Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Nunca votarei neste homem

«A ocorrência dos factos e a sua prova é algo que decorre do próprio processo judicial; fazer um juízo político, antecipando como verdadeiro aquilo que carece ainda de prova era, em si mesmo, estar a antecipar-me a um julgamento, o que acho que não posso nem devo fazê-lo. É evidente que, entretanto, todos tivemos acesso - por vias ilegais - a partes do interrogatório do Eng. Sócrates, portanto não podemos ignorar coisas que ouvimos [...]»

Primeiro-ministro e Secretário-geral do Partido Socialista

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Que terá ouvido António Costa nas partes dos interrogatórios que consumiu? Ouviu Sócrates a confessar ter sido o instigador do assassinato de Sidónio Pais, ou a confessar ter posto a bomba num certo Cessna num certo 4 de Dezembro de 1980, ou a confessar ter virado com as suas manápulas o Tollan só por pirraça? Seria fascinante ter acesso às suas experiências auditiva e cognitiva na ocasião porque ele não o irá revelar em público. Em público, como se pode também ouvir, e ver, e ler, temos um primeiro-ministro e secretário-geral do PS a validar ilegalidades e assassinatos de caráter. Ao não assumir quais são as informações que destaca insidiosamente, isso que passamos pela sua autoridade política e moral a não poder “ignorar”, então vale tudo. Tudo o que ali aparece dito, seja por quem for, é um alvo da sua censura e/ou da sua concordância. Cada um que escolha a sua parte favorita que a mesma levará a assinatura “António Costa” por baixo.

E mais. Que venham novas ilegalidades tão corriqueiras, tão úteis, tão dignas de louvor como estas. É o chefe do Governo e do partido na berlinda que o declara. O critério deixa de ser a Lei, passa a ser a orelha. Se as ilegalidades contribuírem para a nossa decisão de lhes darmos proveito, então bute. Tal como estabelece Costa, o valor cívico transfere-se para o “acesso”. Acesso a interrogatórios fragmentados, por maioria de razão a interrogatórios completos e, corolário, a qualquer registo de devassa da privacidade, da intimidade e da consciência serão não apenas o novo normal como a nova moral. Eis o que resulta de uma declaração que não acredito ter sido espontânea, tal como o embrulho cinicamente dúplice em que aparece lançada no espaço público me leva a crer.

Imaginemos o pior cenário para o PS e para a comunidade: o tribunal prova – sem margem para dúvidas – que Sócrates foi corrompido. Nesse cenário, caso a ideia não seja ilegalizar o Partido Socialista, todo o sistema partidário terá de apresentar uma solução que prometa evitar a repetição de um crime tão grave para a República. Como queremos viver em liberdade, essa solução teria sempre de ser uma melhoria do Estado de direito de acordo com a tipologia da corrupção descoberta. Imaginemos o segundo pior cenário, que igualmente se pode considerar o primeiro dos piores cenários: o tribunal absolve Sócrates das acusações de corrupção. Neste cenário, e caso a ideia não seja permitir que a Justiça volte a ser politizada e usada para golpadas políticas, o sistema partidário teria de apresentar uma solução que prometesse evitar a repetição de uma disfunção repleta de crimes no seio da Justiça. Como queremos viver num Estado de direito, essa solução teria sempre de preservar a soberania dos magistrados judiciais e a autonomia dos magistrados do Ministério Público em nome da separação de poderes e da liberdade. O que não caberá jamais em qualquer um destes dois únicos desfechos legítimos da “Operação Marquês” é a ambiguidade de aceitarmos ilegalidades como instrumentos de cura ou orientação colectiva.

Acontece que este traço da personalidade política de Costa não é uma novidade. Apesar de ser o homem certo no lugar certo na actual conjuntura, apesar de ter uma reputação à prova da Cofina e da Manuela Moura Guedes, apesar de ficar como um dos mais importantes e benéficos políticos na história do regime, aquilo que penso dele não se alterou um nanómetro desde as vésperas do lançamento da “Operação Marquês” como arma contra o PS e contra a democracia (i) e desde a sua entronização como secretário-geral socialista (ii):

i) Declaração de voto23 de Julho de 2014

ii) Incentivos para a lucidez6 de Janeiro de 2015

Sentido de humor imbatível, “indeed”

O Governo britânico vai acolher, em Londres, uma cimeira para incentivar seis países europeus a aderirem à UE, em nome da respectiva “segurança, estabilidade e prosperidade”.

