Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Revolution through evolution

Kindness is a top priority in a long-term partner
.
Females tend to take risk more seriously, but their voices often go unheard
.
Married CEOs are more committed to social issues than non-married peers
.
How happy couples argue: Focus on solvable issues first
.
Advice for introverts: Fake it, and you’ll be happier
.
Inequality: What we’ve learned from the ‘Robots of the late Neolithic’
.
The Amazon and You
.
Continuar a lerRevolution through evolution

«A Herdade» – estão a brincar comigo

 

Penso que todos achamos que seria bom alguém fazer um filme sobre o Alentejo rural partindo das transformações por que passou uma herdade específica (e os seus proprietários ou a sua propriedade, o seu uso ou outros aspectos) desde o salazarismo até aos nossos dias. Eu acho que seria. Bom, interessante e importante. Alguém devia ser capaz, agora que alguns realizadores portugueses já começam a perceber o que é um filme e a quem se destina. Pois bem, surgiu agora aí um cuja publicidade diz que o faz, isso de apresentar as transformações, etc., e que até se candidatou ao festival de Veneza, onde ganhou um prémio da crítica independente, e se vai candidatar ao óscar de melhor filme estrangeiro e é anunciado em todo o lado e tudo isso. Mas tenham lá calma.

 

Fui ver. (Atenção: para quem tem intenção de ir ver o filme, vou falar do enredo!)

Cinco minutos de filme e eu a duvidar se deveria ficar. É que comecei a pensar numa famosa oliveira, filmada durante 10 minutos, sem mais, penso que na abertura de um dos filmes do Manuel de Oliveira. Únicas diferenças: aqui são menos de dez minutos, trata-se de um sobreiro e tem um homem enforcado. Porquê? Não sabemos. Se alguém percebeu, que me diga, por favor. E eu que fiquei sentada provavelmente por causa da expectativa assim criada.

Enfim, estava, então, dado o mote. Seriam três penosas horas, três, de passos do quarto para a sala, na sala para o bar, no terreiro em frente, silêncios, olhares, lindos cavalos (quase sempre nos estábulos), uísque, cigarros (uísque e cigarros constantemente, até à náusea, eu que não fumo), uma herdade como paisagem e uma total ausência de história e muito menos de história daquela herdade e dos seus problemas. Era o anúncio, lembram-se? Mas, perguntarão vocês, ao menos sabe-se o que levou aquele rapaz ao desespero? Não, já tinha dito. Nada. Não interessa. Possivelmente o realizador ouviu dizer que a taxa de suicídio no Alentejo era alta e daí a filmagem desse quadro. Mas, senhores, estamos no Alentejo da Comporta, não no coração tórrido da vertigem das searas e dos 45 graus à sombra. Mas vamos.

 

Nessa primeira cena, há um miúdo que é chamado pelo pai avô (? dizem-me nos comentários) para ver o irmão pai enforcado e ao qual é transmitida a máxima de que tudo acaba e que, quando acaba, acaba mesmo. O miúdo ouve, afasta-se para umas ruínas na outra margem do lago e pronto, é tudo o que há a dizer e a fazer quanto àquele suposto drama. Esse miúdo será depois (penso eu, posso estar a ver mal) o Albano Jerónimo, aliás João Fernandes, proprietário da herdade a partir da década de 70, supostamente um homem mal disposto com a existência, mas que ao mesmo tempo adora a vida no campo, não tem problema algum com o pessoal e é danadinho para a brincadeira, pois corre a eito (talvez sem se rir, querem que acreditemos) tudo o que é mulherio na propriedade, incluindo a mulher do capataz. Alto aí! A mulher do capataz? Drama nisso, não? Eles andam sempre juntos. Mas qual drama, amigos? Nenhum. Tudo numa boa. O bom do Joaquim, o capataz, gosta um bocado demais de vinho, possivelmente negligencia os seus deveres conjugais, mas se a mulher teve um filho com o patrão, tudo bem. Qual é o problema? Ela é boa rapariga e obediente. Ai, minha nossa!

