Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

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Tire lá o “medo” e ponha lá o “dó”

Passos Coelho teve de conduzir um ajustamento que não o deixou ser “social democrata”, tal como Mário Soares não pôde ser “socialista” em 1978 ou em 1983. Mas ao contrário de Mário Soares, Passos não pôde, por causa do Euro, recorrer ao véu da inflação. Na história portuguesa, foi o primeiro chefe de governo que, num ajustamento, não pôde dissimular os cortes com desvalorizações monetárias.  Governou com a verdade. Frequentemente sozinho entre uma oligarquia desorientada, não desistiu e poupou o país à via grega dos resgates sucessivos.”

Rui Ramos, no blogue “Observador” (Título : “Quem tem medo de Passos Coelho?”)

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Mentir é feio. E a si próprio deve ser desgastante e inútil. Já paravam com esse ridículo.

 

Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e que é a nossa convicção do que é preciso fazer”.

Segundo o presidente do PSD, por esse motivo, “executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido”.

“Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas. Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados”, reforçou.

Passos Coelho, 1 de Fevereiro de 2012.
Fonte: Jornal de Negócios
Relativamente a quem é que poupou o país à “via grega”:
(Fonte: Correio da Manhã)

Carlos Alexandre e o seu quintal

Carlos Alexandre voltou à ribalta a propósito de mais um encobrimento da Justiça, a recusa de afastamento pelo Tribunal da Relação de Lisboa pedido pela defesa de Sócrates, e com as suas declarações sobre Orlando Figueira no tribunal por causa da “Operação Fizz”. Esta pacóvia e tenebrosa pessoa já tem obra publicada que chegue para se declarar um estado de vergonha nacional.

Sobre a recusa de afastamento, e esquecendo os motivos precisos apresentados nesta ocasião, fica a esperança de que um dia alguém faça uma tese de doutoramento numa faculdade de Direito (ou/e de Psicologia, ou/e de História, ou/e de Antropologia) à pala deste espectáculo de vermos um juiz a dar uma entrevista onde ataca um arguido cujo processo está à sua responsabilidade e depois assistirmos a tal conduta, tão imoral quanto ilícita, ser validada pelo Conselho Superior da Magistratura. Quer dizer que a doença não é só nem principalmente de um indivíduo isolado, antes fica indelevelmente como uma disfunção aberrante da própria Justiça como instituição pilar da República – logo, uma disfunção aberrante do regime, posto que a soberania está a ser usada para permitir a violação dos direitos de um cidadão e da própria comunidade.

Sobre as declarações em tribunal a respeito de Orlando Figueira, estamos face a um vendaval de libertinagem. Recordemos: este Figueira é o tal amigo que emprestou, em 2015, dinheiro ao tal juiz que, em 2016, declarava pimpão a um canal de TV não ter amigos que lhe emprestassem dinheiro. Registemos: a situação, por si admitida, é exactamente igual àquela que Sócrates descreve na sua relação com Santos Silva, ao ponto de nos relatos de ambos se apontar para a longevidade das amizades em causa e para o nível de vida desafogado de quem emprestou como razões para justificar os pedidos ou a aceitação dos empréstimos. Com esta diferença, ter um juiz com essa tipologia de promiscuidade com um procurador e a mentir deliberadamente a um órgão de comunicação social no acto mesmo de abandonar a sua imparcialidade sobre um dado arguido à sua responsabilidade judicial é muito mais grave do que qualquer eventual mentira de um político envolvido em processos judiciais.

A libertinagem torna-se feérica ao sabermos que o mesmo Figueira recorreu à mulher do juiz vedeta incensada no esgoto a céu aberto, a qual trabalha nas Finanças, para obter um qualquer favor fiscal, enquanto o currículo do jovem Alexandre ia parar ao amigo Figueira para este lhe encontrar trabalho em Angola, a mesma Angola donde veio dinheiro para o Figueira levantar em Andorra. Mas esta rede de cumplicidades, favores e segredos não consegue beliscar a perfeição moral do orgulho de Mação. Ele desenvolveu uma teoria que se baseia num método infalível: “Almoçávamos juntos muitas vezes. Conheço-o bem.” E quão bem conseguiu Carlos conhecer Orlando após o ver tantas vezes de boca aberta? Bom, que cada um julgue por si: “Quero assegurar ao tribunal que nunca encontrei um traço na personalidade dele que coloque em causa a sua confiabilidade e honradez.” Ou seja, este juiz está munido de uma concepção que relaciona a “personalidade” e seus “traços” com a “confiabilidade” e a “honradez”, e vai para os tribunais apregoar essa insanidade matriz de todos os despotismos. Pior, aplica-a no trabalho diário que lhe foi confiado pelo Estado.

