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2 de Maio vezes 3 142

Durante este mês de crise política, balizado pelos discursos do 25 de Abril na Assembleia da República e o actual panorama de Portugal estar em cada vez melhores condições económicas, Pacheco Pereira escreveu dois textos que ofereceram consolo aos socialistas e provocaram azia e maus fígados nos direitolas, A crise do Governo, a crise do Presidente e a crise do jornalismo e Intoxicação da opinião pública. Escolho uma citação de cada, para ilustrar o acerto e relevância das suas palavras:

«No dia 2 de Maio, o dia da crise, em vários órgãos de comunicação o estilo e o tom político dominante foi todo o dia igual ao das manhãs do Observador, muitas vezes com o efeito repetidor das mesmas pessoas em vários órgãos de informação. Há um precedente a este efeito, o papel d'OIndependente que preparou a entrada de Paulo Portas na política, acabou com o CDS "centrista", e contribuiu para o fim do "cavaquismo". Na verdade, ninguém como a direita radical sabe fazer melhor este papel [...]»

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«Na ausência de qualquer trabalho jornalístico, que incluía, por exemplo, ter preparado citações, e imagens, com as versões anteriores dos acontecimentos e mostrando contradições e mentiras, ou ter construído uma cronologia com o que se sabia, o que daria uma base muito mais sólida do que usar interpretações capciosas dos comentadores e jornalistas na base de impressões, ou apresentar como "novidades" coisas que de há muito eram conhecidas, o papel de imediatamente "interpretar" o que estava a suceder foi entregue a comentadores e jornalistas-comentadores esmagadoramente de direita, com relevo para a brigada do Observador, agora também à noite na CNN. Repetiu-se o que aconteceu no dia da crise, a 2 de Maio, uma fúria incontrolada que, insisto, nada tem que ver com o jornalismo. Quando um diz mata, o outro diz esfola e, por fim, outro diz esquarteje-se.»

O Pacheco não é apenas um ex-político do PSD com altas responsabilidades durante o cavaquismo e depois no consulado de Ferreira Leite, nem apenas um dos comentadores mais famosos e caudalosos há décadas, nem apenas um historiador com relevante obra de investigação na área política, ele é também um autointitulado especialista em comunicação social e jornalismo. Da soma destes predicados, a que acresce o seu papel de perseguidor apaixonado de Sócrates, resulta uma coisa muito parecida com autoridade. Autoridade na matéria, nesta: o monopólio da direita no espaço mediático desde os anos 90.

A mesma, mesmíssima, direita que provocou uma crise política que teve o seu clímax (mas ainda não o seu epílogo) numa certa terça-feira. Um dia em que essa tal direita dominante — ubíqua na imprensa, das direcções às redações, dos comentadores fixos aos volantes — foi toureada por um primeiro-ministro que optou por não se deixar chantagear. O espectáculo foi tão imprevisto, tão impressionante, que no primeiro texto o Pacheco chega a exclamar “não sei se daqui a dez anos haverá uma escola ou um curso académico de Comunicação que estude o dia 2 de Maio de 2023, nas rádios e na televisão, e os dias subsequentes. De manhã à noite não encontrará jornalismo.

Só que há nas suas descritivas palavras grossa chatice. Resulta de ele ter dois pesos e duas medidas, o que deixa indelével nódoa de bosta no que pretende seja a sua imaculada honestidade intelectual. Ir até aos tempos do Independente para encontrar um precedente para o “2 de Maio” é falso seja qual for o ângulo da comparação. Então, essas capas geravam animação noticiosa nos telejornais mas não correspondiam a um domínio sistemático sobre todo — todo! — o editorialismo e comentariado em períodos contínuos de 24 sobre 24 horas, juntando-se o cabo e as redes sociais. Se a intenção fosse, realmente, a de encontrar um precedente outra data teria de ser convocada: 21 de Novembro de 2014, pelas 10 da noite.

