Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Quatro Brexits e um funeral (ou dois)

 

No site da BBC, podemos ler um artigo com um título bem engraçado sobre o mais recente estado da discussão parlamentar do processo de divórcio RU-UE: “Four Brexits and a Divorce“. Inspirando-se no título de um famoso e divertido filme inglês e nas hesitações do seu protagonista, alude, obviamente, à série de propostas ontem postas à votação na Câmara dos Comuns e ao possível desfecho de todo este imbróglio. No entanto, cá para mim, o “funeral” do título original do filme teria toda a razão de se manter. Se não, vejamos. Falecimentos podem ser alguns. A começar, o do próprio Brexit (sempre e ainda uma hipótese). Depois, devido ao enorme esforço que lhe tem custado esta prolongada paródia, Theresa May ainda se esvai um dia destes. Espero que não. Para já, perdeu a voz, mas parece resistir. Outro que pode ter a vida em risco é o “speaker“, que começa a ficar congestionado demais e a não caber na gola. Ainda cai redondo nos Comuns. Outra coisa que pode falecer é o partido conservador, que vai cavando divisões profundas entre os seus membros e com o eleitorado enquanto se diverte, ou o partido trabalhista, cujos grandes princípios e líder poderão acabar enterrados nesta situação tão século XXI pela sua superficialidade (passe a incongruência). Poderá também finar-se a boa reputação do Parlamento britânico. Para muitos europeus, que imaginavam outra coisa que não a balbúrdia, a falta de lugares sentados e as entradas e saídas do “Lobby” para as votações, já se finou e de que maneira. A reputação dos políticos britânicos, a começar por Cameron, está também literalmente, e há muito, pela hora da morte. Finar-se poderá também a própria Grã-Bretanha, se a Irlanda do Norte decidir que prefere a paz à Rainha. Enfim, é muito falecimento em perspectiva para se poder vislumbrar alguma Fénix que dali renasça. Este divórcio nem sequer tem um grande amor em vista.

Lapidar

Elas não sabem o que querem

De repente, por magia, apresentam-se soluções judiciais com as quais se propõe resolver?, impedir?, ou atenuar? a violência doméstica. Uma, afigura-se particularmente perversa, apontando mais uma vez a culpa às mulheres/vítimas pela inépcia da justiça.

É recorrente que juízes e procuradores imputem a uma pretensa postura errática daquelas a continuada absolvição dos arguidos. Diz-se que, prestando declarações na fase de inquérito sobre os factos, se remetem ao silêncio na fase de julgamento, o que inviabilizará a produção de prova sobre os mesmos. Para obviar a essa situação, seria de recorrer a uma audição antecipada da mulher/vítima perante o juiz, ainda em fase de inquérito (declarações para memória futura), de modo a tornar irrelevante qualquer silêncio posterior.

Trata-se de uma menorização da mulher, bem próxima daquela expressão discriminatória elas não sabem o que querem. O que importa analisar/compreender são as razões que levam tantas mulheres a preferirem o silêncio em sede de julgamento; em que medida esse silêncio não será gerado pela própria máquina judicial, essa sim tantas vezes errática no tempo e no modo.

A.R.

10 euros para quem explicar o que este juiz quer dizer

No entender do vice-presidente do CSM "qualquer intervenção esclarecedora será utilizada como mais um pretexto para denegrir a imagem dos Juízes e para alimentar um ambiente propício para romper com o paradigma constitucional vigente em matéria de separação de poderes e (auto)governo judicial, como muitos setores assumidamente pretendem".

Reconhecendo a sensibilidade desta questão, acusa: "O despudorado aproveitamento de casos isolados, dirigido a pôr em causa equilíbrios e soluções institucionais que no essencial estão a produzir resultados muito positivos, evidencia bem a sensibilidade da atual conjuntura."

“Limites da censura pública” estão a ser ultrapassados, acusa juiz Mário Morgado

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i – Como é que seria possível “romper com o paradigma constitucional vigente em matéria de separação de poderes e (auto)governo judicial”?

ii – Que “setores” pretendem tal? Onde o assumiram?

iii – A que “equilíbrios e soluções institucionais” se refere?

iv – A que “resultados muito positivos” se refere?

v – Pretende denunciar junto do Presidente da República o que declara, enquanto juiz e responsável judicial superior, ser (ou alguém pretender que o seja) um irregular funcionamento das instituições?

vi – Por que razão não nomeia quem pretende, segundo declara enquanto juiz e responsável judicial superior, acabar com o Estado de direito democrático?

vii – Para quem fala, e o que pretende, com este registo críptico, nebuloso, difamatório e alarmista?

Disparates populistas de Marcelo

Dá que pensar, embora a violência da conclusão intrigue: caso se repetissem os incêndios de 2017, o Presidente dissolveria o Parlamento. Ou seja, deitaria abaixo o Governo e convocaria novas eleições. Marcelo declarou esta intenção em entrevista à TVI, ontem, num momento em que diz estar a ponderar a sua recandidatura. Nunca saberemos se o fazia ou não. Mas o facto de o afirmar é confrontacional. Segundo ele, os protestos do povo por entre cujo choro andou na altura dirigiam-se de tal maneira ao Governo e ao seu “descolamento da realidade” que não lhe restaria outra solução que não fosse mandá-lo abaixo nos próximos fogos, a acontecerem. Parece que assim vingaria o povo e, a partir daí, não mais haveria tragédias? Que “boutade“. Daquela vez passou, da próxima o Governo não passa? Ó paizinho. Com calma, sim?