A par da entrevista à SIC, há uma peça deste grotesco simulacro de isenção que expõe o tortuoso labirinto onde a sua perdida integridade se arrasta: O discurso de Carlos Alexandre inspirado no antigo presidente do PS. O tema é “corrupção”. Eis como começa:

«Antes de mais, quero esclarecer quem me escuta sobre a forma como aqui apareci. Há quase um ano, um amigo meu, Rogério Jóia [quadro da PJ], referiu-me ir sugerir o meu nome, para figurar neste painel, aos distintos organizadores. Embora sejamos oriundos das serranias, lá onde 'até as silvas dão rosas', ele da campina de Idanha, eu de Mação, na que era do pinhal, tentei dissuadi-lo. Disse-lhe, e é o que mantenho, que tem razão a senhora, perdão têm razão todos os que dizem que sou uma mente simples, um homem 'sem mundo'.

Na altura eu não sabia, não intuía, quem eram as pessoas que vinham apresentar comigo neste evento. Sendo eu um cidadão comum que deve à divina providência a graça de ter chegado até aqui, muito por força e em razão do lugar onde, já há mais de doze anos, exerço funções e ao favor dos média, pensando eu que esse favor dos média, dos tablóides como alguém já disse, só pode ocorrer porque traduzo e postulo as preocupações dos meus co-cidadãos perante o passado e o presente de cada um deles. Eu em mim não sou nada!

Mas enfim. Dizia Francisco Serrano um velho maçanico letrado: 'Quem muito quiser saber corra o mundo ou aprenda a ler!' As minhas condições materiais de existência, conhecidas da generalidade dos interessados porque eu próprio as divulguei e nada oponho a que sejam públicas, não me permitem correr mundo. Vou como Xavier de Maistre 'ali até ao quintal'. E leio, ouço, vejo.»

Que caralho é isto? É uma ameaça genérica embrulhada num autopanegírico. Carlos Alexandre, o justiceiro que vê nos tablóides a prova de estar ao serviço do povo, imita os aviões de combate que lançam flares para despistar eventuais mísseis inimigos enquanto se dedicam ao bombardeamento dos alvos. Ele é o super-juiz que tudo lê, tudo ouve e tudo vê lá na sua saleta do DCIAP, e que depois não se esquece de nadinha, nem as alcunhas da malandragem apanhada no seu quintal escapam.

Saltemos para o fim da charla:

«Minhas Senhoras e meus Senhores. Este pequeno contributo não é auto promocional. Tenho estado sujeito a muita exposição pública, que não fomento.

Tomei boa nota da principiologia e regulamentação, quer a nível de leis atinentes, quer de critérios interpretativos sobre o que disse em espaço público noutras ocasiões. Ao longo da consulta dos livros que referi, encontrei muitas situações e capítulos de vida que parecem ser figurino comum.

Nada do que disse, no meu espírito, nas minhas palavras, pode ser assacado a um caso concreto qualquer que tenha em mãos!»

Não se pense que se trata da manifestação de um primarismo chocante numa figura com a sua função e responsabilidades a conclusão autoreferencial e rasteira do seu discurso. O que aqui temos é antes uma exibição de ironia soberba (mas não de soberba ironia), a qual atravessa todo o discurso e que explica a escolha de Almeida Santos como veículo de colagem do tema da corrupção a Sócrates e ao PS. Carlos Alexandre diverte-se a exibir um poder que declara radicar não na Constituição, não no Estado e não no Soberano mas na “divina providência” e sua “graça”. É por isso que não quer abandonar o combate ao mal que o entusiasma tanto, lá onde lhe dão a conhecer diariamente e com todos os detalhes a podridão dos corruptos da política e da banca (mas só se esta cair em desgraça, atenção, nada de disparates). E ele há tanta porcaria por aí, tanta, que se não fosse a força divina que o anima e guia nada mais teríamos para nos salvar do que o corrupto Estado de direito democrático e sua satânica defesa da liberdade.