Notícia aqui.

«Tom Brake, the Liberal Democrats’ Brexit spokesperson and a supporter of the Best for Britain campaign, said: “Someone at the Foreign Office must have a sense of humour in organising a conference to promote membership of theEU for the Western Balkan countries. Just as we seem set on leaving the EU, we start advising others to join. Government policy would not look out of place in the theatre of the absurd.”

[…]

«Britain’s attitude to other countries joining the European Union appears unchanged since its own decision to leave. In September 2016 Mr Johnson, who campaigned to leave the EU, confirmed Britain would still push for Turkey to join the block – even though Mr Johnson’s Vote Leave campaign played on the spectre of Turkish accession to drive the Leave vote.»

Revolution through evolution

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O bando sinistro

A direita portuguesa vai perder as eleições de 2019, segundo as últimas sondagens continuam a dizer. O desespero e a raiva assomam já nos seus colunistas e porta-vozes. Tudo é de esperar dessa cambada raivosa, desde apelos indirectos aos incendiários até elogios à utilização da organização judicial para fins políticos.

Uma equipa sinistra, já muito experimentada, vai estar no terreno, mas não é para apagar incêndios. O seu objectivo é supostamente combater a corrupção, para suposta defesa da democracia. Na verdade, muito insatisfeita com uma democracia que dá vitórias à esquerda, pretende virar contra ela uma justiça politicamente enviesada, ou seja, corrupta. Depois de Sócrates, o seu alvo será agora António Costa, como é óbvio.

A equipa alinha assim (é só a ponta do iceberg):

Fernando Negrão – Foi director-geral da PJ entre 1995 e 1999, durante o governo de Guterres. Foi demitido pelo ministro socialista da Justiça, Vera Jardim, e acusado pela PGR de Cunha Rodrigues de violação do segredo de justiça no caso da Moderna (ainda se levava a sério o segredo de justiça). O STJ arquivou a coisa em 2001, por alegada falta de provas. Deputado do PSD desde 2002 até hoje. Breve ministro de Santana Lopes (2004-2005). Foi derrotado nas eleições para a câmara de Setúbal em 2005. Foi derrotado por António Costa nas eleições para a câmara de Lisboa em 2007. Brevíssimo ministro da Justiça do governo fantasma de Passos Coelho (Outubro-Novembro de 2015). Actual líder da bancada parlamentar do PSD (com apenas 35 votos dos 88 deputados), depois de ter perdido a eleição para presidente da Assembleia da República. É um frustradão calejado em derrotas, mas que, em compensação, adora puxar cordelinhos nos bastidores.

Jorge Rosário Teixeira – A sua carreira foi lançada por Fernando Negrão (ver acima), que o meteu na PJ para chefiar a Direção Central de Investigação e Combate à Criminalidade Económica e Financeira. Saiu da PJ em 1999, não se sabe porquê, quando Negrão foi demitido. Em 2004 caiu de para-quedas no DCIAP, na PGR. É o procurador que tem os processos mais importantes do DCIAP desde que para lá entrou. É o mago da Operação Marquês, de que a direita esperava o desaparecimento do PS da cena política e a recondução do governo de Passos Coelho. Propôs em 2014 ao juiz Carlos Alexandre a prisão de Sócrates para depois o investigar, como a PIDE fazia noutros tempos.

Carlos Alexandre – Juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal desde 2004 e, durante muitos anos, o único. Trabalha desde 2004 com o procurador Rosário Teixeira, a quem faz todas as vontades, nomeadamente no processo Sócrates. Embora o juiz de instrução seja incumbido de fiscalizar o procurador nos processos que este conduz, Carlos Alexandre tem basicamente estado às ordens de Rosário Teixeira. É muito pio e participa nas procissões da sua terrinha. Já uma vez disse que a sua vocação era ter sido padre. Noutros tempos teria dado um eficaz juiz do tribunal da Santa Inquisição.

