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Para além de um escândalo, estamos perante um projecto político

«A ex-procuradora-geral da República afirmou esta sexta-feira, em declarações à Rádio Renascença, que existem em Portugal redes de compadrio e corrupção nas áreas da contratação pública. “Há efetivamente algumas redes que capturaram o Estado e que utilizam o aparelho do Estado para a prática de atos ilícitos e, felizmente, algumas estão a ser combatidas, mas outras continuam a fazer isso e há até outras que começam”, disse.

Aos microfones da Renascença, no programa Em Nome da Lei, Joana Marques Vidal disse que a realidade mostra que há uma disseminação desse tipo de práticas “em vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços diretos ou indiretos do Estado”.

Já em 2015, numa entrevista ao Público e RR, a então procuradora-geral da República recém-empossada tinha dito: “Há uma rede que utiliza o aparelho de Estado” para corrupção. Se fosse hoje, diz, só mudaria uma parte da afirmação: punha no plural e não no singular. Ou seja, “há redes que utilizam o aparelho do Estado para corrupção”.

Ainda assim, Joana Marques Vidal, que terminou recentemente o seu mandato, tendo sido substituída por Lucília Gago, nega que tenha uma visão catastrófica sobre a corrupção em Portugal. “Eu não tenho essa ideia de que toda a gente é corrupta e que todas as autarquias são corruptas e que todos os políticos são corruptos. Não tenho nada essa ideia. Sou, aliás, uma defensora de que os partidos são um elemento essencial da democracia. Poderemos depois discutir se deviam estar mais abertos ou menos abertos, autorregenerem-se, não serem tão complacentes com certos tipos de atividades, mas isso é outro tipo de discussão”, disse.»


Fonte

“Assalto ao BCP” para totós

Indivíduos com responsabilidades no Parlamento, no Conselho de Estado e na “imprensa de referência”, inclusive no PS, têm feito repetidas declarações públicas onde garantem ter ocorrido um “assalto” ao BCP orquestrado por Sócrates com a cumplicidade de Teixeira dos Santos, Armando Vara, Carlos Santos Ferreira, Joe Berardo e Vítor Constâncio. Há versões onde se junta Ricardo Salgado ao bando, mas todas as variantes se fundamentam nas mesmas suspeitas contra Sócrates que ao tempo, 2007, logo apareceram mediatizadas. Quem propala esta tese igualmente pede a intervenção do Ministério Público e as respectivas condenações em tribunal que profetizam ser inevitáveis dadas as “evidências”. Será verdade? Será que existiram mesmo Doze anos de mentira como o poeta-Guerreiro detalha em delírio calunioso e abraçado a uma série de inacreditáveis mentiras do Público? Será que a Constituição, o Estado de direito, o sistema político, o poder dos magistrados e os poderes fácticos foram suspensos entre 12 de Março de 2005 e 21 de junho de 2011?

A narrativa do “Assalto ao BCP” tem uma origem que brilha ofuscante: Jardim Gonçalves. Recentemente, na Assembleia da República, Filipe Pinhal reproduziu-a, tendo sido de imediato amplificada e explorada por políticos e impérios mediáticos direitolas. Podemos ter a certeza de que o relatório final da II Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco a vai incluir como suspeita para a eternidade ondulando ao vento pois o PSD e o CDS não admitem que se acabe com esse maná de chicana contra os socialistas. Para quem tenha acompanhado as sessões dessa comissão, ficou patente que a narrativa não causa amargos de boca à esquerda, bem pelo contrário. Todos os partidos, talvez sem surpresa, mostram ter algo a ganhar com a permanência no espaço público de uma grotesca deformação da realidade. E há quem chame a isto “fazer política”, para a tragédia ser vexante.

O filme do “assalto” implica criar uma cenário de ficção, uma ilha algures no meio de um vasto oceano por identificar. Nesse reino, existiu uma pessoa muito má com algum poder (um primeiro-ministro) que colocava homens de mão em lugares-chave (num banco público) com a finalidade de obter o poder supremo (o “domínio da banca” e da “comunicação social”, pelo menos) para assim se perpetuar como tirano até ao fim dos seus dias (ou para obter uma fortuna colossal, tanto faz e vai dar ao mesmo). Onde é que já vimos isto? Em milhares de filmes, séries, livros. Gostamos desse tipo de historieta porque é básica e promete um final feliz onde o mau da fita é combatido, derrubado e castigado pelos bons. Não temos de nos esforçar para validar as informações, analisar os factos, entender as intencionalidades e filtrar as coincidências. Podemos descontrair quando temos tempo e pachorra para sermos enganados. O segredo da nossa adesão está na simplicidade diegética, a redução à caricatura das personagens e suas acções. É essa abstracção que permite ir desligando as capacidades cognitivas até mergulharmos na crença onírica de estarmos perante seres fantásticos com alguma realidade, alguma verdade. Quando a ficção é boa, um filme, uma série ou um livro fazem-nos sonhar – de olhos bem abertos. Quando é péssima, também – se precisarmos de adormecer. O nosso cérebro consome histórias maravilhosas e terríveis desde a criação da linguagem pela mesma razão que o nosso corpo consome alimentos: para que o organismo tenha energia e assimile substâncias para decompor, distribuir e voltar a reorganizar. No caso das histórias, cada um as decompõe de acordo com a sua idiossincrasia e volta a reorganizá-las de acordo com a sua circunstância. É por isso que o mesmo livro ou filme pode, ao ser consumido repetidas vezes ao longo do nosso crescimento e finitude, oferecer diferentes sentidos, diferentes interpretações, diferentes lições e experiências subjectivas de acordo com as possibilidades – e necessidades – neurológicas e psicológicas da situação que for a nossa aquando da assimilação de mais um “Era uma vez”. A ficção, seja de autoria vígil ou de autoria biológica no sono, consiste numa única fórmula estrutural: colocar-nos perante um problema (um ou mais desafios) e dar-nos a solução ou deixar-nos à procura dela (um final fechado ou aberto, unívoco ou equívoco). É por isso que precisamos de narrativas para além do pão nosso de cada dia, pois a vida em nós quer triunfar sobre a morte seja onde e como for; por exemplo, lá onde o pensamento mágico tem mais força do que a gravidade e o deus ex machina e guionista faz milagres no final de cada acto ou episódio.

