Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Gallaecia

Fernando Venâncio fez parte da equipa de autores aspirínicos num período em que este blogue esteve para acabar pouco tempo depois de ter surgido, estávamos em 2006. Embora não tivesse sido um dos fundadores, foi também graças a ele que o Aspirina B sobreviveu à debandada geral ocorrida em Fevereiro e Março desse ano (quatro meses depois de ter nascido das cinzas do “Blogue de Esquerda”). Esse outrora era ainda de relativa novidade da blogosfera no ecossistema da comunicação social portuguesa, ainda uma arena onde autores e comentadores se nivelavam por cima quanto a competências intelectuais, mas a fase da vanguarda já tinha passado e a sua obsolescência já tinha sido inventada (o Facebook foi lançado em 2004, o Twitter em 2006). O Fernando viria a sair em 2008, passando a gastar o tempo aqui perdido em actividades e projectos infinitamente mais valiosos do que publicar neste pardieiro.

O enquadramento suso para saudar mais uma obra sua a caminho, e a sempiterna paixão pela Galiza e as nossas línguas pátrias e mátrias. Foi um raro prazer o convívio com a sua pessoa, é uma honra ter escrito ao seu lado.

Português e galego, “linguas irmás, ningunha submetida á outra”

Provocações

You will not fuck with my children’s future. You will not destroy the freedoms my grandfather fought two world wars to defend. Fuck off you over-promoted rubber bath toy. Britain is revolted by you and you little gang of masturbatory prefects.

 

Hugh Grant, no Twitter

 

Boris Johnson decidiu suspender o Parlamento por um mês, numa altura em que o mesmo poderia de alguma forma bloquear a saída sem acordo do Reino Unido da UE, prevista para 31 de Outubro. Esta decisão está a ser ferozmente criticada por muitos políticos e comentadores britânicos, para além de gente dos meios artísticos deveras irada (ver acima), que a classificam de choque, esperteza saloia, brincadeira de mau gosto, golpe e um terminante “morte da democracia”. (O tweet de Hugh Grant tem comentários muito agressivos, o que prova que há também gente com muito ódio aos europeus, inclusivamente pelas baixas causadas nas duas grandes guerras)

 

Ora bem, visto daqui, o circo ia animado há já vários meses e já só faltava mesmo a entrada do elefante na arena. Do elefante ou do palhaço-mor, é o que iremos ver. Um ou outro acaba justamente de entrar. Agora, ou se parte a louça toda de vez, ou se reduz a democracia a cacos, e em frente para o abismo, ou a arena é simplesmente do palhaço exuberante, que faz o seu número, não tem graça e é corrido entre apupos e arremessos de garrafas. Ninguém esperava viver para assistir a isto do outro lado do Canal, penso eu.

 

O desavindo Parlamento, onde se sentam os opositores de Boris (eventualmente em maioria), dispõe apenas de uma semana – desde 3 de Setembro, altura em que reabre após as férias, até 9 – para aprovar uma moção de censura que derrube Johnson e abra caminho a eleições. Mas será isso que quer?

 

Eu devo dizer que, olhando para o que se passou há pouco tempo no Parlamento com a votação do acordo de Theresa May e de todas as outras propostas referentes ao problema da saída, votação dirigida, por entre apelos estridentes e algo patéticos à ordem, pelo seu presidente, John Bercow, a imagem do desnorte parlamentar atingiu um pico inigualável e o descrédito foi total. E pior: não se via um fim para os sucessivos desacordos. De facto, o Parlamento não sabia o que queria. Todas as propostas foram rejeitadas com um maioritário «não». E o problema maior é que nada se alterou.

 

E foi assim que, após a demissão de Theresa May e a eleição intrapartidária de Johnson, e mantendo-se a posição da UE inalterada devido, nomeadamente, ao problema das Irlandas, era tentador para um charlatão como o Boris usar do seu poder máximo e calar o Parlamento dizendo-lhe que é inútil. Era tentador e Boris, que, como um seu à época conterrâneo famoso, resiste a tudo menos à tentação, não resistiu.

 

Não é difícil, por outro lado, concordar que, com aquele Parlamento, não se vai longe na questão da saída da União Europeia. Mas daí até acabar com ele deveria ir um passo de gigante. Pelos vistos, não foi. Não será que “para grandes males grandes remédios”? Estou dividida.