Joana Marques Vidal – Procuradora-geral proposta por Passos e nomeada por Cavaco em 2012, nem é preciso dizer mais nada. Filha de um antigo director-geral da PJ que se gabava de odiar a “classe política” (da democracia). Irmã de um célebre João, ex-chefe do DIAP de Aveiro, que pôs a circular o boato de que Sócrates tinha um fantástico plano para “controlar” os meios de comunicação social. É a responsável máxima de tudo o que a PGR fez e não fez desde 2012. P’ra inglês ver, mandou já duas vezes (2015 e 2018) investigar fugas de informação e violações do segredo de justiça no processo de Sócrates, mas nunca se apurou porra nenhuma. Em Julho de 2018 vai, felizmente, ser despejada da PGR, deixando muitas saudades à direita. O clã Marques Vidal vai, porém, continuar operacional através do mano João, que já é procurador-geral adjunto.

António Ventinhas – É presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, reeleito em Janeiro em lista única. Foi alvo de um inquérito mandado instaurar pelo Conselho Superior do Ministério Público (por 8 votos contra 5) por ter declarado a culpabilidade de Sócrates em 2016, antes mesmo de haver acusados no processo. Defendeu-se com o especioso argumento de que é sindicalista e ficou tudo em águas de bacalhau. Tem acusado o governo de António Costa e a ministra da Justiça de quererem “controlar” o MP para que este não possa investigar a corrupção. Afirmou recentemente estar contra o controlo hierárquico  do MP pela PGR, porque lhe cheira que o próximo procurador-geral não será de direita. Elogiou a Operação Marquês e a actuação de Rosário Teixeira e Joana Vidal nesse processo. É o palhacinho deste quinteto, com ventinhas a condizer.

O direito europeu não admite, diz Noronha

“O caso Lula (para além da prova que contenha ou não) assume o aspeto notório de uma manipulação dos tribunais para obter dividendos políticos.

Mas o que sobressai à cabeça são dois aspetos que a Europa não admite: a)quem investiga um crime não o pode julgar; b)a delação premiada não é permitida.

Quem investiga um crime nunca o julga porque, ao investigá-lo, fica influenciado pela convicção que vai formando, tornando-se parcial em face da prova que recolheu; e porque o juiz tem que ser imparcial quando julga, ele nunca pode investigar o que vai julgar a seguir.

Esta regra não tem exceções na Europa: nem o polícia, nem o MP, nem o juiz de instrução que investigam podem julgar o que investigaram. É a mesma regra que impede que um juiz que assiste a um crime o possa julgar depois; ele é testemunha e, como tal, não o pode julgar.

Não assim no Brasil. Aqui, o juiz investiga o crime e julga-o a seguir em 1ª instância, certo como é que na maioria dos casos os factos decisivos para a sentença são fixados na 1ª instância; se o juiz, depois de investigar, envia o arguido para julgamento porque se convenceu da sua culpa é quase certo que o condenará. Com isto o contraditório é secundarizado porque o juiz pouco acredita na versão do arguido, e a sua imparcialidade é atingida porque ele parte para o julgamento com opinião formada.

Pior se lhe juntarmos a delação premiada, que mais não é senão a legalização (parcial) da corrupção.

A corrupção é um acordo entre duas ou mais pessoas ou entidades, para que algumas delas obtenham vantagens ilícitas (e, em certos casos, lícitas), vantagens que podem ser patrimoniais ou não patrimoniais.

Na delação premiada é justamente isso que acontece: o investigador promete ao arguido que, se este contar a versão que de outro modo não contaria, o liberta de qualquer punição ou lhe reduz a pena.

Em condições normais, isto é corrupção: o investigador tira vantagem em obter uma prova que de outro modo não obteria, e o delator tira vantagem ao ser absolvido (ou sofrendo uma pena menor) por um crime que cometeu. Daí que a delação premiada seja, verdadeiramente, uma corrupção legalizada – e legalizada pelo tribunal.

Mas o problema maior surge quando o delator conta uma versão falseada que interessa ao investigador ou que interessa a si mesmo para salvar a sua pele.

Teremos, então, e juntando aqui todos estes ingredientes, a versão futurista da Barca do Inferno do teatro vicentino.”

LUÍS NORONHA NASCIMENTO

Juiz jubilado do Supremo Tribunal de Justiça

Um “mamarracho” que teve a sua época, agora claramente uma nódoa na paisagem

O da esquina, claro.



Os terrenos da antiga Feira Popular, em Lisboa, vão ser finalmente aproveitados – habitação e escritórios, áreas verdes, etc. É esta a intenção da Câmara e são estes os planos.