Teixeira dos Santos disse que a ideia de escolher Santos Ferreira e Vara para a CGD foi dele, apesar dos avisos de Sócrates – mas isso não vem ao caso. Os empréstimos da CGD envolviam dezenas de técnicos e especialistas de diferentes áreas da Caixa desde o começo de cada processo até ao seu desfecho e eram aprovados colegialmente por 5 ou 6 administradores após extensa discussão – mas isso não vem ao caso. Celeste Cardona, então ex-ministra da Justiça pelo CDS, era colega de Vara e tinha o pelouro dos serviços jurídicos na administração de Santos Ferreira; ou seja, era ela a responsável pelas condições legais dos contratos de empréstimo, e a senhora foi para a comissão de inquérito falar desse tempo com orgulho – mas isso não vem ao caso. Empréstimos para comprar acções eram, e são, prática corrente na banca mundial; sendo que o valor concedido a Berardo em nada de nada era significativo para os capitais da CGD e parecia um bom negócio à luz das cotações e perspectivas de subida à época – mas isso não vem ao caso. O contrato obrigava Berardo a dar como garantias acções do BCP que já detinha, mais as que viesse a comprar (entre 9 entidades possíveis, não era só para o BCP) e ainda o espólio artístico da Fundação Berardo que valia mais do que o empréstimo – mas isso não vem ao caso. José de Matos presidiu à reunião no BdP, em Agosto de 2007, onde foi aprovado o pedido de Berardo para uma participação qualificada superior a 5%; se essa reunião foi fundamental para que o “Assalto ao BCP” ocorresse, como explicar que Passos Coelho tenha colocado o mesmo José de Matos como presidente da CGD em 2011? – mas isso não vem ao caso. Pedro Duarte Neves, responsável pela supervisão no BdP à época, declarou que não viu nada de errado na ida de Santos Ferreira e Vara para o BCP; este mesmo ex-vice-governador do Banco de Portugal teve o seu mandato renovado já com Passos Coelho como primeiro-ministro – mas isso não vem ao caso. Santos Ferreira e Armando Vara foram para o BCP por escolha de 97% dos votos do capital accionista presente na assembleia geral; o que significa que as acções de Berardo adquiridas com o empréstimo da CGD foram irrelevantes para essa escolha – mas isso não vem ao caso. Paulo Macedo foi vice-presidente de Santos Ferreira no BCP, logo terá sido a segunda figura mais importante no “assalto”, o mesmo Paulo Macedo que viria a ser ministro de Passos – mas isso não vem ao caso. Paula Teixeira da Cruz, essa mesmo, Filipe de Botton e Alexandre Relvas, muito próximos de Cavaco Silva, António Mexia, ex-governante com Durão Barroso, e Alexandre Soares dos Santos estiveram ao lado de Berardo durante e depois do “assalto” – mas isso não vem ao caso. Cavaco Silva promulgou o decreto-lei que criou a Fundação de Arte Moderna – Colecção Berardo, o tal negócio que se diz ter sido feito por Sócrates para vir a usar Berardo no “assalto”, o mesmo Cavaco que em momento algum dos seus dois mandatos se quis meter publicamente neste assunto por ele não ter ponta legal, sequer racional, por onde se pegar – mas isso não vem ao caso. Quando mais de 70% dos accionistas do BCP escolheram Santos Ferreira e Vara para tentarem salvar o banco a situação era de caos com a descoberta de que Jardim Gonçalves, ex-líbris da mais aristocrática elite financeira e católica em Portugal, era um escroque e um incompetente – mas isso não vem ao caso. Não há notícia de que a presença de Santos Ferreira e de Armando Vara no BCP tenha, fosse de que forma fosse, servido para dar a Sócrates algum tipo de benefício político, fosse ele qual fosse – mas isso não vem ao caso.