 

Isto é ridículo, surpreendente e muito agressivo. Andando também pelo meio do povo naquela época seca e escaldante, ouvi acusações bem diferentes das invocadas. As coincidências dos fogos postos não escaparam a quase ninguém. Não levei, porém, uma câmara nem sou governante. É que não há nada melhor para ouvir dizer mal de quem governa do que andar um presidente, às vezes uma simples câmara de televisão, pelo meio do povo destroçado. De pessoas que não têm culpa nenhuma, de facto, do que aconteceu e nem terras possuem. Mas Marcelo não ignora certamente que quase ninguém nas terras ardidas limpava as matas, que animais como as cabras há muito desapareceram, que ninguém se preocupava com as portas de saída em certos edifícios, ninguém avaliava os locais de construção de habitações em termos de segurança, ninguém respeitava muito a proibição de queimadas, que todos queriam ganhar dinheiro com os eucaliptos, enfim, que já não chovia há sete meses; e muitos dos que protestavam se esqueceram dos cortes nos organismos públicos e em pessoal (incluindo vigilantes florestais e bombeiros) no tempo do governo anterior; no entanto, já que havia palco e presidente, este diz que o povo malhava era no Costa. E muita gente acredita. Marcelo tinha obrigação e a decência de interpretar correctamente situações de aflição e desespero e de ver mais longe, devendo ele próprio, já agora, contribuir para uma maior tomada de consciência das populações e autarquias para as suas próprias responsabilidades. Mas assim não foi e só pode haver uma razão pouco louvável.

 

Alguns dados

 

Segundo o relatório da Comissão Técnica Independente, que Marcelo seguramente leu, 40% dos incêndios de 2017 deveram-se a actos incendiários intencionais, 20% a negligências várias e os restantes 40% a reacendimentos. Escusado será lembrar aqui também, a propósito das dificuldades no combate, o número inusitado de incêndios que se verificaram praticamente em simultâneo, consumindo meios e recursos não multiplicáveis por todo o país, ou os fenómenos atmosféricos até essa data raros que foram responsáveis, pelo menos, por uma das principais tragédias desse fatídico ano, numa determinada estrada. Esses dados deveriam estar sempre presentes antes de alguém decidir mandar para o ar acusações disparatadas e venenosas. Marcelo acusa agora directamente o Governo (na pessoa da ministra da Administração Interna de então) de responsabilidade pelas tragédias ocorridas. Não se percebe onde quer chegar com tal incriminação, numa altura em que até se leram notícias, não sei se falsas, de um possível apoio do PS à sua recandidatura.

 

E já que falo nisso, aproveito para dizer que discordo em absoluto desse apoio. O partido socialista deveria manter-se distante. Se não tem candidato, cale-se. Já bastou o que aconteceu com Cavaco Silva que, no primeiro mandato, pareceu cordial e colaborante, conseguindo seduzir para o voto muitos dos que não apreciavam Manuel Alegre e, mal se apanhou reeleito, desatou a fazer discursos vingativos contra os socialistas e política partidária desenfreada em prol dos seus camaradas de sempre, muito contribuindo para a catástrofe que se seguiu.

 

Marcelo não governa nem governava em 2017 e só isso já o devia fazer conter. Pelo que disse na entrevista, até parece que o Costa não faria nada para evitar novas tragédias decorrentes de incêndios nos anos seguintes se não sentisse a espada de Dâmocles por ele supostamente colocada sobre a sua cabeça. É obviamente mentira. Além de ser uma afirmação antipática de autoridade. Por questões relacionadas com a sua própria reeleição, Marcelo está a optar pela esperteza saloia (pode não ser verdade que fizesse o que diz que faria), pelo distanciamento de vedeta e pelo vale tudo, incluindo o aproveitamento de tragédias que nenhum governo poderia ter evitado.

 

 

Perguntas simples – Edição especial

«Livro de recitações

“Há mais políticos com contratos permanentes nos media do que lugares na maior bancada parlamentar da Assembleia da República”
Rosa Pedroso Lima, in Expresso, 2/3/2019

Estes números confirmam a existência de uma nova classe que, na linguagem dos seus detractores, é a classe político-mediática. Evidentemente, ela também supõe a reversibilidade: a classe mediático-política. Quando já não houver mais nada para além da lei deste hífen, teremos atingido um estado homogéneo que se configura como uma nova versão do fim da História, isto é, do fim da política e do fim do jornalismo. O processo não se deu por invasão, mas por hospitalidade, o que o tornou mais sereno e eficaz. A pouco e pouco, os media transformaram-se em rampas de lançamento para políticos voadores, ou em estâncias de retiro para engordar reformas e cultivar prestígios de políticos opulentos. O espaço público mediático povoado por uma tagarelice política que funciona em circuito fechado, eis o nosso destino. A esta classe hifenizada devemos fazer a pergunta: quem são os políticos e quem são os jornalistas?»