Alguém sabe?

O ano lectivo já vai adiantado, estou aqui com umas dúvidas, quando é que o Professor Passos vai começar a abrilhantar a vida dos seus pupilos?

E o pin, é desta que se livra daquela lapela ou, pelo contrário, vai também ele iniciar novas funções, desta vez como útil distracção na sala de aula?

 

 

Tratar com justiça a Justiça

O último Expresso da Meia-Noite foi fértil em informações com proveito público. Eis algumas:

– Que os jornalistas responsáveis pelo programa, presentes em estúdio, promovem entusiasmados o tal slôgane do “acabou a impunidade”, criado por uma ministra da Justiça que o usou para atacar adversários políticos a partir de matérias judiciais, e o qual voltou a ter gasto caudaloso para continuar a usar a Justiça para a luta política tendo Joana Marques Vidal como arma de arremesso contra o PS.

– Que o juiz convidado, acumulando com ser secretário-geral da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, declarou ser-lhe inconcebível que Pinto Monteiro tenha impedido ou condicionado qualquer investigação no Ministério Público dada a sua estrutura e procedimentos.

– Que o mano Costa reagiu como um alarve quando Maria José Morgado lhe disse que ele fez um trabalho jornalístico deturpado no processo Melancia.

– Que Marinho e Pinto foi o único a relacionar o aparecimento dos casos mais mediáticos na Justiça com as alterações legislativas que deram mais poderes à investigação (é ver quem e quando esteve na origem dessas novas leis), não sendo o efeito de um qualquer voluntarismo, ou santidade, de fulano ou beltrana.

– Que Marinho e Pinto foi o único a relacionar a violação do segredo de justiça e o uso da comunicação social como estratégia para influenciar e pressionar magistrados e penas.

– Que Marinho e Pinto foi o único a lembrar os actos suspeitos de Cavaco na sua relação com a SLN como exemplo de duplo critério no Ministério Público quando comparado com a “Operação Marquês”.

– Que Marinho e Pinto foi o único a denunciar a perseguição judicial (ou seja, política) a Sócrates por ter sido detido e preso para ser investigado, não havendo ao tempo qualquer ideia acerca dos actos de eventual corrupção que pudessem estar em causa.

– Que Maria José Morgado é uma figura fascinante, na exacta medida do que diz e do que cala.

Quem sabe, talvez um dia a Justiça consiga ser tratada na imprensa com o rigor e a coragem que merece.

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Ódio? Mas qual ódio?

Há comentadores de direita que, à falta de melhor, optaram agora por dizer que quem contesta e critica a nova função lectiva de Passos Coelho no ISCSP o faz por uma questão de ódio ao homem. Ora, isso é um exagero que o próprio, se virmos bem, nem merece.

 

Eu aqui mesmo gozei com o convite que o director do dito Instituto dirigiu ao ex-primeiro-ministro e com a sua aceitação. Mas não porque o odeio. Pobre diabo, não! O que acontece é que, do que observei do seu mandato à frente do executivo, muito pouco de relevante para substanciar uma matéria leccionável se pode dizer que tenha sido da sua autoria. Pode mesmo dizer-se que, da sua autoria (e resta saber se), foram principalmente os convites dirigidos a alguns ministros para que executassem o saque segundo uma linha de pensamento que Passos aprendera à pressa com crânios como António Borges ou Catroga e outros teóricos liberais do PSD e que ele sabia ser a do FMI e a dos comissários então envolvidos. Assim, as Finanças – a parte mais importante em período de resgate – foram entregues a Vítor Gaspar (que, pelo estilo e a alegada sabedoria, era a estrela do Governo) e, mais tarde, depois de a dita estrela ter sido pescada para outro posto por excelentes serviços à causa do ajustamento e a própria ter percebido o desastre das experiências científicas que levara a cabo, a Maria Luís, sendo mais do que claro que Passos não era tido nem achado nas principais decisões. Tomaria conhecimento e despachava porque nada na sua ignorância o faria jamais desconfiar/discordar deles. O responsável da pasta da Economia tratou basicamente de vender empresas ao desbarato, a ministra da Agricultura andou a divertir-se, o Pedro Mota Soares promoveu as instituições de caridade, o Crato quis trazer o salazarismo de volta à educação e por aí fora. Todos tinham carta branca para fazer o que lhes apetecesse. O grande ponto alto do governo de Passos do ponto de vista político foi mesmo a declaração de que iria além da Troica. Essa é que é a verdade. Iria, sim, e foi mesmo porque o Gaspar assim quis. Com as lindas consequências que se conhecem, mas, ainda assim, excelentes para o próprio Gaspar, agora com um belo cargo no FMI, de onde critica o que fez.

