Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

O charlatão e o próximo golpe

 

Trump acaba de demitir o ministro da Defesa (numa altura destas, que devia ser de transição pacífica do poder) e de politizar completamente a Justiça, através de ordens dadas (e aceites) ao Procurador-Geral. Está, portanto, a desenhar-se um golpe. Qual? Esperemos para ver a qualquer momento. É isto a que conduz o charlatanismo, o populismo e a vigarice nos mais altos cargos políticos.

 

Eis o que escreveu certeiramente no Twitter o antigo ministro do Trabalho dos Estados Unidos.

 

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Chega vs. PCP/BE – vamos lá sem filtro

Anda muito acesa a discussão sobre o acordo celebrado entre o PSD e o Chega com vista à formação de um governo nos Açores. A resposta de quem apoia esse acordo às críticas do PS e de alguns militantes do PSD consiste em fazer equivaler o PCP e o BE – considerados a “extrema-esquerda, mas comprometidos com um governo do PS – ao Chega – considerado a “extrema-direita”, assim justificando e desdramatizando esta nova aliança.

Se querem saber a minha opinião, eu acho que os regimes defendidos pelo PCP foram e são efectivamente ditaduras, historicamente repressoras das liberdades, niveladoras por baixo (ou seja, sistemas em que toda a gente é remediada ou um pouco pobre, sem hipóteses de ambições individuais, com uma consequente estagnação económica e científica e pouca inovação), excepto para a camarilha que ocupe o poder e os seus lambe-botas, que vivem invariavelmente bem – ver a ex-URSS, a Rússia actual, não comunista, mas sua herdeira, a actual Coreia do Norte e Cuba. A brutalidade de Stalin veio pelo meio coroar de violência um regime já de si ditatorial à partida e por natureza – chamassem-lhe ou não “ditadura do proletariado”. Entretanto, essa violência ficou para sempre registada e a História avançou.

Hoje em dia, será o PCP uma ameaça real à democracia? Com a maioria dos partidos comunistas praticamente extintos na Europa ou transfigurados, ou passados para ideologias de direita, as teorias que os poderiam levar ao poder estão totalmente desacreditadas. É uma impossibilidade, à hora actual, um partido comunista ou alguém que se intitule comunista assumir o poder, chegar ao poder por meio de alianças e muito menos tomar o poder por alguma qualquer revolução. Não há simpatia, não há apoios. Só por isso, que já é muito, o PCP não representa qualquer perigo para a democracia. Neste momento, em Portugal, e lembro que é praticamente o seu último reduto, limita-se a controlar alguns sindicatos, sobretudo na função pública. E também por isso, qualquer acordo de governo com estes 6% do eleitorado mais não incidirá do que em “direitos laborais”, dinheiro para a função pública e no acautelamento da relação de força em alguma autarquia. Os comunistas não representam hoje em dia mais nada. Servem ainda e porém para nos lembrar do obscurantismo e da violência do regime de Salazar, a última ditadura que nos foi servida. Mas nisso não são os únicos.

 

Já o mesmo não se pode dizer do Chega e dos seus aliados a nível internacional. Sem espaço nem tempo para escrever aqui um compêndio sobre o ressurgimento da extrema-direita na Europa e na América, digo apenas que os discursos populistas são hoje em dia bem deglutidos por uma boa parte da população. Nuns sítios mais por uns motivos (imigração muçulmana), noutros mais por outros (racismo histórico latente, excessos dos esquerdistas e do politicamente correcto, ocupação do “centro” político democrático e do centro-direita pela esquerda dita “socialista”), a verdade é que a incultura generalizada trazida à tona de água pelas redes sociais, nelas orgulhosamente verbalizada e explorada por oportunistas encartados contribui para a formação de hordas de energúmenos que se mostram dispostos a seguir a conversa de qualquer badameco bem falante (e às vezes nem precisa de o ser – é só ver o Trump) que se proponha “mudar o regime”, “acabar com os corruptos”, “defender os nossos valores cristãos”, ou fazer a “America great again”, etc., etc. Por isso sim, o Chega e os seus amigos, como o Front National da Marine Le Pen, são uma ameaça à democracia e à paz interna. Ancorados na tal horda de ignorantes e de puritanos e falsos puritanos incomodados com os “excessos de liberdades”, eles visam tomar o poder e, uma vez lá chegados, perverter as instituições democráticas, passando a controlá-las em seu favor. Olhemos o Trump, senhores! Os seus apoiantes são o Orban da Hungria, o Erdogan, da Turquia, o Bolsonaro e quejandos. Todos no poder. É perigoso dar a mão e palco a esta gente? Claro que é. Pois é isso que o Rui Rio acaba de fazer.