 

Mas enfim, imaginemos que Johnson tem dois gramas de seriedade e três de juízo: dir-se-ia que, perante um claro impasse, nada mais lhe restava do que lançar o grande desafio aos adversários do Brexit: “Não querem sair ou não querem sair sem acordo, têm uma semana para me demitirem.” É um repto, é um jogo. Só não percebo por que razão este homem, se está tão confiante de que representa a vontade da maioria dos britânicos, não convoca eleições já. Se a resposta é que “poder, podia, mas não seria a mesma coisa”, então entrou mesmo o palhaço. É o mais certo. O homem gosta de “show”. Infelizmente, o que já não é tão certo é que não ganhe as eleições. Numa época em que tudo é espectáculo, parece haver gosto por pândegos no poder. Ali, “of all places”, é que me parece assaz inesperado.

 

 

Do abuso absoluto

«Ninguém esqueceu no país que as duas maiorias absolutas do cavaquismo e a do PS de Sócrates se traduziram no abuso absoluto.»

Fernando Rosas

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Fazer equivaler as maiorias de Cavaco (1987-1995) com a de Sócrates (2005-2009), seja no que for (repita-se: seja no que for; acrescente-se: seja no que for; registe-se em acta: seja no que for; grave-se numa placa de mármore: seja no que for), permite – obriga a – inferir o seguinte:

Fernando Rosas abusa da cegueira histórica, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da distorção ideológica, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da desonestidade intelectual, absolutamente.

Fernando Rosas abusa do sectarismo fanático, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da estupidificação mediática, absolutamente.

Fernando Rosas abusa do insulto à nossa inteligência, absolutamente.

Fernando Rosas abusa da vinhaça, provavelmente.

Amazónia a quem a respira

No fundo – na estrutura, para convocar o economista e sociólogo Marx – o que divide a ideologia em direita e esquerda explica-se pela relação Estado-sociedade. Diz qual preferes, diz quanto e como, dir-te-ei se és de esquerda, de direita, ou do centro (existe necessariamente este terceiro, como Hegel explica gratuitamente aos interessados).

Apesar da simplicidade aparente do binómio, e de acordo com as dinâmicas da evolução que regem este universo, rapidamente a complexidade está instalada. Do lado do Estado fica o ideal colectivo, do lado da sociedade o ideal individual. Para usar outro binómio aparentemente de fácil entendimento, o comunismo e o capitalismo confrontam-se nessa linha da frente. Todavia, do lado do Estado também aparece o primado da Lei, e do lado da sociedade aparece a necessidade social. A Lei é aplicada por um colectivo coercivo a todos os indivíduos, as necessidades sociais dão estatuto político a grupos cujas carências pedem solução em nome de cada caso individual. Isto leva a discursos onde os antagonismos se misturam e confundem, dando azo a ilimitadas configurações ideológicas e posicionamentos políticos. Um retinto conservador e um socialista de cepa podem ambos discordar radicalmente acerca do modelo económico e axiológico de sociedade preferido e estarem unidos no respeito pela Lei como princípio ordenador e inviolável do regime. Um leninista fanático e um neoliberal assanhado podem odiar-se quando discutem o sistema partidário preferido e amar-se quando atacam a social-democracia.

O discurso sobre o fim da divisão entre esquerda e direita carece de muito contexto, pretexto e subtexto para fazer sentido. Mais prático é olhar à volta e constatar como um direitola que se preze vive em claustrofobia por causa da opressora presença do Estado, e como um esquerdalho de lei acorda e deita-se a sentir-se espoliado pelos burgueses imperialistas. A retórica de uns e outros não tem outro guião. Mas, na origem e no fim do labor teórico na ciência política, o que está sempre em causa é a divisão da riqueza, a posse dos recursos – ou seja, a animalesca luta pela sobrevivência. Quem tem não quer perder, primeiro, e quer aumentar, logo que possa. Quem não tem pede para ter o mínimo, e continua a pedir para, e por, ser igual aos que têm mais. O contexto explica os valores assumidos e agitados, o miserável revolucionário de ontem pode transformar-se num ricalhaço defensor da ordem e o elitista industrial de hoje poderá ver-se amanhã falido e a lutar contra os poderosos.