 

Podes ver aqui a bela sequência de imagens do futuro espaço urbano:

(mamarracho não visível)

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2018-05-12-Veja-como-vao-ficar-os-terrenos-da-Feira-Popular-em-Lisboa-1#gs.ygkhNu4

Cânciomagnetismo

Francisco Teixeira da Mota não quis ficar atrás do seu colega caluniador, A tragédia de Fernanda Câncio, e publicou A tragédia de Artur Reis, uma sátira farsante acerca de A tragédia de Sócrates. Com este, são até ao momento dois os colunistas do Público encantados com a oportunidade de revelarem em ambiente de linchamento o que pensam da senhora. O mais bronco da dupla focou-se na intimidade afectiva e deleitou-se a imaginar machos-alfa e suas fascinantes técnicas de submissão de feministas, não sem antes ter admoestado o Ministério Público por a terem deixado sair dos interrogatórios sem lhe terem metido em cima uma acusação à pala de “atitudes”, “posturas” e “silêncios”. O mais sonso dos dois veio dizer-nos que Sócrates é o Alves dos Reis do século XXI, até nas consequências para as fêmeas. Ambos são assumidos e entusiastas fãs do Correio da Manhã e seu festival de violações da legalidade, da deontologia e da decência. A coisa chega ao ponto de ser este Chico um dos maiores defensores na imprensa da liberdade da dita e da liberdade de expressão (e muito bem, que nunca lhe doam os dedinhos nem lhe falte a voz) e não ter largado um ai, metade de um ui, ao ver o seu colega caluniador fazer a promoção do delito de opinião e do uso da Justiça para perseguições de ódio e vinganças. Lá está, o coração tem razões, etc.

Este tipo de caluniadores é ainda mimético na estratégia de argumentação. Para eles, o desfecho judicial é irrelevante. Seja lá o que aconteça será transformado em mais um ganho. Uma qualquer condenação será uma festa, cuja dimensão estará em relação directa com a gravidade da pena. Mas até uma absolvição seria festejada, pois permitiria continuar a alimentar as teorias da conspiração que apetecesse inventar. Pelo que a demora na Justiça é um maná para a indústria da calúnia, permitindo prolongar e gerir o processo de linchamento em curso com toda a impunidade e conforto. A dinâmica e modus operandi são ancestrais, a diabolização do alvo, daí a cassete ser a da Manuela Moura Guedes: há um bandido, com poderes sobrehumanos, que enquanto viver será uma ameaça para o regime e para o Mundo. Provas? Ora, basta ouvir o que se diz dele! A cura passará pelo calaboiço, desterro e salga do Rato.

Enquanto figuras públicas, Sócrates e Câncio são fascinantes precisamente por causa da extraordinária força de carácter que exibem nas suas vidas profissionais, políticas e cívicas. O antagonismo de uma parte da sociedade seria inevitável dada a importância polémica de ambos naquilo a que chamamos Portugal, embora em registos tão diversos; mesmo que alguns tenham sido complementares quanto a certas causas sociais de relevo. É o preço a pagar quando a inteligência e a vontade se vivem plenamente, quando houve coragem para ousar ser e fazer. E é algo a que um pulha não resiste, atraído pelo fulgor da liberdade que o cega.

É a Batalha, estúpido

Alguém decidiu que estava na altura de mandar a investigação às PPP para o espaço público. Porquê agora depois de 7 anos de silêncio? Ah, espera, pois. O modelo é o do trailer, consistindo no anúncio da chegada do filme brevemente a um esgoto perto de nós. Como ainda não há arguidos constituídos, sequer os suspeitos do costume foram chamados a prestar declarações, vai ser um bocadinho difícil culpar os advogados de defesa por mais esta violação do segredo de justiça. Difícil mas não impossível. Ou como diria ou dirá a santa Joana, bute fazer o inquérito e então depois, com calma, poderemos ver se se trata mesmo de mais um crime. Ou não, sabe-se lá neste momento, né? Calma, é preciso é calma quando se trata de investigar criminosos que trabalhem no Ministério Público para que eles não se enervem e depois com o nervoso comecem a investigar a gente séria. Entretanto, toca a lançar mais umas granadas para dentro do PS.