Repararam com certeza que não mencionei o Bloco. Resolvi omiti-lo desta equação, porque o Bloco para mim não é nada de enquadrável ideologicamente e está muito longe de ser uma ameaça para o regime democrático. São uma súmula e uma amálgama dos antigos grupúsculos de extrema-esquerda entretanto irrelevantes, transformados numa espécie de comunistas mais fofinhos e libertários, sem o histórico sério e pesado do PCP. Na Grécia, chegados ao poder através do Syriza, depois do desmoronamento do PASOK, governaram como qualquer bom europeu depois de terem percebido que quase nenhum dos seus governados queria abandonar a União Europeia. Portanto, o Bloco é mais conversa. Conversa que pode ser útil para o PS português, por exemplo, se os tiver como aliados, nos ataques à direita decadente. Calma, pode parecer que lhes estou a chamar idiotas úteis. Então, mas não chegaram ao poder na Grécia? Sim, chegaram. Por isso, vai daqui um “piqueno” elogio: direi que podem ser um “PS sobresselente” e, mesmo assim, são precisas circunstâncias.

Do novo amigo do Rui Rio

André Ventura mostra-se cauteloso, quiçá agnóstico ou então humilde, na questão de atribuir aos processos e dinâmicas da reencarnação a responsabilidade pela presença do espírito de Sá Carneiro dentro dele. Que se trata de um espírito, e que a sua propriedade é de Sá Carneiro, sobre isso não duvida. Como explica publicamente, sente a coisa a preencher-lhe o interior de si próprio, daí a sua confiança na identificação do que seja. Agora, saber como é que esse espírito lá foi parar e ter certezas a respeito, aí o cavalheiro revela prudência. A problemática é sobrenaturalmente complexa, como se sabe dos estudos budistas e pitagóricos (para só referir as tradições mais populares acerca do assunto). Devemos todos aplaudir a postura de André Ventura numa matéria onde, se não fosse tão decente e responsável, facilmente estaria a dar largas à pulsão de reclamar já uma reencarnação consumada, completa, oficial do tal espírito do tal Sá Carneiro que lhe está a dar força para lutar. Com ele não há cá desses populismos exploradores da crendice da turbamulta, antes prefere a austeridade e rigor do método científico, ficando à espera da evidência empírica.

Já em relação a Fátima, André Ventura partilha inequívocas convicções e disponibiliza as datas para quem as quiser confirmar. A chave está no dia 13 de Maio, quase sempre um dia propício para piqueniques e o uso de sandálias abertas e/ou camisolas de manga cava (para quem goste, não é obrigatório) desde que não chova. No caso deste senhor, ficamos na posse de um segredo: ele tem o sonho de concorrer para um qualquer lugar na Junta de Freguesia de Fátima. É bonito, é o que o povo merece, boa sorte André!

Quanto a querer todas as igrejas cristãs no CHEGA, o enfoque deve ser integralmente dirigido ao verbo. André Ventura sabe muito bem, e muitíssimo melhor do que nós pecadores e mortais, que não vale a pena estar a convidar, a sugerir, a pedir às igrejas cristãs para se reunirem espontaneamente num lugar à sua escolha. Tiveram dois mil anos para o fazer e deu invariavelmente merda. Pelo que só resta aparecer algo que imponha o triunfo da sua vontade. Essa entidade é André Ventura, muito provavelmente (é uma fezada minha, admito-o) por ser André Ventura o próprio Deus que essas igrejas dizem adorar e com quem vão passar a poder enviar pedidos e receber ordens directas sem as demoras das rezas e outras soluções arcaicas. Basta que declarem aceitar a sua transformação em franchisados do CHEGA e pronto, haverá logo distribuição de pacotes de leite e de frascos de mel nas assembleias religiosas aderentes. Aliás, o papa Francisco já foi avisado pelo nosso comandante de que vai ser despedido por incompetência não tarda. Justíssima decisão.

Pelo que tudo acaba por se resumir ao Paulo Pedroso, conclui-se inevitavelmente sem surpresa. Paulo Pedroso deixa o espírito de Sá Carneiro aos saltos, com isso provocando movimentos musculares descontrolados no André Ventura (alguns deles peristálticos, com todos os inconvenientes que se podem imaginar numa figura com tanta exposição pública). Paulo Pedroso, há que ter coragem para o dizer, nunca seria eleito para a Junta de Freguesia de Fátima, como acabará por acontecer ao André Ventura se existir alguma réstia de providência divina neste mundo. E o Pedroso, vamos falar francamente, não tem pinta de ter sido criado pelo mesmo Deus que está ao comando do CHEGA. Aquilo é mais obra do Diabo; ou até coisa pior, tal o cheiro a decência e a Estado de direito democrático que exala.