Como é que não vim embora ao intervalo, ou até aos cinco minutos, e me deixei ficar até perto de uma crise de nervos? É que a última parte ainda consegue ser pior do que a primeira. Se na primeira ainda aparecem umas questiúnculas, muito mal engendradas, diga-se, (só para dizer que estávamos no fascismo) com o governo de Marcelo Caetano e seus agentes, um baile em Lisboa com música dos anos 70 e uma hipótese de paixão escaldante com a cunhada (ná, não tem qualquer desenvolvimento, nem “flasbacks” nem nada, e olhem que é a Vitória Guerra), na segunda, após um salto gigante do 25 de Abril para os anos 90 sem que nada de relevante se tivesse passado naquela herdade, nada de nadinha, nem com os trabalhadores, todos mansinhos, incluindo o suposto comunista, nem com a produção nem com nada, a “história”, sem maneira de apresentar dados sobre uma eventual quebra de vendas, ocupações, crise económica, sei lá, má gestão e outras circunstâncias que poderiam ter levado ao declínio, passa a concentrar-se no melodrama telenovelesco do filho que não era filho do capataz mas do patrão (coisa que toda a gente sabia e que o realizador não escondeu de ninguém desde a primeira hora) e que se enamora da filha legítima do mesmo. Ora, baseando-nos no que o filme nos mostra, isto é não só altamente improvável, pois tinham sido criados todos juntos (três miúdos) desde que nasceram, como irmãos, como também não era novidade nenhuma e teria certamente já sido acautelado. O mais cómico (às tantas, uma pessoa já se ri) e desesperante é que, à medida que o filme carrega neste forçado drama final de recurso, menos as personagens falam, mais se calam e mais olham, estáticas. O cúmulo deste comportamento é atingido quando a filha vê o pai a pegar numa pistola que estava na gaveta e sair de casa, e a rapariga não tuge nem muge, não faz uma pergunta que evite uma potencial tragédia, não faz um gesto, nada. Fica a olhar para o pai a sair com a pistola e pronto, ele lá sabia da vida dele. (e o facto é que ia só ali abater o cavalo ferido, por ter caído, mas ela não sabia, caraças)

 

Bom, já perceberam. Para mim, tirando a paisagem, os cavalos e o actor principal, que é bonito, e o filho mais novo, também bonito, nada neste filme se aproveita. Uma estopada. Uma fraude. Três horas. Um argumento e um guião escritos em cima dos joelhos e às três pancadas. Tirando os dois protagonistas, ele e ela, até o “casting” restante é mau. A actriz que faz de mulher do patrão é expressiva, mas o problema é que não estamos já na era do cinema mudo e a personagem dela é, como tudo o resto, indefinida e inverosímil e sobretudo sem palavras para dizer. Gosto do Albano Jerónimo, já o vi e elogiei como actor de teatro, mas até ele devia ter pensado melhor antes de se meter em argumento tão pobrezinho. Grande ambição, enorme publicidade e sai-me isto. Acho que até as telenovelas já fazem melhor.

 

Mas, é claro, sintam-se à vontade para me dizerem que não percebi nada, nem os simbolismos nem a história, nem a linguagem cinematográfica nem nada. Eu lerei o que dizem, mas não. Muito mau.

 

Quentes e boas

  1. Vamos fugir. Sim. Para longe daqui. (E não é a cantar)

 

Então era isto que a Cofina queria? Comprar a TVI? Foi por isso que andou a acusar o Sócrates de andar alegadamente a conspirar para, através da compra da TVI por gente amiga, “controlar a comunicação social”?

Todas as acusações de há uns anos afinal eram para guardar a TVI em banho Maria até lhe poderem deitar a mão e transformarem a informação em Portugal num gigantesco Correio da Manhã. Uma Fox News à portuguesa. Lembro que o Correio da Manhã é o jornal do crime, um criador de alarmes sociais falsos, um tablóide sem escrúpulos, sem ética, sem nada. Um imenso pelourinho para abater quem se detesta. Um jornal que ainda há uns dias defendeu que os julgamentos se devem, sim, fazer na praça pública.

 

Bem podem dizer neste momento que manterão jornalistas, linha editorial, total independência e tudo de bom da TVI (enquanto dizem que só ficará quem quiser aderir “ao projecto”, claro). A gente sabe como é. Para contraporem algo de jeito à CMTV, teriam que dar cabo desta. Portanto, passarão a ser uma e a mesma coisa.

 

Mas o panorama é de desgraça. Se pensarmos que a única alternativa que existirá será a televisão do PSD, a SIC do mano Costa e do imberbe do Ferrão, isto fica mesmo, espera, como era? Claustrofóbico? Era isso que diziam no tempo do Sócrates. E não havia claustrofobia nem asfixia nenhuma. Apenas a direita a não estar no poder. Mas a deter a comunicação social. Agora é mesmo. E ninguém se agita e ninguém faz nada. Eu não tenho dinheiro. Mas o Ronaldo, li de raspão que gostava de ter uma televisão. Então? Não atirou ele o microfone do “CM” à água?

