Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Começa a semana com isto

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Para além de se falar numa das obras mais originais da literatura e cultura portuguesas, ou até da cultura europeia, o Leal Conselheiro, e de se poder ouvir Pacheco Pereira a dizer banalidades a respeito, esta peça videográfica oferece uma jóia de rara beleza aos 3 ou 4 malucos que vão seguir o meu conselho: dar toda a atenção a Fernando Paulo do Carmo Baptista, o qual entra em cena aos 40 minutos (mais segundo menos segundo).

Quem é a figura? Pois é um filólogo com vasto currículo no campo do ensino e da investigação. Porém, aposto os 10 euros que tenho no bolso em como ninguém neste pardieiro alguma vez tropeçou no seu nome. Ocasião raríssima para desfrutar de um dos últimos cultores da oratória sermonária neste planeta digitalizado, uma civilizadora arte teatral ao serviço dos textos ideológicos e retóricos como já nem nas missas da Igreja Católica se encontra. Também a não perder é o momento esdrúxulo em que se refere a Trump e a Biden&Kamala, passagem a anteceder a revelação de que Cristóvão Colombo é nosso e que a sua chegada às Américas se deve a certa senhora de Viseu.

Uma maravilha de exaltação do Portugal mítico e poético (mas só para apreciadores).

Revolution through evolution

Competition among human females likely contributed to concealed ovulation
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Women influenced coevolution of dogs and humans
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Afternoon napping linked to better mental agility
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Vitamin D: An Important Factor for Overall Health
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Chimpanzee friends fight together to battle rivals
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On nights before a full moon, people go to bed later and sleep less, study shows
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How White Supremacy Is Like a Drug
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O esquerdismo de Pedro Nuno Santos pode não o levar a mais lado nenhum e é pena

Gosto do Pedro Nuno Santos: é transparente, assertivo e combativo. O artigo que hoje escreve no Público a propósito das eleições presidenciais, porém, tem a meu ver tanto que criticar que nem sei por onde começar.

Mas cá vai. Começo por uma consideração geral sobre a opção do PS – nenhum candidato próprio (preferência de Costa) versus apoio a Ana Gomes (preferência de Pedro Nuno). António Costa é um governante pragmático. Há quem atribua ao termo “pragmático” uma carga negativa, por causa de uma hipotética cedência nos ideais, mas esse “quem” não sou eu de modo nenhum. O pragmatismo tem dados bons frutos.

Marcelo Rebelo de Sousa não constituiu uma força de bloqueio à governação durante o seu primeiro mandato. É um facto que, muito pelo contrário (e exceptuando o péssimo, cruel, demagógico, quase imperdoável comportamento do PR na altura dos incêndios de 2017 e a sua excessiva e quase permanente sede de protagonismo), Marcelo respeitou as decisões do Governo e muitas vezes formou equipa com ele para fins de bem maior. Foi um garante de estabilidade, passe o chavão. Marcelo é popular e Costa é bem visto pela maioria dos cidadãos. Eu diria que é uma dupla que não tem qualquer interesse em hostilizar-se mutuamente. O PS não tinha, por conseguinte, nem razões nem nenhuma figura que pudesse apresentar contra Marcelo com base em putativas divergências insanáveis com ele. Salta à vista que Marcelo reconhece valor a António Costa e é sensível aos seus argumentos e ao seu peso eleitoral. Além disso, por muito que Pedro Nuno fale em ideologia (campo onde um hipotético conflito em relação a Marcelo pouco se notou nos últimos cinco anos e resta saber quem cedeu), a verdade é que, para as eleições presidenciais, a pessoa do candidato importa muitíssimo. Ana Gomes tem demonstrado ser uma pessoa demasiado emotiva, precipitada nos seus julgamentos, justiceira popular e defensora convicta (sem a mínima reticência) de piratas informáticos que actuam à margem das leis do Estado de direito para se poder ver nela uma futura zelosa cumpridora da lei e da Constituição. É completamente tendenciosa, incapaz de neutralidade. Além de que sempre foi crítica de António Costa e do seu governo. A que propósito a apoiaria ele, como lamenta Pedro Nuno? Aproveito aqui para perguntar aos socialistas que pensam que se devia votar contra Marcelo devido à tradição de conflito nos segundos mandatos com vista ao regresso da direita ao poder se honestamente acham que algum dos outros candidatos, incluindo a Ana Gomes, iria facilitar a vida ao Governo mais do que o professor. Pois. Por aí não adianta argumentar. Mas adiante.