António Guerreiro

Afinal, aquilo da asfixia democrática… não é que os cabrões tinham razão?!


in Os políticos invadiram os media portugueses

Estamos perante o mais interessante artigo publicado num jornal desde o começo do milénio. Aleluia, alguém se deu ao trabalho de esboçar um retrato do sectarismo que estrutura a comunicação social portuguesa há décadas, o qual continua a aumentar. Como tem a chancela do Expresso, à surpresa junta-se a certeza de ser um exemplo daquilo que está a retratar.

Rosa Pedroso Lima fez as contas e compôs o quadro que se pode ver acima. Trata-se do mínimo garantido no que respeita ao começo da contabilidade partidária, a qual, contendo erros e não disponibilizando os critérios, oferece o seguinte resultado: Esquerda – 47,4%; Direita – 52,6%. Retrato do País? De um certo país, o dos accionistas e directores dos órgãos onde vamos buscar as notícias e o entretenimento. É o país onde o PSD lidera com mais de 35%, onde o CDS aparece à frente da perigosa esquerdalha com 12%, onde até o Aliança e o Chega, sem terem ainda recebido um singelo voto, já dominam 3% do espaço mediático ocupado por políticos profissionais. Apesar disso, se perguntarmos ao Henrique Raposo, à Helena Matos e ao João Miguel Tavares se serve assim ou ainda estão asfixiados, sabemos bem qual é a resposta. Um fanático não se rende por menos de 99%. Pois já lá chegaremos.

O artigo oferece um esboço de análise qualitativa sobre os números, dando a ver uma segunda perspectiva onde as assimetrias face à realidade eleitoral e sociológica se radicalizam de forma absoluta. Como admite a autora, só dois políticos conseguem ocupar os palcos dos canais televisivos generalistas: Marques Mendes e Paulo Portas. Consequências? O que eles dizem, e tanto que eles dizem, chega a muito mais gente. Justiça seja feita à sua honestidade intelectual, ainda conseguiu referir o ubíquo protagonismo de Paulo Rangel, Pacheco Pereira e Francisco Louçã (grandes inteligências que, fui investigar no Google, têm em comum uma incurável alergia ao PS). Ou seja, se compuséssemos um novo gráfico da ocupação partidária do espaço mediático tendo também em conta o alcance respectivo, a vantagem da direita passaria para algo como 70-30% (sei lá nem se pode saber ao certo, mas aposto os 10 euros no bolso como é à volta disso). Altura de avançarmos, ou descermos, para a parte submersa na peça de RPL.

Portugal é o tal território europeu que tem em comum com os EUA ter um Presidente que foi eleito depois (e por causa) de passar anos em campanha na TV como celebridade do espectáculo. Esse legado também faz parte integrante destes cálculos, da nossa História. Mas o cálculo, e a História feita quotidianamente sob a influência dos órgãos de comunicação profissionais, só se deixa ver na sua completude quando somamos a influência de todos aqueles que não se podem etiquetar como políticos – embora seja política o que fazem adentro dos seus papéis mediáticos. Nesta mole de gente entram os comentadores, os jornalistas, os editores, os directores e os convidados avulsos, todos a opinarem frenética e caudalosamente no espaço mediático. Talvez baste dar o exemplo da RTP para se contemplar o essencial do que está em causa. Judite de Sousa, José Rodrigues dos Santos, Adelino Faria e Vítor Gonçalves são quatro nomes associados a uma prática ideológica e partidariamente marcada naquilo que deveria ser um exercício de pura isenção e idoneidade jornalística. O facto de trabalharem na RTP, estação pública, nunca os inibiu de tomarem posição – mais ou menos sonsa, mais ou menos indecente – nas conjunturas e disputas políticas do tempo. Como quantificar a influência de que dispunham, uns, e ainda dispõem, outros? Ora, se isto é assim na RTP, escusado será listar exemplos do Grupo Impresa, da TVI, até da Global Media et tutti quanti. Contudo, há que referir o exemplo incontornável do Governo Sombra, cujos méritos comunicacionais dos participantes seguramente que justificam a popularidade atingida mas onde o sectarismo dos perfis e da praxis produz um espaço de notável influência antiPS. Não errarei por muito se actualizar o nosso gráfico imaginário para uma relação 90-10 a favor da direita.

Finalmente, o factor Cofina. Trata-se de um grupo de comunicação cujo sucesso é incomparável e cuja agenda política implica o recurso a crimes e a perseguições fulanizadas. Na Cofina utilizam-se as mais apuradas técnicas de sensacionalismo para gerar um clima de constante ataque ao PS e à esquerda em geral, e ainda de degradação das instituições da República. Também aqui é desconhecida a real influência da manipulação constante, bastando referir o caso da promoção mediática de André Ventura para se poder observar o processo onde a meta é o crescimento de um eleitorado disponível para as propostas da extrema-direita. Como não existe nada de nada em Portugal comparável à Cofina que tenha o mais ténue vestígio de ligação a uma agenda de esquerda, qualquer tipo de esquerda, é já cheio de confiança que faço a última alteração no gráfico da influência política na comunicação social portuguesa: Direita – 99%; Esquerda – 1%.