Este episódio ocorre num ambiente de completa falência do Estado de direito, onde a imprensa laranja toma como um direito seu a judicialização da política, e em que os deputados passistas e pafiosos fazem comícios na Assembleia da República a reclamarem como seu direito a politização da Justiça. Até o nome de Carlos Alexandre foi proposto para próximo procurador-geral da República à mistura com a ideia de vermos o PSD a transformar-se no partido da PGR vidalina. Já só lhes falta lançarem milícias populares na rua, devidamente apetrechadas com cães de raça e mocas de Rio Maior, para acabar com a ameaça dos socialistas.

PGR-TV

Será que a Procuradoria-Geral da República deve ser também detentora de um jornal e de uma TV? O facto de nenhum dos 195 países reconhecidos pela ONU se ter lembrado de tal até agora, isso de atribuir funções jornalísticas aos órgãos que exercem a acção penal, não nos deve tolher a imaginação. Como seria um canal mediático da nossa PGR? Bom, primeira constatação, nunca lhe faltariam conteúdos de altíssimo interesse para as audiências, tanto no caso de envolverem celebridades com as suas luxúrias e perversões como na sordidez e pungência, por vezes lirismo, dos pés descalços. Segunda constatação, a política editorial só poderia ser uma: apresentar o melhor possível, recorrendo às melhores técnicas mediáticas, as posições da PGR e o trabalho dos procuradores do Ministério Público. Ora, que pretendem esses valentes? Apanhar criminosos. Quantos mais apanharem, melhor. Quão maiores eles forem, melhor. Melhor para todos, procuradores e sociedade, xerifes e vítimas. Só que não chega conseguir apanhá-los e depois cobri-los de alcatrão, falta ainda despejar as penas. Para esse apoteótico final, um jornal e uma TV podem ser de extrema utilidade. É que o MP apenas consegue acusar, ainda não consegue completar o processo e despachar logo as condenações (mas lá virá o dia, está na hora de redescobrir o Brasil). Realmente, os acusadores estão sujeitos às imprevisíveis decisões dos juízes, os quais podem não ter a inteligência dos procuradores, ou serem mal formados ou estarem comprados pelos criminosos (invariavelmente socialistas). Ora, se a PGR conseguir usar as técnicas mediáticas e narrativas para convencer as audiências de que se deve engaiolar este fulano porque tem uns gostos irritantes em fatos ou casas, ou aquela fulana porque apresenta uma atitude desagradável nos interrogatórios e anda a escrever em jornais, isso ajudará os juízes a ver a luz. Basta-lhes ligar o televisor, nos próprios tribunais ou ao chegarem a casa, e desfrutarem das peças brilhantemente montadas e dramatizadas pela equipa de artistas da PGR. Nessas peças, para comodidade dos juízes que têm muito trabalho para despachar, apenas se mostrariam excertos dos interrogatórios onde arguidos e testemunhas, pelo seu tom de voz e postura corporal, estivessem a exibir não só a sua culpabilidade como a sua asquerosa personalidade. Todo este espectáculo, para comodidade dos pobres juízes que tendem a ser muito distraídos, devidamente enquadrado por comentadores especialistas em socialistas corruptos, passe a redundância. No final das peças, acrescentava-se o resultado de uma votação telefónica acerca da sentença preferida pelo público, nunca com opções abaixo dos 10 anos de choça em nome do combate à corrupção. Assistindo com regularidade à PGR-TV, qualquer juiz estaria em condições de chegar ao seu tribunal e arrumar os processos do dia antes de sair para o almoço. Acabaria logo a demora na Justiça, como pede o nosso adorado Marcelo.

Sonho impossível? Felizmente, a iniciativa dos privados permite-nos evitar ter de gastar milhões no que seria um investimento público condenado à corrupção socialista, passe o pleonasmo. A PGR não tem só um jornal e uma TV, tem um ecossistema mediático que ocupa 80% da imprensa em Portugal. Claro que o ideal seria termos 100% de cobertura, ou até mais, para o heróico serviço à Pátria que os impolutos e angélicos procuradores capitaneados pela santa Joana estão a fazer, mas que nenhum juiz venha para aí dizer que não condenou um socialista corrupto, passe a tautologia, por desconhecimento do que se anda a mostrar e dizer no CM, CMTV, Sábado, Sol, Público, Expresso, SIC, Observador, “Governo Sombra” e sobrancelhas do José Rodrigues dos Santos. Se querem ser juízes, então ao menos que acompanhem as notícias.