 

Pedro Nuno acha que é mau o PS estar a ocupar o centro, porque, alegadamente, isso fortalece os movimentos de extrema-direita ao fazer definhar a direita social-democrata, vista como hipotético tampão. Ou seja, o PS devia encostar-se à esquerda, cuja ideologia colectivista e anti-lucro deixou de ter qualquer nexo ou atractividade enquanto houver memória e exemplos vivos desse tipo de socialismo, para deixar margem a que o PSD ocupe o centro e reduza assim as possibilidades de crescimento da corja do André Ventura e quejandos. Convenhamos que esta visão das coisas é bastante absurda. E uma ilusão. O surgimento de movimentos nacionalistas, xenófobos, demagógicos e frequentemente delirantes como o Chega, o Front National ou o MAGA de Trump tem mais a ver com a democratização da ignorância e da grunhice permitida pela Internet e as redes sociais do que com “descontentamentos” com o sistema e a ausência de uma direita decente. Nenhum dos votantes no Ventura acha que os problemas económicos dos portugueses vão ser resolvidos por ele.  Ou então são ainda mais burros do que parecem. Mais deploráveis, digamos. Os movimentos de extrema-direita usam a manipulação tal como as seitas. São projectos de poder pessoais e de uma camarilha encabeçados por gente que sabe aproveitar o acesso à informação de uma imensa massa de anónimos pouco conhecedores da História, da ciência, da política, etc. para lhes apregoar uma condução a uma terra prometida (de ódio, de racismo, de testosterona e outras características pouco racionais e pacifistas).

Em Portugal, ao contrário de França, sim, tem sido o PS a ocupar o lugar da social-democracia. Começou com Sócrates e, depois disso, o PSD nunca mais foi o mesmo. Passos Coelho era já um André Ventura mais acanhado ou com menos verve. Era ainda outro tempo. Pois bem, segundo PNS, o PS devia abandonar esse espaço moderado que é a social-democracia e recuar em diagonal, para a esquerda. Teria cá um futuro, ó Pedro Nuno.

 

Diz ainda PNS que “o nosso partido não foi criado nem existe apenas para estar no poder, mas para transformar Portugal num país onde se vive bem em comunidade”. Ó Pedro Nuno, mas não é para isso que convém estar no poder? Como é que esse desígnio se consegue fora do poder?

 

Enfim, não me vou alongar mais, apesar de as minhas críticas poderem ser mais desenvolvidas. O artigo encontra-se no Público para quem o quiser ler. Este ataque de questionamento ideológico de que foi acometido PNS quando o PS e o Governo estão bem e continuam em alta no meio desta tormenta da pandemia e do alarido do comentariado invejoso é um pouco, para não dizer totalmente, despropositado. Talvez  o Pedro Nuno quisesse apenas justificar o apoio que deu a Ana Gomes, mas… já agora, a Ana Gomes? Porquê?

 

 

Só falta a direita defender o ensino à distância para sempre

A falta de atenção dos alunos nas salas de aula é talvez a queixa mais recorrente dos professores, desde sempre. Vamos imaginar que no ensino presencial os alunos podiam usar os telemóveis para fazerem o que quisessem, que diriam os mesmos professores e quão produtivas seriam essas aulas? É exactamente isto que se passa com o ensino à distância, caso a direita ainda não tenha reparado. E afecta tanto os alunos do privado como os do público, os mais e os menos desfavorecidos. E tem piada ser a mesma direita que há uns anos dizia que dar computadores aos alunos era um desperdício porque só iriam utilizá-los para jogos e outros entretenimentos.

Por este andar, ainda veremos o Rui Rio criticar a tal proibição do uso de telemóveis em sala de aula, impedindo assim os alunos de acompanharem e de se divertirem com a sua incansável luta contra as sondagens, no Twitter, por ser mais uma medida totalitária de perfil marxista.

Chega aqui

«O Chega foi criado em abril de 2019, teve 67 mil votos nas legislativas desse ano e o seu líder alcança quase meio milhão de votos nas presidenciais de 2021.»