A detenção de Sócrates foi planeada para ser um dos mais poderosos espectáculos mediáticos alguma vez registados em Portugal. Foi distribuído horas ou dias antes a certos jornalistas o argumentário que o Ministério Público iria apresentar ao juiz Carlos Alexandre, o que eles publicaram, comentaram e divulgaram em cima do acontecimento. Equipas de televisão foram avisadas para se apanhar o bandido a ser transportado para o calabouço. O comentariado entrou em êxtase, bacanal de vingança e ódio. Um político do PSD, amigo do juiz, usou o Facebook para agradecer a Deus. O resultado foi um misto de blitzkrieg com shock and awe, onde se pretendeu impor o julgamento instantâneo de um certo cidadão. Julgamento político para efeitos de linchamento social e condenação criminal. Julgamento criminal para efeitos de linchamento social e condenação política. Nessa noite, nos dias seguintes, nas semanas seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, que fez o jornalismo?

Que fez e faz o jornalismo a respeito das evidências de não fazer sentido deter, muito menos para efeitos da instigação de culpabilidade e destruição de direitos de personalidade, quem está a entrar no País? Ou de as suspeitas nessa data apresentadas como justificação para a sua detenção não passarem de hipóteses agora dadas como infundadas? Ou de a data para a sua detenção e prisão parecer ter sido escolhida não por algum motivo atinente à investigação mas antes ao calendário político das eleições de 2015, ocorrendo um dia antes de António Costa iniciar o mandato de secretário-geral do PS? Ou de não existir objectividade racional e legitimidade moral para a prisão preventiva em estabelecimento prisional, tendo sido um arbítrio do juiz a pedido do MP? Ou de toda a comunicação social ter sido conivente com os crimes cometidos por magistrados na violação do segredo de justiça, e os ter explorado política e comercialmente? Ou de se ter iniciado uma caçada judicial e mediática a terceiros com relações pessoais ou profissionais a Sócrates? Ou de nunca se ter provado qualquer acto corrupto, apesar da completa devassa feita aos registos públicos e privados onde apareceu o nome José Sócrates? Ou de o juiz Ivo Rosa ter desmontado, e publicamente explicitado, o que não passou do maior e mais obsceno embuste na história da Justiça portuguesa em democracia? Que opinião tem o Pacheco a respeito do trabalho jornalístico neste caso e suas avassaladoras questões para qualquer defensor do Estado de direito e da civilização onde queremos viver?

Nunca o saberemos. Ou melhor, sabemos. Acha bem. Se tem a ver com Sócrates, os métodos da direita radical são um refresco que o Pacheco saboreia deliciado. Já se contam 3 142 dias em que o jornalismo se transformou em auxiliar do Ministério Público por actos e omissões. Ao lado deste fenómeno, o 2 de Maio é pateticamente risível.

Pois. Mas o Frederico Pinheiro…

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Revolution through evolution

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Flavonol-rich foods like apples and blackberries can lower chances of developing frailty
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Colon cancer: Curcumin activates tumor suppressive signaling pathway
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Exercise seems to protect against major brain hemorrhage
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Consistent link between the seaside and better health
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Study reveals the persistent effects of corruption on trust and voting
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Dominguice

O primeiro, o mais decisivo, poder do tirano está na sua pessoa individual. Ele começa por querer ser tirano, na ausência desta condição não temos tirano. Mas sozinho não conseguiria tiranizar, precisa de ajuda. Então encontra aqueles que estão dispostos a servirem o tirano, recebendo benefícios da tirania imposta. Porque o plano do tirano não é nunca abdicar do poder sobre os outros que alcançou, ele recorre a qualquer tipo de violência disponível para se manter a tiranizar. Os círculos que o servem, e que se servem da tirania ou a tal ambicionam, concretizam a violência exigida pelo tirano. Sem a violência máxima à disposição, mesmo que só aplique parte dela consoante as circunstâncias, nenhum tirano o chegaria a ser, ou apenas efemeramente assim se conseguiria manter.