Ironia socrática

«The third realm, finally, in which we move and live together with other people — the realm of privacy — is ruled neither by equality nor by discrimination, but by exclusiveness. Here we choose those with whom we wish to spend our lives, personal friends and those we love; and our choice is guided not by likeness or qualities shared by a group of people — it is not guided, indeed, by any objective standards or rules — but strikes, inexplicably and unerringly, at one person in his uniqueness, his unlikeness to all other people we know. The rules of uniqueness and exclusiveness are, and always will be, in conflict with the standards of society precisely because social discrimination violates the principle, and lacks validity for the conduct, of private life.»

Hannah Arendt

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Pertenço àquele grupo de malucos que não acha reprovável viver com dinheiro emprestado. Sei disso porque não acharia reprovável que um amigo, ou mais do que um, vivesse à custa do dinheiro que eu pudesse emprestar – sendo que já recorri a amigos por carência financeira em várias ocasiões. Sou até capaz de apostar 10 euros em como essa será uma prática usual entre amigos desde a invenção do dinheiro, os empréstimos. E mesmo sem o vil metal na equação, há muita outra coisa que dá para emprestar entre amigos; honi soit qui mal y pense. A parte do ser maluco está em assumir essa ideia no discurso público, e a parte do grupo tem a ver com o Arons de Carvalho, pois com ele já somos dois.

Os ditos empréstimos de Carlos Santos Silva a Sócrates são justamente alvo de censura moral colectiva, do meu ponto de vista, apenas e só por estarem a gerar uma dúvida legítima quanto à sua licitude. Essa dúvida decorre da racionalidade e toma inevitavelmente a forma de uma suspeita a obrigar a investigação judicial. E o processo respectivo, pelo simples facto de existir, é danoso em diferentes planos da avaliação da responsabilidade de Sócrates. Aqui só lidamos com a dimensão moral.

Os mesmos supostos empréstimos causaram problemas éticos a um conjunto indeterminado de pessoas que, também com plena razão, se sentiram traídas por Sócrates não ter partilhado com elas essa situação. Como não o fez, elas não puderam escolher afastar-se dele ou protegerem-se calhando reprovarem esses actos ou temerem pela sua segurança (devassa da privacidade, calúnias). Trata-se de uma questão ética por implicar uma proximidade vivencial que nasce da liberdade de cada um e onde se estabelecem responsabilidades mútuas nessa esfera, mas não tem de se relacionar com nenhum conceito moral.

Finalmente, a publicitação da existência desses alegados empréstimos despertou uma imparável exploração política desde o início do processo, a qual tomou proporções avassaladoras desde a semana passada com as declarações de altos responsáveis do PS a respeito dos problemas de consciência que a “Operação Marquês” causa ao partido. A política em causa é a partidária e tribal, onde o sectarismo e as dinâmicas do ódio enchem de energia a retórica inflamatória e castigadora usada. Porém, há lógica militar no alarido, pois o que se pretende é fragilizar o PS. Derrubada uma muralha, o silêncio institucional do PS sobre o caso antes de ele ter um desfecho judicial, agora o próximo objectivo é a caça ao escol socialista na tentativa de substituir a boa moeda pela má. Se conseguirem provocar o afastamento de algum “socrático”, é menos um recurso de qualidade que terão de enfrentar. Se os alvos resistirem, farão pontaria a Costa por estar a manter “corruptos” nos seus Governos e equipas partidárias. Em qualquer dos casos, é só vantagens para a direita decadente. Ficaremos a conhecer tudo acerca de Rio neste contexto – porque não haverá uma terceira via: ou alinha com os pulhas ou lhes fará frente, os mornos serão vomitados.

Provavelmente (sei lá), mais de 90% dos estudantes universitários seria incapaz de distinguir a esfera moral da dimensão ética, a começar logo pelo facto de ser uma distinção teoricamente questionável onde a semântica se mescla. Na destrinça que aqui faço, a moral corresponde ao domínio social e seu conjunto de normas, explícitas e implícitas, que identificam e regulam o comportamento aceitável e inaceitável numa dada comunidade. Quem nasce, se nascer humano, nascerá concomitantemente nalgum contexto cultural que inclui uma qualquer codificação moral mais ou menos cristalizada, mais ou menos plástica, e sempre mutável no espaço e no tempo. A ética pertence ao reino das relações privadas, nas quais a liberdade é a única lei. Ora, quando a política não passa da luta do poder pelo poder, as categorias morais e éticas são usadas como armas de arremesso. Os fins passam a justificar os meios e os assassinatos de carácter aparecem como a mais recorrente táctica de ataque político. Porquê? Porque é cognitivamente económica (fácil e rápida) e porque é fonte de recompensas hormonais (testosterona, dopamina e serotonina). Tentar destruir a reputação do adversário é um automatismo que define a baixa política. Esta práxis reduz-se à produção de insultos e calúnias, e o político reduz-se ao animal.