Devo dizer que ainda está a TVI nas mãos da Prisa e eu já quase deixei de ver televisão. Agora, se não fugir, vou andar pela natureza ainda mais tempo, parece-me. Na que o PAN não conhecer.

 

  1. Cabeças loiras

 

Deveria haver um limite para as modas. Não sei se esta mulher ainda vai a tempo de apanhar a onda de cabeças leves (e, algumas, loiras) a ocuparem lugares de poder político, mas a Cristina Ferreira admitiu que gostaria de se candidatar à Presidência da República. A sério. A esganiçada da Malveira (nada contra a Malveira, bela terra) a estudar a Constituição e a ouvir os partidos políticos. A discursar na Assembleia e perante outros chefes de Estado. Espero que, até lá, a “trend” já tenha passado. Se não, uma pata-brava na Presidência e eu a fugir daqui com vergonha.

 

  1. Ai Ana Gomes

 

Que raio de coisa deu à Ana Gomes? Quero dizer, coisa mais forte do que o habitual. Agora erege o “hacker” Rui Pinto em herói só porque o rapaz penetrou na correspondência digital de alguns clubes de futebol que ela considera lavandarias de dinheiro? E o resto? E a rede informática da Justiça? E a chantagem com os dados? A extorsão?

Será provavelmente uma das primeiras contratações da Cofina-TVI.

 

  1. E, por falar disto, o Edward Snowden por acaso pensa que vai ter um destino muito diferente do Assange? Diferente para melhor? Não vai. Melhor manter-se onde está (mas parece que só tem autorização até 2020).

 

  1. As golas anti-fumo.

 

Que “timing” para reaparecerem na agenda mediática, não foi? Flagrante. Era o secretário de Estado que tinha que ir embora? O Carlos Alexandre estava ansioso? E então? Está bem assim?

Outra coisa: já não se disse e provou que afinal as golas não ardiam? Que apenas abriam buracos? E que, para isso, era preciso estarem praticamente em cima do lume, coisa para que não foram feitas de todo?  Pois é. Disse-se e provou-se. E no entanto as televisões continuam a referir-se às ditas como “as golas inflamáveis”. Sabe ou não sabe o Carlos Alexandre que a comunicação social faz o que ele quer?

 

 

Se calhar, a roupa cresce nas prateleiras das lojas

A decisão da Universidade de Coimbra de proibir a carne de vaca nas suas cantinas entusiasmou e de que maneira o líder do PAN. Política com coragem foi como classificou a medida. Vi todos os debates televisivos em que participou o André Silva e, de facto, deu para perceber que “proibir” é um verbo com muita saída no seu partido, mais ainda se o assunto for o da produção de comida, tanto de origem vegetal como animal. Deve ser por isso que se esquece que entre proibir e produzir de forma sustentável há, por exemplo, o investimento em ciência e tecnologia. Algo que não o vi sugerir de forma enfática nos debates. Não deve querer ser confundido com o Sócrates, esse é que tinha a mania de investir nessa área. Mas faz mal, é graças à parceria entre agricultores e universidades que, por exemplo, a Holanda, apesar da área disponível e do clima, se tornou um dos maiores produtores mundiais de hortícolas. E já que está preocupado, e bem, com a alimentação nas escolas porque não propõe a plantação de árvores de fruto nos seus recintos? É verdade que não é uma proibição, mas seria uma excelente alternativa às guloseimas oferecidas nos bares. Teria um lado pedagógico, muitas crianças e jovens não distinguem uma nespereira de um pessegueiro. Contribuiria para a descarbonização da atmosfera, diz que essa é uma das especialidades das árvores, apesar de também não ouvir o PAN apelar à sua multiplicação. E ainda seria benéfico para as abelhas, outra preocupação deste partido, que lamentavelmente ainda não reparou na dificuldade que elas têm em encontrar alimento nas cidades já que não se alimentam de relva.

Mas o que estranho mesmo é que alguém tão preocupado com a pegada ecológica do sector alimentar, aparentemente, nada tenha a dizer acerca de um outro, o da indústria têxtil, que envolve igualmente produção agrícola e ainda uma indústria altamente poluente ligada às tintas usadas, para não falar das fibras de plástico e, em muitos casos, da mão-de-obra escrava para a produzir.

Não tem nada a dizer acerca do consumo excessivo de roupa de usar e deitar fora importada de países longínquos? Vive bem com esta pegada? Deve viver. Falta de “Política com coragem” é que não é com toda a certeza.