Na ilha onde se deu o “Assalto ao BCP” não havia Presidente da República, polícia, Ministério Público, tribunais, Assembleia da República, partidos para além do PS, imprensa livre, Conselho Superior do Ministério Público, Conselho Superior da Magistratura, Estado de direito. Nem sequer havia, pasme-se, algum heróico sindicato de procuradores ou de juízes capaz de levar as “evidências” do “assalto” à bófia. Era um Estado de fantochada, todos sabiam o que se estava a passar, todos viam as “evidências”, mas ninguém podia fazer nada. Sócrates, telepaticamente, controlava ministros, administradores de bancos, o governador do Banco de Portugal e demais vice-governadores, a nata financeira portuguesa, até a madame que viria anos depois a ser a inventora do “fim da impunidade” e implacável perseguidora de socráticos, e não esquecendo o Rei de Espanha usado para varrer uma brilhante e corajosa jornalista, assim reza a teoria da conspiração já com direito a série na RTP. Eis a navalha de Occam transformada num alguidar. Obviamente, eram “evidências” a mais para se conseguir montar uma golpada judicial. Era estupidez, paranóia e alucinações a mais até para fanáticos e pulhas. Pelo que se foi por outro caminho, o da caldeirada de enguias à moda de Aveiro. A hecatombe do poder bancário da direita – onde BPN, BPP e BCP se afundaram em ilegalidades e as lideranças foram dizimadas – no meio da tempestade económica mundial obrigava a recuperar o poder governativo para conter os danos e salvar as jóias. Recuperá-lo a todo o custo e por todos os meios – especialmente, os ilícitos. A dimensão e gravidade da crise, o desespero e o pânico inauditos, levou a direita a fazer o que nunca antes tinha feito depois do 25 de Abril, mas que conhecia de ginjeira como saudosa memória. Jardim Gonçalves iria ter a sua vingança, Cavaco iria ter a sua vingança. O perfeito alvo para todos os ódios, o bode expiatório para todos os males, a manobra de diversão que permitia ocultar tudo o que a “gente séria” tinha abarbatado graças ao cavaquismo, era um político que não tinha medo da oligarquia, que parecia imbatível nas urnas, que apresentava um projecto para o País que dava resultados em crescendo – só interrompidos pela maior crise económica mundial em 80 anos. Nasceu o “Face Oculta”, um plano de espionagem de um primeiro-ministro em funções através de um seu amigo e companheiro político que igualmente se pretendia queimar em auto-de-fé, salgando o seu trajecto profissional e destruindo o seu bom nome. Nesta violenta caça aos “inimigos”, o aparelho de Justiça foi usado verticalmente para assassinatos políticos, tendo-se chegado à ignomínia de condenar um cidadão à pena máxima com prisão efectiva num suposto crime onde nem sequer se obtiveram provas para justificar uma pena suspensa. A mesma lógica – acima, abaixo e ao lado da Lei – na “Operação Marquês”, um processo concebido para ser em si mesmo uma condenação; daí se ter devassado, exposto e prendido vários cidadãos sem se saber porquê mas sabendo-se perfeitamente para quê. Alguma vez se fará o levantamento e exposição dos crimes e irregularidades cometidos por agentes da Justiça e jornalistas sob o pretexto de se estar a “combater a corrupção”? Não, jamais, é a resposta – se continuar a não existir no País uma única força política que pretenda fazer da Justiça um santuário dos direitos, das garantias, da liberdade.

O “Assalto ao BCP” foi criado, e é agitado, pelos mesmos que andam desde 2004 a usar polícias, magistrados e jornalistas para tentar obter pela Justiça o que não conseguem pelo voto. Aqueles para quem a política não passa de um assalto à cidade.

Perguntas simples

Se Marcelo quer delegar a simbólica da Pátria em caluniadores profissionais e oferecer o Ministério Público à direita dos casos e das golpadas, julgando-se muito esperto por estar a cavalgar o populismo larvar e mediático ao mesmo tempo que serve os seus amigos e clientelas, não existirá ninguém na comunidade que em 2021 represente aqueles para quem a Justiça não pode ser uma peça num jogo de xadrez sem regras?

Joana Marques Vidal diz que PS e PSD querem cometer crimes

«Joana Marques Vidal lançou fortes críticas às propostas de alteração da composição do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP). Durante um jantar/debate, organizado esta segunda-feira pela Comissão Justiça e Paz de Coimbra e pela Associação Cristã de Empresários e Gestores, a ex-procuradora-Geral da República considerou que as mudanças na estrutura do CSMP propostas pelo PS e PSD podem pôr em causa a autonomia do Ministério Público.

“Se o Ministério Público não tiver autonomia face aos outros poderes do Estado, como vem, aliás, na Constituição, não consegue ter autonomia para levar a julgamento quem devia levar”, declarou Marques Vidal, considerando que se quer “dominar o Ministério Público porque se quer dominar os tribunais e os juízes”. “É uma pescadinha de rabo na boca, está tudo ligado”, acrescentou nas declarações transmitidas pela SIC Notícias.

Na opinião de Marques Vidal, o conjunto de propostas é “altamente preocupante” porque põe “em causa a autonomia”. “A composição do conselho tem de ser discutida partindo do pressuposto de que a sua composição não pode mudar de forma a que haja uma interferência em processos concretos. Senão, temos a possibilidade de ter o poder executivo ou outro a interferir nos processos. Isso não pode ser nunca”, afirmou.»


Fonte

Lapidar

Populismo judiciário

Quando o rosto visível da justiça é feito de suspeitas e humilhação, esta não se credibiliza; antes alimenta o populismo dos juízos sumários e dos discursos enviesadamente morais. À condenação antecipada falta a serenidade de um tribunal onde o contraditório é raiz de uma civilização. Associando-lhe o vampirismo mediático, aproximamo-nos de uma justiça de tabelião.


A.R.

Revolution through evolution

Motherhood can deliver body image boost
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Two hours a week is key dose of nature for health and wellbeing
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One day of employment a week is all we need for mental health benefits
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Not always reaching your potential is okay, but overthinking it is a problem
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Can Facebook Help Predict and Monitor Disease? Study Says “Yes”
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Birth order influences CEO risk-taking
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How Information Is Like Snacks, Money, and Drugs — to Your Brain
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Continuar a lerRevolution through evolution

Eleitoralismo troca-tintas

A última gaffe de Rio é citada em vários jornais e televisões. Acusou Costa de ter tomado uma medida eleitoralista, discriminatória e excessiva (ao mesmo tempo!) por pretender dar um dia inteiro de folga aos funcionários públicos para acompanharem os filhos no primeiro dia de aulas. Rio nem se deu ao trabalho de ler a medida que criticava e trocou “até três horas” por “um dia inteiro“. É parecido não é?