Ontem, Rui Rio e Manuela Ferreira Leite explicaram que o PSD está feliz com o início de uma amizade que promete casamento. O que se passa nos Açores não é para ficar nos Açores, é para chegar ao Continente, ocupar o Parlamento e tomar de assalto S. Bento. Foi o que se fez na Revolução Liberal, é o que se vai fazer na Santa Aliança em que o CHEGA pode – e deve – continuar a arregimentar o seu exército para-anormal, prometendo o Apocalipse da República e da racionalidade, enquanto o PSD trata das relações públicas dessa intimidade amorosa de forma a garantir a “moderação” nos costumes.

Tudo a bem da Nação, escusado será lembrar.

Começa a semana com isto

Há muitos truques com animais que “falam”, que “cantam”, que “fazem contas”. Até há truques para eleger animais para cargos de representação política. Se for aqui o caso, pelo menos o nosso tempo não será desperdiçado porque a cadela é giríssima. Mas também poderemos estar a assistir a uma descoberta. Ou a contribuir para um negócio. Ou ambos. Foi para isto que o Al Gore inventou a Internet, essa é que é essa.

 

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Os sósias de Trump

Podia dar um tiro a alguém no meio da 5.ª Avenida e não perdia um único voto, OK?“, disse Trump num comício em Janeiro de 2016. Esta declaração foi interpretada como mera manobra retórica, uma metáfora provocatória, chocante, para alimentar a voragem mediática que fez de Trump um exímio manipulador dos processos fanatizantes que lhe foram dando crescente força política. Mas o que nessa altura ainda podia passar por desbocada extravagância deixou de o ser quando, ao mesmo tempo, vimos há dias Steve Bannon a fantasiar a decapitação de Anthony Fauci e de Christopher Wray e, a partir da Casa Branca, com o selo da presidência atrás de si, vimos um Presidente dos Estados Unidos da América a dizer que a contagem de votos após o dia da eleição iria provocar situações de “perigo físico” por causa da violência vinda das ruas contra os funcionários eleitorais.

Pode-se fingir, por mil razões e circunstâncias, que não se tomou conhecimento destes factos. Não se pode é, sob pena de tal implicar não se estar na posse das capacidades cognitivas mínimas para ser autónomo, ignorar que estas duas pessoas estão activamente a tentar provocar crimes, e que esses crimes são potencialmente assassinatos, e que esses assassinatos visam o prémio supremo de atingirem Joe Biden. Num país em que há 120 armas na posse de particulares por cada 100 indivíduos, e em que os grupos militarizados do racismo, fascismo e nazismo norte-americanos foram convidados por Trump a ficarem em “stand by“, não é difícil prever o futuro. Num país em que pela primeira vez na sua História se vê um Presidente a tentar dinamitar a democracia no que tem de mais sagrado, a descoberta da vontade soberana dos cidadãos, e a recusar-se a aceitar a derrota, prever que o futuro desejado por Trump é a explosão demente do ódio letal não custa.

Aos ingénuos, como eu, é sempre uma surpresa ver pulhas com protagonismo social e poder político. O pulha é pulha porque se sente impune, seja este chamado Trump com uma espantosa carreira de vigarices ou um infeliz qualquer a despejar merda numa caixa de comentários perto de si. O pulha só respeita uma lei, a do vale tudo. E, porque foi tendo sucesso praticando essa anomia, não só fica condenado a ver todos os adversários como imitações de si mesmo como jamais respeitará qualquer valor que implique ter de abdicar do que considera ser a sua poção mágica. Convém é reconhecer que a pulhice é um factor que explica maioritariamente o que vemos acontecer no que se chama “fazer política” quando está em causa a direita decadente – isto é, a direita que não assume e promove o Estado de direito democrático e os direitos humanos como fundamentos invioláveis de qualquer ideologia ou programa político.