Viva Salazar (na memória da luta pela liberdade)

«Totalmente de acordo (mas também não usaria o manifesto exagero do “de baixa estirpe”…).

O maior problema não é haver um Museu dedicado a Salazar, a coberto duma suposta interpretação da «História Pátria».

O maior problema mesmo é não se ter ainda conseguido mostrar Salazar, logo desde os bancos da Escola, como ele efectivamente ficará na nossa História: o férreo impulsionador de uma Ditadura, dita “mole” e alegadamente de inspiração Cristã, mas ainda assim criminosa e interminável, qual doença crónica e muito grave, mas não mortal, continuando sempre apenas a ser realçados os únicos aspectos em que o nosso “brando” Ditador terá tido um papel globalmente positivo na História de Portugal, em especial no reequilíbrio das contas públicas, logo nos inícios do Estado Novo, e na opção pela neutralidade, durante a 2ª Guerra Mundial – feitos sem dúvida relevantes, mas limitados a determinados períodos muito concretos e que não poderão nunca ofuscar o seu papel essencial no Séc. XX português, nomeadamente:
1) na interrupção da modernização geral do País levada a cabo, com grande sucesso, pela 1ª República, apesar da constante sabotagem violenta por parte da contra-revolução monárquica – outra das verdades históricas que infelizmente ainda não se ensinam nos bancos da Escola;
2) no apoio declarado – e praticado – ao insurrecto Franco e no consequente seguidismo acrítico em relação ao Fascismo e ao Nazismo, em especial na estreita colaboração com a Alemanha em alguns dos aspectos mais vergonhosos do Holocausto dos Judeus europeus;
3) na incapacidade de encetar uma Descolonização tempestiva na Índia, na África e em Timor, a par das que foram conduzidas pelas outras Potências coloniais europeias, que tivesse podido evitar a tragédia das guerras de libertação;
4) no bloqueio económico duradouro que originou em Portugal, ao rejeitar o Plano Marshall, forçando a população de menores recursos a uma Emigração maciça, durante décadas consecutivas; e
5) no prolongamento “ad nauseam” de um Regime político anacrónico, que se poderia ainda considerar, com alguma benevolência, minimamente actualizado e compreensível até 1945, mas que ficou “fora do Tempo” pelo menos a partir da adesão de Portugal à OTAN, na qual o nosso País teve a “honra” de ser, durante décadas a fio, o único com um Regime não-democrático.

Ora se o tal Museu de Santa Comba tiver cinco módulos que desenvolvam historicamente e com seriedade estes cinco temas, então, sim, eu quero ir visitá-lo. E de preferência com os meus Netos, os quais gostaria contudo que já lá tivessem ido antes de mim, com todas as Turmas da sua Escola. Isso, sim...»


__
Oferta do nosso amigo António das Neves Castanho

CostaxRio: que ganhámos nós?

O jornalismo político tornou-se num antro de bimbalhada, fenómeno que acompanha simetricamente a decadência da direita portuguesa (a qual domina a comunicação social a toda a extensão). Os comentários ao debate entre Costa e Rio soam penosos de tão inanes – exemplo – e a obsessão com o resultado desportivo, dizer quem ganhou e quem perdeu e quem empatou, anuncia estarmos em presença de um adepto a espalhar a sua disfunção cognitiva preponderante e a aproveitar para falar de si próprio.

Entretanto, o espectáculo teve os seus momentos de interesse:

Rio - E se nós olharmos, por exemplo, àquela velha... velha, não, recente máxima das "contas certas"... o PS, conseguiu, finalmente!, na sua vida, uma vez, fazer as "contas certas"... Nós temos de ver o que é que são as "contas certas"...

Foi logo ao princípio. Um lapso freudiano. A máxima das contas certas é velha, sim senhor. É uma cassete que a direita tocou desde Cavaco, que Ferreira Leite agitou como bandeira, que Passos usou grotescamente para embrulhar um projecto de reengenharia social baseado no empobrecimento generalizado da população em Portugal. Só que “contas certas” era o que havia, juntamente com uma visão modernizadora e ambiciosa, no Governo de Sócrates até à Grande Recessão. Contas certas foi o que voltámos a ter com um Governo minoritário que estreou o apoio do PCP e do BE a políticas de centro-esquerda que efectivamente melhoraram a vida de milhões de portugueses. Contas certas não é um balanço de merceeiro pois a economia de um Estado é um bocadinho diferente do deve e haver de um negócio ou das despesas caseiras. Contas certas é o que acontece quando a maioria concorda com as opções dos Governos, mais nada.