Ou seja, pela violência os conhecereis, aos tiranos e candidatos a.

Cavaco e a empatia

Cavaco convida Costa a demitir-se num discurso arrasador para os socialistas: são "mentirosos" e "incompetentes"

Expresso

Cavaco Silva arrasa Governo e projecta um futuro com Montenegro

Público

Cavaco Silva sempre foi crítico do atual Governo, mas nunca como ontem: o ex-presidente acusou o Executivo de incompetência, de hipocrisia, de mentir, de usar a propaganda para "desinformar" os portugueses.

DN

Cavaco acusa Governo de ser "especialista na mentira" e de falta de ética no caso TAP

TSF

Ex-Presidente da República lançou o mais intenso e violento ataque de sempre de um antigo presidente a um primeiro-ministro e Governo

Renascença

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O que restou destes e doutros títulos e cabeçalhos ditirâmbicos, passadas apenas 48 horas, foram gélidas cinzas. Na segunda-feira, o discurso de Cavaco continuava a ser arrasador mas a direcção do arraso tinha mudado — do Governo para Montenegro, agora ainda mais desautorizado após os elogios paternalistas do tutor. Marcelo assassinou o mensageiro, o escorpião a picar a víbora. E a mensagem, nas partes melhores, só alcançava ser insultuosa. Pifiamente insultuosa. Inane.

Num texto com 3531 palavras, não se encontra uma singela frase onde se prove, sequer se indique, que o Governo mente. Que alguém no Governo mente ou mentiu, algures. Injúrias, sim, em barda. Honestidade intelectual, decência, racionalidade, módica argumentação, népias. O registo foi sermonário, na intenção uma descompostura, mas a retórica foi adaptada ao ambiente de taberna onde bastava dizer que os outros gajos não prestavam para nada, eram a ralé do bairro, para garantir urros e boinas no ar dos bêbados presentes.

Mentalmente, Cavaco cristalizou-se no ano de 2008, quando planeou derrotar Sócrates através de Ferreira Leite. Daí voltar a aparecer neste seu discurso em 2023 a fórmula do “falar verdade aos portugueses” que sintetizava a estratégia do tandem PSD-Presidência para as eleições legislativas de 2009. A lógica é a de que a “verdade” é uma cena que ele tem lá em casa, uma coisa muito dele. Donde, se a tem, os outros não a podem ter, né? A cognição para se chegar à posse da “verdade” é primária, resultando que os efeitos pretendidos na sua proclamação são igual e inevitavelmente primários. Cavaco ignora o fracasso da sua estratégia, o impacto do além-Troika passista, a invenção dos protofascistas do Chega no âmago do PSD. Despreza, e ofende, a entrega ao serviço público de tantos cidadãos com responsabilidades governativas e parlamentares durante a pandemia e na guerra da Rússia na Europa. Por conseguinte, não consegue oferecer à audiência uma qualquer ideia que se relacione com a comunidade ou o futuro — ou que fosse com a realidade.

Tratar os socialistas por “mentirosos e incompetentes” nem numa juventude partidária se aconselha caso alguém tenha pretensões a fazer carreira política. Porque é uma exibição de estupidez. É garantia de derrota política. Vindo da figura historicamente mais importante da direita portuguesa, com obrigações institucionais no plano do decoro e do sentido de Estado por inerência dos cargos ocupados, fica como monumento à sua falta de empatia. Só nesse estado, onde é incapaz de valorizar a alteridade, onde está destituído de interesse pela própria humanidade, se compreende a sua preferência pela caricatura infantilóide e pela diabolização tribal.

Ora, a falta de empatia do Cavaco desperta a minha empatia. Gostei de o ver, admirei o esforço que fez para aparecer como general pronto para a batalha. Tinha folhas nas mãos cheias de banalidades e misérias para vocalizar, e levou a tarefa até ao fim com dedicação e brio. Fiquei contente por ele, a imaginar os elogios exaltados que recebeu nesse dia, no dia seguinte. Aposto que se sentiu vinte anos mais novo. Quarenta. E que sorriu de sorriso rasgado ao se apanhar sozinho. Nostálgico e ovante.