Por exemplo, quem leia e oiça Eduardo Dâmaso e Octávio Ribeiro a gabarem-se de conseguir cometer crimes em conluio com magistrados, de perseguir alvos políticos e de envenenar o espaço público com calúnias, ainda gozando com a concorrência que vai indo à falência por estar agarrada à deontologia jornalística, encontra sósias de Trump. Por exemplo, quem usa violações do segredo de justiça e captações da privacidade de testemunhas, suspeitos e arguidos (portanto, cidadãos estritamente inocentes ao tempo da captura dos materiais e sua exploração mediática) para ganhar dinheiro na comunicação social a fazer assassinatos de carácter é um sósia de Trump. E, sem outro exemplo comparável em Portugal, quem faz acordos políticos com um partido dirigido por uma pessoa que se mostra não só disponível mas febrilmente interessada em violar direitos de outras pessoas e em transformar a nossa comunidade no terreno selvagem de uma desumanização cada vez maior e mais perigosa, esses idiotas são sósias de Trump.

Democracia celular

As eleições nos Estados Unidos estão a animar os que estão cansados da democracia. O director do Público, por exemplo, está tão cansado que não está para procurar outras causas para o que se passou e está a passar naquele país, para ele a culpa é da falta de saúde da democracia. Mas quando aponta como causas para a doença da democracia “a desigualdade extrema” e “o empobrecimento das classes trabalhadoras”, aposto que não está a pensar apenas na democracia americana. Parece-me que está a querer dizer que a democracia não serve para resolver os problemas da Humanidade.

O que ele talvez não saiba é que as suas próprias células se calhar discordam. Como toda a gente sabe, as células nascem, vivem e morrem. Provavelmente, se fôssemos nós a decidir o que fazer a uma célula que deixou de cumprir as suas funções, a sua eliminação seria automática. Contudo, no complexo e altamente sofisticado mundo das células a coisa nem sempre se passa assim. Em determinadas circunstâncias, a célula em causa emite sinais químicos à vizinhança a dar conta do seu estado, ainda assim a sua eliminação só ocorre quando a maioria das células vizinhas “vota” nesse sentido. A democracia em todo o seu esplendor! Mas também aqui o sistema não é perfeito. De vez em quando surgem células que se cansam das regras da comunidade. Comportam-se de forma totalmente egoísta, esquecem o bem comum e trabalham exclusivamente para si próprias. Chama-se tumor e todos sabemos como é que pode acabar. Há cientistas que dizem que são sistemas extremamente inteligentes. Não concordo. Quão mais eficientes mais depressa se aproximam do seu próprio fim, não me parece lá muito inteligente. E podemos questionar porque é que os organismos não adoptam outro sistema. Um que não permita o surgimento de agrupamentos celulares hostis? Porque o processo que permite que surjam – mutações que ocorrem aquando da divisão celular – é o mesmo que permite que as espécies evoluam e se adaptem a novos ambientes. É o que nos trouxe a todos até aqui.

Portanto, quem pensa que a democracia é chão que já deu uvas, um sistema passageiro e ineficaz inventado por quem não tinha mais o que fazer, talvez possa sugerir um sistema alternativo à velhinha Natureza. Força nisso!

Da tribo à cidade

Perguntei a um amigo meu em quem ia votar. “Trump”, respondeu tranquilo. E acrescentou “Aqui na empresa [de comércio de automóveis] vai tudo votar Trump.” Mas porquê, insisti. “Porque os democratas querem aumentar os impostos”, foi a singular justificação.

O meu amigo vive em Miami. Nasceu em Angola e foi para o Brasil, com oito anos de idade, por causa da descolonização. Veio para Portugal adolescente, em meados dos anos 80, e emigrou para os EUA há 20 anos. É alguém que quer viver em paz com o mundo e com os vizinhos, evitar chatices, aproveitar a vida. Ele não dá atenção à política a não ser na dimensão em que ela afecte o seu conforto e segurança. Egoísmo em vez de altruísmo, individualismo em vez de idealismo, interesses financeiros em vez de valores cívicos e morais. Qual é a surpresa? Nenhuma de nenhuma. Atire a primeira pedra quem estiver em condições de provar que é imune a estas telúricas pulsões.

Assim, a democracia é um gigantesco e imparável caleidoscópio de ilusões. Pode-se votar em Trump porque se é fascista e racista, pode-se votar em Trump porque se papou a propaganda para acéfalos que faz de Biden um perigoso comunista, ou pode-se votar em Trump porque… dólares. Esta mistura de cognições, no caso do apoio a Trump, arrasta a democracia para o limite da sua capacidade de resistência à ameaça interna. Repare-se como os apoiantes de Trump não se importam, antes celebram, que Trump utilize o aparelho de Justiça como se fosse um escritório de advogados que ele contratou ou como se fosse uma polícia política. Atente-se como os apoiantes de Trump celebram, por nem sequer entenderem a importância do que está em causa, a conspurcação da dignidade das instituições soberanas dos EUA que serviu a Trump como táctica de marketing para dominar mediaticamente a política norte-americana.