Rui Rio disse umas banalidades irrelevantes sobre as contas do actual Governo, porque é um automatismo da mediocridade política dizer que algo falha nas contas dos Estados que não tenham ainda garantido a felicidade plena, sem ter de trabalhar nem pagar impostos, a todos os cidadãos. No seu subtexto, sem disso ter consciência, estava a apagar a cassete laranja.

Costa - Há uma coisa que é consensual, é que os números que há 9 anos se dizia que eram megalómanos, quanto ao crescimento do tráfego aéreo, foram todos ultrapassados... Portanto, sabemos que não são megalómanos..

Rio - Sim, sim, sim... [continuando a acenar afirmativamente ao longo da exposição do argumento de Costa]

Costa - Felizmente para o País, a procura aumentou muito mais. Agora, o que significa que, neste momento, nós estamos já a correr atrás do prejuízo. Todos os nossos aeroportos, designadamente aqui o de Lisboa, está neste momento com a sua capacidade para além do limite. E mesmo com todas as medidas de optimização do aeroporto, a realização do Montijo já vai chegar atrasada. Se tivermos de voltar tudo atrás, e agora a reconsiderar Alcochete, bom, não só teremos de dar uma indemnização muito significativa à ANA, como atrasaremos muito significativamente o desenvolvimento do País. E, de facto, não podemos comprometer mais o desenvolvimento do País.

Se recordarmos o que se dizia do novo aeroporto em 2009 e 2010, assim como do investimento do TGV, arrisca-se a considerar a democracia o instrumento favorito de uma conspiração dos estúpidos. Na sua fúria de conquistar o poder pelo poder, e de acordo com o instinto assassino que nos habita, a direita decadente preferiu a política da terra queimada ao interesse nacional. Também por aqui, Rui Rio passou ao lado de uma oportunidade histórica para refundar a direita.

Costa - No conceito "carga fiscal" estão os impostos mas estão também as contribuições para a Segurança Social...

Rio - Sim...

Costa - Portanto, nos números que tem para a carga fiscal estão também essas contribuições para a Segurança Social... Estão ou não estão?...

Rio - Estão...

Costa - Pronto, muito bem.

Cristas e Rio, e seus tenentes e arraia-miúda, andaram meses e meses a martelar no bordão do “maior aumento da carga fiscal de sempre”. A opção tinha algo de inacreditável pois o actual Governo baixou os impostos e, antes e acima de tudo, ficava com uma plataforma para destacar os seus triunfos: a carga fiscal é a receita fiscal + esta aumenta porque a economia melhora, porque há mais portugueses com mais dinheiro.

É encantador ver como a honestidade intelectual de Rio acaba por se sobrepor à hipocrisia e bronca demagogia dessa converseta.

Rio - Comecei na política, ainda antes do 25 de Abril, a lutar pela democracia. Tenho agora um país em que os julgamentos em vez de se fazerem no tribunal, muitos eles, fazem-se nas tabacarias e nos ecrãs de televisão. Isto é absolutamente inadmissível. [...] As pessoas não podem ser penduradas na praça pública da forma como têm sido. [...] Quase que volto a ter 17 anos ou 16 anos, quando entrei na política, justamente para combater isto.

A Justiça, por todas as razões e mais alguma, teria sido o território perfeito para Rio salvar a direita da decadência e realmente superar Costa em autoridade política. Lembre-se que a marca Rio, antes de se ter lançado à conquista da presidência do PSD, o posicionava como um “alemão”, alguém que viria salvar os portugueses de si próprios graças a uma vontade inflexível que nos daria ordem e disciplina como nunca se tinha visto nesta terra de madraços e estróinas. Rapidamente se viu que essa máscara parecia carnavalesca perante o crescimento da importância política de Centeno. Restava a Justiça para Rio exibir um fulgor visionário disruptivo e fundador. Infelizmente, não passava de uma exibição narcísica.

O homem que ontem deixou estas admiráveis e corajosas palavras acima citadas, que atingem em cheio a putrefacção moral e perversão do código deontológico do jornalista características da legião dos pulhas, é o mesmo que se entrega à mais básica calúnia mediático-judicial no tribalismo selvagem da disputa eleitoral, assim vaporizando a sua credibilidade e integridade:

Um jornalismo político que perante o debate entre dois candidatos a primeiro-ministro continua a bater punhetas a grilos num berreiro de vacuidades merece desaparecer. Venha aquele que se concentre em responder a esta pergunta: que ganhámos nós?