Cavaco e os irredutíveis socialistas

«Em minha opinião, o PSD não deve cometar o erro de pré-anunciar qualquer política de coligações tendo em vista as próximas eleições legislativas. Se o PS, que está em queda não o faz, porque é que o PSD, que está a subir, deve fazê-lo? É uma armadilha orquestrada pela central de comunicação socialista em que algumas boas ou ingénuas intenções têm caído.

[...]

Recentemente, durante praticamente um mês, não houve um dia em que na imprensa ou na televisão não fosse feita a demonstração de que o Governo mente. Perguntem aos vossos munícipes se ainda se pode acreditar em quem passa os dias a mentir. Por tudo isto, não surpreende que o Governo socialista, sem rumo, dominado pela trepidação do quotidiano político e pelas sondagens, governe o país aos solavancos. Não tendo obra para apresentar, considera que o importante é ter uma boa central de propaganda, com dezenas de funcionários e reforçada por especialistas externos, como já foi noticiado. O objetivo é desinformar, condicionar os jornalistas e iludir, anestesiar e enganar os cidadãos, procurando esconder a situação a que conduziram o país.»

Pessoa que sabe do que fala

Uma das comissões de inquérito parlamentar mais pícaras e folclóricas de que há memória ocorreu em 2010, por iniciativa do PSD de Ferreira Leite: “exercício da liberdade de expressão em Portugal”, na Comissão de Ética. Tratava-se exclusivamente de alimentar a chicana à volta do processo Face Oculta e da “asfixia democrática” — obscenamente risível patranha lançada por Paulo Rangel no discurso do 25 de Abril de 2007 na Assembleia da República, tendo usado originalmente a expressão “claustrofobia democrática” para se referir à nomeação de Pina Moura para a Prisa, a mesma Prisa que viria pouco depois a dar a TVI ao casal Moniz. Ao tempo, com um Governo vindo de perder a maioria absoluta, a utilização dos poderes de uma comissão de inquérito permitia horas e horas, durante dias e semanas, de teorias da conspiração, difamações, calúnias à descarada e fogo de barragem sobre o PS. Como hoje.

O PSD meteu nesse circo Paulo Fernandes (Cofina), José Eduardo Moniz, Manuela Moura Guedes, Felícia Cabrita, José Manuel Fernandes, António José Saraiva, Henrique Monteiro, António Costa (jornalista) e Mário Crespo, de forma a garantir palhaços em sessões contínuas. E eles cumpriram. A brigada do ódio a Sócrates deu espectáculo como nunca se tinha visto no Parlamento. Mas uma sumamente irónica descoberta dessa comissão não nasceu da maledicência copiosamente (pun intended) vertida por estas vedetas, antes veio na forma de um relatório a respeito do investimento do Estado em publicidade na imprensa. E qual era o jornal a sacar mais guito dos cofres públicos no auge da tirania socrática? O Correio da Manhã. Por uma simples razão: o critério do investimento resultava das audiências. Não havia qualquer interferência do poder político na coisa.

Em 2010, não existia um único órgão de comunicação social que se pudesse associar à agenda do Governo e/ou dos socialistas. Nem um. Era ao contrário, quase todos eram parceiros do PSD, inclusive na RTP. Apesar disso, foi possível lançar campanhas negras a partir das reacções de defesa de quem era atacado vilmente com crimes de fuga ao segredo de justiça e calúnias imparáveis. Daí o protagonismo então alcançado por um miserável blogue, miserável na audiência e exposição por comparação com a imprensa profissional, chamado Câmara Corporativa. E compreende-se porquê: é que ele era excelente na desconstrução da verdadeira asfixia da democracia, e porque não havia mais nenhum outro local onde esse tipo de conteúdos estivessem acessíveis.