Enfim, tudo isto para dizer que Passos terá, objectivamente, muito pouco de positivo e substancial a ensinar a alunos doutorandos. Não me parece que a ciência da mentira (com que chegou ao governo, criticando a austeridade de Sócrates, faço lembrar), por exemplo, ou a ciência da colocação da voz (um dos seus atributos, mas longe de poder constituir uma disciplina universitária), ou pior ainda, o que aprendeu com Vítor Gaspar (que adorou sair daqui mal pôde), justifiquem a equiparação a professor catedrático. Muito menos a sua “difícil e dura experiência” com a execução de um programa de ajustamento exigido pelos credores (como alegou o Tavares do Governo Sombra), com o qual pudesse discordar por amor ao povo que o elegera. Nã. É que não só não travou discussão nenhuma com as instituições credoras, como também saudou a sua vinda e assumiu todas as políticas por elas defendidas, anunciando querer ir ainda mais longe (para mostrar ser o bom aluno que eventualmente não foi nos tempos de estudante). Repito: o Gaspar fugiu daqui. Se é isto que tem para ensinar, pobres audiências.  Mas talvez queira ouvir duas ou três coisas? Olha, pode ser. Mas ser pago para isso é que já me parece muito errado.

O futebol e os conluios judiciais são um melhor filão, vão por mim

Bom, está visto que, com este governo, o jornalismo acusatório, alarmista e de casos tem muito poucas hipóteses de prosperar. A exploração da tragédia dos incêndios até à náusea, raiando a pornografia, viu-se sem sustento sério para uma responsabilização do Governo e acabou por esmorecer e perecer com um relatório e o arrefecimento nocturno. O Presidente da República tentara ajudar à batucada, mas a culpabilização do Governo não colou nas populações, que conhecem melhor as causas dos incêndios do que o Presidente, acabando até este por se refrear perante as observações de excesso de protagonismo, aproveitamento de função não executiva, deslocações à milagreiro e lamechice.

Mário Centeno, o alvo mais apetecido da direita chafurdola, primeiro no caso SMS/ António Domingues/ CGD e, depois, no caso “bilhetes para o Benfica em troco de benefícios fiscais para o filho de L. F. Vieira”, acabou triunfando sobre a sacanagem e sobre as mentiras e a pulhice do Correio da Manhã e seus replicadores. O roubo de Tancos também animou as hostes, mas, por ser demasiado claro que Azeredo Lopes não tinha como função guardar os armazéns de armamento e que a Constança de qualquer modo já ia ser abatida, passou, e passou com uma gargalhada, mal apareceram as armas acompanhadas de um bónus. O caso serviu, isso sim, para pôr a descoberto as práticas pouco ortodoxas e os esquemas, quando não os crimes, de alguns militares e para mostrar que algo ia muito mal no exército, mas não por culpa do ministro.

O caso mais recente da ponte mais movimentada do país que estaria na iminência de colapsar porque o Governo não autorizava as obras de manutenção foi também, em menos de 24 horas, pelo cano, com a corrente, com a ventania, com o que quiserem. Mas, com os esclarecimentos dos protagonistas (LNEC, Ministério as Finanças, Infraestruturas de Portugal, ministro das Infraestruturas, etc.), foi sem dúvida para um lugar de inertes onde a Visão vira demais.

Os jornalistas deviam, pois, ter sempre à mão uns leques ou uns cubos de gelo que lhes moderassem os calores no exercício do quarto poder.

Daniel Oliveira no Reino da Cobardia

Na passada quinta-feira foi publicada uma entrevista com Pinto Monteiro. Qualquer entrevista com esta figura é da maior importância para quem se preocupe com a integridade do regime. Não só exerceu o cargo de procurador-geral da República como, por isso mesmo, tem sido um alvo político da corporação sindical no MP e da direita decadente e sua (de ambas) indústria da calúnia. Acresce serem raras as suas intervenções públicas se as compararmos com a quantidade de ataques que recebe. Para cúmulo, está montada uma campanha para tentar forçar a renovação do mandato de Joana Marques Vidal, campanha essa assente na deturpada e suja comparação com o exercício de Pinto Monteiro adentro da sistemática exploração política da “Operação Marquês”. É difícil encontrar assunto mais ponderoso do que o da suspeita de corrupção – ou qualquer tipologia de ilegalidade – no Ministério Público, não carece de explicação.