Ursula von der Leyen explica-se sobre “o nosso modo de vida europeu”. E não se explica mal

«L’Union est fondée sur les valeurs de respect de la dignité humaine, de liberté, de démocratie, d’égalité, de l’État de droit, ainsi que de respect des droits de l’homme, y compris des droits des personnes appartenant à des minorités. Ces valeurs sont communes aux États membres dans une société caractérisée par le pluralisme, la non-discrimination, la tolérance, la justice, la solidarité et l’égalité entre les femmes et les hommes ».

Article 2 du traité sur l’Union européenne

Il y a trente ans, en août 1989, deux millions de personnes se sont tenues par la main pour former une « chaîne de la liberté » longue de plus de 600 kilomètres à travers les pays baltes. Les images de cet événement nous rappellent avec force et émotion le chemin parcouru par l’Europe en l’espace d’une génération. Elles démontrent aussi la puissance unificatrice de nos valeurs communes : la liberté, l’égalité, la démocratie et le respect de la dignité humaine. […]

(continuar a ler)

 

Eu penso que qualquer europeu minimamente informado sabe dizer em poucas palavras o que é o fundamental do “modo de vida europeu”.  Não vale, por isso, a pena rir e escarnecer da nova presidente da Comissão quando, à frente da principal instituição europeia, se propõe defender os fundamentos da nossa organização política e social. Mesmo que todos conheçamos exemplos de situações que contradizem o nosso imaginário colectivo, é um facto que há um estilo de vida, instituições, valores, etc., que diferem dos de outras partes do mundo e, mais importante ainda, diferem agora, ao fim de inúmeros conflitos e milhões de mortos, dos da nossa própria Europa de tempos passados de má memória. Não haverá que protegê-los? Claro que sim. Mil vezes sim.

Não me choca, portanto, que Frau Ursula trace esse objectivo, se identificadas devidamente as ameaças actuais que estão implícitas na sua decisão de nomear uma pasta com tal designação. O que já estaria mal era apontar baterias exclusivamente às migrações como principal ameaça. O que não significa admitir que os migrantes tenham carta branca para estabelecerem na Europa mini-estados contrários às leis europeias apenas pelo facto de aqui se instalarem.

Mas a associação exclusiva da dita pasta às migrações foi o que ela fez ao princípio, foi errada, mas, pelos vistos, está agora a ser corrigida. E não corrige mal.

Revolution through evolution

Patients are significantly less likely to receive life-saving treatments if they are not currently married
.
What multilingual nuns can tell us about dementia
.
Drinking tea improves brain health, study suggests
.
Heterogeneity in the workplace: ‘Diversity is very important to us – but not in my team’
.
“Does Science Advance one Funeral at a Time?”
.
How the Justice System Can Affect Physical, Mental Health
.
Because we are better than you. We pay our taxes.
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Notícias da campanha

O ambiente na direita é soturno. Está tudo rendido e resignado. Rui Rio já admitiu que se tiver 20% não fica a liderar o partido. Cristas previu que as eleições podem dar dois terços à esquerda. Todos agitam freneticamente o espantalho da maioria absoluta do PS, como se a única dúvida fosse o tamanho do prémio a conceder a António Costa.

A direita não fica tranquila quando Costa diz que não pede a maioria, mas busca a melhor votação possível, como qualquer partido. A única coisa que podia consolar a direita era que Costa aconselhasse os eleitores a dispersar cristãmente os seus votos.

A Iniciativa Liberal reclama a entrega da RTP e da CGD à mão invisível, a descida do IRS dos ricos para a taxa dos que ganham pouco acima do salário mínimo e a entrega de cheques ensino para financiar os colégios particulares. O drama é que a Iniciativa Liberal diz alto o que o PSD e o CDS no fundo pensam, mas não ousam propor. Depois da aposta forte em outdoors imaginativos, vai ser duro para a Iniciativa Liberal constatar que pagou do bolso dela a publicidade às ideias íntimas do PSD e do CDS.

O inconsolável Santana, do alto dos seus 1,5%, berra por uma nova Constituição, a aprovar certamente por maioria simples numa reunião de copos em sua casa.