Saltemos para 2023. Eis Cavaco a recuperar as memórias da grande batalha contra o socratismo. A figura da “central de comunicação” — que com o Pacheco, em 2009 e seguintes, consistia em dois ou três maduros no gabinete do primeiro-ministro a teclar num blogue — é agora agitada como um papão que tem “dezenas de funcionários” e até “especialistas externos”. Medo, alerta Cavaco, tenham muito medo. Porque os jornalistas vão ser iludidos, os cidadãos anestesiados, a “verdade” ficará escondida, declara corajoso. E isto apesar de reconhecer que todos os dias a imprensa e a televisão demonstram que “o Governo mente”. Isto apesar de as regras do jornalismo terem desaparecido do espaço público, citando o Pacheco, para dar lugar a uma intoxicação da opinião pública contra o Governo, continuando a citar o Pacheco.

Paradoxo? Não. O problema é que mesmo com toda a imprensa, televisão e rádios a trabalhar para criar crises políticas e entregar o poder ao PSD — e ao Chega, fatal aliado — ainda há irredutíveis socialistas que insistem em divulgar as suas ideias. A sua força vem de uma poção mágica chamada liberdade. Cavaco não descansa enquanto não destruir essa aldeia a resistir ainda e sempre ao império da propaganda direitola.

Cavaco iliba e elogia Sócrates

«Nunca um Governo desceu tão baixo»

Sua Excelência o ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva

Cavaco Silva talvez seja quem, a seguir a Sócrates, melhor conhece o socratismo. Esse conhecimento advém de ter exercido funções presidenciais logo desde 2006, tendo acompanhado os dois Governos de Sócrates a partir de uma posição privilegiada, única, onde lhe chegava qualquer informação que desejasse obter. Não só o Governo, como os partidos da oposição, como ainda os órgãos policiais e da Justiça, todas as principais entidades com responsabilidades de autoridade no regime entregaram em Belém relatórios, dados, factos. Nos 1938 dias de convivência, nunca Cavaco Silva encontrou uma só razão para demitir algum desses dois Governos ou dissolver a Assembleia. O regular funcionamento das instituições ficou assim atestado pelo Presidente da República então em exercício, alguém insuspeito de cumplicidade ou favores ao PS, muito menos a José Sócrates.

Consequências? Inevitavelmente, respeitando a honra e prestígio da sua palavra, segue-se que Sua Excelência o ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva foi ao 3º Encontro Nacional de Autarcas Social-Democratas com o evidente propósito de ilibar o ex-primeiro-ministro Sócrates das acusações de qualquer acto corrupto. Não viu, afiança, e nem sequer faz sentido suspeitar disso, garante. Quais atentados ao Estado de direito, qual quê. Tudo tanga, tudo judicialização da política. Caso contrário, ele teria agido no momento através dos seus poderes constitucionais, por um lado, e jamais apareceria agora a considerar que o actual Governo de Costa é aquele que desceu mais baixo na história da democracia portuguesa, pelo outro. Ora, este mesmo Governo de Costa apresenta excelentes resultados na economia e vem de inventar soluções de apoio aos pobres, aos trabalhadores e aos empresários apanhados numa pandemia e numa guerra de invasão pela Rússia na Europa, com consequências sistémicas avassaladoras no custo da energia, matérias-primas e alimentação. Para além disso, não existem suspeitas de corrupção que atinjam os seus membros. Se, mesmo assim, é o pior Governo dos piores, a implicação lógica é a de que os Executivos de Sócrates ganham na comparação. É a lição do Professor Silva de Boliqueime, uma inteligência superior que nunca se engana e raramente tem dúvidas.

Não satisfeito, quis ainda deixar um rasgado elogio a José Sócrates, ao lembrar que este em 2011 teve um “rebate de consciência em resultado de uma reflexão sobre a situação do País”. Ou seja, o ex-primeiro-ministro socialista agiu com um sentido de Estado exemplar, ressalta no subtexto. Foi um admirável patriota, deixando insigne legado moral que mereceu, finalmente, o justo elogio de quem sempre colocou o Imperativo Categórico kantiano como farol, mapa e Estrela do Norte da sua acção: Sua Excelência o ex-Presidente da República Aníbal Cavaco Silva.