Pedro Santos Guerreiro

🤹‍♂️

O Chega, então um movimento com esse nome, foi criado em Setembro de 2018, ainda Ventura se exibia como fervoroso militante do PSD. A intenção era a de ir tentar derrubar Rio Rio em congresso extraordinário, ou fingir tal. Mas o Chega, enquanto plano de explorar o racismo, a xenofobia e o medo de forma inaudita na política portuguesa, como armas assumidamente tóxicas e violadoras dos códigos de conduta do sistema partidário com representação parlamentar desde os alvores do regime democrático, foi criado em 2017 – por Passos Coelho.

No Observador é possível encontrar mais de cinco mil artigos a explicar como o Chega é uma invenção do PS, do Bloco, da esquerda. Continuando a procurar por lá, tropeçamos em vinte cinco mil artigos a explicar que o Chega não quer o mal de ninguém, está é a dar voz à imensa maioria que se sente perseguida e esmagada pelas minorias étnicas que fazem casamentos de três dias ao ar livre e pelos gandulos que arribam às praias dos Algarves vindos de Marrocos com uma das mãos num remo e a outra num telemóvel de último modelo. Este é um argumentário que já tinha sido utilizado para explorar a Troika como trunfo político. A Troika era excelente porque vinha cortar gorduras do Estado e obrigar os madraços e estroinas a saírem da zona de conforto e do País, mas a Troika era péssima porque tinha sido pedida pelo PS. O que não prestava na Troika era culpa dos socráticos, o que era bom na Troika era mérito de Passos e Portas. Com Ventura a lógica repete-se: ele diz coisas grotescas por culpa dos perigosos esquerdalhos e do seu marxismo cultural politicamente correcto, mas ele diz coisas verdadeiras que mais ninguém diz. Logo, é simples: cui bono?

Pedro Santos Guerreiro não gasta a carteira de jornalista no Observador. É uma das vedetas do império do militante nº1 do PSD e justifica o confortável salário com exercícios como o que acima está pendurado. Para além de escrever como mais ninguém (felizmente), este amigo também sabe como branquear o laranjal. Apagar Passos da fotografia com Ventura, in illo tempore, é obrigatório na grande estratégia da direita decadente. Aquela que em 2016 passou longas horas colada ao televisor a ver e ouvir Trump. A gargalhar com Trump. A admirar Trump. A aprender com Trump. E que depois pegou no telefone, ligou ao Ventura, e lhe disse “Chega aqui.”

Dois políticos com experiência política a mais

Rui Rio apareceu a comentar os resultados das presidenciais igual a si próprio – inapto para a função, cúmplice da decadência da direita portuguesa. Começou com o enigmático critério de achar que existia alguém interessado em conhecer a sua opinião sobre o PS no rescaldo de umas eleições presidenciais onde esse partido apoiou (oficiosamente) os candidatos que ficaram em 1º e 2º lugar. E rapidamente passou para o papel de relações públicas de Ventura, manifestando o seu entusiasmo, admiração e indisfarçável alívio com o triunfo do coiso no Alentejo e em Setúbal sobre o candidato comunista. Alívio porque lhe permitiu sacar do seguinte insulto à nossa inteligência: com esta votação fantástica num tachista armado em facho provava-se que aquilo dos Açores, em que um certo presidente do PSD tinha legitimado e promovido um partido abjecto, não tinha passado de uma inevitabilidade sem importância nenhuma e sem possibilidade de ter sido evitada pois até os comunistas se tinham deixado hipnotizar pelo porcalhão. Foi o momento Chamberlain de quem lançou a sua candidatura a presidente do PSD jurando que “na política, como na vida, a palavra dada deve ser honrada” e que chega a 2021 com a sua palavra hipotecada num acordo com quem se declara apostado em destruir a direita que construiu e desenvolveu a democracia portuguesa. Um líder da oposição que persegue as empresas de sondagens e que entra em diálogo institucional com comentadores. Uma desgraça política ambulante.

Ana Gomes apareceu a comentar os resultados das presidenciais igual a si própria – inapta para a função, cúmplice da imbecilidade da esquerda portuguesa. Rapidamente, a partir dos 4 minutos, começou a acertar contas com o PS. No vórtice que se seguiu, chegou ao ponto de invocar o seu estatuto de recém-viúva como arma de arremesso político. Esta incapacidade para distinguir entre a sua esfera pessoal e a cidade explica o fracasso de uma candidatura prejudicial desde o seu começo. Ana Gomes quis ocupar o terreno eleitoral do PS sem ter condições intelectuais e morais para tal. Ter uma carreira partidária e mediática a surfar o populismo do tempo e os rancores electivos não puxa carroça numas eleições presidenciais. Daí ter ficado toda a gente surpreendida e literalmente incrédula ao ver a postura de estadista que conseguiu manter nos debates com Marisa Matias e João Ferreira. Não passava de uma lição estudada com muito custo, fingir que conseguia apoiar o actual PS e o actual Governo. Ainda antes de ter perdido a vergonha com Marcelo, vimos Ana Gomes associar Costa a Viktor Orbán a propósito de uma campanha de chicana lançada pelo PSD. Esse episódio, em que a senhora diplomata opta insanamente por ofender um primeiro-ministro, um secretário-geral do PS, um camarada e um cidadão, chegava e sobrava para lhe tirarmos a pinta. Quem nem sequer tem controlo sobre o que diz nunca merecerá confiança sobre o que pensa.

Rui Rio, 63 anos, e Ana Gomes, 66 anos, não têm falta de experiência política. É ao contrário, têm experiência política a mais. O que lhes falta é talento e humildade. Para nosso tão grande azar.

Revolution through evolution

Childhood neglect leaves generational imprint
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Money matters to happiness – perhaps more than previously thought
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Exercising muscle combats chronic inflammation on its own
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Tuning out the external world and allowing thoughts to move freely promotes relaxation and exploration, findings suggest
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Researchers develop a mathematical model to explain the complex architecture of termite mounds
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Having plants at home improved psychological well-being during lockdown
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Positive interactions with family one day can make managers better leaders the next
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Esquerda imbecil, mais um capítulo

Mais uma vez, numas presidenciais, a esquerda imbecil revela-se no seu fulgor. Ana Gomes a um ponto percentual de André Ventura, tal apenas se devendo às demografias do Porto e Lisboa, não é derrotar a extrema-direita, o racismo, a xenofobia e demais patologias políticas e cívicas alimentadas a outrance no Chega. João Ferreira e Marisa Matias somados ficarem substantivamente atrás de um cultor do salazarismo e dos nacionalismos populistas de direita é uma derrota com estrondo para o ideal do 25 de Abril.

Por que razão nem BE, nem PCP, nem figuras deslumbradas e egocêntricas como Ana Gomes serviram de antídoto contra um farsante que utiliza o medo e o ódio como íman? Porque as dinâmicas pulsionais e identitárias que agregam os deploráveis anónimos na idolatria a Ventura só se reforçam ao serem atacadas pelas vedetas deploráveis que vertem dinâmicas identitárias e pulsionais a partir dos órgãos de comunicação social onde são pagas pela alta burguesia.

A hipocrisia e o fanatismo esboroam-se quando enfrentam a coragem idealista e a lucidez implacável dos que ousam defender o bem comum. Sempre na história da civilização. Não há, aliás, outra explicação para a existência dela – a civilização dos direitos humanos e da liberdade onde queremos viver.

Variações sobre “Presidente dos portugueses de bem”

Direitos para os portugueses de bem.
Habitação para os portugueses de bem.
Empregos para os portugueses de bem.
Serviços de Saúde para os portugueses de bem.
Escolas e universidades para os portugueses de bem.
Segurança policial para os portugueses de bem.
Bombeiros para os portugueses de bem.
Restaurantes para os portugueses de bem.
Comércio para os portugueses de bem.
Cinemas e teatros para os portugueses de bem.
Clubes desportivos para os portugueses de bem.
Estádios e bancadas para os portugueses de bem.
Praias para os portugueses de bem.
Jardins para os portugueses de bem.
Bairros para os portugueses de bem.
Ruas para os portugueses de bem.
Água canalizada e electricidade para os portugueses de bem.
Casas de banho para os portugueses de bem.
Lugares nos transportes públicos para os portugueses de bem.
Voto só para os portugueses de bem.

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Das vantagens de Ventura ficar em 2º

Sem pandemia, seria impossível a Ventura ficar em 2º lugar nas presidenciais. Com ela, e com o estado de factual catástrofe de saúde pública e de crescente pânico social a afastarem eleitores acima dos 50 anos, a que talvez ainda se junte o mau tempo no dia das eleições, os resultados são completamente imprevisíveis. As sondagens não vão ser capazes de acertar. É um cenário análogo, mas para muito pior no campo da previsibilidade, ao do primeiro referendo ao aborto.

Contudo, há uma ponderação que pode já ser feita com segurança: ter Ventura em 3º lugar, colado a Ana Gomes ou a uma pequena distância, é um triunfo para ele e uma derrota para ela e restantes candidatos. Servirá todos os propósitos de uma candidatura que foi levada ao colo pelos jornalistas, os quais condicionaram disfuncionalmente aquilo a que se resumiu a campanha: os debates.

Ontem, um artigo de Vasco Rato avisava a falange para abandonar o barco. Ventura tinha-se entusiasmado e borrado a pintura, lamenta-se o autor, assim deitando a perder um projecto lindo que estava tão bem encaminhado. O limite tinha sido ultrapassado na bestialidade e baixeza dos ataques a Marisa e Jerónimo, explicou. Defender Salazar, enfiar Nossa Senhora de Fátima no bolso, atacar um papa, abraçar evangélicos, perseguir minorias, brincar aos racistas, alimentar aberrações morais e políticas, prometer prender democratas, isso um Vasco Rato aceita e até curte em nome do castigo à esquerdalha. Agora, vê-lo em Guimarães a exibir-se inane e ridículo, perceber que o Ventura se tornou pestífero e se rodeou de alimárias, pede medidas preventivas. João Miguel Tavares, sempre sintonizado com movimentações tectónicas que possam afectar os seus rendimentos, veio logo copiar, ipsis verbis, o Rato que viu a fugir.

Para mim, o desfecho político mais esclarecedor para estas presidenciais consiste em contemplar Ventura a celebrar o 2º lugar, de preferência com uma segunda volta. Sei que é pedir de mais mas convoco Torres e peço para me deixarem sonhar. Com o coiso doidão a celebrar o feito e a despachar ameaças, exigências, delírios, desceria sobre a Grei uma nova consciência. Finalmente, poderíamos juntar Rio, Cavaco e Passos numa sala para lhes fazermos uma singela pergunta: “Já Chega?”

Declaração de voto

Isabel Moreira declarou em Setembro o seu apoio a João Ferreira, explicitando que o fazia contra o populismo e em nome do Estado de direito. Desde essa data, por sua influência, que também tenho o meu voto decidido.

O PCP não é um paladino do Estado de direito, no sentido em que não se preocupa com as violações ao mesmo dado estar focado no marxismo-leninismo e desprezar os valores burgueses (leia-se, liberais). Porém, o PCP sempre quis reclamar a Constituição como monopólio ideológico, como prova da legitimidade do projecto comunista e dos especiais direitos daqueles que foram os mais perseguidos pela ditadura. Isso levou a uma anfibologia onde o termo “Constituição” passou a representar duas entidades bem diversas, consoante se estava dentro ou fora do universo semântico da Soeiro Pereira Gomes: para os comunistas, a “Constituição” é fundamentalmente o seu Preâmbulo mais uns artigos avulsos; para o resto da malta, a Constituição é o conjunto do texto fundamental para a República, o qual se renova como matriz da democracia a cada revisão, não passando o Preâmbulo de um elemento memorial, decorativo, folclórico. Os comunistas consideram todas as revisões constitucionais como machadadas do imperialismo capitalista nos amanhãs que cantam.

Nestas eleições presidenciais, as duas concepções – que conservam antagonismos radicais entre si – podem finalmente fundir-se num paradoxo útil para quem queira votar numa ideia de democracia que transcenda as divisões ideológicas. João Ferreira, sem medo de aborrecer e como comuna típico, pôs a tocar a cassete da “defesa da Constituição” e fez dessa bandeira o centro da sua estratégia de campanha. Dessa forma, e em simultâneo, pôde falar para a identidade do seu partido e para as preocupações e aspirações de largas fatias de eleitores que votam PS, mais uma mão cheia dos que vota BE – e quiçá também para algumas almas penadas do PSD, caso haja laranjas com alergia ao populismo de Marcelo e com genuína costela conservadora.

Nestes quase 47 anos de regime democrático, o PCP adaptou-se ao triunfo dos exploradores da classe operária, tal como manda fazer o materialismo histórico, e aceitou adiar a revolução por uns séculos. A direita, vendo que o tigre pós-Cunhal não tinha dentes, afeiçoou-se ao seu rugido e passou a contar com ele para manter o proletariado na ordem. Daí a preocupação, à mistura com nostalgia, perante o definhamento demográfico deste, afinal, tão simpático e castiço partido – à exacta imagem do patriarca Jerónimo, o qual espalha bondade e bonomia. Votar em João Ferreira, então, implica assumir uma ironia. A de precisarmos de um populista bom para combatermos os populistas maus. O PCP é um partido populista, nisso em que se arroga o delírio de pretender ser proprietário do “povo”, mas tem décadas de sã convivência com a liberdade dos outros. Mais: a liberdade de todos deve muito ao heroísmo de milhares de militantes e simpatizantes comunistas.

Nos militantes do PCP – representados no João Ferreira, o qual é um candidato “do partido” – há uma decência e um humanismo que são património comum da civilização. Partilhamos causas e valores que estão sob ameaça da vertigem e do caos do tempo. Se lhe juntarmos a jura da defesa da Constituição, é ouro sobre vermelho para decidir em quem votar nestas presidenciais das pandemias.

Ana Gomes, um desastre anunciado

«Por exemplo, uma outra área onde eu tenho uma demarcação do Sr. Professor é a área da Justiça, da transparência, da corrupção. [...] Por exemplo, eu sei que o Sr. Professor, até pela sua relação de amizade com o Dr. Ricardo Salgado, é certamente das pessoas com mais interesse em que o caso BES já tivesse sido esclarecido, que já se tivessem apurado as responsabilidades desse senhor e de muitas outras pessoas em julgamento. E o caso BES está ligado, por exemplo, ao caso Sócrates, está ligado ao caso do "apagão fiscal", a questão das transferências para "offshore"...»


Ana Gomes para Marcelo Rebelo de Sousa – 26:50

🕳️

Portanto, Sr. Professor, cheira-me que o Sr. Professor, para além do conúbio com os queques da Comporta, também andou embrulhado com o diabólico Sócrates e ainda tem algo a dizer a respeito de uma curiosíssima “singularidade estatística” ocorrida debaixo dos olhinhos do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais do Governo Passos Coelho, Paulo Núncio, durante a qual desapareceram 10 mil milhões de euros do radar do Estado com origem no BES. Ana Gomes vinha de 10 minutos sob constante e demolidor contra-ataque de Marcelo, que não só tinha rebatido com estrondo as suas últimas críticas como acabou a inverter os papéis e parecia ele o candidato que disputava o lugar à incumbente. Talvez sem esse sofrimento, visível no seu rosto, ela tivesse resistido a lançar aquilo que não carece lhe expliquem ficar como um acto canalha de difamação e chicana: colar Marcelo a casos de Justiça onde não é tido nem achado. É que, foda-se senhores ouvintes, se a Sr.ª Diplomata não consegue medir o peso de certas palavras com um grau de prudência já observável em crianças de 12 anos teremos de reescrever a História da diplomacia mundial.

Ana Gomes quis ripostar e usou o chiqueiro das calúnias. Isto, em si mesmo, é o que é. Cada qual define-se na avaliação que fizer da sua escolha. Chamo antes a atenção para outro aspecto, o qual é infinitamente mais importante do que o carácter da candidata presidencial. Refiro-me à matéria mesma dos tais casos, a que se acrescentam as declarações que continuou a fazer nos dias seguintes sobre os megaprocessos. Assim, para ela, os megaprocessos (a “Operação Marquês” é o mais importante deles no campo político e o mais mediaticamente explorado pela indústria da calúnia) são estratagemas organizados pela Justiça sob a influência ou pressão “dos ricos” com o objectivo de impedir os julgamentos e as respectivas condenações (que dá como certas, não precisa do paleio dos advogados e juízes), levando a que os acusados se safem através da prescrição dos crimes. Ainda nesta segunda-feira, no debate das rádios, repetiu a sórdida cassete e declarou que a corrupção precisa de “penas exemplares”. Horas depois, num espaço da candidatura, tomou o partido do Ministério Público para voltar a martelar a relação de Sócrates com o BES, utilizando politicamente o que neste momento não passa de uma acusação – e acusação embrulhada em abusos inauditos de magistrados, de politização de altas figuras do Estado e de crimes com origem na Justiça contra quem, mais de 6 anos passados sobre a sua detenção intencionalmente espectacular, permanece cidadão inocente. Sim, e não é notícia: o Estado de direito democrático e seus princípios não entram no conjunto de valores que moldam a identidade da cidadã Ana Gomes.