O transe e o cisma: aquém e além de Sócrates

O Público, um jornal que assumiu o estatuto de pasquim como destino e a pulhice como modelo de negócio, voltou a fazer uma manchete com uma notícia falsa:

A notícia é falsa quanto à matéria de facto, o processo em causa não é da “Operação Marquês”, e é falsíssima no seu sensacionalismo, pois Rangel não tem permissão superior para ajuizar em matérias ligadas à “Operação Marquês”; o que faz do sorteio que lhe deu um processo lateral isso mesmo, uma aleatoriedade a ser eventualmente corrigida pela repetição e sem qualquer consequência prática no campo do “risco” e do “escândalo”. A indústria da calúnia, porém, agarrou-se ao osso com raiva, e aí temos os cães de fila do costume felizes da vida por terem mais uma oportunidade para mostrarem as favolas e despacharem serviço. Como escreveu o mais célebre dos caluniadores profissionais, é de muito mau gosto encher os bolsos à conta do Salazar, coitado do dedicado e bondoso senhor que merece descansar em paz – já ter uma carreira milionária e receber honras de Estado graças à perseguição maníaca a Sócrates e ao achincalhamento do Estado de direito é a prova provada da esperteza que o assiste.

Entretanto, o nosso amigo Eremita voltou a disparar (e disparatar) nesta direcção por causa de Sócrates, são assim as paixões, e vou aproveitar a deixa para recomendar a leitura do seu O transe e o cisma: aquém e além de sanitas e urinóis. Trata-se de um ensaio que terá muito poucos leitores, dada a sua extensão e complexidade da temática. Porém, o seu campeonato não é o da quantidade, antes o da qualidade. Quem mergulhar no exercício vai sair de lá com a consciência de ter aumentado a sua inteligência sobre variados assuntos ligados às polémicas do género e da construção da identidade sexual, mesmo que não concorde com tudo ou com quase nada.

Realço um aspecto que me fascina antropologicamente, o das diferenças biológicas nos cérebros das mulheres e dos homens. O meu fascínio não está na constatação científica de que elas existem, está na sua negação por parte de quem considera que tal reconhecimento é contrário à defesa dos direitos da mulher ou de qualquer outra causa que se considere feminista. Até agora, apenas registei mulheres a insurgirem-se contra essas diferenças no plano biológico, e para mim está aí o fascínio. É que consigo perceber, entender e compreender como é que uma mulher se sente ameaçada por esse discurso biológico que aparenta legitimar os preconceitos e as discriminações. Afinal, as mulheres são exactamente iguais aos homens no plano mental: são seres egocêntricos. Logo, imaginam que os homens pensam como as mulheres, que desejam como as mulheres, que amam como as mulheres, apenas não foram dotados de personalidades agradáveis, interessantes e sensatas como as delas. Não ironizo, acho que o egocentrismo é uma característica inerente a todos os sistemas de consciência, animais incluídos (é evidente) e futuras consciências criadas artificialmente (daí o seu potencial perigo que muitos antecipam). Talvez haja uma cósmica e quântica analogia entre a consciência e a força da gravidade.

É o egocentrismo, e sua Torre de Babel de disfunções e vieses cognitivos, que explica a hipocrisia, o fanatismo, a canalhice. Veja-se como os hipócritas, os fanáticos e os canalhas rejubilam com um juiz que foi para a televisão declarar que um cidadão à sua guarda judicial era criminoso quando ainda nem sequer tinha sido acusado. São esses hipócritas, fanáticos e canalhas que nos vão salvar do perigosíssimo Rangel e resgatar o Estado de direito? Eis aqui, pois então, o meu egocentrismo a colar num non sequitur à pressão a tonteira e a sapiência do nosso amigo Eremita.

Debates que pagaria para ver

Jerónimo de Sousa-Zita Seabra

Por razões óbvias, por tantas histórias que teriam para contar do tanto que sabem a respeito um do outro, ficaria como um debate histórico.

Assunção Cristas-André Ventura

A verdadeira líder da oposição contra um dos verdadeiros líderes da verdadeira direita. Histórico para o futuro da nossa vera direita decadente.

Rui Rio-Passos Coelho

Um debate teológico entre dois colossos da estratégia política – “O Diabo, afinal, sempre chega no dia 6 de Outubro pelas oito da noite, como anunciam as sondagens?”. Histórico para presentes e futuros cientistas políticos.

Catarina Martins-Pedro Nuno Santos

A esquerda da social-democracia e a social-democracia da esquerda. Histórico para se consolidar Portugal como o bastião da social-democracia europeia.

André Silva-António Marinho e Pinto

Dois animais políticos à solta. Histórico para quem gosta da natureza da democracia.