Salto para a Amazónia. Coincide a destruição imparável com um presidente que representa a direita típica, castiça, folclórica. Subindo no mapa, encontramos Trump, outro representante da direita típica, aquela que adora a sociedade e abomina o Estado. Porque na sociedade estão pessoas como ele, está o indivíduo e a sua gula. Para estes dois cromos, a conversa sobre as alterações climáticas é uma invenção dos socialistas, coisa do Diabo. Chega a ser enternecedor ver Trump a gozar no Twitter sempre que a meteorologia lhe envia uma frente fria ou agora Bolsonaro a mostrar o seu desprezo pela função ecológica da Amazónia para o Planeta. Estes dois representam muitos milhões, bastando dar um exemplo recentíssimo e aqui do rectângulo – nada mais nada menos do que pelo teclado do braço-direito do genial RAP: Alterações de Gretas suecas (aviso: é só rir, está magnífico ao nível do trocadalho e tãoooooo inteligente)

A pulsão destrutiva e oligárquica é de direita e a consciência ecológica e democrática é de esquerda. Porque para enriquecer, como reflectiu Locke olhando para o poderio militar e tecnológico europeu da sua época, basta pegarmos na enxada e/ou na pistola e começarmos a trabalhar. O resultado de tomarmos posse de um pedaço de terreno para o cultivar, mesmo que para isso tenhamos de afastar para fora do horizonte os escurinhos e seus rebanhos que por lá passavam há séculos ou milénios, chama-se produção. Locke ensinou os terratenentes a não só expandirem as suas propriedades como a fazê-lo com vista a uma muito maior eficiência e eficácia económica. Ganhámos todos com isso, pois no século XVII começou a construir-se a fase da civilização a que chamamos Estado de direito democrático. Acontece que chegámos a uma situação em que a oligarquia precisa de voltar a perder poder – ou seja, a aumentar o número das entidades que protege. De facto, a Amazónia não é só do Brasil, é também da esquerda que idealiza a fraternidade planetária.

Revolution through evolution

Legal Limits Apply to Making a Child Pray
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Do single people suffer more?
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Speed identified as the best predictor of car crashes
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Online brain games can extend in-game ‘cognitive youth’ into old age
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Need a mental break? Avoid your cellphone
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Cultural processes are increasingly short-lived, showing in addition a growing tendency toward self-organization
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Your heart’s best friend: Dog ownership associated with better cardiovascular health
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Dom Pardal Henriques, desde 2017 a sacrificar-se por nós

«Em resposta às críticas de que se terá aproveitado da "causa dos motoristas" para se "autopromover, Pardal Henriques diz defender esta causa "desde 2017" e que nunca foi sua intenção "iniciar uma carreira política". Acrescenta ter a intenção de continuar "a exercer a advocacia e a defender todas as causas" em que acredita, "e em especial o novo Sindicalismo Independente", através de "uma voz ativa contra a hipocrisia e a corrupção" na Assembleia da República.»


Fonte

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Esta noite tive dificuldades em adormecer. Fechava os olhos e de imediato era assolado por imagens da noite do próximo 6 de Outubro. Imagens tenebrosas, terríveis, onde se rasgava o coração perante a notícia de Pardal Henriques não ter sido eleito deputado. Ao abrir a pestana para fugir dessa visão cruenta ficava entregue aos monstros que se escondem nas trevas dos quartos das pessoas sérias como eu, esses corruptos que perseguem o bom povo para o enganar e roubar. Foi dilacerante.

Caso não haja um toque a rebate em nome do tanto que o senhor já fez pela melhoria da nossa vida colectiva, corremos o sério risco de não ver o Dr. Pardal a chegar de Maserati à Assembleia da República, a sair com o seu lendário blusão de penas (ou sem penas, ficará como mistério) e a subir as escadarias em passo de corrida perseguido pela multidão de jornalistas arcadas adentro. Chegado ao hemiciclo, seria épico vê-lo a continuar a “exercer a advocacia e a defender todas as causas” bastando acreditar nelas com o poder e autoridade da sua cachimónia, ó singela e inaudita transparência. Nada menos do que maravilhoso, homérico, escutar a “voz activa contra a hipocrisia e a corrupção” saída da garganta d’ouro de um herói do “novo sindicalismo independente” ali chegado ao antro da corrupção precisamente por nunca, mas nunca nunca, ter sentido a tentação de “iniciar uma carreira política”. É bem sabido como a hipocrisia e a corrupção se apavoram ao verem avançar contra elas esta estirpe de rectos lavados com água de malvas e purificados de qualquer contacto com a porca da política.