Mas pensemos. Imaginemos. O que se passará na cabeça da ilustre diplomata? Ela anda a ouvir, desde 2008, figuras gradas da direita a berrarem que o PS controlou politicamente o Ministério Público e o Supremo Tribunal de Justiça, utilizando Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento para evitar que um colossal corrupto a ocupar o cargo de primeiro-ministro fosse sequer investigado de tanta ilegalidade ao dispor na indústria da calúnia. O PS conseguiu isto, atente-se, sem que o Presidente da República Cavaco Silva, o PSD e o CDS, o Conselho Superior do Ministério Público, o Conselho Superior da Magistratura, e demais órgãos sindicais e corporativos das duas magistraturas, tivessem conseguido impedir, detectar, denunciar e castigar aquilo que terá de ficar como o crime do milénio pela sua gravidade para o regime. Este discurso é tão voluntariamente alucinado como o de Trump ao dizer que ganhou as eleições contra Biden. E tem permanente eco na “imprensa de referência”, tomada pelo editorialismo e comentariado aliados. Pois face a este cenário, já com 12 anos contínuos de ataque à confiança nos pilares soberanos da República, vemos uma candidata presidencial – que reclama representar os eleitores do PS – a aproveitar o embalo e juntar-lhe um nó cego onde a própria “Operação Marquês” teria sido pensada para que os supostos crimes prescrevessem antes de vermos o Engenheiro de novo na choldra, agora para uma estadia mais completa. Que desvairo é este? O que pretende alcançar? Para quem fala?

O que é trágico não é vermos a decadência desta figura, de uma irresponsabilidade política e cívica que ofende a moral das pedras da calçada. Trágico é vermos tantos, e tão meritórios, que arrasta para a irracionalidade onde se fantasia justiceira. Que ninguém se espante, então, com os 74 milhões de votos em Trump. O populismo tem razões que a razão tão bem conhece e tão mal rejeita.

Estado de guerra – 10 meses depois

Há vários tipos de catástrofe. Esta pandemia é uma catástrofe diferente de um terramoto, de um maremoto, de um furação, de um vulcão, de um acidente químico ou nuclear de larga escala. Diferente pela extensão no tempo da sua força activa e pela mutação na dinâmica da sua actividade.

Num terramoto há abalos severos nas estruturas físicas durante alguns segundos ou minutos, seguem-se réplicas cada vez mais fracas, e depois acabou. Num furacão há ventos e chuva avassaladores durante um par de dias, e depois acabou. Num maremoto há inundações destruidoras no espaço de horas, e depois acabou. Num acidente nuclear há efeitos contínuos que podem permanecer durantes décadas, séculos e até milénios, mas não estão (geralmente) sujeitos a alterações que os agravem ou aumentem o seu raio de acção.

Com as pandemias há um agente que é um autêntico morto-vivo, um vírus, tendo a capacidade de se reproduzir e evoluir, de ganhar rapidez, de ocupar cada vez mais terreno, de aumentar a intensidade e gravidade dos seus ataques. É uma entidade que não tem cérebro nem vontade mas que tem a inteligência e a finalidade da biologia.

Usar a metáfora do “inimigo” para lidar com a actual catástrofe em que nos encontramos, em que se encontra a humanidade, não é apenas um recurso útil para orientar comportamentos colectivos e individuais em prol da segurança e da prevenção. É também ser humilde, preferir a realidade onde há uma guerra para vencer com as armas da responsabilização comunitária e da consciência guerreira.