O tribalismo, por ser um dos mais enraizados mecanismos de sobrevivência colectiva, não convive pacificamente com a democracia. Daí o recorrente triunfo dos ditadores ao longo da História universal. Só a cidade, necessariamente muralhada dada a animalidade inerente ao ser humano, consegue transformar tribos em cidadãos unidos pela liberdade.

Humildade e humilhação

No momento em que teclo, Biden vai à frente em mandatos e na probabilidade de chegar aos 270, mas não passa disso e o resultado final pode ainda demorar horas, dias ou até semanas. Para o Congresso, a desilusão e agonia é igual no lado do Partido Democrata, não apareceu uma vaga que consiga desbloquear o sistema. O que significa que, aconteça o que acontecer, Trump voltou a ganhar. Porque, mesmo que tenha de sair da Casa Branca, nunca irá reconhecer a derrota, irá lançar furiosas e maníacas teorias da conspiração, e deixa o caminho aberto para réplicas de si próprio – talvez logo dentro do seu clã – voltarem a meter o Partido Republicano no bolso.

A madrugada foi uma interminável e crescente experiência de humildade. Estes resultados de 2020 são muito mais surpreendentes do que os já inacreditáveis resultados de 2016. Porque 4 anos depois todo o eleitor americano sabe de ginjeira que Trump promove o racismo e grupos fascistas, que mente por sistema e orgulha-se de violar as leis, que despreza as mulheres e os mais fracos, que boicota a protecção climática do planeta e é responsável pelo aumento da epidemia de coronavírus no seu país e suas letais e socialmente devastadoras consequências. Como é que homens e mulheres, das mais diferentes idades, estilos de vida, regiões, conseguem ignorar este rol de misérias e dar-lhe o seu voto? Seja lá pelo que for, a democracia não é um concurso de argumentos ou motivações, é um simples cálculo de somar. E qualquer resultado é igualmente válido, eis a grandeza – e fragilidade – desta solução para se escolher quem vai governar numa dada comunidade.

Humilhação é outra palavra que se aplica à situação. Ver uma das mais desenvolvidas e historicamente fundamentais democracias a dividir-se para apoiar um tirano irresponsável e megalómano antecipa que a humanidade não deverá ser capaz de lidar com o crescente poder tecnológico que vai adquirindo. Quando a irracionalidade vence graças à democracia, ou ameaça voltar a vencer, as nossas crenças acerca da existência de uma preferência universal pela defesa dos direitos humanos fica irreversivelmente abalada, em queda.

Trump, Platão e Aristóteles

Imaginemos que todos os anos o Estado recorria a voluntários para termos professores nas escolas públicas – tivessem eles competências pedagógicas ou não. E que depois, para cumprir a democracia, quem aparecesse escolhia a matéria que queria dar apenas tendo como critério o seu gosto.

Imaginemos que quando o Estado queria construir uma estrada ou uma ponte abria um concurso a que podiam concorrer todos os cidadãos – com ou sem conhecimentos de engenharia, com ou sem recursos para fazer a obra. E que depois, para cumprir a democracia, o Estado atribuía a empreitada por sorteio.

Imaginemos que ao irmos ao hospital público havia uma lista de nomes para escolhermos – nessa lista aparecendo pessoas com conhecimentos de medicina, uns, de enfermagem, outros, e ainda pessoas sem conhecimento de nenhuma dessas áreas. E que depois, para cumprir a democracia, tínhamos de escolher às cegas com quem nos iríamos tentar tratar.

São exemplos grotescos de tão estúpidos, tão irracionais, tão impossíveis de aceitar, né?

Mas, então, por que misterioso processo mental aceitamos qualquer desqualificado para governar não só a educação, as obras públicas e a saúde mas todas as áreas onde o Estado exerce o seu poder? Por que raio não só desqualificados como retintos pulhas podem vir a ocupar lugares no Parlamento, em S. Bento e em Belém?

Por estas e por outras, a ciência política, desde Platão e Aristóteles, foi sempre uma investigação sobre os perigos da democracia para a coesão das comunidades. Em 2016, Trump deu-lhes razão. Em 2020, com as ameaças explícitas de querer provocar o caos e instigar à violência armada caso perca as eleições, Trump dá-lhes toda a razão.