Espero que a noite de insónia e pesadelo não passe disso. Portugal precisa do sacrifício destas pessoas honestas, corajosas, patriotas que vêem corruptos exactamente onde eles estão: em todo o lado onde existem representantes do voto popular e funcionários do Estado. Está na altura de acabar com os abusos da democracia e os excessos da liberdade.

O que é mais perigoso, a crise ou o Pardal Henriques?

Depois de rios de tinta gastos por pessoas a defenderem os motoristas das artimanhas dos patrões que passam por pagarem em subsídios em vez de lhes aumentarem o vencimento base, eis que os motoristas marcam nova greve porque os patrões não aceitam o aumento de mais 50 euros no… novo subsídio de operações. Pasme-se, para o sindicato, o problema não é haver subsídios a mais, é exactamente o contrário.

Parece que o subsídio em causa é relativo ao manuseamento das matérias perigosas. Mas quão perigosas são as tais matérias, afinal? É que, bem vistas as coisas, todos as manuseamos sempre que vamos abastecer, e sem nunca termos tido qualquer formação para tal. Muitos, para se precaverem dos efeitos da greve, não só manusearam como transportaram grandes quantidades dessas matérias, e não o fizeram em camiões sofisticadíssimos que respeitam todas as regras de segurança, transportaram-nas em recipientes de plástico na bagageira das viaturas. Falou-se muito no açambarcamento, mas ninguém alertou para a perigosidade deste comportamento. Será que as matérias só são perigosas se transportadas pelos motoristas ou pelos militares?

Por fim, na comunicação social, ao mesmo tempo que se critica o Governo por estar do lado dos patrões, são cada vez mais os artigos a anunciarem a próxima crise económica. Veja-se, por exemplo, este título – Quem tem medo da crise? – e a forma como o texto começa. O Expresso não tem dúvidas, é como se a crise já estivesse instalada. Isto não parece mesmo um alerta para os patrões? Lendo estes títulos, que empresário é que fica com vontade de negociar aumentos?

Exactissimamente

Os governos não ganham greves por 3-0

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Nota

Quando ouvi as declarações de Costa, antes de ler o Paulo Pedroso a respeito, senti o mesmo desconchavo misturado numa resignação. Costa é, também, aquilo. E aquilo é o potencial para gerar erros de palmatória no plano da comunicação política pois expressa um triunfalismo que não tem defesa. Se foi intencional, cônscio, é a antítese do que se espera de um governante, especial e agravadamente de um primeiro-ministro, já com vexame pelo lado em que é socialista. Se foi acidental, incônscio, expõe uma displicência em que já tropeçámos noutras ocasiões, logo desde a sua campanha contra Seguro. Displicência que não poderá ser consequência de um amadorismo, pois estamos perante um dos melhores políticos profissionais, de sempre, da nossa democracia. Seria então uma displicência endógena a pedir divã ou biografia.

A metáfora a usar para ilustração do que estava em causa não era a do futebol, imprópria para o discurso por ser agonística e superficial, vulgar e tribal. Melhor seria ter usado a mais clássica das metáforas que simbolizam o Estado: o navio, a viagem no mar a carecer de um prudente e sábio capitão, e a necessidade de pecar por excesso de zelo pois a tormenta era ameaçadora e podíamos ter ido ao fundo caso não nos tivéssemos unido coordenando esforços e competências.

Qual a importância do episódio? Nenhuma, escusado será dizer. Costa não tem rivais. As suas imperfeições expositivas igualmente atestam da sua autenticidade que espalha confiança. Não se concebe uma mudança de timoneiro. Para completar o quadro paradisíaco, a concorrência é composta por uma direita decadente e por uma esquerda que está a sair da infância e só agora a entrar na puberdade.

Ó Ana Sá Lopes, não te inibas. O que te impede de chamar ditador fascista ao Costa? (Mas quem é que ainda lê jornais?)