A problemática do dinheiro usado por Sócrates vindo de Carlos Santos Silva não é uma questão política antes da decisão judicial final sobre o caso. Se estivermos perante um caso de corrupção, essa descoberta levantará um problema político inaudito no regime. Se estivermos perante um caso de abuso da Justiça, a qual terá inventado uma acusação sem provas, essa descoberta igualmente levantará um problema político inaudito no regime. Constatar que Sócrates mentiu na esfera moral e na esfera ética não equivale a declarar que mentiu na esfera política – mesmo que haja consequências políticas das mentiras nos planos moral e ético. O máximo a que se pode chegar é à constatação de haver uma perturbação cívica a carecer de reparo judicial.

O que neste momento há para dizer sobre a responsabilidade política de Sócrates na temática da corrupção é isto: ao seu Governo se deve o reforço de instrumentos, legais e materiais, que permitiram essa muito maior capacidade de investigação da corrupção que o Ministério Público exibe nestes últimos anos. Tão eficaz foi essa produção legislativa que o próprio responsável político máximo por ela nela foi apanhado e logo metido no chilindró.

O mete-nojo quer uma avença no Ministério Público

«Acredito que se houvesse algum indício forte contra si na Operação Marquês o Ministério Público não teria hesitado em acusá-la. Até porque, convenhamos, era isso que apetecia fazer – pela sua atitude arrogante nos interrogatórios, por tudo aquilo que tem escrito contra a Justiça, pela postura absurda que manteve ao longo dos anos, pela mania de calar o essencial e vociferar sobre o acessório.»


Caluniador profissional ao serviço do Público

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8 de Maio de 2018. Nesta data, uma das estrelas (a maior?) da indústria da calúnia usa o jornal que lhe paga – fundado por, entre outros, Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans – para defender uma ideia política que conhecemos muito bem da História: criminalizar a opinião, a liberdade de expressão, a divergência intelectual, a alteridade moral e até a idiossincrasia psicológica. É o que está escrito, e a sua interpretação é à prova de estúpidos. Este fulano declara que gostaria de ver o Ministério Público a inventar uma acusação qualquer contra uma dada cidadã só a partir de atitudes, textos, pensamentos. Atitudes, textos e pensamentos que o incomodam, desgostam, irritam e acabam por lhe justificar o deslumbramento de expor que, como regedor da moral jornaleira, a Justiça deve servir para perseguições políticas e vinganças pessoais.

JMT não acordou maldisposto, nem escreveu bêbado de álcool. Embriagado pelo que experimenta como o maior triunfo na sua carreira de caluniador, sim, mas não está aí o principal factor que explica a confissão. Ao longo de anos, e em crescendo, foi usando todas as violações ao segredo de justiça acerca de Sócrates para construir uma imagem de justiceiro especializado no PS. Quando começaram a aparecer gravações áudio de escutas, de imediato as usou para fazer inferências e chegar a conclusões. E ao apanhar os registos vídeo de interrogatórios, chafurdou feliz na redução daquelas pessoas, naquelas circunstâncias, apresentadas daquela maneira e inseridas num ambiente de linchamento, a algo que já nem humano é posto que lhes nega qualquer possibilidade de defesa. Tivesse nascido 50 anos mais cedo, sabemos onde iria parar como um dos mais motivados agentes dessa polícia. No seu bestunto, JMT apenas precisa de fragmentos de escutas e de interrogatórios feitos por terceiros para absolver ou condenar alguém. Ele só lamenta não poder estar nas salas de interrogatório para poder cheirar o medo, o pavor, daqueles que persegue. Pelo cheiro é que ele os topava logo, o cheiro dos corruptos. Então, esse método de indução canalha implica que as provas dos crimes que ele se lembrar de convocar não vêm do mais profundo e rigoroso conhecimento da realidade mas da sua imaginação. O Tavares concebe-se como omnisciente, bastando consultar os seus divinos neurónios para despachar sentenças acerca da inocência e honra de quem lhe apetecer, e ainda recebe dinheiro para andar a disparar no espaço público as flutuações do seu arbítrio.