Ventinhas e a sorte de não existir imprensa em Portugal

Existe imprensa em Portugal? Existem jornalistas, alguns que honram exemplarmente a profissão no seu código deontológico e ideal, mas não existe imprensa. E essa ausência tem vastas consequências, tanto no espaço público como nos órgãos de soberania. Se existisse, não seria possível assistir a isto: “Decisão sobre estrutura do Ministério Público condiciona combate à corrupção”

De um lado, um magistrado do Ministério Público que acumula em estatuto e responsabilidade ao aparecer como presidente do sindicato. Do outro, dois jornalistas, um deles premiado e considerado um príncipe da elite mediática, social e cultural do País. Dir-se-ia estarem reunidas as condições para que o primeiro conseguisse passar a sua mensagem e que os segundos a conseguissem esclarecer e criticar com objectividade, idoneidade e coragem cidadã. Eis o que aconteceu:

– O magistrado sindicalista nunca referiu – nem sobre tal foi questionado – os objectivos principais, primeiros e últimos, que o SMMP pretende atingir no seu combate contra o actual Governo, contra a Assembleia da República e contra o sistema partidário. Nomeadamente, o aumento da remuneração, a falsa avaliação das carreiras e a protecção disciplinar absoluta, já para não falar na possibilidade de recusarem ordens e transferências de tribunal.

– O magistrado sindicalista repetiu a cassete onde agita a bandeira da “corrupção” como técnica falaciosa para manipular, difamar, caluniar e alarmar.

– O príncipe dos jornalistas não conseguiu desmontar a retórica do magistrado sindicalista, tendo chegado ao ponto de o interromper quando ele se estava a afundar a pique nas suas distorções só para lhe dar uma bóia de salvação na forma de uma questão mal colocada.

Quem usa as palavras “Justiça” e “corrupção” como tropos para ganhar dinheiro, seja o caso deste Ventinhas ou dos caluniadores profissionais na indústria da mesma, exibe uma característica comum: nunca apresentam dados mensuráveis e fidedignos que permitam validar as suas declarações, conclusões e profecias. Como não se ancora em qualquer realidade passível de ser identificada e partilhada com isenção, o discurso destas personagens é desvairadamente hiperbólico e catastrofista. Estamos perante um clássico registo panfletário com séculos de uso, se não forem milénios. Funciona porque antropológica e cognitivamente fomos seleccionados para dar atenção a quem nos avisa de perigos, mas é essa nossa resposta instintiva e automática perante um qualquer alarme lançado no meio social que igualmente nos faz sermos presas destes predadores que nos enganam vezes sem conta, tantas quanto deixarmos. Como curiosidade, convido à visita ao canal digital do SMMP, e peço a algum bravo que tente lá descobrir dados objectivos e comparativos sobre a corrupção em Portugal (se existirem, por favor mostrem onde).

António Ventinhas é um cidadão que nos pretende enganar. Representa e chefia um sindicato que nos pretende enganar. A estratégia que seguem é a de usarem o tema da “corrupção” como forma de chantagem sobre a classe política que nos representa, que elegemos com o nosso voto. Nessa lógica, assumem a posição oficial de considerarem que os políticos por atacado são corruptos – e dizem-no oficialmente porque se sentem, e se sabem, blindados contra qualquer poder da República. Cá fora, órgãos de comunicação que lucram com os crimes cometidos no Ministério Público fazem coro na calúnia de estarmos infestados por políticos corruptos, os quais só recentemente, graças a Joana Marques Vidal e Carlos Alexandre, começaram a ser investigados e punidos, repetem diariamente. Este clima populista, justiceiro e linchador é usado pelo SMMP como trunfo negocial no que não passa da tentativa de manter o controlo corporativo mais completo e feroz que for possível, impedindo uma abertura democrática do Ministério Público em nome da transparência e da liberdade. Em nome da justiça para todos. Por vontade do Soberano.

Se existisse imprensa em Portugal, se o Miguel Sousa Tavares tivesse sido um bocadinho esperto, Ventinhas teria continuado a explanar a sua analogia entre o combate à corrupção no MP e o futebol para nossa educação. Recordemos a maravilha:

PP - Permita-me citar uma frase do sindicato quanto a uma eventual mudança na composição do conselho superior, não querem "entregar o País àqueles que beneficiaram com a corrupção ao longo de décadas". Isso foi dito pelo próprio sindicato. Alterar a composição do conselho é defender a impunidade da corrupção?

AV - [...] Muitas vezes gosto de dar o exemplo do futebol pa que as pessoas lá em casa percebam, que às vezes interpretam mas não percebem. Era como se disséssemos assim: a administração de um clube, se escolher o treinador e os jogadores, determina o resultado final da equipa ou não determina? Eu diria afirmativamente que sim. Se escolher um bom treinador, experiente, que conhece os meandros do futebol, se escolher os jogadores certos para as posições certas, poderá condicionar, e...