Tenho dificuldade em prestar atenção ao desmiolado comentariado nacional, pago para se excitar a propósito de tudo e de nada, e, ultimamente, com a mania de, através de editoriais em jornais, e com o PSD na lama, se armar em oposição do Governo. Não há pachorra. Temos um governo que governa, que se preocupa com que as contas não derrapem, que dá liberdade suficiente ao chamado “mercado” e liberdade total à livre iniciativa, que se apresentou com convicções e dignidade na Europa, passando a ser olhado com respeito e admiração, que restituiu o orgulho nacional, que pôs a economia a crescer, que está atento aos problemas, que é constituído por pessoas competentes e contidas, que também aprendem e se preparam, enfim, dir-se-ia um governo de luxo. E estas alminhas, sem mais que fazer, que fazem? Resolvem preencher os espaços de que dispõem para delirar.  Tudo bem. Não queiram é ser levados a sério, eles próprios e os jornais onde trabalham.

Mas então o Governo não pode ser criticado, dir-me-ão? Claro que pode. E deve. Em matéria de habitação, de leis agrícolas, de cedências aos parceiros esquerdistas e comunistas, por exemplo, muito haverá para dizer. Mas as críticas devem colar à realidade. Quando toda a gente está ultra-satisfeita com a gestão governamental da greve dos camionistas e desejando o seu fim, esta e outras alminhas – ou porque simpatizam com a extrema-esquerda ou porque representam a direita – insistem em que o que era bom era ter deixado a greve bloquear o país. Apesar de sabermos para quem isso seria bom, conviria que os jornais e os seus editoriais tivessem algum tino e equidistância.

 

Perante a possibilidade real de ficarem indisponíveis os combustíveis nas bombas, ambulâncias e hospitais e os alimentos nos supermercados, jornalistas espertos como a Ana Sá Lopes entendem, e dizem-no sem qualquer noção, ou a soldo, que o Governo não deveria ter tomado medida alguma. Alegadamente para não atentar contra o direito à greve. E, se tomou medidas, é porque Costa se armou em Margaret Thatcher na crise dos mineiros. Isto, para quem não o saiba, é uma patetice sem adjectivação.

 

É que, daí até chamar a Costa o Salvini ou o Orbán atlântico, ou Hitler daqui a uns dias, vai um saltinho. Triste imprensa, em que não há um único articulista que valha a pena ler. E, de facto, eu só os leio de vez em quando para me inteirar do seu estado de saúde. Tipo: “Deixa cá ver como este tem passado“. Até agora, não há melhoras. Reconheço apenas que há picos de febre e pequenas e temporárias acalmias.

Revolution through evolution

Financial Abuse of Older Adults by Family Members More Common Than Scams by Strangers
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Dietary choline associates with reduced risk of dementia
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Flavonoid-rich diet protects against cancer and heart disease, study finds
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Societies that favor generalists are less well-connected than those societies that favor specialists
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Individuals are swayed by their peers, leading to more severe punishments
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Testosterone has a complicated relationship with moral reasoning, study finds
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Winning Coaches’ Locker Room Secret
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Os cínicos e os demagogos nunca se enganam e raramente têm dúvidas

É hoje claro que o Governo tinha suspeitas vindas dos serviços de informação do Estado que davam como provável, num qualquer grau, um cenário de greve dos motoristas com graves episódios de insubordinação, boicotes e alteração da ordem pública. Isto com o País literalmente em trânsito por causa das férias. Neste cenário, os fenómenos de pânico social poderiam ser devastadores e sistémicos. Algo aproximado a um ataque terrorista de grande escala ou cataclismo natural.

Os cínicos e os demagogos fazem o que podem, dizem que a dramatização dos governantes foi artificial, excessiva e até desejada ou mesmo planeada para obter ganhos políticos (parece que tal preocupação com a segurança e qualidade de vida de milhões de pessoas provoca “maiorias absolutas”, garantem essas grandes inteligências). O facto é que ninguém se atreve a sugerir o que deveria o Governo ter feito que fosse substantivamente diferente, apenas querem morder na canela da perna a que se agarram desesperados com medo de ficar para trás.

Quanto a problemáticas conexas, como a lei da requisição civil e a justiça que assiste aos motoristas nas suas reivindicações, ainda bem que se discutem. Não consta é que os cínicos e os demagogos pretendam dar-lhes palco.

Será desta que vamos acabar com a asfixia democrática?

O tema da “asfixia democrática” – lançado por Paulo Rangel no discurso do 25 de Abril de 2007 na Assembleia da República e tendo usado originalmente a expressão “claustrofobia democrática” para se referir à nomeação de Pina Moura para a Prisa, esse tal perigoso socrático que viria a dar a TVI ao casal Moniz para lançarem desde o Verão de 2008 um festim de calúnias a partir do Freeport até às eleições legislativas de 2009 – teve um sucesso que se prolonga pelos nossos dias. Para isso muito contribuiu o apelo de supina beleza poética, a real embriaguez mística, de imaginar que no país do grupo Renascença, do grupo Impresa, do grupo Cofina, da Newshold, da Media Capital e da Sonae, a que se veio juntar o Observador, os meios de comunicação e os jornalistas estavam (ou poderiam ficar) controlados, dominados, asfixiados por um grupo de socialistas fechados em S. Bento ou escondidos numa cave do Rato. Foi neste estado alterado de consciência que o Rangel foi para Estrasburgo berrar no Parlamento Europeu que Portugal deixara de ser um Estado de direito porque o Mário Crespo tinha visto um texto seu ser recusado pelo editor do JN. Um texto calunioso e odiento, recusado por uma entidade privada. Culpado? Sócrates, garantiu ao tempo esse paradigma da honestidade intelectual que vem de fazer uma campanha para as Europeias inspirada na sua vocação mais querida, a qual teve os lindos resultados que se conhecem. Pacheco Pereira viria a superar Rangel na campo da exploração política e comercial da “asfixia democrática”, tendo acabado fechado numa saleta da Assembleia da República a chafurdar na privacidade de um concidadão que odiava.

Agora, a Cofina vai comprar a TVI. E os cidadãos preocupados perguntam se chegará para começar a romper a asfixia, a deixar entrar o puro ar da liberdade como só a indústria da calúnia consegue fornecer. Não será melhor entregar também a RTP a alguém sério e isento, como o José Rodrigues dos Santos ou o Adelino Faria, ou mesmo o casal Moniz que conhece de ginjeira a casa, ou pedir à Cofina se faz a gentileza, o esforço, de pôr a estação pública na ordem, desinfestando-a dos perigosos socráticos, essa peste rosa?

É que já chega de asfixia democrática, fosga-se. Um gajo abre o Diário da República e está sempre a levar com os socialistas aqui e ali, por causa disto e daquilo. Que sufoco.

Referência de merda

O editorial de Ana Sá Lopes – Agit-prop sem vergonha nenhuma – podia ter sido escrito pelo Manuel Carvalho, sem tirar nem pôr. Por aqui, o editorial faz sentido ao manter a coerência ideológica do jornal num exercício de mimetismo. Não sugiro que a senhora imitou o senhor intencionalmente, antes que ela foi escolhida por ele para a sua equipa directiva por se saberem siameses no sectarismo enchouriçado e na mediocridade intelectual.

Nada mais faz sentido nos cinco parágrafos despachados com desleixo e broncoconfusão. Desde a premissa alucinada, de que o Governo está a lidar com a ameaça de paralisação económica e social do País como se estivesse numa arruada no Chiado, passando pela redução da dimensão política e estatal à sua transformação em conteúdos mediáticos avulsos, até ao uso de Sócrates como argumentum ad Hitlerum. O desvairo é tamanho, a estupidez é tanta, a pulsão do ódio atinge tal nível, que chega a fazer de Pedro Silva Pereira, tranquilamente um dos mais bem preparados políticos da história da democracia portuguesa, uma caricatura onde apenas se reconhece a impotência e putrefacção da própria autora.

Dentro de umas horas, o escrito irá desaparecer da atenção do público. Amanhã, só com esforço alguém recordará a coisa. Daqui a uma semana, ninguém será capaz de lembrar seja o que for que lá tenha ficado pespegado. Contudo, dizer que é inócuo será errar. O que sobressai no exercício é a involuntária exposição de uma concepção do jornalismo que é tóxica, corrosiva e poluente para a cidade. O problema nem sequer está no estilo e no conteúdo deste editorial, o qual passaria sem a mínima estranheza se fosse mais uma opinião no Observador, no esgoto a céu aberto, na Sábado ou até no Expresso. O problema está na antinomia entre os estatutos do Público e a prática começada por José Manuel Fernandes num certo dia após uma certa OPA. De lá para cá, e através dos sucessivos directores e conjunturas, pode-se dizer que este jornal continua a ser uma referência – só que passou a ser uma referência da decadência deontológica e do culto da irracionalidade no afã de querer influenciar o jogo político.

O jornalismo que vai sobreviver será o exacto oposto do chiqueiro em que o Público se alimenta e dá a comer.