Esta prática criminosa, esta aliança com criminosos, onde as violações do Estado de direito democrático são aceites e aplaudidas, só é possível se os agentes de tal violência estiverem desprovidos de empatia. A forma como JMT discursa sobre a privacidade relacional e afectiva da Fernanda não fica apenas como um monumento à pulhice, é igualmente uma consequência do altíssimo grau de narcisismo e abstracção em que opera como caluniador profissional. Donde, sem surpresa, o instinto que foi despertado perante um texto particularmente melindroso para a sua autora – texto que se situa na dimensão da crítica cívica, sem endossos à dimensão da sua intimidade e história pessoal – não foi o da compaixão, sequer simpatia. Ao contrário, 24 horas depois aparece a declarar que não está satisfeito, que exige mais, mais humilhação. Talvez a demissão do DN, a reforma antecipada, a emigração, a entrada num convento – ou, com maior probabilidade, um pedido de desculpas personalizado, mas público, onde a Fernanda reconheça que o Tavares é o novo Sol da Terra, e que ela ficará doravante aos seus pés para o servir.

Este infeliz tem aproveitado com impante sucesso a indústria da calúnia, a cultura da calúnia e a estratégia da calúnia seguida pela direita decadente. Calhando sair do Público, irá para o Observador. Calhando fartar-se do Observador, regressará ao esgoto a céu aberto. E, claro, terá também trabalho na TV e na rádio. Por onde passe, espalhará as sementes das maiores violências, aquelas que começam por ser feitas em nome do bem maior.

A qual destes senhores compravas um automóvel?

«A judicialização da política ou do jornalismo é perigosa, mas nada é mais perigoso do que um ex-primeiro-ministro acusado de corrupção.»

Ricardo Costa

«mesmo sendo a Operação Marquês o caso mais grave da democracia portuguesa, o atropelo de valores fundamentais do Estado de direito seria sempre mais grave»

Pedro Marques Lopes

O artigo do dia

É este:

If you believe it, it's truer
People reflexively accept information as accurate if it aligns with their worldview
Date: May 7, 2018
Source: American Associates, Ben-Gurion University of the Negev
Summary: A new study illuminates how rapid, involuntary mental processes kick in when responding to statements that correspond with an already held viewpoint.
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A new study illuminates how rapid, involuntary mental processes kick in when responding to statements that correspond with an already held viewpoint, according to a study by researchers at Ben-Gurion University of the Negev (BGU) and The Hebrew University of Jerusalem.

The research, published in Social Psychological and Personality Science, shows how people's tendency to remain entrenched in their worldviews is supported by their automatic cognitive "reflexes."

The team led by Dr. Michael Gilead, head of the Social Cognitive Neuroscience Laboratory at BGU, found that study participants verified the grammatical accuracy of statements about political topics, personal tastes and social issues much more quickly when they matched their opinion.

In a series of experiments, the researchers asked participants to respond to various opinion statements, such as "The internet has made people more isolated" or "The internet has made people more sociable," and indicate as quickly as possible if the grammar of the sentence was correct or not. Later, they were asked if they agreed with each statement. Participants identified statements to be grammatically correct more quickly when they agreed with them, which revealed a rapid, involuntary effect of agreement on cognitive processing.

According to Dr. Gilead, "In order to make informed decisions, people need to be able to consider the merits and weaknesses of different opinions and adapt to new information. This involuntary, 'reflex-like' tendency to consider things we already believe in as being true, might dampen our ability to think things through in a rational way. Future studies could explore how other factors, such as acute stress or liberal or conservative viewpoints, affect this tendency to accept or reject opinions in a 'knee-jerk' manner."

Dr. Gilead collaborated on this research with Moran Sela, a doctoral student in the Department of Psychology at The Hebrew University of Jerusalem, and Dr. Anat Maril, a professor in The Hebrew University's Department of Cognitive Science.

Story Source:

Materials provided by American Associates, Ben-Gurion University of the Negev.


Fonte

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