até descer fogo do céu à terra, à vista dos homens”; assim nos anunciava o livro do Apocalipse a chegada do Anti-Cristo. Os muçulmanos, sempre de sobreaviso contra os habitantes das chamas, concordaram pela primeira vez com os teólogos infiéis, clamando as palavras do Profeta: “guardem-se do fogo que foi preparado para os incréus.”
Os judeus discordavam do carácter demoníaco do fenómeno. O episódio de Moisés com a sarça ardente predispusera-os a topar D—s nos locais mais inesperados. Eles estavam já a coleccionar com sofreguidão cada Palavra, compondo o rascunho dos novos Mandamentos para um novo Milénio.


Não que os homens do microscópio tivessem entretanto desistido. Numa experiência controlada, incendiaram uma enorme planície de trigo ressequido, em Israel. Os resultados deviam ter permanecido secretos; mas a fuga de informação foi imediata, pingado de satélite em satélite e chegando às agências noticiosas ainda lavrava o fogo. Com um novo substantivo mágico: “Crentes”. Mais explícita não podia ser a reprimenda.
Logo de seguida, a resistência cessou. Agora, todos aceitam, de alguma forma, que Ele quer falar connosco. Todos perscrutam as chamas em busca da Mão de Deus, mesmo sabendo que Ela nunca se vai deixar surpreender. E não falta quem tenha tomado como missão apressar o desfecho da Revelação, pegando fogo a tudo o que encontra pela frente. Mas só incêndios de grande porte parecem capazes de revelar a Sua escrita. Continuamos limitados ao pequeno léxico do nosso evangelho incandescente:

Arrependimento, formigas, forma, caçador, frio, hoje, névoa, fuga, veemência, esconderijo, cego, memórias, pedra, vista, farsa, vantagem, santuário, banquete, canção, pastor, barco, tarde, crença, completo, mal, esquivo, sangue, combustível, palavra, odioso.

Assim, sem a graça de uma proposição, sem a esperança de um verbo capaz de atar nós de sentido no meio de tanta corda solta. As tentativas de extrair frases, preenchendo os espaços em branco, foram muitas, mas sempre soubemos que de nada valiam; por certo que tanta maravilha não irrompeu neste mundo apenas para compor sermões corriqueiros, raspanetes tingidos de hubris, sacras banalidades. Não. Precisamos de mais Palavras, com mais Palavras tudo começará logo a fazer sentido, com mais Palavras a fala das chamas subirá por fim aos olhos dos Homens, por modesto que seja o seu entendimento.
E se já não vierem mais? Talvez nos tenhamos esquecido de olhar do ângulo certo, no momento certo. Por séculos e séculos. Em Pietrabruna, o acaso colocou uma câmara nos céus a tempo; só então aprendemos como ver e o que esperar. Talvez tenham lavrado Incêndios assim desde sempre. Talvez as respostas que nos faltam já nos tenham sido enviadas há séculos. Tarde demais, tão tarde para as procurarmos… É cego aquele que não sabe para onde olhar. E o que devia ter sido visto não passará de novo.

Hoje. De archotes em punho, o sagrados inquisidores não perdem a Fé. Com as suas flamas abençoadas, questionam montes, vales e cidades. O Mundo vai ter de confessar as mensagens que ainda teima em esconder. Se vivemos no pergaminho de Deus, o nosso destino só pode ser o conhecimento de tudo o que por aqui ficou escrito. Mil autos de Fé em busca de mais um pedaço de Oráculo. De mais uma sílaba redentora.

Hoje. Arde grande parte da Amazónia. E arde Nova Iorque, de onde quase todos fugiram a tempo. Pequim também se iluminou, manifestando a sua oculta Escritura. Há notícias de grandes revelações. O divino glossário das chamas está a crescer. Estamos tão perto de compreender.

Hoje. Os nossos pecados ascenderam aos céus num manto negro que nos condena à cegueira. Já não há helicópero capaz de entrar na mortalha de fuligem que fez descer uma noite sem fim sobre a Terra. Todos os satélites estão irremediavelmente cegos pelo fumo, incapazes de ler as Palavras que talvez ainda brilhem sobre as ruínas de Westminster ou entre os esqueletos calcinados da fauna do Pantanal. Mas agora nunca vamos saber. Tudo está consumido.

O Sol não regressa. Ao calor das chamas de Deus, vai suceder-se o frio. À busca ardente, o torpor álgido. A morte gelada a que o nosso orgulho sem freio nos condenou.

11 thoughts on “Pirofania (2)”

  1. Também gostei, muito. Só não lhe daria o final moralista, mesmo sendo um moralismo literário. Aliás, esta alegoria está mesmo a pedir um conto. Belíssimo material.

  2. Luís, isto não é um post. Este blog anda a seguir uns caminhos muito estranhos. Mas o conto é muito bom. Mesmo muito bom!!! E de outro modo não o tínhamos lido, portanto reconsiderando, é um post sim senhor, para chegar a todo o lado! E ainda bem que o escreveste!!!

  3. Luís,

    Se isso é apenas fragmento de ficção mais volumosa que andas a preparar, está muito bonito e meio-psicodélico. Cá por mim, dá-lhe mais forte, mas tem cuidado não partas um braço ou uma costela a algum cardeal. Se, por ourtro lado, o teu posto não passa de descrição de acontecimentos noticiados pela media, que é o que me parece porque fui sempre um fanático do Orson Wells, importar-te-ias de nos dar, se houver, um link sobre o assunto numa linguagem menos marcada pelo teu estilo..ammm.. inconfundível.

    Outra coisa: é impressão minha ou és tu que vais começando a escrever beijando menos a mão do mestre de cerimónias do materialismo, supremo-explicador-de-todas-as-coisas? Vamos arriscar uma ideia maluca e à pressa àcerca destes fogachos, muitas vezes imputados a pirómanos e negociantes de madeiras farruscas? Ok. Os OVNIs partem duma base secreta num dos picos mais altos dos Pirinéus. Há fotografias, tiradas por camponeses bascos, de intra-terrestres da área 51 parecidos com o rei Clister do blogue da Walt Disney. Usam lasers poderosos e movimentam-se de acordo com descobertas no campo da propulsão no vácuo já velhas de perto de 100 anos. O Tesla sabia disso. A intenção é nitidamente a de causar confusão na cabeça do supersticioso de origem mediterrânica.

    Saúde e não te afastes muito do receptor, pois estão a chegar notícias dos Estados Unidos (New Mexico e Arizona)a toda a hora.

  4. Bomba,

    Procuras factos e queres links? Estás mesmo a falar a sério, não estás?
    Incrível. Por mais estranho que seja o que se inventa, surge sempre alguém capaz de acreditar. Muitas religiões devem ter nascido assim. Faz-me lembrar uma história antiga que ainda hei-de aqui contar…
    Mas continua; és sempre bem-vindo aqui, homem!

  5. Luís, apreciei o “conto” mas acho que o final não me enche as medidas, está um tudo nada moralista, até esquisito para um agnóstico como tu – não te julgava tão antropologicamente pessimista em relação à condição humana.

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