O que ninguém disse é que Rio é tão pouco eleitoralista que decidiu logo aparecer num vídeo de propaganda eleitoral a dizer que vai propor que se melhore a medida “discriminatória” do governo alargando-a a todos os trabalhadores portugueses. Palhaçada total!

Franciscanismo ou segurismo?

«Se [Vítor Constâncio] nada fez por incompetência, negligência ou dolo, não sabemos. Só não podemos aceitar que, depois da investigação do PÚBLICO, ele possa continuar a dizer que não teve nada a ver com esses dias de vergonha, em que uma elite espúria tentou tomar de assalto o sistema financeiro.

«Enquanto jornal empenhado na defesa do interesse público, o que sabemos permite-nos desde já estabelecer a sua responsabilidade e a sua culpa profissional e ética. Mas não basta: exigimos também que a Justiça se envolva para que, como cidadãos, nos seja possível viver de cabeça levantada por termos sido capazes de ajustar as contas com esse passado trágico e vergonhoso.»

«Caímos assim na essência da Operação Marquês. No julgamento dessa nódoa da história nacional recente, nessa tentativa de uma elite plutocrata criar um sistema de poder tentacular.»


Director do Público

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Francisco Assis voltou a dar proveito a quem o lê no PúblicoOs discursos do 10 de Junho – fazendo uma análise compreensiva do efeito do investimento ideológico e retórico no 10 Junho para a sociologia política da conjuntura e apelando à elevação e contributo cívico nessa cerimónia. Porém, contudo, todavia, seria esse o tema mais importante à disposição do também José Pereira de Miranda? Nem lá perto.

Perto, muito perto, tão perto que o seu silêncio se torna inaceitável caso pretenda manter a imagem de integridade como político, está Manuel Carvalho. O actual director do jornal onde Francisco Assis deixa o seu nome tem publicado acusações que atingem a honra de dezenas ou centenas de pessoas com quem o militante socialista desde 1985 não só fez trabalho partidário como partilhou altas responsabilidades públicas; e com quem, em muitos casos, naturalmente estabeleceu laços de convivência privada, amizade. Não só o director do Público espalha calúnias como do alto do seu estatuto e alcance mediático apela à intervenção policial e judicial para se conseguir condenar essas pessoas. Nesse grupo está, com estupendo protagonismo, o próprio Francisco Assis.

A afirmação de que existiu “uma elite espúria/plutocrata” que foi investigada e está a ser julgada na “Operação Marquês” implica que o presidente do Grupo Parlamentar do PS entre 2009 e 2011 tenha sido um activo cúmplice dessa elite e desses crimes por condenar. Ele e todos os deputados do PS ao tempo posto que a “elite espúria/plutocrata” até poderia contar com a conivência do Presidente da República de seu nome Cavaco Silva e dos tribunais – a que se juntam os grupos parlamentares do PSD, CDS, PCP e BE que assistiam ao espectáculo sem moverem uma palha para o impedir – até poderia desfrutar do silêncio dos procuradores do Ministério Público aterrorizados pela presença do corrupto Pinto Monteiro, mas jamais se aceitará que os deputados do PS não soubessem o que o Sócrates estava a fazer com a cumplicidade da sede do poder soberano, a Assembleia da República. Portanto, Francisco Assis merece ir para o chilindró logo na primeira leva de ramonas a caminho de Évora, afiança o director do “jornal empenhado na defesa do interesse público“.

Não há meio termo, não há compromisso possível, é uma daquelas situações. Para o homem que aqui vemos – Um discurso para a história de um dia histórico – comer e calar é perder a face, o seu bom nome, o mínimo de respeito próprio sem o qual nenhum ideal cívico e político será algo mais do que oportunismo e hipocrisia. Tal não garante boas noites de sono.

Francisco, abandona esse antro de pulhas.

O nome das coisas

Que nome se deve dar a quem, escrevendo na “imprensa de referência” onde assina opiniões como “jornalista” e acabado de chegar de uma honra de Estado onde foi considerado um exemplo para a comunidade pelo Presidente da República, se lembra de ir buscar o nazismo, o Holocausto, a pessoa de Adolf Eichmann e a reflexão de Hannah Arendt para insultar, ofender e caluniar Vítor Constâncio mais um número indeterminado de cidadãos?

Citizen Karvalho


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«If the headline is big enough, it makes the news big enough.»

Charles Foster Kane

1941

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Ao dia 18 de Junho de 2019, Manuel Carvalho é capaz de publicar estas atoardas, insultos e ofensas em nome da Redacção e do accionista do Público:

– Que é Vítor Constâncio quem anda a “reescrever a história” – ou seja, que anda a mentir; enquanto ele, o cidadão Karvalho, possui a única versão admissível da história.

– Que Vítor Constâncio se refugia em “formalismos legais” – ou seja, que a obediência à Lei não deve ser chamada para este caso; postula o cidadão Karvalho só porque lhe dá jeito.

– Que “para o dinheiro sair da Caixa para Berardo, o Banco de Portugal tinha de lhe conceder a devida autorização” – ou seja, que o Público continua a debochar num ponto onde já foi desmentido peremptoriamente ao se conhecer o teor do contrato de empréstimo; assim se vendo como a realidade não é uma cena que assista ao cidadão Karvalho.

– Que “o BdP poderia ter evocado o número 2 do artigo 118 do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras” para justificar o que seria uma decisão absurda in illo tempore – ou seja, que o Banco de Portugal devia ter recorrido a “formalismos legais” para prejudicar Berardo; postula o cidadão Karvalho precisamente ao arrepio do que escreveu linhas antes só porque lhe volta a dar jeito.