Onde Platão e Aristóteles têm de baixar a grimpa é na contemplação da resposta dos cidadãos americanos, que estão a votar como se a sua vida dependesse disso. E depende, tragicamente. Gloriosamente.

Começa a semana com isto

The Flexibility of Female Sexuality with Wednesday Martin

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Para quem começou o fim-de-semana a ler A grande descoberta da vagina – que afinal se chama vulva – e desse grande mistério, o clítoris, onde se fala da anatomia e sexualidade feminina com ciência e sapiência, sugiro que se aproveite o balanço ficando a conhecer mais um olhar onde, a partir da ciência, se faz feminismo que é verdadeiro e fundamental humanismo. Não temos de concordar com tudo o que a Wednesday Martin diz, temos é de reconhecer que muito provavelmente ela sabe bem mais do assunto do que a enormíssima maioria de nós.

E posto que a semana tem vários dias à disposição, gastar um deles com Mais alguma vez nos vamos apaixonar?, recolha de testemunhos que dá a ver um mosaico de memórias e desejos imarcescíveis colados pela ternura da escrita, compõe um belíssimo ramalhete de inteligência sexual.

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Catarina Martins já é primeira-ministra mas ainda não fomos avisados

«Finalmente, o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte, seja da negociação sindical, seja da negociação governamental, para se poderem abrir novas portas. Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio. Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.»

Louçã, 2020

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«Rejeitar o PEC IV é o princípio da saída da crise.»

Louçã, 2011

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Louçã explicou que o BE esteve em negociações com o Governo como se também fosse Governo – Negociar como um sindicato ou como um governo? Num exercício displicente e desbocado, postula que agora – no meio de uma pandemia – é a melhor altura para fragilizar um Governo de esquerda, o qual vai mesmo tomar decisões que afectam a saúde e segurança de milhões de pessoas tenha o apoio parlamentar que tiver. Há que pôr um pauzinho na engrenagem em nome de um Governo fictício de uma outra esquerda que só existe na cobiça alucinada do Anacleto e restantes irresponsáveis do BE que optaram por saltar para fora do barco. Irresponsáveis porque mostraram que não se importam nada de acrescentar dificuldades às que já existem apenas para poderem exibir as imaculadas mãos sem mancha de pecado.

A forma como Louçã termina o texto, parágrafo citado acima, é um monumento à sua hipocrisia, ao seu cinismo e à sua megalomania. Repare-se:

– “o melhor que pode acontecer ao Governo, numa situação difícil, é ser confrontado com uma pressão forte” – Estamos no reino da abstracção, o Governo aparece como entidade solitária que esgota o seu sentido e consequências no confronto com outras forças políticas opositoras e rivais. A tese é a dos negociadores implacáveis, que fez a história do capitalismo: apertar mais com eles quando eles estiverem mais fracos.

– “para se poderem abrir novas portas” – Por que razão temos de abrir novas portas? Só por serem novas? E se as novas portas forem piores do que as portas já oleadas e moldadas pelo uso? Esta lógica de o novo ser melhor do que aquilo que seja corrente, sem se mostrar porquê ou se é viável, só satisfaz o proprietário ou vendedor das tais novas portas publicitadas.

– “Se um governo minoritário não procurar acordos, por entender que tem um poder absoluto por atribuição cósmica, então será o pior risco para si próprio.” – O Governo procurou o acordo com o BE até ao último minuto da última hora, fazendo sucessivas concessões. E o BE recusou porque se acha na posse de um poder absoluto por atribuição cósmica, o poder de se substituir ao Governo em nome dos cálculos eleitorais de curto prazo. A denúncia do “risco para si próprio” fica como projecção e auto-profecia.

– “Cinco anos depois, a habituação pode criar a ilusão de que a exibição do poder é o poder.” – Louçã aguentou cinco anos de convergência parlamentar da esquerda e declara estar enfastiado, precisa de uma mudança de cenário para se voltar a sentir animado, sonhador. Esses falsos socialistas que se deixem de peneiras e ilusões, o poder não é a sua exibição. O poder que é poder, explica este marechal às tropas na parada e à assistência, consiste antes nisto que o BE acaba de fazer: deixar um Governo minoritário ainda mais fragilizado, a sangrar, à beira de ser apanhado pelas feras. Para Louçã, é simples e luminoso: já Chega!

Isto de um partido com 19 deputados se conceber como um Governo, e assim legitimar o boicote ao interesse dos que alega representar, merece ficar inscrito na memória dos eleitores. E igualmente merece uma curta reflexão. De facto, inquestionavelmente, incontornavelmente, evidentemente, as democracias directas só são viáveis em sociedades que não excedam pouquíssimos milhares, ou se calhar só centenas, de indivíduos em condições de participar em assembleias deliberativas. A civilização resolveu esse problema adaptando o ideal original para modelos de representação da soberania popular cada vez mais complexos à medida que aumentava a complexidade demográfica, económica, tecnológica e cultural das sociedades onde o liberalismo político cresceu em formato constitucional. Contudo, opta-se pela democracia em vez de outros sistemas para que haja Governos livremente eleitos, não para que haja Governos livremente impedidos de governar sem outra alternativa no quadro parlamentar. O argumento do BE, que Louçã assume sem vergonha ou aparente consciência da sua gravidade, levaria à impossibilidade de qualquer Governo minoritário chegar alguma vez a acordo com qualquer força política. E, a ser assim, as tiranias passariam a ser opções políticas mais inteligentes por uma mera questão de sobrevivência colectiva.

O BE não pretende esperar por uma vitória nas eleições para formar Governo, até porque ela poderá chegar só depois da morte térmica do Universo, aproveita-se antes da oportunidade oferecida pela fraqueza do actual Executivo para o tentar. A intenção golpista tem aqui um nome: parasitismo.

Costa do castelo

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Notas:

– Os castelos construíam-se na linha da frente da ameaça.

– Mesmo com máscara, o descaramento do pulha está à vista. Aquela linguagem corporal não engana, estamos perante um político que não respeita o bem comum e com quem não pode haver tolerância intelectual, moral ou cívica.

– Costa provou aos imbecis e aos cobardolas que o tratamento indicado para lidar com o Ventura, e quejandos, é exactamente o oposto da saída pela esquerda baixa deixando a alimária em palco a puxar pelos borregos na plateia.

– Ventura berra em registo feirante e com estilo de tasca o que Passos Coelho deixava pendurado no subtexto do seu desprezo pelos “piegas” que se andavam a arrastar na “zona de conforto” em vez de emigrarem. Nada do que Ventura diz é novo, portanto, antes se podendo recuar até ao PSD de Ferreira Leite, Pacheco Pereira e Cavaco Silva, nos idos de 2008 e 2009, e lá encontrar os ovos da serpente. Na altura, pareciam apenas ovos podres. Azar o nosso, estavam a ser chocados pelo ódio pestilento.

SNS, espírito de Abril

Esta tomada de posição – 41 médicos em defesa do SNS [PDF oferta de Rosalvo Almeida] – envergonha-nos. Porque não estamos ao lado deles, assistimos alienados aos ataques constantes dos que pretendem lucrar financeira e ideologicamente com a diminuição da qualidade e da extensão dos serviços prestados pelo Estado no âmbito da saúde, uma das mais decisivas conquistas do 25 de Abril; e dimensão fundamental da segurança dos cidadãos mais pobres e mais isolados, mas também de uma classe média portuguesa endemicamente periclitante, a custo sobrevivendo na fímbria de uma ilusão de conforto consumista, e sempre a resvalar para a pobreza.

Por razões familiares, a partir do Verão de 2018 estive muitas vezes em contacto com os profisisonais do SNS, a começar pelas idas às urgências. Entre Outubro e Janeiro de 2019, fui duas vezes por dia a Santa Maria nos dias úteis, e também uma vez por dia ao fim-de-semana, visitar um doente. O espectáculo dos pacientes em macas nos corredores era constante, onde ficam até haver vaga nos quartos ou terem alta. E constante o espectáculo do profissionalismo com que aquele aparente caos das necessidades e crises dos acamados, das actividades dos auxiliares, enfermeiros e médicos, e das vagas de confusão e conflitos provocados pelas visitas, era gerido. O meu intenso convívio ensinou-me que há variedade de atitude no pessoal que corporiza o SNS, como seria inevitável, mas havendo uma enorme maioria que se orgulha da excelência médica e da missão de serviço público que o SNS representa e concretiza. É para o SNS que os privados mandam os seus doentes quando as coisas correm mal por azar, inépcia ou falta de equipamentos. E uma evidência se impõe, pelo menos a respeito do Santa Maria que fiquei a conhecer com essa intimidade diária: trabalhar sempre no limite da resistência exige capacidades extraordinárias e gera competências únicas face a outros profissionais de saúde que não estejam sujeitos àquela pressão.