MST - Desculpe que o interrompa, [...]

E interrompeu mesmo. O exercício teria tido continuação, talvez chegando ao ponto de nos ter explicado o papel dos árbitros, das claques profissionais e dos vendedores de couratos no combate à corrupção. A ideia, todavia, ficou bem explícita. Implica ter reconhecido que o Ministério Público é composto por dois grupos de procuradores: o grupo dos competentes e o grupo dos incompetentes. Toda a gente sabe quem é quem. Assim, o Ventinhas sabe quem são os magistrados ganhadores, com experiência e conhecimentos nos meandros da corrupção, e quem são os nabos, os verdinhos. Se ele sabe, os corruptos dos políticos também, pelo que nos tenta assustar com um futuro onde esses políticos corruptos, a partir do Conselho Superior do Ministério Público, coloquem os incompetentes à frente das investigações e se safem com os milhões no bolso. É esta a imagem que o sindicalista está a passar, a qual não é só alucinada, é para todos os efeitos ofensiva da honra de um número indeterminado de representantes políticos democraticamente eleitos ou meros cidadãos escolhidos democraticamente, e com mandatos democraticamente limitados, igualmente ofendendo a honra e o prestígio de um número indeterminado de magistrados do Ministério Público. Calhando ter estado um elemento da imprensa à sua frente ao largar estas atoardas inaceitáveis, pérfidas e escandalosas, de imediato seria atingido por perguntas implacáveis a exigir que provasse as colossalmente gravíssimas denúncias ou que admitisse não passar de um agitador indecente e indigno do poder que o Estado lhe confiava.

A verdade é a de António Ventinhas ser, com obra feita, um caluniador triunfante e impunível. Em 2015, disse publicamente que “o principal responsável pela existência do processo Operação Marquês se chama José Sócrates, porque, se não tivesse praticado os factos ilícitos, este processo não teria acontecido”. Embalado, acrescentou que os portugueses tinham de decidir se querem “perseguir políticos corruptos, se querem acreditar nos polícias ou nos ladrões”. Em 2015, a investigação ainda decorria, saltando de hipótese para hipótese sem provas de corrupção encontradas. Não havia sequer acusação, quanto mais condenações com trânsito em julgado, pois. Isso não impediu um magistrado de violar alguns dos direitos mais valiosos de um cidadão e, portanto, do próprio Estado de direito democrático. Seguiu-se um festival de cumplicidades institucionais com esta violência criminosa. O Conselho Superior do Ministério Público arquivou a queixa de Sócrates, o Tribunal da Relação de Lisboa recusou julgar o crime de Ventinhas, e o Supremo Tribunal de Justiça idem e aspas. Quem se quiser rir a bom rir, mas também chorar, ide ler a argumentação fabulosamente contorcionista e ofuscantemente pífia que protegeu Ventinhas de ser julgado e inevitavelmente condenado por um crime evidente.

Não admira que este senhor veja corruptos em todo o lado. É que ele sabe muito bem, por experiência pessoal, do que fala.

O Sr. Araújo e as suas merdas

Ricardo Araújo Pereira, com a estupenda equipa que faz o Gente Que Não Sabe Estar, teve de recorrer ao arsenal do humor mais básico para tentar insultar Neto de Moura. O uso de humor anal é não só infantilóide e chungoso, implicando uma idade mental inferior a 12 anos ou um estado de intoxicação alcoólica pré-coma para provocar hilaridade. No caso tem a vexante ironia de perpetuar o preconceito que aparenta combater: na representação da violação anal do seu alvo, o genial RAP está a celebrar o falocentrismo que, muito provavelmente, molda a mentalidade e racionalizações morais desse magistrado. Chegou ao ponto de ilustrar que o resultado da violação poderia provocar prazer, assim fechando o ciclo do seu subtexto onde em simultâneo sugere haver algo de inerentemente violento e grotesco no sexo anal – que o sexo anal gera prazer humilhante no parceiro passivo como consequência da brutalidade do parceiro activo. Last but not least, obrigou uma criança a ser parte da chachada dos cus e dos cagalhões. A plateia riu com risos de um amarelo alvar.

Surpresa? Nenhuma. Antes, no Governo Sombra, tinha alvitrado gostar de espancar o tal juiz, ele que pratica uma arte marcial qualquer e é muito mais alto do que a média dos seus concidadãos. Este é o mesmo espaço onde há anos apregoa a sua homérica capacidade sexual, não perdendo uma oportunidade, quando os seus colegas estão felizes e nervosos a mandar bocas primárias sobre pilas e o que dá para fazer com elas, para informar a audiência do seu gosto por mamas femininas. Nada contra, ao contrário, mas significativo e já não abonatório ao passar a ideia de que pretende cultivar a imagem de ter um desejo lúbrico insaciável; embora só na reinação, claro, porque ele está sempre a brincar, né? A questão não é a de se descobrir o mínimo que for acerca da sua real vida sexual, pagaria para não saber. A questão é outra, é a de ter chegado a um ponto de alienação onde precisa de se agarrar a esse modelo de masculinidade pacóvia para (também) construir a sua popularidade. Quer dizer que o seu ganha-pão já não tem graça, desconsolo agravado ao dar por si cercado pelo politicamente correcto que o impede de saborear a vida. Só anda nisto pelo dinheiro e para se vingar de quem lhe ficou com a massa no BES. E daí ter-se tornado na coqueluche dos direitolas ressabiados e rancorosos, ficaram loucos de paixão por finalmente terem cómicos a trabalhar para meter mais xuxas nos calaboiços alentejanos. Eis uma explicação para a queda abrupta na qualidade da sua criatividade.

Há algo que se salva no espectáculo de merda servido na TVI. Algo escatológico, de facto. Isto: agora que a sociedade acordou para a possibilidade de um juiz ser incompetente na sua função de juiz e, mesmo assim, constatarmos não haver autoridade na República que lhe tire o seu poder, queremos mesmo restringir o problema à temática da violência doméstica e fazer de Neto de Moura o bode expiatório que permite esconder o que outros juízes fazem noutras áreas onde confiamos o nosso destino individual e comunitário à Justiça?

Revolution through evolution

Happy in marriage? Genetics may play a role
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Some personal beliefs and morals may stem from genetics
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Face it. Our faces don’t always reveal our true emotions
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Savoring … It’s not just for dinner
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‘Star Wars’ characters’ costumes reflect shift from power to romance
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Rise of European populism and vaccine hesitancy
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Belief in conspiracy theories makes people more likely to engage in low-level crime
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Continuar a lerRevolution through evolution

É para aumentar o número destes broncos que há milhões investidos no Observador

Entretanto, isto de aparecerem testemunhas em tribunal que provam, recorrendo a factos e ao bom senso, que o Ministério Público inventou uma acusação contra Vara e Sócrates – Ex-dirigente da CGD sai em defesa de Sócrates em tribunal – não será motivo para reunir o Conselho de Estado? É que Marques Mendes, o mano Costa, a Manuela Moura Guedes e a Cofina já nos disseram tudo o que devíamos saber sobre o assunto; como, aliás, as inteligências do Observador não se cansam de repetir. E que cagada é essa do Ivo Rosa estar a querer ver uma auditoria do não sei quê, auditoria já apresentada oficialmente pela digníssima Joana Amaral Dias, antes de despachar os corruptos para juízes que saibam lidar com a escumalha socialista?

Por favor, não deixem que a integridade e coragem de um juiz atrapalhe a vingança em curso. O regime já transitou a condenação em julgado, o resto são as aborrecidas formalidades para TEDH ver.

E o povo, pá?

«Para a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, o partido enfrentou o momento mais difícil da sua história quando votou contra o PEC IV, durante o Governo de José Sócrates.

"O Bloco de Esquerda pagou por isso, até eleitoralmente", mas se fosse hoje voltaria a fazer o mesmo. "Teria de ser", diz.»


Fonte

Felizes com a lista de seguidores, ó “Observadores”?

Lembram-se do artigo inqualificável da médica Joana Rodrigues, que dizia que as mulheres felizes são as que “casam bem”, ganham menos mas vibram, enquanto “exercem plenamente a maternidade”, com os sucessos e o dinheiro dos maridos e muitas mais genialidades, todo um rol, do género? Pois bem, o artigo não mais foi visto* no siteObservador“, uma espécie de blogue gigante e bem financiado onde se aquartelou toda a direita passista, salazarenta, bafienta, ressabiada, queque, xuxofóbica, veneradora dos mercados ou simplesmente tonta deste país.

Hoje, o “publisher” do dito site, José Manuel Fernandes, vem prestar um esclarecimento, não sobre a retirada/ocultação do artigo, como se esperava, mas sobre a razão da sua publicação, o que já de si dá vontade de rir, porque o que se nota mesmo mesmo é que o artigo sumiu. Bom, mas o JMF vem então avalizar o artigo e ao mesmo tempo distanciar o corpo redactorial do seu blogue do conteúdo do dito artigo, remete para os valores fundadores daquela coisa e invoca a liberdade de opinião. Escusado será dizer que, perante o desaparecimento do artigo, este “esclarecimento” é obviamente abstruso. Pois isso mesmo, mas por outras razões, acharam os devotos seguidores desta trupe, em expressão de opinião na caixa de comentários. Para rir a bom rir, é preciso ir ler. Tudo furioso. J M Fernandes não tinha que esclarecer coisa nenhuma, o Observador está mas é a ficar como o Público (ah, ah), viva a dra. Joana e por aí fora.

Claro! Onde está, de facto, a agressividade da estupidez, hoje em dia tão na moda? Modernidade, dignidade? O que é isso? Alinhem-se lá, meninos, olhem a clientela.

 

*Correcção: o artigo não desapareceu, foi antes remetido desde muito cedo para a secção de Opinião (dia 24), deixando de aparecer na página principal. Por achar que era norma as ligações para os artigos de opinião manterem-se na primeira página uns dias, concluí erradamente que fora suprimido. Não foi. Ficou muito menos visível, mas continua lá. Além disso, em abono do “publisher”, registo que ele próprio pôs no seu Esclarecimento de hoje uma remissão para o dito artigo. Nada disto, porém, me impede de avaliar a clientela fiel daquele blogue, que protestou contra a “moleza” de um esclarecimento daqueles. Os admiradores dos articulistas do Observador gostariam que o JM Fernandes publicasse, destacasse e defendesse o artigo de Joana B Rodrigues. Há gente do tipo “Tea Party” cujas opiniões são bem acolhidas no Observador e há adeptos que se irritam com a dor de consciência do Fernandes. Foi isto que destaquei.

 

 

Caixas de cidadãos

«É que ao publicar nos seus sites e FB, sem qualquer filtro ou mecanismo de controlo, comentários como os descritos - e piores -, os chamados "media tradicionais", os jornais, rádios e TV, estão a colaborar na normalização acelerada da falsificação, da calúnia e do ódio. De cada vez que alguém é caluniado, ou ameaçado, ou alguém destila ódio nos comentários a notícias de um jornal ou no respetivo Facebook é esse jornal que está a veicular essa calúnia, essa ameaça, esse discurso de ódio, a validá-los com o seu carimbo, a acolhê-los sob a sua marca.

Não sou jurista; admito que em tribunal se possa ter dúvidas sobre a responsabilidade criminal e civil que esse comportamento acarreta. Mas do ponto de vista ético e deontológico não vejo como ter alguma. Até porque a existência de comentários nos sites e no Facebook de meios de comunicação visa "gerar tráfego", ou seja, proveito.

Combater as fake news deveria começar por aí: porque todos os media que permitem que os seus sites e FB sejam um festim de ódio, acusações falsas, devassas, ameaças, racismo e quejandos estão a contribuir para o ambiente em que elas, as fake news, medram e se tornam indistinguíveis, para parte do público, do jornalismo. Se está tudo no mesmo sítio, distinguir como?»


Fernanda Câncio – “Quando danças com o diabo”

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O argumento é facilmente aceite. Fechar as caixas de comentários pode ser a única solução para o ambiente degradante, se não for criminoso, que as caixas de comentários na imprensa (leia-se: os espaços de livre comunicação escrita por e para livres utilizadores de um dado canal digital) geram numa relação inversa entre a literacia e a violência verbal (mas há excepções para ambos os extremos do primeiro factor, podendo a alta literacia gerar extrema violência e vice-versa). Dando um exemplo recente, o Expresso tinha uma antiga e pujante comunidade de comentadores encaixotados, os quais geravam milhares de comentários mensais. Apesar disso, resolveu acabar com esse território mediático adjacente – ou, como defende a Fernanda, inerente – à entidade legal e respectiva marca. Terá sido por razões morais, deontológicas, legais ou meramente financeiras (custar dinheirinho manter esses dados)? Não faço ideia. Noutros casos, vemos o Observador a cultivar um estilo de pseudo-jornalismo que está em simbiose com o aproveitamento das suas caixas de comentários como elementos de uma dinâmica de propaganda e militância, ou assistimos a um autor (JMT, no Público) que participa nas suas caixas de comentários por razões estritamente narcísicas e megalómanas (ele fala de si nos artigos e continua a falar de si com os comentadores, está satisfeitíssimo com a sua pessoa, et pour cause). Se listarmos exemplos estrangeiros, a diversidade é a regra.

A literatura sobre o fenómeno é tão antiga quanto a WWW, pois desde o início da massificação do acesso à Internet foi sempre assim (aliás, já o era antes, no tempo dos BBS, mas de forma quantitativa e qualitativamente distinta). O facto de se usar a linguagem escrita para comunicar gera inevitavelmente disfunções emocionais na interpretação, por um lado, e permite excessos de agressividade que não se teriam face a face, ou mesmo ao telefone, por outro. Por cima disto, temos depois as diferentes idades (alguém de 84 anos e alguém de 13 anos podem estar a insultar-se mutuamente sem terem noção da diferença etária), a diferente escolaridade, as diferentes literacias, a diferente informação e formação, a diferente motivação e maturidade, a diferente intencionalidade, a diferente capacidade cognitiva, as diferentes personalidades e os diferentes estados de saúde (corporal e, especialmente, mental, mais os eventuais quadros farmacológicos). Finalmente, temos os elementos idiossincrático e existencial, isso de cada um ser único e estar numa situação única a cada momento. Se nem numa junta de freguesia, numa reunião de condomínio e numa família é fácil, sequer provável, chegar a acordo em tudo com todos, ainda menos a consensos, por que raio se vai para uma caixa de comentários de um meio de comunicação generalista esperar tal coisa no que não passa de um baile de máscaras desopilante e/ou alucinado? Só se estivermos completamente avariados da corneta sem arranjo possível.

Dá-se é o caso, substantivo, de ser civicamente importante o que cada um dos participantes nas caixas de comentários dos meios ditos de “referência” está a fazer mesmo quando o que faz é só merda atrás de merda. A importância começa por vir da decisão em participar numa interacção social. Este é o fundamento mesmo de qualquer experiência e instituição políticas. Ora, o que se faz ao participar numa caixa de comentários é lutar para ser o centro das atenções, lutar pelo estatuto, pela posição na hierarquia, pois é isso que antropologicamente se aprende assistindo ao que fazem as celebridades da opinião, essas a quem os mesmos órgãos dão o palco cimeiro. As vedetas, aliás, tendem a queixar-se das “redes sociais” precisamente por causa dessa imitação e concorrência. As vedetas também sonham com audiências caladinhas e em êxtase, só interrompendo a adoração para os aplausos e aclamações do seu brilhantismo, não com o pesadelo de lidarem com uma infinidade de opiniões tão aparente e democraticamente válidas ou vocais como as suas.

No palco onde se passeiam os profissionais comentaristas, como nas catacumbas onde se reúnem os amadores e rebeldes comentadeiros, a lógica e pulsão do antagonismo, e seu cortejo de recursos retoricamente bélicos e assassinos, moldam os conteúdos transmitidos de acordo com as capacidades de cada um. O nivelamento por baixo, essa ecologia da estupidez e da brutalidade, será tão mais fatal quão mais larga for a participação (mas atenção à inversão desta lógica na indústria da calúnia, onde prosperam selectos caluniadores profissionais). Porém, a participação em si mesma da ralé, essa multidão de “anónimos”, é não só bondosa como traz a semente de um crescimento psicológico e cívico – portanto, um crescimento cultural e político. Quem se expõe através da escrita, enviando uma qualquer expressão do seu entendimento (ou falta dele) de uma qualquer realidade, fica excitado com o poder à sua disposição. Trata-se do poder da própria linguagem verbalizada, poder multiplicado pela potência social do meio de comunicação em causa. Poder que se torna meio para uma ontológica necessidade de inclusão. Somos o “zoon politikon”; cuja melhor tradução não é “animal político”, antes “animal da cidade”. E o que é uma cidade? É aquele espaço rodeado de muralhas, feitas de pedra ou de leis, onde a Natureza dá à luz a Civilização.

Os jornais vindos do papel assistem desorientados e em pânico à falência do antigo modelo de negócio sem saberem se existirá um outro substituto. A trágica ironia é a de não terem falta de leitores, talvez até nunca tenham tido tantos. Só que este novo tipo de leitor não pretende pagar por um bem que se tornou ubíquo e com o custo residual igual ao do acesso à Internet, a informação. Daí o triunfo do tabloidismo, o qual vende circo, sexo e sangue, impotência, ópio e ódio. Simetricamente, a irónica tragédia é a de os jornais ignorarem olimpicamente aqueles que os procuram e se expõem na sua ânsia de pertença e crescimento. As tais caixas de comentários infectas, que não passam de becos escuros onde bêbados urinam e miseráveis defecam, resultam da ausência de autoridade. Os jornais abdicam de governar esses espaços, ou quando o fazem são apenas censores, deixando os frequentadores comportarem-se como feras e Quixotes numa guerra civil cuja maior vítima é a inteligência comunitária. Mas seria logística e financeiramente viável fazê-lo, quando nem para os jornalistas há dinheiro? E como? E para quê?

Estudantes, reformados e carolas poderiam, a troco de recompensas simbólicas umas e sem custos monetários outras, passar a exercer a autoridade legal, deontológica e cívica do órgão respectivo em todas as suas caixas de comentários. Em vez de apagarem os comentários que justificassem a sua intervenção, entrariam em diálogo com esse utilizador seguindo protocolos a desenvolver por cada entidade. Um modelo que se baseasse nas regras do pensamento crítico bastaria para o essencial do que está em causa. Aproveitariam os conteúdos enviados para as caixas para o criticarem, mesmo que fossem barbaridades insanas, justificando por que razão, ou razões, tais declarações eram motivo de reparo e dando informações para que o utilizador em causa – e todo o grupo de utilizadores ali de passagem a participar ou só a assistir – pudesse usar a sua própria cabeça, pudesse aferir, pudesse investigar. Pudesse, enfim, tomar consciência das consequências do que tinha escrito, pensado, sentido a partir de um ponto de vista oficial da entidade para onde tinha ido gastar o seu tempo e cujo espaço estava a utilizar de forma tão pessoal. Nesse ambiente, os boatos e as calúnias teriam vida muito curta, por exemplo. Na enormíssima maioria dos casos, esses utilizadores modificariam a sua atitude, abandonando o infantilismo ou desvario iniciais e passando a participar de acordo com as regras explícitas e implícitas assim instituídas pedagogicamente. Nos casos patológicos, em que a proposta dialógica não fosse eficaz, então a censura seria uma solução de higiene inevitável. Finalmente, os jornais teriam oportunidade de entender que cada um se poderia distinguir da concorrência pela qualidade e extensão das comunidades de participação livre que estavam a criar no seu espaço. E ainda que esses quantos representavam muitos mais que precisam que os jornais continuem a ser fontes de inteligência, pois a democracia é de todos os sistemas políticos aquele que mais carece de inteligência – dado tanto a exigir a quem governa como a quem se deixa governar.

Lirismo? Sim, claro. Lirismo, ingenuidade e optimismo. É por aí, ou para aí, que vão os construtores de cidades.