Assim, seria de esperar que o comentariado, podemos até esquecer o jornalismo, pegasse nas inerente e inevitavelmente gravíssimas declarações do ex-PGR para as analisar, para as comentar, para as citar, para as criticar, para as denunciar, para com elas fazer alguma coisa de interesse para a comunidade, a sociedade, o espaço público. Debalde. Provavelmente, terei perdido fugazes intervenções, mas nem na “Quadratura do Círculo”, nem no “Bloco Central”, nem no “O Outro Lado”, nem na “Prova dos Nove”, nem no “Sem Moderação” o assunto foi sequer tocado pela rama. Onde não faltou a indigência e pulhice do costume foi no Observador e no “Governo Sombra”. Resta um só exemplo de aproveitamento construtivo da entrevista, embora num contexto sem condições para estender e aprofundar as questões em causa: “Eixo do Mal“.

No quarteto, o Luís Pedro Nunes representou com zelo o papel de bronco raivoso, a Clara Ferreira Alves exibiu desabrida a sua desonestidade intelectual quando o tema mete Sócrates, Pedro Marques Lopes esteve igual a si mesmo na boa-fé e decência das suas posições e ao Daniel Oliveira deve-se o único exercício de pensamento que encontrei até hoje a respeito da entrevista de Pinto Monteiro. De facto, ao Daniel não é possível carimbá-lo como “socrático” ou “socialista”, pelo contrário. Daí a força das suas palavras, força aumentada pela acutilância e relevância dos três primeiros pontos em que tocou: (i) a ambição ilegítima, perversa e respectivo dano político do sindicato do MP, (ii) o escândalo de regime em que se transformou a violação do segredo de justiça e a cumplicidade activa da comunicação social com esse crime e seus prejuízos e (iii) a evidência de que nenhum processo relativo ao mandato de Pinto Monteiro que tivesse qualquer relação com Sócrates foi reaberto ou aproveitado pela equipa da “Operação Marquês”, sendo a conclusão inevitável a de nada terem de aproveitável por quem esteve a montar um megaprocesso onde se pretendeu maximizar a acusação por qualquer ponta possível. Aliás, no ano passado foi noticiado que as suspeições relativas ao negócio PT-TVI tinham ficado definitivamente encerradas e não mais seriam investigadas – o que é fonte de boa risada tendo em conta que esse negócio nunca sequer existiu nem ninguém sabe como se iria concretizar e quais as suas consequências. Basta lembrar que também se dizia, em 2005, que a Prisa vinha transformar a TVI num canal do PS e depois foi o que se viu com o casal Moniz, idem para o Grupo Lena e o que foi o jornal i. Como se sabe, em Portugal, canais mediáticos ao serviço de agendas políticas só podem ser de direita.

O único momento em que patinou no raciocínio foi quando fez alusão a uma passagem da entrevista em que Pinto Monteiro recordou que o processo “Freeport” ficou parado após as eleições de 2005. O Daniel, talvez influenciado pela Clara, viu nisso apenas a suspeita de pressão política vinda do Governo ou do PS. Ora, à luz dos factos já inscritos na História, é muito maior a probabilidade de se ter parado o processo por causa das eleições, sim, mas tendo em conta que as próximas eleições legislativas ainda iam demorar 4 anos. Continuar a investigar seria uma estultícia num processo que nasceu no PSD de Santana Lopes com o único propósito de influenciar actos eleitorais. E assim foi, em 2008 regressou com estrondo e ocupou todo o ano eleitoral até às eleições em Setembro de 2009. Como disse há uns anos o Professor Marcelo entre risos de prazer, Sócrates perdeu a maioria por causa dessa golpada.

A agenda do Presidente Marcelo foi eleita pelos portugueses?

Ontem, saiu este título: Nem Marcelo foi confortar ciganos vítimas do temporal de Faro. Hoje, no mesmo jornal, saiu este: Marcelo visita sábado as famílias ciganas desalojadas em Faro. Em 24 horas, ou talvez duas, uma “fonte de Belém” contou aos órgãos de comunicação que Marcelo já tinha decidido fazer a visita “há alguns dias, mas a agenda impediu a realização da visita mais cedo“.

Existindo imprensa em Portugal, algum jornalista estaria agora a comparar os tempos de resposta e de visita de Marcelo noutros acontecimentos congéneres e a listar em que ocupou e vai ocupar o tempo entretanto. Assim de memória, a imagem é de excepcionalidade para este desastre que atingiu um acampamento de ciganos em Faro. Não só está a demorar uma semana para se deslocar ao local como não houve nenhuma declaração da Presidência da República a respeito de tal intenção antes da posição pública tomada por diversas associações e activistas de etnia cigana saída na terça-feira. A referência à “agenda” tresanda a mentira. Ou será que foi a agenda que também impediu uma qualquer mensagem “das fontes de Belém” em cima da ocorrência?

Marcelo sabe que a malta se está a cagar para os ciganos. Que os ciganos não prestam, só causam problemas. Ciganos, pretos e imigrantes. Passos Coelho, apoiante entusiasmado de André Ventura, e Octávio Ribeiro, campeão de vendas na indústria da calúnia, estão disponíveis para explicar do que é que o povinho gosta se ainda restarem dúvidas. O actual Chefe de Estado não perderá um ponto nos índices de popularidade, não perderá um voto, por estar a precisar de uma manchete negativa para se pôr a caminho até ao distante Reino dos Algarves. Ainda se fosse um acampamento de escuteiros, cheio de crianças loirinhas, frágeis e tão católicas a perder as suas tendas no vendaval, aí valia a pena sacrificar um bocadinho a tal agenda e aproveitar para tirar umas fotos giríssimas. Porque são seres que precisam muito do amparo do “presidente dos afectos” dado não estarem habituados a lidar com o mau tempo e as noitadas ao relento. A ciganada, sim. Aliás, é o que eles preferem, esses selvagens.

Medo da bófia?

«A possibilidade de uma espécie de boicote às multas foi admitida, ao Jornal de Notícias, por Paulo Rodrigues, da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, e César Nogueira, da Associação de Profissionais da GNR. Os sindicalistas admitem que muitos agentes da autoridade estão a avisar os condutores antes, por exemplo, de estacionarem num local proibido — noutras ocasiões, admite um dos sindicalistas, o agente poderia preferir esperar que estacionasse e, depois, multar.»


Fonte

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Algures na minha adolescência, calhou ouvir um jurista que me impressionou pela sua fluência e sofisticação verbal. Era eloquente sem ser verborreico. E por isso estava distraído a ouvir as suas intervenções num debate acerca de temas variados quando ele se saiu com uma afirmação que nunca mais me abandonou. Parece algo corriqueiro, mesmo irrelevante dado não ser um assunto que tenha visto alguma vez tratado fosse por quem fosse depois (mas, com certeza, alguém mais terá voltado à questão nas décadas seguintes): quando a Polícia escolhe colocar um radar numa estrada de baixa sinistralidade e muito tráfego, em vez de colocar o mesmíssimo radar numa estrada com maior sinistralidade mas menos tráfego, então estamos perante uma caça à multa; e isso é ilegítimo, é uma grave falha do Estado. A ideia ficou comigo por ser uma iluminação súbita, a partir do concreto, do que significava a Lei, o Estado, a República, a democracia – portanto, a política.

Na citação acima, temos declarações de responsáveis sindicais que revelam uma completa inconsciência a respeito da natureza da PSP. Quem se permite ser apontado como pertencendo a uma força de segurança que reclama poder enganar e explorar os cidadãos merece expulsão imediata. O retrato de termos agentes da PSP que ficam à espera que o incauto ou ignorante condutor estacione num local proibido só para assim o poder multar é antinómica do conceito de serviço público. E se a PSP não pretende cumprir com a sua obrigação de serviço público, então esse será o prego no caixão num regime de irremediável fantochada.

Durante os anos do Professor Passos, e sua política de sacanço nacional, a caça à multa foi furiosa e às descaradas. Ninguém com voz neste país se queixou. Não acho que seja medo da bófia, acho que é falta de tesão pela liberdade.

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