Agora, à luz deste superlativo discurso, compreende-se melhor algo que deixou a direita perplexa nos idos de Fevereiro de 2013. Refiro-me à condecoração de Pinto Monteiro com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo por Cavaco Silva. Essa direita vinha já com vários anos de campanha negra contra o ex-procurador-geral da República, acusando-o de feitos fabulosos onde teria usado a Justiça para impedir que se investigassem os crimes de Sócrates. Como é que ele teria feito tal sem ninguém o conseguir provar, sequer indiciar? Isso a direita nunca explicou nem perdeu tempo a tentar. Bastava que se alimentasse o embuste para a pulhice já valer a pena. Perante esse torpe ataque, decidido a limpar a imagem do alvo de todas as infames difamações, a condecoração de Pinto Monteiro foi uma estalada cheia de classe nas trombas dos broncos e dos profissionais da calúnia — dada por quem sabia, e sabe bem, que é preciso nascer duas vezes (pelo menos, mas à confiança vá de nascer seis ou sete) para se ser mais honesto do que a sua excelsa pessoa.

Revolution through evolution

Forgetfulness, even fatal cases, can happen to anyone, study shows
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Sexually active women are not judged more harshly than men
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The science of attraction: why do we fall for certain people?
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Learning to save lives can start as early as age 4, according to new scientific statement
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Humanity’s earliest recorded kiss occurred in Mesopotamia 4,500 years ago
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Good news reports may emotionally buffer effects of negative news stories
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WWII vet finally walks at graduation
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Dominguice

O óptimo é inimigo do bom. Talvez este seja o ensinamento mais importante alguma vez descoberto pela humanidade (popularizado por Voltaire). Porque descreve na perfeição a lógica da evolução biológica, onde não existe estado final — óptimo — para um qualquer organismo, antes qualquer estado de cada ser vivo está sempre em precário equilíbrio com o efémero meio-ambiente. E assim inevitavelmente na sua descendência. Porque se aplica também perfeitamente à lógica da democracia, a qual pressupõe a inexistência de uma qualquer “verdade” política para além do próprio fundamento da democracia na liberdade e na lei. Daí propostas diferentes, até radicalmente contrárias, serem democraticamente legítimas — boas — caso respeitem a soberania do voto e do regime. E porque, afinal, pode ser um critério de saúde mental, guia para a criatividade prática, profiláctico contra ansiedades e depressões por igual.

O que é óptimo fecha, o que é bom abre.

Uma imensa Fox News

Sobre o caso do momento. O Frederico Pinheiro não podia levar o computador. Ponto. A partir daqui, o que interessa a hora das chamadas (feitas como se impunha que fossem), os membros do governo informados (como deviam ter sido), a entidade policial alertada (e foram alertadas várias) e outras questões ainda mais laterais totalmente irrelevantes para o caso, que mais ridículas se tornam na boca prolongada, e na desboca, dos deputados inquisidores?

A situação ocorrida no ministério foi insólita e inesperada, mas penso que muito clara para todos. O homem despedido quis levar o computador com ele (ainda não explicou porquê) e, encontrando resistência, forçou-o recorrendo à violência. As restantes assessoras e as funcionárias apenas podiam fazer uma de duas coisas: ficar a olhar para ele passivamente enquanto cometia o ilícito (tornando-se nesse caso cúmplices, pelo que também já estariam no olho da rua); ou impedi-lo de levar o computador: com as próprias mãos ou pedindo que as saídas do edifício fossem bloqueadas. Feito tudo isso, não é de esperar, obviamente, que o assessor corrido venha tecer elogios às ex-colegas ou ao ministro, muito pelo contrário, faz-se de vítima, e pouco mais haverá a dizer a não ser que se aguardem as conclusões do processo, sobretudo se houve interferências indevidas em documentos classificados, que tipo de informação não autorizada estava no computador e o tipo de sanção que será aplicada ao ex-assessor infractor. O ministro apenas o despediu, coisa que tinha todo o direito de fazer. Aliás, se me permitem um aparte, finda a geringonça, o que fazia ainda um militante bloquista no governo?