– Que “só num país de loucos um banco empresta dinheiro a alguém para comprar acções, recebendo como garantia exclusiva essas mesmas acções” – ou seja, a prática então corrente em todo o Mundo de financiamento bancário dos investimentos em bolsa, prática que continua a ser usual pelas melhores razões comerciais e capitalistas, e a existência de um contrato de empréstimo que poderia executar as acções a comprar, mais as já existentes e ainda o património artístico da Fundação Berardo, tudo isto que ficou legalmente instituído é colocado ao nível de uma “loucura”; volta a mentir debochadamente com quantos caracteres tem o cidadão Karvalho.

– Que Vítor Constâncio “poderia ter travado a ambição de Berardo no BCP, recusando o seu pedido e, acto contínuo, anulando a exclusiva finalidade da linha de crédito negociada na CGD, nesse tempo gerida pela dupla Carlos Santos Ferreira/Armando Vara” – ou seja, que o então governador do Banco de Portugal devia ter agido contra a Lei só para satisfazer os caluniadores que em 2019 continuam a espalhar no espaço público dementes teorias da conspiração; delira encharcado em ódio o cidadão Karvalho.

– Que “uma elite espúria tentou tomar de assalto o sistema financeiro” – ou seja, que Sócrates (o “espúrio”), com Teixeira dos Santos, com a dupla Santos Ferreira/Armando Vara, tentou tomar de assalto o sistema financeiro, o regime, a União Europeia, o Planeta e arredores; calunia desvairado o desvairado e caluniador cidadão Karvalho.

– Que Vítor Constâncio “foi, no mínimo, cúmplice” “da trapaça“, “desse negócio ruinoso para o país e para os portugueses“, mostrando não ser “corajoso” – ou seja, que o então governador do Banco de Portugal é criminoso e cobarde, no mínimo; declara para a posteridade, e para o tribunal onde irá explicar melhor o seu decentíssimo argumentário, o valente cidadão Karvalho.

– Que “todas as conclusões a que chegámos se inscrevem na obrigação de um jornal responsável” – ou seja, se fazer uma parangona onde se lê “Constâncio autorizou Berardo a ir levantar 350 milhões à Caixa / Banco de Portugal aprovou investimento de Berardo no BCP com crédito tóxico da Caixa / Ex-governador disse no Parlamento que não sabia de nada” pode estar relacionado com a “responsabilidade” então dizer que “Manuel Carvalho é pago para fazer assassinatos de carácter e perseguição politica escudado na liberdade de imprensa” estará inequivocamente relacionado com a “objectividade”; inferimos imitando o cidadão Karvalho.

Este degradante episódio é muito mais do que uma rixa avulsa entre um director de um jornal, embriagado de soberba e má-fé, e um ex-governador do Banco de Portugal, vítima incauta de sórdidas e lunáticas calúnias. Chegados a este ponto – onde se assiste ao desfile de inacreditáveis exercícios esquizóides no que passa por “imprensa de referência”: Doze anos de mentira – é patente como a decadência da direita partidária explica a decadência dos seus impérios mediáticos. Esses dois braços da oligarquia estão neste momento barricados na judicialização da política e na politização da Justiça. Não têm mais nenhuma causa, de facto. Não têm causas porque faliram intelectualmente, caíram na bancarrota da decência. Assistem em desespero à perda do seu poder bancário e político, desde a vitória do PS em 2005, só lhes restando as golpadas dos magistrados justiceiros e corporativos, mais a ubíqua indústria da calúnia.

Manuel Carvalho, e o seu jornal que paga a caluniadores profissionais, revelou preferir o ataque à honra de pessoas e instituições em vez do cumprimento das regras básicas do jornalismo. Das mais básicas, senhores ouvintes. O tipo de jornalismo que pratica – essa miséria moral e deontológica assumida em notícias falsas e editoriais sinceros – não defende a democracia nem a liberdade. A cidadania que procura informação factual, rigorosa e imparcial dispensa o contributo sectário do cidadão Karvalho.

Rui Esgoto

"Temos todos, relativamente a qualquer português — quer esteja na política ou não esteja na política –, que respeitar o princípio da presunção de inocência e, respeitando o principio de presunção de inocência, temos de aguardar não pelos julgamentos populares mas os julgamentos nos tribunais. Infelizmente, esses julgamentos arrastam-se três, quatro, cinco, seis e sete anos e a pessoa vai sendo queimada em lume brando”, afirmou Rui Rio.

Questionado pelos jornalistas que o aguardavam no Forte Santiago da Barra, em Viana do Castelo, para o lançamento do livro “E agora, Portugal? – Tribuna Social”, do ex-deputado Eduardo Teixeira, Rio defendeu ainda que “os julgamentos das pessoas se façam nos tribunais e não na praça pública”. “Num estado de direito democrático não está correto nem para militantes do PSD, nem do PS, nem de coisa nenhuma“, frisou.

Fonte

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"Não vejo nenhuma acusação seguir para tribunal, nenhuma sentença, nenhuma condenação de casos muito, muito graves. Penso que a justiça devia ser mais célere, mais capaz na condenação e no julgamento destes casos, porque, estes sim, todos os portugueses pagaram milhões de euros em impostos para salvar. Nem é bem salvar, é dar um jeito na banca", afirmou Rui Rio, em Viana do Castelo, à margem do lançamento do livro "E agora, Portugal? - Tribuna Social", do ex-deputado Eduardo Teixeira.