Rui Tavares-Santana Lopes

Uma estrela cadente há anos e anos versus uma estrela decadente há anos e anos. Oportunidade histórica para relançarem as suas carreiras.

Mendo Castro Henriques-José Pinto Coelho

Tendo sido aluno do primeiro, sei bem que ele – e sem se esforçar – poderia reduzir o segundo a um britado de ódio cujo único destino seria um aterro sanitário. Que pena não podermos vir a contar essa história.

A solução à espanhola que nos teria salvado da destruição insana

«A Espanha não teve o chumbo do PEC 4, e, portanto, pôde evitar o resgate; e, por isso, nunca teve a sua credibilidade internacional tão afectada como Portugal teve.»


Primeiro-Ministro de Portugal, Setembro de 2019

*_*

Não é possível encontrar, em toda a Internet, uma referência que seja a esta declaração de Costa lançada para o éter mediático na sua última entrevista à SIC (se existe, rogo que me indiquem onde para corrigir). Suponho que também não existam referências indirectas no comentariado (mas sei lá). No entanto, contudo, todavia, esta é só a declaração política mais importante em Portugal desde [é favor preencher a gosto – ou seja, com desgosto].

O momento que leva ao atrasadíssimo reconhecimento público por parte de Costa do que foi a defesa do interesse nacional e do bem comum por parte de Sócrates e de quem com ele estava nesse Governo – até aos limites do imaginável e até mesmo uma beca para além – começa no minuto 16 da entrevista. Bernardo Ferrão, uma infeliz e incompetente escolha para o jornalismo político que só se justifica pela sua disponibilidade para o sectarismo rasteiro, achou que ia entalar o entrevistado com a comparação entre Portugal e Espanha. Costa agradeceu a benesse e limpou o rabinho ao entrevistador. Como o Ferrão não parava de escavar o buraco onde se enfiou voluntariamente, o actual secretário-geral do PS e primeiro-ministro em funções ia ficando saturado e, na procura de ainda mais argumentos na categoria do “isto é óbvio, pá”, cometeu o deslize de ir parar aos idos de Março de 2011. Rapidamente o assunto ibérico na berlinda deixou de estimular a perseguição canina do “jornalista”.

Aqueles que espatifarem o seu rico tempo a ouvir esse trecho da entrevista ficam autorizados a tirar umas ilações correspondentes sem o mínimo risco de errar. Por exemplo, passa a ser inevitável ver em António Costa um alto responsável político que teria tentado, com o máximo das suas forças, evitar que o PEC 4 fosse chumbado usando exactamente o mesmo racional dos governantes ao tempo. E, num outro exemplo, é fatal ver em António Costa um cidadão que consegue calcular o valor da pérfida e estupidamente colossal destruição em capital financeiro, estrutura económica, tecido social, qualidade e segurança da vida pessoal – a que se soma o número de vidas que se desgraçaram e perderam em doenças e suicídios em consequência das decisões tomadas pelos partidos que chumbaram o PEC e impuseram o resgate de uma Troika fanática da “austeridade salvífica” que encontrou em Passos o carrasco guloso para cumprir as ordens e embriagado de desprezo para aumentar a devastação – num fenómeno de anos que, como também referiu na entrevista, só agora começa a permitir a recuperação dos instrumentos internacionais e estatuto do País para conseguir ter acesso a capitais necessários à boa gestão das contas públicas e à promoção dos investimentos estruturais por fazer há uma década.

Houve quem, para além de Sócrates e do PS ao tempo, tivesse antecipado o que iria acontecer se o PEC 4 fosse chumbado. Eram umas raríssimas e rarefeitas vozes, inaudíveis no berreiro furioso que queria sangue numa estratégia de terra queimada, vingança rancorosa contra aquele perante o qual se sentiam e sabiam inferiores e a captura do poder pelo poder. Infelizmente, tragicamente, em 2011 não pudemos ter uma solução à espanhola; confirmou Costa e confirma o silêncio cúmplice que abafou a sua extraordinária e fundamental recordação.

Revolution through evolution

Many older adults aren’t fully prepared for emergency situations, poll finds
.
Hardship during the Great Recession linked with lasting mental health declines
.
Furry friends ease depression, loneliness after spousal loss
.
Squirrels listen in to birds’ conversations as signal of safety
.
Study shows the social benefits of political incorrectness
.
Developing a richer understanding of natural sciences critical to making better policy decisions
.
‘Mental rigidity’ at root of intense political partisanship on both left and right, study finds
.
Continuar a lerRevolution through evolution