Como se lê no texto, há uma “estrutura” e há um “espírito” no SNS. Os nossos impostos pagam a estrutura, o espírito vem da liberdade de cada um. Os ataques a Marta Temido e ao Governo por causa disto e daquilo relativo ao SNS estão sempre ligados a agentes com grandes interesses em jogo, sejam corporações ou investidores. Não aconselho a minha experiência a ninguém, por razões óbvias, mas desconfio que para muitos só algo parecido os despertaria para o que está em causa nas jogadas públicas e subterrâneas a respeito do que queremos – ou do que vamos deixar que queiram por nós – para a Saúde de todos os que habitem em Portugal, portugueses e estrangeiros.

Ócio e negócio

Uma boa negociação é aquela em que ambas as partes saem igualmente insatisfeitas

Anónimo

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Daniel Deusdado (ninguém conhece) escreveu sobre Daniel Oliveira (toda a gente conhece) para lhe dar tautau – Tal como no PEC IV, Bloco chama por Passos todos os dias A tese é a de que o BE continua a ser um partido sem enraizamento que depende da visibilidade na comunicação social, e que o Daniel Oliveira fez pressão pública sobre o BE para o chumbo do Orçamento de Estado dado continuar ligado de coração à dinâmica viciosamente táctica das opções políticas dos bloquistas. De facto, não custa a validar esta ideia, basta tropeçar nesse loquaz e nervoso comentador para ficarmos encharcados em verrina contra o PS, especialmente contra Costa. Estamos perante um general que rivaliza com Louçã na genialidade com que vêem no horizonte o triunfo da esquerda pura e verdadeira, a esquerda grande, sobre os bandalhos e vendilhões dos socialistas – a cassete sectária que de 2015 a 2019 foi posta na gaveta com os benefícios históricos que se conhece e desfruta. É esperar mais um bocadinho, dizem-nos estes imbatíveis treinadores de bancada. Se não for ainda nesta temporada que o PS passará a aprovar Orçamentos de Estado do BE, será numa outra já em produção.

Deusdado gasta apenas um parágrafo com Oliveira, o resto do texto é preenchido quase todo com aquele olhar lúcido e equidistante onde se denúncia a farsa a que a democracia fica reduzida quando o bem comum e o interesse nacional não passam de poisos turísticos que os partidos locais não frequentam, apenas se lembram deles quando agitam postais ilustrados no Parlamento dessas belezas sublimes da política e da vida em comunidade. Só estraga a coisa quando fala de Sócrates. Não porque a sua opinião seja negativa, nada de nada contra, mas porque não tem opinião. Escrever “É difícil esquecer 2011 e quem ajudou a chumbar o famoso PEC IV. Sócrates era péssimo? Sim. Mas talvez não fosse inamovível. Já o que sucedeu a seguir estava à vista: uma “troika hard core” e a maioria absoluta PSD/CDS. Do ponto de vista da esquerda, foi o pior resultado possível.” implica nada justificar a respeito de Sócrates, o que acaba por invalidar não só o argumento em causa como toda a sua honestidade intelectual. Este tipo de espasmos contra Sócrates, em que os comentadores sentem necessidade de assinalar a sua aversão visceral à pessoa, quando vêm da direita sabemos que nascem do ódio; e quando vêm da esquerda, também podendo vir do ódio (como em Ana Gomes, para dar um notável exemplo), o mais frequente é virem da burrice. O caso deste amigo, infelizmente, borrando a boa pintura.

E quanto ao voto contra do BE na votação do OE para 2021? Foi a decisão mais fácil, aquela que deu a maior satisfação, como explica o Daniel Oliveira e vai passar as próximas semanas a desenvolver. Para recusar ficar na fotografia ao lado do PS qualquer razão servia. Literalmente qualquer uma, ao ponto de ser indiferente em que número a bola fosse parar, se era preto ou vermelho. Porque o que conta para os cálculos do BE é o embrulho retórico e o efeito que ele provoca nos palcos mediáticos onde for exibido. Claro, o Daniel não lhe chama a “decisão mais fácil”, diz antes que foi a resposta da coragem à “chantagem” – como se a responsabilidade de um partido com a incumbência de governar, mesmo em minoria e face aos desafios do presente crítico e do futuro tragicamente incerto, fosse igual à do partido que se recusa a tal e ainda faz birras. A sua demagogia é, pois, de boicote e ganhos maximalistas, exigindo ao PS que trate o BE como um igual eleitoral já que precisa dos seus votos. Um tudo ou nada que o enche de adrenalina enquanto tecla furioso e se vai a eles na televisão e nas redes sociais. Também isto são os vícios do ócio a foderem as virtudes do negócio.

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