Por isso, a comunicação social já acabava com as suas inqualificáveis figuras, até porque já ninguém aguenta. Sobretudo ver jornalistas, praticamente todos (os mesmos que nos dão diariamente as notícias mais diversas), a tomarem os espectadores por acéfalos, a assumirem descaradamente o papel de opositores ao Governo, recorrendo, como disfarce e apoio, a todos os comentadores de direita ou de extrema-esquerda que puderem arrebanhar para a sua “causa”. A que propósito é que se põem a defender directa ou indirectamente através de insinuações várias o ex-assessor? Que tipo de imprensa e de comunicação social existe em Portugal? É tudo a Fox, a que na América está ao serviço do Trump, essa criatura deplorável? Uma, aliás várias “news network” em campanha permanente, escamoteando o óbvio ? A nossa comunicação social é, na Europa, uma vergonha. Jornalistas sem consciência profissional, uma ERC que não existe, ninguém que assegure um mínimo de pluralismo e isenção. Um circo, e de má qualidade.

Da presidência Santini à magistratura da pedrada

Marcelo poderia ter encontrado um meio de levar o PCP a aprovar o Orçamento para 2022, o Orçamento mais à esquerda de sempre. Bastaria que desse aos comunistas uma condecoração simbólica pelo seu patriotismo na forma de uma declaração pública de apelo e outra de aplauso. Jerónimo teria assim recebido a força para fazer valer a racionalidade na Soeiro Pereira Gomes. Só que tal cenário levaria Marcelo a um duplo escândalo, dupla traição para a direita: ficar como cúmplice voluntário e empenhado tanto do PS como do seu acordo com o PCP. Daí ter rapidamente optado por convocar eleições, talvez acreditando que nascesse uma qualquer conjuntura eleitoral que catapultasse o PSD para o poder. Saiu-lhe um pesadelo eleitoral, com a maioria absoluta do PS e o crescimento gigante do Chega.

Enquanto com um PS minoritário a aceitar políticas do BE e do PCP (depois de 2019, só deste último) o papel do Presidente da República assumia relevância estratégica para manter a estabilidade, salvaguardando um ambiente político onde o interesse nacional e o bem comum tivessem respaldo institucional, tal função desapareceu em 2022 com a estabilidade política a ser garantida exclusivamente pelo Parlamento. De imediato, Marcelo deu sinais de ter ficado desorientado, sem saber o que fazer com o resto do seu segundo mandato. Para agravar, a direita igualmente se tinha afundado numa nova fase da sua decadência com o fracasso de mais um líder do PSD, a fragmentação do eleitorado laranja tradicional e o crescimento brutal dos protofascistas do Ventura. Confuso, Marcelo achou, ou foi levado a achar, que sobre os seus ombros recaía a titânica incumbência de salvar o PSD e de se fantasiar líder da oposição (posto não existir oposição válida à direita, só incompetência e chungaria). E, portanto, começou a disparatar com cada vez maior insensatez ao longo dos meses. O corolário deste desatino cognitivo e deontológico aconteceu no passado dia 1 de Maio, noite dentro, quando deu a ordem para se chantagear o primeiro-ministro via Expresso. A crise política assim aberta poderia ter causado danos gravíssimos a Portugal e aos portugueses caso Costa não tivesse resistido à pressão de todos os lados, inclusive ao seu partido.