Questionado sobre o trabalho da comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão do banco público, o líder social-democrata disse terem sido cometidos "erros, provavelmente com dolo, por pessoas que ganhavam milhares e milhares de euros, porque a sua responsabilidade era muita".

"Afinal qual era a sua responsabilidade [dessas pessoas que ganhavam milhares]? Foi a mesma do porteiro que ganhava 700 ou 800 euros por mês? Isto não é justo. Isto sim, penso que todos os portugueses estão desejosos que haja julgamento justo, em tribunal, sobre esta matéria", sustentou.

Fonte

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Deve constituir algum tipo de recorde. Na mesma ocasião, de rajada, conseguiu defender o Estado de direito e atacou o Estado de direito. Por um lado, chutou (e muito bem) para a presunção de inocência as questões sobre os autarcas do PSD e o eurodeputado social-democrata recém-eleito. Por outro, cuspiu (e muito mal) em cima de cidadãos que concebe como adversários políticos a merecer a justiça popular de que se fez porta-voz e agitador. Aproveita-se de nada ter de justificar, por isso despacha insinuações, suspeições e difamações demagógicas em modo de vendedor de atoalhados na Feira da Malveira. Aposto os 10 euros que tenho no bolso como nem sequer sabe o que tem sido dito na II comissão de inquérito à CGD.

Infelizmente, estas antinomias não causam surpresa em Rio, mas apenas porque já a causaram. Ao ter usado calúnias conspirativas na campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, o actual presidente do PSD revelou a sua natureza no mínimo medíocre. Nada do que venha a dizer como suposto estadista e líder ou representante político tem valor porque ele é o primeiro a desprezar a sua palavra.

Prometeu, era bluff.

Revolution through evolution

Study finds consistency among people’s current and past partners
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If asked the right way, toddlers will choose broccoli over cake, UCI-led study finds
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How fathers, children should spend time together
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Behind the magic: Making moving photos a reality
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Financial Vulnerability May Discourage Positive Negotiation Strategies
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Growing up With a Friend May Improve a Dairy Cow’s Lifelong Welfare
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New research finds deception is viewed as a sign of competence in certain occupations

Operação Plebeu

A “Operação Plebeu” alcançou um sucesso ribombante. Nasceu de uma encomenda do tal Presidente da República que usou os mortos de uma catástrofe natural para jurar que só se candidataria ao segundo mandato se os incêndios de Verão não sei quê, o tal Presidente que depois apareceu a sugerir ir recandidatar-se por ser o único português maior de 35 anos com pinta para receber um papa na Portela e levá-lo a passeio até Fátima, e que recentemente garantiu apetecer-lhe continuar no cargo só para que a direita seja protegida e mimada a partir do Palácio de Belém dada a infestação de esquerdalhos. O artista convidado cumpriu na perfeição, superando as expectativas. O ar risonho do contratante em certos momentos do espectáculo não fica apenas como expressão de um fundo agrado. É uma validação admirativa, a laivos embevecida, a um colega de profissão vindo de um mestre na matéria. Como alguém bem informado disse, parecia o Fernando Santos a babar-se de felicidade com a exibição do seu Éderzito.

O discurso de João Miguel Tavares foi de altíssima eficácia para os públicos-alvo em causa: direita profissional, populistas inorgânicos e infelizes despolitizados. Não falou em Sócrates, nem tal era necessário para que tudo o que dissesse tivesse esse contexto, esse subtexto e esse pretexto. O colega do assessor da Casa Civil foi escolhido como estrela de um feriado nacionalista precisamente para que a condenação popular do aterrorizador inimigo da oligarquia fique com o alto patrocínio do Presidente da República, de caminho fazendo-se mais pressão sobre Ivo Rosa e o sistema de Justiça no sentido de obter a mais extensa e mais pesada condenação possível. Ignoro mas aposto que a sua pulsão inicial foi a de fazer explícita referência ao Diabo através da “Operação Marquês” e que rapidamente Marcelo lhe terá dito que desta vez não dava, havia mínimos de decoro e máximos de porqueira. Afinal, tratava-se de uma cerimónia institucional e soleníssima, ora foda-se. Essa limitação, imposta pelo próprio ou ao próprio, aumentou o poder retórico do texto. A repetição da cartilha direitola decadente desde 2008 – a dívida, a bancarrota, as leis do trabalho rígidas, as auto-estradas vazias, os velhos a ocupar o lugar dos novos, o politicamente correcto, a corrupção, as décadas perdidas – foi pontuando a progressão de um enredo embrulhado em sentenças vácuas e pedantes, incongruentes e até ilógicas, um lençol de chavões delico-doces que serviu primorosamente o objectivo de oferecer aos diferentes segmentos sociais na audiência, especialmente aos mais desqualificados por limitações cognitivas ou inexperiência de vida, um território de referências familiares e sectárias. O orador foi a voz dos derrotados do PSD e CDS, dos deprimidos, dos bisonhos, dos paranóides, dos que expelem ódio, dos saudosos de Passos Coelho. Visto daí, Portugal é um lugar inóspito e assustador, onde corre solto o desânimo. O truque sofístico consiste em deixar na sombra o positivo e apontar a luz para o negativo, apagar o que nos une e colorir o que nos separa, ser o profeta da guerra civil. É simples e resulta desde o Neolítico. “Eles” são mais fortes e são maus, são o “outro” corrompido e corruptor. “Nós”, os puros e vítimas, ficamos neste queixume resignado a lamber as feridas enquanto não regressa quem nos vai conduzir ao sonho prometido.

Se o discurso tem esses pés com que a dupla de celebérrimos comentadores deu bailarico e coices no 10 de Junho, tem igualmente cabeça. Do princípio ao fim, o que se está a vender explicitamente é o conceito de meritocracia. Dado o endosso de Marcelo, o aparato mediático da ocasião e a marca JMT, podemos considerar que foi a mais poderosa acção de propaganda que já se viu no rectângulo e ilhas na promoção de uma ideia estrategicamente fundamental para o controlo do poder e a anulação da revolta em sociedades moldadas pela desigualdade capitalista. Não sei se a vedeta caluniadora concordará comigo mas arrisco sugerir que o conceito não foi inventado por este Tavares ou qualquer outro. A meritocracia é defendida em todos os tempos e poisos por quem pretende manter os seus privilégios, daí se ter tornado uma bandeira ideológica da direita que está bem instalada no topo da cadeia alimentar. Aqueles que desfrutam de vantagens sobre os restantes sabem-se sempre ameaçados, temem perder as riquezas e o continuado e facilitado acesso a mais riqueza, daí a necessidade psicológica de blindarem numa crença esse usufruto das desigualdades sociais e económicas, quando não também políticas e judiciais. Essa crença é o “mérito”, a concepção de que vivemos num mundo onde cada um se basta a si próprio. Se eu agir, se ao agir tiver sucesso, decorre uma conclusão meritória: o sucesso da minha acção deve-se a mim, ao que em mim faz com que eu seja eu. Pode ser qualquer factor, como a intensidade do esforço, a persistência, a escolha acertada do caminho numa encruzilhada, o salto arriscado sobre o abismo. Se correr bem, essa é a prova de que eu tenho talento, de que a realidade exterior é aquilo que se move à minha volta e que existe como o merecido prémio. A meritocracia é invariavelmente retrospectiva, é uma contemplação ensimesmada do resultado de termos obtido uma qualquer vantagem sobre os restantes – esses que não têm mérito, ou não o mérito suficiente, portanto. A partir deste culto a nós próprios como autores do nosso destino, dois monstrengos afligem o meritocrata. O primeiro, de acordo com o zeitgeist, é a “elite”, ou “elites” para dar melhor conta da grandiosidade do combate, um conjunto de rivais que dificultam ou impedem que o mérito seja reconhecido e recompensado. As elites usufruem de privilégios que já não são meritórios, assim corre a tese, posto que resultam das inércias, cumplicidades e defesas desses indivíduos que, malvados, não pretendem abandonar a sua superioridade social e posse de recursos para se verem substituídos pelos que verdadeiramente merecem estar no seu lugar. É que os recursos são sempre escassos para tanta procura, daí a luta sem quartel para os conservar e aumentar. O segundo monstrengo é o sentimento incómodo, embora profundamente consolador, gerado pela constatação de que a pobreza, as várias pobrezas, inclusive a mediania, a banalidade, são o inevitável resultado da ausência de mérito. Querem ter casa, carro e médicos finórios em consultórios modernos e a cheirar bem? Trabalhem, poupem, trabalhem mais, gastem menos, façam das tripas coração. Corolário: os pobres, na meritolândia, têm exactamente o que merecem.

Onde é que já ouvimos isso? Em 2011, no auge de uma crise económica mundial onde a Europa ainda não tinha mecanismos protectores contra a especulação das dívidas soberanas, o então presidente do PSD decidiu boicotar um plano de apoio financeiro internacional que teria evitado o resgate de emergência e o cataclismo que se seguiu. Abriu uma crise política que obrigou a eleições, e na campanha eleitoral prometeu “acabar com os sacrifícios” e “libertar a economia”. Jurou “não subir impostos, não cortar pensões, nem fazer despedimentos na Função Pública” se ganhasse. A solução indolor e instantânea para os problemas do País estava no “corte nas gorduras do Estado”. Ter afundado Portugal correu bem ao especialista em aeródromos na Região Centro. Assim que se viu como primeiro-ministro revelou o seu verdadeiro plano: ir além da Troika. Esta obsessão com uma reengenharia social que iria fazer dos portugueses as cobaias do fanatismo da austeridade salvífica veio acompanhada por uma moral meritocrática. Descobrimos com o Pedro que, embora pobretes desde o fim do ouro brasileiro, tínhamos andado a viver acima das nossas possibilidades. Se queríamos brincar à qualidade de vida, havia primeiro que sofrer o castigo. Expurgar a preguiça e a estroinice. Fazer como o Governo amante do FMI, que acabou com esses luxos asiáticos das viagens de avião em Executiva e do ar condicionado ligado; para que queríamos ter dinheiro se não o sabíamos gastar nem o conseguíamos manter debaixo do colchão? Mais valia que ele fosse para o Norte da Europa onde eles são de boas contas e gostam de trabalhar. Circunstâncias históricas, estruturais, conjunturais, ambientais, sociais, mesmo antropológicas, deixavam de poder justificar medidas especiais de apoio e estímulo. O cumprimento do programa de assistência, desejado fervorosamente pela direita, implicava uma terraplanagem das diferenças e das carências na paisagem humana. O isolamento social, o desespero daqueles que já tendo pouco ficavam ainda com menos, a debandada para a emigração e as emergências nas famílias atingidas pelos despedimentos e pela redução drástica do mercado de trabalho, tudo isto era despejado sem um pingo de empatia. Os discursos dos governantes e sua legião de correligionários mediáticos espalhavam acusações, culpas, desprezo encardido pelos que sofriam o que poderia, e deveria, ter sido evitado em nome do interesse nacional, em nome do bem comum. Esta violência meritíssima encantou o João Miguel, passando a ter em Passos o seu ídolo.

O discurso do presidente das comemorações do 10 de Junho é um florilégio biográfico. Contou a sua história desde o nascimento, viajou até à feérica Albufeira, ilustrou o que os pais fizeram por si no campo das compras a prestações, citou o que diz à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita, recordou a casa de pasto de um dos seus avós, ficámos a saber que os seus sogros fugiram de Moçambique com seis filhos, abrimos a boca de espanto com as distâncias percorridas por uma certa mulher que criou outra mulher, e partilhou connosco o estado da sua relação consigo próprio: chegou lá (a Portalegre, completando o círculo heróico ao voltar ao ponto de partida). Esta atenção a si próprio foi essencial para a identificação de tantos, inclusive dos mais insuspeitos até à data de serem completos totós. Ao relatar o seu sucesso, explicando que o mesmo se deve exclusivamente ao seu mérito – “um simples estudante de uma cidade do interior, sem qualquer ligação à capital e às suas elites” – mérito oficialmente reconhecido pelo Estado numa festa para o efeito realizada no dia 10 de Junho de 2019, podemos observar como a propaganda da meritocracia em nada se distingue das técnicas de venda pela TV. Nestas precisamos de ver o produto em acção, e quão mais real, literal, for o registo mais adesão vai suscitar no espectador-consumidor. Ali aonde tinha chegado este craque da indústria da calúnia o produto mostrou ter um desempenho espectacular. A boa nova passou a ser a de que qualquer um poderia vir a estar no lugar dele:

"Quando o senhor Presidente da República me convidou para presidir a estas cerimónias houve muita gente que ficou espantada, incluindo eu próprio. Mas com o tempo fui-me afeiçoando à ideia de que talvez não seja absolutamente necessário ter méritos extraordinários para estar aqui, e que Portugal precisa cada vez mais de um 10 de Junho feito de pessoas comuns e para pessoas comuns."

João Miguel Tavares, de costas para os representantes da soberania, a dizer ao povo que um dia poderão ser eles a estar no seu lugar. Basta que tenham o mérito de não terem méritos extraordinários para serem convidados. A apologia da meritocracia à portuguesa a culminar num curto-circuito da racionalidade, uma explosão de contradições para epater le burgessos, o gozo supremo de uma hipocrisia deslumbrada a deixar algo em que acreditar: que cada um faça a sua parte, que fuja do convívio com as elites, que trate da sua vidinha, e, um dia, tal como aconteceu com ele, o telefone irá tocar… e é o Marcelo.

Estava completada a “Operação Plebeu”.

Isto é lindo

Durante a sua audição na segunda comissão parlamentar de inquérito à recapitalização e gestão da CGD, Filipe Pinhal contou que, numa conversa que teve com o empresário também conhecido como Joe Berardo, lhe perguntou porque é que se já tinha "3,88%, uma posição qualificada, queria subir para 7%", e por que motivo iria "investir 400 milhões de euros".

«Eu ainda estou para saber como é que aquele homem me enfeitiçou, como é que aquele homem me deu a volta, como é que eu me meti nesta de ir comprar financiado desta maneira"», terá respondido José Berardo, de acordo com Filipe Pinhal.

Para o ex-administrador do BCP a pessoa mencionada por Berardo "só podia ser ou Paulo Teixeira Pinto [ex-presidente do BCP], ou o senhor José Sócrates", sendo que para Filipe Pinhal "a palavra de Paulo Teixeira Pinto teria pouco peso" para José Berardo, ao passo que "a palavra do senhor primeiro-ministro valeria mais".


Ex-administrador do BCP diz que Sócrates “enfeitiçou” Berardo

Um liberal imaturo e bastante confuso, que só sabe mesmo é dizer mal do Sócrates

Mas não falou do Sócrates. Foi por pouco, mas não. Arriscou fora de pé e deu-se mal. Sem o Sócrates, sem galhofeiros ao lado, é fraquinho.

Reza a doutrina liberal, para abreviar, que cada um trace os objectivos que mais lhe convenham e que os persiga com toda a dose de egoísmo possível. Com isso, continua a doutrina a rezar, inova-se, faz-se mexer a economia, mobilizam-se outras pessoas, criam-se empregos (para os frouxos sem iniciativa), desenvolvem-se países. O Estado, continuamos na reza, deve interferir o mínimo ou nada com a liberdade de cada um, pelo que não cabe aos políticos definir “causas” em que outros acreditem. O indivíduo estabelece as suas próprias causas (geralmente “money, mucho money”) e, se vir utilidade nisso, politicamente, financia e/ou agrega-se em grupos de outros indivíduos que defendam os mesmos interesses.

Pois o nosso grande liberal, que acumula com a função de caluniador/justiceiro/Socrates-paranóico no Público, cujo grupo de interesse teórico não está no poder, leu ao povo, no seu primeiro, e esperemos último, discurso (enquanto comissário para as comemorações do 10 de Junho), um arrazoado pobre e infantiloide, em que, num total absurdo face ao que apregoa, pede aos políticos, os actuais, claro, aqueles de quem ele não gosta, para lhe traçarem os objectivos que ele não sabe definir para si nem para os seus e as causas em que acreditar. Poderia dizer-se que se lê e não se acredita.

“Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos deem alguma coisa em que acreditar, que alimentem um sentimento comum de pertença, que ofereçam um objetivo claro à comunidade que lideram”, sustentou.

Bem razão tem o Valupi, aqui em baixo. Esta criatura não é um liberal. É um salazarista saudosista a quem falta a Mocidade Portuguesa.