Ora, Marcelo é um dos melhores actores políticos da direita na actualidade, vai sem discussão nem carência de explicar aos néscios. Há até quem o considere o melhor de todos, incontestavelmente e a muita distância dos restantes. Quando uma figura deste calibre se revela uma ameaça ao regular funcionamento das instituições, em radical violação do seu juramento como Presidente da República, não é só o indivíduo que está em causa. É também o grupo de valores e interesses que ele representa, estendendo-se a responsabilidade a quem é cúmplice da sua ultrapassagem dos limites constitucionais e políticos como Chefe de Estado.

A cena pífia de estar numa homenagem à selecção de andebol em cadeira de rodas a deixar mensagens dúbias para os jornalistas destacarem como armas de arremesso político conseguiu ser superada negativamente pela cena patareca de ontem ter anunciado ir falar sobre não sei quê (leia-se: Galamba) e depois não falar mas afinal aparecer na rua em diálogo com os jornalistas só para dizer que nada tinha a dizer. É o retrato de uma pessoa que perdeu a noção do efeito das suas acções e omissões públicas, um político atarantado.

Que resta à direita? A legião dos editorialistas sectários, jornalistas pé-de-microfone, jornalistas militantes, comentadeiros linchadores e pulhas em geral. São a claque do Presidente que derrete a sua autoridade no desconchavo da verborreia e do Presidente que ameaça destruir São Bento com uma bomba que tem lá guardada em Belém — Presidente que depois passa os dias a abrir buracos na calçada da Constituição para oferecer pedras à turbamulta que faz pontaria ao Governo e ao PS.

Entretanto em Rilhafoles

«Não será só António Costa a tirar consequências da Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP. Marcelo Rebelo de Sousa, que ontem avisou que “o prestígio das instituições é o mais importante” e que “tudo o resto depende disso”, acompanha em estado de alerta a sucessão de audições no Parlamento e da avaliação que venha a fazer dependerá em grande parte a decisão sobre se e quando ressuscitar a tese de dissolução da Assembleia da República.

“A falta de alternativa política ao Governo deixou de ser prioridade” nos cálculos do Presidente, confirma fonte próxima, explicando que o seu foco passou a ser outro: ava­liar a dimensão do ‘pântano’, e não será por acaso que colou as audições parlamentares de quarta-feira, recheadas de contradições e exuberantes pormenores sobre os incidentes no Ministério das Infraestruturas, ao aviso de que “fundamental” é o prestígio das instituições.

Politicamente, a convicção em Belém é que se o ministro João Galamba não resistir à comissão de inquérito, não é ele que cai, é o Governo. Mas é cedo para aferir, e o Presidente, para já, vai carregando na tecla dos argumentos de natureza institucional que o levaram a defender junto do primeiro-ministro que Galamba devia sair.»


Marcelo-expresso

Perguntas simples

Depois da tentativa de cerco à sede do PS, que não causou a mínima perturbação nos restantes partidos e demais entidades supostamente defensoras da democracia, Ventura já reuniu as condições para lançar a milícia paramilitar do Chega, devidamente fornecida de camisas castanhas?

Consigliere de Estado

«Luís Marques Mendes considera que António Costa cometeu o “pior erro político de todo o seu mandato” ao “declarar guerra” a Marcelo Rebelo de Sousa. No seu espaço de comentário habitual na SIC este domingo, o ex-líder do PSD sublinha que, ao manter João Galamba enquanto ministro, António Costa mantém um “cadáver político que ainda mexe”, mas que já perdeu a autoridade.»

Fonte

Esta personagem é Conselheiro de Estado por escolha directa de Marcelo. Aqui está ele na sua missão de emporcalhar o espaço público a partir de um canal de sinal aberto. Repete, prolonga, alarga o inconstitucional ataque do Presidente da República ao Governo em funções. Chafurda na raiva de boicotar um ministro. Expõe-se como agitador profissional para quem vale tudo na política. Caga d’alto no interesse nacional e no bem comum.

Mas o pior nem é o decadente papel a que se entrega, em conluio com quem lhe dá antena e alta influência. O pior é a direita actual não parecer ter quem pretenda ser respeitado pelo sua decência e coragem.

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório