Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Stand-up direitolas

A direita que temos, Rio incluído (como se tem visto para desconsolo dos apaixonados pela cidade), não possui ideias que valha a pena conhecer, quanto mais debater. Em vez disso, tem impérios mediáticos que exploram o cardápio da baixa política, tem poderes fácticos intocáveis, e tem Sócrates, uma armadilha onde se enfiaram vai para 15 anos e que não largarão enquanto a decadência reinar nas lideranças do PSD e do CDS. Entretanto, a esquerda reinventou-se, democratizou-se, libertou-se.

Se esta direita não parece ter jeito para a política como actividade de entrega da inteligência e coragem à sociedade e a ideais comunitários, já para a comédia o talento abunda caudaloso. No Governo Sombra, um bastião do socratismo lucrativo, o divertimento está garantido. O programa cresceu em popularidade ao se tornar cada vez mais sectário e monotemático, é uma fórmula vencedora. O Gente Que Não Sabe Estar é uma variante revisteira da fórmula, num formato que pretende imitar o que se faz na estranja mas escrito por fanáticos do calibre do José Diogo Quintela e daquilo em que se transformou o Ricardo Araújo Pereira.

No Expresso, há muito que o Henrique Raposo arranca gargalhadas dos valentes que ousam ler a sua prosa. Eis um exemplo vintage:

«O que está antes do Big Bang? Se o Big Bang é a explosão da criação, qual é a centelha inicial que causa a ignição? Os ateus que instrumentalizaram a ciência nunca tiveram uma resposta e, aliás, ficavam enfurecidos quando se fazia a pergunta. Diziam que era uma questão imprópria. Não gostavam da pergunta, porque ficavam incomodados com um pressuposto que se tornou tabu: a ciência não cria, só descobre. E o Big Bang foi criado por uma entidade que é anterior e superior ao próprio tempo da história natural. Agora, perante a maravilhosa “fotografia” do buraco negro, podemos atualizar a pergunta: o que está para lá do horizonte de eventos que suspende as leis da física tal como a concebemos em 2019? O que está para lá do buraco negro é o que está para cá do Big Bang.

De resto, são espantosas as semelhanças entre a cosmologia do cientismo (Big Bang) e a cosmologia do Génesis judaico-cristão: a explosão inicial, dizem ambas, ocorreu num dado momento. A teologia identifica uma ignição, o cientismo prefere entrar em negação e fingir que não ocorreu ignição. Ou, pior ainda, recorre ao acaso como explicação. Ou seja, o cientismo que identifica as leis fixas e previsíveis do cosmos é o mesmo cientismo que diz que, ora essa!, toda esta arquitetura racional e previsível nasceu de um mero acaso sem intenção. É um erro lógico absoluto: como é que um acontecimento aleatório pode ser a causa da imensa arquitetura do cosmos, que existe precisamente para suspender o aleatório? Dos anéis de Saturno até à ordem precisa das células do olho humano, nada parece existir por acaso. Portanto, quando transforma a aleatoriedade do acaso na centelha inicial, o cientismo torna-se místico e incongruente com a sua própria lógica interna.

A ideologia deste cientismo tecnológico (não confundir com ciência) aboliu a ideia de começo, para citar George Steiner. Durante todas estas décadas de pós-modernidade, não tivemos começos, isto é, não tivemos narrativa ou narrativas. Os filmes e romances não podiam ter um começo convencional. As nações não podiam ter sagas com princípio, meio e fim (trágico ou redentor). Estávamos suspensos no ar, porque o cientismo dominante lançou uma fatwa à pergunta mais básica e profunda: viemos de onde? Quem nos criou? Qual foi o nosso começo? Neste sentido, a fotografia do buraco negro pode ser uma libertação. Ao contrário do Big Bang, o buraco negro está ali e é impossível fugir à questão: o que está para lá do horizonte de eventos? Porque é que o espaço e o tempo se tornam moldáveis, isto é, relativos? Ora, seguindo a imaginação de Frank Herbert, até podemos conceber uma civilização humana ou humanoide capaz de dobrar o espaço para assim viajar no tempo. Imaginem que se dobra a Europa ao meio como uma folha de papel: Lisboa ficaria ao lado de Moscovo nesse espaço moldável. Mas como é que se concebe o tempo a ser moldado enquanto barro sem o recurso à transcendência? Como é que se compreende a “relatividade do tempo” de Einstein sem a “eternidade” de Santo Agostinho? Como é que se compreende o tempo enquanto variável material sem a introdução do grande tabu, Deus?»


Deus

E Assunção Cristas, muito mais económica de meios, atinge o mesmo grau de hilaridade igualmente recorrendo a esse grande folião, o Agostinho malandreco que viria a ser uma mui perniciosa e milenar influência na forma doentia como o cristianismo, o catolicismo em especial, veio a conceber a sexualidade e a natureza humana. Talvez esta confissão explique o comportamento errático, pecaminoso, da senhora nos últimos dias:

Marx faz tanta falta

A ideia de que o PS não vai conseguir chegar a um eventual acordo com o BE e/ou PCP para um eventual novo Governo na próxima legislatura à conta dos recentes episódios de desavenças na Saúde e no Ensino é tão-só uma projecção de quem não leu nada de nada de nadinha de nada de Marx. Como não leram, e recebem dinheiro para falar e escrever na comunicação social profissional, passam o tempo a expressar os seus desejos e temores. Invariável e infelizmente, os temores e desejos de quem não percebe patavina da “ciência da História” e do “materialismo dialéctico” é uma chachada que se resume ao espectáculo de vermos cínicos a dizer mal de quem não gramam. Ora, um cínico não grama a maior parte dos bípedes implumes que o cercam e prefere ver Roma a arder do que carregar mármore para o Pártenon. O resultado é o estéril aborrecimento que preenche o comentário político engajado à direita, maioritário por larga margem no espaço mediático.

Passaram-se quase 4 anos de uma experiência inaudita no sistema partidário português, isso de termos visto dois partidos sectários a aceitar trocar a sua retórica fanática e impotente pelo risco de conseguirem puxar o PS para a esquerda do centro. O risco resulta da novidade cultural (portanto, novidade também cognitiva e axiológica) de instituir uma práxis de negociações permanentes, as quais produziram resultados apreciados pela generalidade da população mas cujo desfecho eleitoral não é previsível. PCP e BE não sabem o que lhes vai acontecer nas urnas, apenas sabem que foram co-autores de um dos mais pujantes e consensuais ciclos governativos em democracia.

O que parecia impossível já foi feito. Aconteceu em 2015, a efectivação da derrota da PAF no Parlamento e subsequente início da recuperação do tempo, recursos, dignidade e esperança perdidos por causa de uma coligação negativa em 2011 que afundou Portugal. Para uma repetição, ou evolução, da fórmula positiva que estamos a poucos meses de concluir há primeiro de voltar a descobrir o que quer o Soberano. A sua vontade é dialéctica precisamente porque depende da matéria para se concretizar. A matéria fundamental das democracias onde queremos viver é o voto livre – ou seja, é a liberdade. Liberdade de escolha, liberdade de interpretação do voto e liberdade na representação desse voto. Eis a ciência da História pós-marxista, uma juliana de imprevisibilidades que não garante amanhãs que cantam nem impede que hoje, no eterno agora, haja quem esteja disponível para ouvir, falar e chegar a acordo sobre o bem comum.

Revolution through evolution

Television Programming For Children Reveals Systematic Gender Inequality, According to New Research
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Exaggerated physical differences between male and female superheroes
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Young children who are exposed to large amounts of adult speech tend to have better cognitive skills
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Perseverance toward life goals can fend off depression, anxiety, panic disorders
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Stress-busting dogs on university staff
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Was Leonardo Da Vinci’s Dyslexia Responsible for His Brilliance?
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Bringing the Workplace to Life
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Querem uma ajuda para verem onde está o calculismo, ó tristes?

Na perspectiva da captação de mais votos nas próximas legislativas entre um determinado sector da administração pública, e de encurralar infantilmente o Governo, a direita e a extrema-esquerda pátrias reúnem-se num belo dia em volta de uma mesa e acordam num aumento de despesa permanente para o Estado de 800 milhões de euros anuais. O Governo, que se propôs com seriedade (e tem cumprido) aliar a devolução de rendimentos (e o seu aumento) a um estrito rigor orçamental, reage declarando que, a ser assim, não governa nem mais um dia sem que antes o povo se pronuncie sobre o necessário novo aumento de impostos ou cortes drásticos noutros sectores, como a saúde, que tal medida implica. Óbvio.

Pois bem, esta situação, que ficou à vista de toda a gente tal a clareza com que foi exposta por António Costa, chega ao processador dos descerebrados representantes partidários (a quem faltam espelhos) e do comentariado televisivo de serviço e de lá sai na forma dos seguintes “chouriços”:

  • Calculismo político do Governo ao “abrir agora uma crise”.

  • Há tanto calculismo político do lado da oposição como do lado do Governo. (E o Governo deveria fazer o quê?)

  • Para quê este drama, se o Presidente veta a medida? (Ignoram que o veto é ultrapassável)

  • Para quê esta crise, se o acto eleitoral, de qualquer maneira, já teria lugar daqui a quatro meses?

  • “Hohoho, as contas do Mário Centeno parecem-me erradas, pelo que isto é um acto teatral” (Aguiar Conraria dixit, RTP3 – pensando que um dia será ministro das Finanças). “Mas, atenção, acrescenta – isto é o que eu acho após as duas horas em que pensei no assunto, posso mudar de opinião”.

  • Os pagamentos seriam diferidos (e até incertos), afinal qual é o grande impacto orçamental?

  • Calma! O que aprovámos não é o que parece.

  • O facto de se aprovar o princípio do reconhecimento dos 9 anos não significa que se pague alguma coisa.

  • A direcção do PSD desconhece o documento aprovado.

  • O Governo que se deixe de lamechismos e negoceie mas é.

E já chega, suponho. Este é o resultado de um saltitanço insano de canal em canal. Estou certamente a omitir mais tolices do género destas  proferidas ontem à noite, mas, dada a lista supra, vocês, que só querem o meu bem, compreendem porquê.

Só pergunto é se estas pessoas que abrem a boca para, a propósito de um espectáculo miserável quer da oposição quer dos aliados do Governo, inventarem tacticismos inexistentes, fazerem interpretações esquizofrénicas de reacções provocadas, desvalorizarem argoladas ou simplesmente passarem as culpas alguma vez consideraram a hipótese de ficarem caladas perante o desmascarar das suas próprias indigências. Não é por nada, mas é que nem surpreendidas podem ter ficado.

As conquistas do Mário Nogueira são sempre espectaculares

Agora que finalmente tivemos a segunda edição da coligação negativa, com a aprovação, por toda a oposição, de uma despesa permanente de mais 800 milhões de euros, não vejo que melhor pode o Governo fazer do que demitir-se. Sem hesitações.

Do PCP e do Bloco, no rescaldo dessa demissão, iremos ouvir as justificações habituais: que o défice não importa para nada, há sempre dinheiro, os ricos que paguem, que salvar os bancos é salvar os banqueiros (esses criminosos) e não os milhares de depositantes e de empresas, etc. Mas estes partidos, já sabemos, são contra a Europa, contra os mercados, contra o euro, contra o capitalismo, contra o estabelecimento em geral e sonham ainda com um regime do tipo soviético. Vai ser giro é ver o CDS, o PSD e o Rui Rio, esse europeísta e cúmulo do rigor orçamental, na campanha eleitoral. Acabei de me sentar para assistir. Para já, bravo a todos e todas.

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Catarina, a cínica

Bom dia. A manhã parece marcada por tentativas de criar um ambiente de crise política. Esse ambiente é totalmente artificial. Aqui ficam 4 breves notas:
1. O que foi aprovado ontem no parlamento limita-se a corrigir um DL do governo que desrespeita os OE18 e OE19, que explicitamente previam a contagem integral do tempo de serviço de todas as carreiras especiais da função pública para efeitos de descongelamento (ainda que de forma faseada)
2. A solução encontrada para os professores respeita esse faseamento, não representa qualquer acréscimo de despesa no ano em curso e respeita a autonomia negocial do próximo governo.
3. Nos Açores, onde o PS governa com maioria absoluta, a contagem integral do tempo de serviço já está garantida. Na Madeira também está já garantida. 
4. A única despesa extraordinária e não prevista no OE 2019 com que o governo se deparou é a que decorre do pedido do Novo Banco. São mais 450M€, que o governo já considerou acomodáveis.

Acabei de ver as declarações da líder do Bloco, esta manhã. Como quem acorda e descobre que o Governo vê um problema real nas decisões irresponsáveis de toda a oposição. Surpreendidíssima.

  1. O Governo contesta o primeiro ponto.
  2. A reposição dos montantes correspondentes aos 9 anos e tal com que então não é bem, como dizer, aumento de despesa, porque depende de futuras negociações?? Ó Catarina, isso é ridículo. É o que dizem o PSD e o CDS e são justificações para rir (“Não é verdade que o CDS tenha hoje aprovado o pagamento de tempo integral dos professores. Essa proposta foi chumbada com o nosso voto. Aprovou-se apenas o princípio de que os professores terão direito à contagem integral do tempo congelado mediante negociação com o governo.).
  3. Os governos das ilhas por acaso têm as mesmas obrigações e responsabilidades financeiras do governo central? Ou este por acaso só governa para os professores?

Extrema-esquerda e extrema-direita: onde está o perigo?

A propósito das eleições em Espanha, assistimos à direita em peso a equiparar partidos claramente nazis, fascistas, nacionalistas, xenófobos e socialmente retrógrados (como o VOX) aos partidos da extrema-esquerda (como o Podemos e os nossos dois partidos marxistas). (O Tavares mau, no Público, resolve considerá-los, a ambos os extremos, inofensivos, uns escapes, coisa benéfica até, mas isso, já sabemos, é para branquear e normalizar a extrema-direita, na linha do que fez o Nuno Melo.) Terão razão? Vou escandalizar alguns dizendo que sim e não.

 

Há semelhanças entre os regimes que ambos os extremistas acabariam por impor, se chegassem ao poder e vivêssemos no século passado. Destaco, entre elas, o fim da democracia e da liberdade de expressão. Começando pela ala esquerda, a maioria dos partidos que actualmente na Europa se podem apelidar de extrema-esquerda (e já não são muitos) tem como princípios políticos a estatização da economia e da propriedade, a colectivização, como no comunismo, a rejeição da iniciativa privada, do lucro, enfim, do capitalismo e, no final, e mais importante, da liberdade individual, e usufruem da liberdade democrática que vigora nos países “capitalistas” para apresentarem uma agenda em tudo baseada nesses princípios. É por causa desses princípios alegadamente justos (evidentemente que, quanto à falta de liberdade, uma consequência inevitável, são omissos), cuja aplicação prática já toda a gente viu como termina, que assistimos às reivindicações permanentes e imutáveis do PCP – mais funcionários públicos, sempre mais, mais serviços públicos, mais empresas públicas, enfim, mais Estado, Estado por todo o lado, como em Cuba, onde até o pessoal dos hotéis são funcionários públicos, e contra o capital, sobretudo o grande capital (e o pequeno? O que lhe fariam?), e a iniciativa privada. O Bloco não é diferente – nenhum poder para os proprietários e senhorios, por exemplo, como se a propriedade privada não existisse, ou não devesse existir, uma simpatia clara pelas ocupações, punição (para já, fiscal) dos ricos e de quem ousa querer ganhar dinheiro, enfim, disparates moralistas fundamentalmente religiosos vindos de ateus. Mas o modelo de sociedade de base é o modelo comunista, ironicamente já quase extinto da superfície da Terra.

Por tudo isto, considero serem estes partidos principalmente aberrações, embora reconheça que, acantonados nos sindicatos, possam ainda ter um papel importante na organização das lutas laborais, que sempre existirão, dado o desequilíbrio de forças. Assim, considerar estes partidos como uma ameaça real aos regimes democráticos parece-me totalmente exagerado (e nisso o Tavares lá de cima tem razão). Existem já poucos partidos como estes (na maioria dos casos, enveredaram pelo ambientalismo; noutros casos, uma vez no poder, fazem como o Tsipras – apertam a mão à realidade, mandam o ideário às urtigas) e não se vê que tenham grande futuro, atendendo ao pouco entusiasmo que suscitam nas populações. Os apoios internacionais a estas causas também já escasseiam – a China, um colosso populacional sem instintos bélicos e claramente um país capitalista estatal onde a riqueza privada não provoca ânsias em quem manda desde que não perturbe o sistema vigente e os controlos estabelecidos, não os apoia (penso eu), e a Rússia também já nada tem a dar para o peditório do comunismo. Aliás, aquilo a que assistimos hoje em dia é a uma mudança de aposta: o seu líder, Putin, um ex-polícia convencido de que é um czar, apoia neste momento, em parceria com Steve Bannon, o americano, tudo o que sejam movimentos de extrema-direita, que a crise dos refugiados muçulmanos e africanos fez renascer, ou ainda todo e qualquer movimento que tenha hipóteses de desestabilizar a Europa e o mundo ocidental em geral (revanchismo, inveja), o que não é o caso dos movimentos de extrema-esquerda, cujas fontes de combustível parece terem secado. Digo “parece”.

 

É por isto que a extrema-direita representa na Europa um perigo muito maior. Por cá, nem o PCP nem o Bloco jamais ousarão clamar contra a vinda de refugiados, que, aliás, vêm em número diminuto, se comparado com outros países europeus, ou terão sequer alguma hipótese de governarem com maioria. No entanto, como diria Monsieur de La Palice, cada país europeu tem problemas de índole diferenciada. Na Hungria, governa um ditador que despreza o Estado de direito e não aceita nem um refugiado. Na Polónia, a tendência para a ditadura é patente. Na Áustria, foi eleito um presidente de extrema-direita, avesso a críticas e perguntas incómodas. Na Itália, a chegada, a instalação e o trânsito de milhares de refugiados e migrantes, assim como a crise económica, deram pasto aos populistas do M5E e aos fascistas da Liga do Norte. Estão agora no poder. Evidentemente que não fazem todos os estragos que gostariam de fazer porque ainda estão na União Europeia e precisam dela justamente para fazer face ao problema dos migrantes e porque se afundariam de vez caso abandonassem o euro. Mas lá estão a cumprir o seu papel, com o apoio de Putin para o que der e vier, e para o que já deu. Em França, a populista e protofascista Le Pen, também com o apoio de Putin, com quem se aconselha, tem conseguido votações assustadoras. Neste momento, Macron à parte, existem poucas alternativas à senhora, e até Jean Luc Mélenchon, um comunista, se alia a ela sem quaisquer pruridos. As votações da Frente Nacional e a fragilidade dos partidos tradicionais e europeístas franceses fazem temer que o extremismo de conveniência e conluio russos se instale no coração da Europa, dinamitando o projecto europeu que, apesar dos seus impasses e guinadas, tem sido, há várias décadas, garante de estabilidade, prosperidade e paz (ou não houvesse milhões a quererem vir para cá). No Reino Unido, não digo que o Nigel Farage, esse formidável demagogo, queira impor um regime ditatorial no seu país caso chegue ao poder (um regime xenófobo já com certeza), mas, para já, está a conseguir reunir os despojos do partido conservador e, caso o seu novo partido, o Brexit, consiga mesmo tirar o Reino Unido da União Europeia sem acordo, terá o privilégio de fazer ressurgir o conflito irlandês –  um feito para o qual talvez já tenha dificuldade em arranjar um discurso vitorioso e cativante.

 

Em suma, não é a extrema-esquerda que representa um perigo para a Europa, uma vez que dificilmente chegará ao poder dado o desvio das grandes questões actuais para a percepcionada invasão de migrantes e refugiados (a extrema-esquerda recebê-los-ia a todos) e a degradação da classe média. Já os populistas e demagogos de direita podem não ser apenas uma válvula de escape e muito menos se pode dizer que são benéficos. Em Espanha, onde o problema mais quente é a Catalunha e as autonomias, o VOX provou efectivamente ser mais vozes do que nozes – obteve apenas 10% dos votos. Mas poderá não ser assim em França com a Frente Nacional ou, dentro em breve, na Alemanha.

A fidelidade à direita e a tudo o que tenha “direita” no nome não devia toldar a visão dos, lá está, direitolas. Um termo até carinhoso nos dias que correm. A realidade é que não temos, na Europa, com excepção da Grécia (e olhem o aspecto) qualquer partido dito de extrema-esquerda a ameaçar governar ou a governar.

Direito talibã, por Luís Rosa

«Tendo em conta que, pelo que se sabe, Armando Vara continua a ser militante do PS, impõe-se uma pergunta: os socialistas já iniciaram idêntico processo disciplinar contra Vara? É que a luta contra o populismo também passa por aqui.

O PS até tem mais razões para abrir tal processo porque a Justiça deu como provado que o ex-ministro de António Guterres cometeu dois crimes de tráfico de influência por ter pressionado um ministro do Governo Sócrates:

- Influenciou em 2006 Mário Lino, ministro das Obras Públicas, para interceder junto da Refer em favor do grupo do sucateiro Manuel Godinho;
- Voltou a pressionar Mário Lino em 2009 para demitir a sua secretária de Estado Ana Paula Vitorino (atual ministra do Mar de António Costa) e a administração da Refer porque o grupo de Godinho tinha sido afastado de concursos públicos da Refer.

Se isto não é razão para o PS abrir um inquérito disciplinar a Armando Vara, não sei, sinceramente, o que será necessário.»


Talibã caça-chuchas

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O tema da coisa, dando crédito ao sobre-cabeçalho, nomeava Duarte Lima, mas este fanático queria mesmo era falar de Vara e Sócrates, olá. Afinal, é para isso que lhe pagam, é isso que o enche de adrenalina, e só lê quem quer. Assim, importa começar por lhe dar razão. Indiscutivelmente, é relevante a curiosidade sobre o estatuto de militante de Vara tendo em conta que transitou em julgado uma condenação gravíssima. Mas porquê estar a falar disso quando havia tanto para dizer a respeito de Duarte Lima? Ah, certo, foi para evitar molhar as patinhas no laranjal. O óbvio ofuscante. Entretanto, Vara tremeu de medo e fez-lhe a vontade de um dia para o outro: Na cadeia, Armando Vara deixa PS ao fim de 45 anos

Parece que a luta contra o populismo passava por Vara sair do PS. É uma ideia. Num outro artigo recente, o autor informa o bom povo que o populismo também se combate prendendo ex-políticos. Eis outra ideia. O populismo, corolário, tenderá a desaparecer se conseguirmos expulsar dos seus partidos e prender o número suficiente de políticos para tal. De génio. Agora só falta encontrar essa quantidade ideal de políticos para abate, sendo que a madraça observadora e a sua aliada Cofina já têm uma lista extensa e detalhada para ajudar as autoridades no grande combate contra o populismo. É preciso começar por algum lado, pelo que tudo se torna mais fácil se o PS for o primeiro a ser desbastado. Tudo em nome da luta contra o populismo, atenção, isto de enviarmos camiões de socialistas para o Estabelecimento Prisional de Évora é um gesto de autodefesa.

Se dúvidas houvesse sobre o sectarismo obsessivo que o corrói, constate-se como trata diferentemente os dois condenados:

Armando Vara foi uma das caras do guterrismo e da influência de José Sócrates na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português. Como Duarte Lima foi uma das caras do novo riquismo da primeira metade dos anos 90 mas também da derrocada do Banco Português de Negócio.

Ou seja, Vara arrasta Guterres no opróbrio e fica colado a Sócrates e ao festival de suspeitas sobre a CGD e o BCP (suspeitas sistematicamente desmentidas em todas as comissões de inquérito até à data). São três ratos apanhados com uma só cajadada. Já Lima não compromete ninguém, provavelmente nem sabiam quem era lá no Cavaquistão, e o que lhe aconteceu foi um azar nascido da prosperidade da época, tempos gloriosos em que este país produzia tanta riqueza que provocava alguns momentos de euforia e descuido na gente séria que conhecia gente séria no BPN.

Mas é no inventivo entendimento das leis que o talibã vem deixando obra notável. Acima temos um exercício que expõe a lógica do seu populismo selectivo. Diz que a Justiça deu como provado ter Vara cometido dois crimes de tráfico de influências (o que é factual enquanto decisão dos tribunais), e deixa em silêncio ter Mário Lino jurado em tribunal que nunca foi pressionado por Vara. Igualmente abafa ter a Justiça reconhecido que não há prova dos efeitos da tal pressão, nem provas se encontraram de ter Vara recebido qualquer pagamento do sucateiro. Culmina o exercício escondendo dos leitores não haver memória de uma pena igual para supostos crimes semelhantes, estando-se perante uma condenação excepcional. Excepcional quanto à ausência de provas e excepcional quanto à pena.

Várias figuras socialmente muito importantes, e politicamente insuspeitas, reconheceram que a condenação de Vara não encontra explicação apenas pelo que se arrolou no processo. Marques Mendes, em frenesim, apareceu na TV a festejar a condenação de um adversário político precisamente por se ter conseguido que a Justiça o tratasse como inimigo político. O conselheiro de Estado não podia ter sido mais claro, Vara ia ser castigado porque era um alvo próximo de Sócrates e por ter aceitado ir para o BCP. A vingança era esta e estava só a começar, o que lhe estavam a fazer nos tribunais de Aveiro e do Porto poderia continuar nas próximas décadas nesses ou noutros tribunais pois o regime e a comunidade aceitavam sem piar que a Justiça fosse usada como arma política indefensável e devastadora.

Como decorre de não ter sido testemunha dos acontecimentos na berlinda, não sei se Vara cometeu alguma ilegalidade passível de ser definida judicialmente como tráfico de influências. O senso comum diz-me ser provável que sim, que a se ter encontrado alguma prova directa de um crime associado aos cargos que exerceu essa descoberta não ficar como um choque inaudito. Todavia, ao ter apenas o estupidificante senso comum, consolo-me por não estar obrigado a pensar e a sentir como um pulha. É infinitamente preferível correr o risco de ter um culpado sem condenação de que ver a Justiça a condenar inocentes ou a usar a Lei para vinganças e ganhos políticos ou outros. Já aquelas figuras gradas da direita, que reconheceram haver um excesso penal no julgamento de um certo cidadão, encontraram uma narrativa que legitima o abuso e a violência cometidos sobre um alvo politicamente muito valioso. Alegam que no passado as mesmas supostas condutas eram frequentes, por isso aceites; aceites, por isso frequentes. Eles assumem ter testemunhado um fartote de crimes, e recordam saudosos como toda a gente vivia feliz nesse equilíbrio normativo. E que, de repente, graças a umas certas pessoas muito puras, santas, as regras mudaram. Vara acabou por ser apanhado pelo fenómeno miraculoso do “fim da impunidade”, servindo agora de aviso à navegação e símbolo dos poderes fácticos da oligarquia.

Esta narrativa tem um problemazito. Chama-se Mário Lino. Para apanharem Vara e poderem castigá-lo com a pena máxima os procuradores e juízes tiveram de fingir que o ministro socialista não existia. Não existindo, pouco importava o que dissesse em tribunal. A sua inexistência deu-lhe um estatuto paradoxal. Ele tinha sido o governante pressionado que não tinha pressionado nem se sentira pressionado. Daí nem arguido ter ficado, embora a condenação de Vara, a ter alguma racionalidade, implicasse uma qualquer suspeita sobre a sua pessoa. No mínimo, uma suspeita e consequente investigação. Por que razão não o quiseram investigar? Pela inevitável razão de terem de acusá-lo e condená-lo caso o plano de caçar Vara fosse avante tendo Lino como arguido. E isso, senhores ouvintes, era algo que o Ministério Público, em 2009, jamais iria fazer sob pena de ver borregar a operação. As condições ainda não estavam reunidas para engaiolar ex-ministros socialistas por ouvir dizer e terem mesmo cara de bandidos. Foi só a partir de 2012 que os talibãs tomaram o controlo total do Ministério Público.

Revolution through evolution

People with happy spouses may live longer
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Being too harsh on yourself could lead to OCD and anxiety
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Experiences of ‘ultimate reality’ or ‘God’ confer lasting benefits to mental health
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How do we make moral decisions?
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Bosses who put their followers first can boost their business
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Empathy Often Avoided Because of Mental Effort
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Creativity is not just for the young, study finds
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Continuar a lerRevolution through evolution

Onde é que estás no 25 de Abril de 2019?

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Este passarão, o típico cavalheiro de indústria do regime que acumula com uma pose dandy desbocada, reagiu de forma pulsional à exibição da natureza política de Moro. Adorou. O Twitter é useiro e vezeiro nessa armadilha, o apelo à estocada letal a partir do cu-sentadismo e do tele-desvairo. E no caso havia um ex-juiz justiceiro, agora ministro de um presidente fã de ditadores e ditaduras, que tratava Sócrates como o ilustre António Nogueira Leite acha que deve ser tratado: como criminoso. Estava sozinho nesse supino gozo do auto-de-fé? Não, absolutamente ao contrário. Milhares, ou milhões, de companheiros de linchamento pensaram e sentiram exactamente o mesmo. Só que não avançaram em direcção ao boi, ficaram nas tábuas. Eis que o bravíssimo Nogueira Leite se viu sozinho no meio da arena, ouvindo da assistência “Ó Tóino, sai daí olha que te aleijas! Não sejas maluco, Tóino!” E ele – que não é maluco nenhum, apenas gosta de passar por tal para ter ainda menos chatices pelo mesmo dinheiro que vê cair na conta todos os anos – assim fez. Embora a resmungar, claro, porque nestes números das bravatas contra Sócrates o estilo faz o pulha.

O episódio é anedótico mas relevante, folclórico mas representativo, pícaro mas simbólico. Acima vemos como a primeira mensagem não fica desautorizada pelas aparentes rectificações. O que ANL está a lamentar não é a atitude de Moro, muito menos o seu entusiasmo twitteiro pela violência espectacular de se ver um ministro da Justiça de um país estrangeiro a desprezar os fundamentos mais básicos da Constituição portuguesa. Ele apenas se arrepende de ter sido imprevidente, indiscreto, na exposição do seu ódio. Um ódio que, como explica à prova de estúpidos, nasce de olhar para Sócrates e nele ver um extraordinário, formidável, adversário político. Imagina-o tão poderoso que, naturalmente, se borra todo de medo de cada vez que o vê “sair da toca” (leia-se: de cada vez que Sócrates desperte no Sr. Leite a consciência da decadência cívica e política que ocupa o bestunto do Sr. Leite).

Por coincidência, ocorreu em cima da celebração do 25 de Abril um duelo, da exclusiva responsabilidade do operacional judicial e ministro de Bolsonaro, que põe em confronto o essencial do essencial desse dia inicial inteiro e limpo de 1974. De um lado, alguém que sempre promoveu o Estado de direito enquanto responsável político e governamental, continuando a fazê-lo enquanto arguido e acusado num processo judicial. Do outro lado, alguém que como juiz poderá ter violado o Estado de direito (é uma questão sujeita a interpretações, mas em aberto) e que como agente da Justiça foi decisivo numas eleições presidenciais que acabaram por lhe abrir uma carreira política como governante. Estas duas figuras, dois gigantes na paisagem política e mediática dos seus respectivos países, estão em campos opostos que jamais se irão reconciliar. Ambos são a tela para incontáveis e contraditórias projecções ideológicas, morais e circunstanciais inerentes aos diferentes protagonismos que assumiram e assumem em diferentes contextos. Mas no que diz respeito à liberdade, e aos direitos e garantias que nela se fundamentam, não há meio termo, não há espaço para a mais pequena dúvida. Quem chama criminoso a um inocente é ele próprio criminoso.

O Estado de direito democrático é a mais preciosa conquista de Abril. Porque é a mais fundamental, é aquela que permite não só a pluralidade partidária e a imprensa livre como todo e qualquer instrumento que nos defende dos abusos de poder, os quais podem tanto vir de um tiranete como de um vizinho ou familiar. Quem apresentar o ideal do Estado de direito democrático como ideologia matriz da República acaba inevitavelmente por ser atacado por um dos lados de um qualquer conflito político onde a tentação do abuso de poder está latente ou em marcha. No PCP, por exemplo, vêem o Estado de direito democrático como um artifício do imperialismo para derrubar o “socialismo” abrilista. Não são fãs, longe disso. E na direita decadente, e restantes vítimas das deturpações da indústria e cultura da calúnia também na esquerda e no centrão, o Estado de direito democrático deveria ser suspenso para se conseguir castigar Sócrates, Vara e mais uns quantos em ordem a satisfazer os desejos circenses e sanguinolentos da turbamulta. Tentar explicar a um fanático, fanático por imbecilidade ou oportunismo (mas em muitos casos acumulando), que não se pode servir à canalhice e à liberdade ao mesmo tempo pode ser ingrato e desgastante. Porém, contudo, todavia, queridos amigos, se há coisa para que o 25 de Abril foi feito é essa.

Exactissimamente

«Dos eleitores, quando tudo correr como evidentemente correrá, virá a justificação de que não havia escolha melhor. Tinham um corrupto e um palhaço pela frente. Mas a democracia não é um mercado onde consumimos o que nos é oferecido sem produzirmos nós próprios a oferta. Não somos agentes passivos da nossa própria História. Se a escolha era entre o corrupto que elegeram nas últimas eleições e o palhaço que elegeram nestas é porque a sociedade ucraniana não soube produzir melhor do que estas alternativas.

A relação dos povos com a política infantilizou-se. O padrão da eleição de idiotas incapazes, que ou divertem os eleitores ou “dizem as coisas como devem ser ditas”, é retrato de uma cidadania adolescente que se revolta sem assumir a responsabilidade de construir qualquer coisa com essa revolta. Ao ponto de um humorista e ator vencer umas eleições presidenciais porque as pessoas se sentem inspiradas pela personagem que ele representa numa série. A ponto de, como as crianças, deixarem de distinguir a realidade da ficção. Mas mesmo onde ainda o conseguem fazer parecem optar pela birra. O chamado voto de protesto não pune o “sistema”. O “sistema” que julgam punir safa-se bem quando a escolha do povo é inconsequente. Não são os ricos que pagam a fatura das crises, não são os poderosos que sofrem com o medo no meio do caos, não são os milionários as vítimas da ausência de Estado, não são os políticos que precisam da democracia. Não vale a pena rirem-se da partida que pregaram a si mesmos. A fatura de transformarem uma eleição numa anedota será paga por eles. E pelos seus filhos e netos.

Não se pode mudar de povo e de nada serve criticar as escolhas erradas que faz. Temos de ser capazes de compreender as origens da revolta. Mas também temos de parar de falar de “eles” e de “nós”. “Eles” que se revoltam e “nós” que temos o dever de perceber a sua revolta. Porque “nós”, os que agem com responsabilidade cívica, também sentimos a revolta quotidiana com a injustiça. E, ao contrário de quem elege imbecis ou palhaços, não desistimos. Não há razão para sermos condescendentes. O que temos de exigir aos nossos concidadãos, em cada país, é que se comportem como adultos, não como eternas vítimas dos seus próprios erros.»


Adultos de todo o mundo, cresçam!

Entregues à Cofina

Os jornalistas dispõem de direitos inerentes à liberdade de expressão, liberdade de informação e liberdade de imprensa consagrados na Lei, os quais lhes outorgam poderes especiais – e de grande influência potencial – sobre indivíduos, grupos, entidades públicas e privadas. Como contraponto a querermos viver numa sociedade onde se pratica livremente o jornalismo, a Lei igualmente estipula algumas limitações de consciência a uma prática com tamanha apetência para ser usada de forma danosa. Este o contexto para convidar à leitura do Código Deontológico que é suposto reger a profissão de jornalista. Em menos de cinco minutos, ficamos com o retrato idealista da função. E sorrimos tristes face à ingenuidade do texto quando confrontado pela experiência comum de consumir peças e intervenções jornalísticas que violam 13 ou 14 dos 11 pontos do Código.

Na Cofina não se satisfazem com o absoluto desprezo despejado quotidianamente sobre as matérias da ética e deontologia jornalísticas. Vão muito mais longe pois assumem o papel de se substituírem às instituições judiciais portuguesas (pelo menos estas, mas talvez sonhem em lançar uma polícia plenipotenciária internacional para caçar “corruptos”, tudo devidamente fotografado e filmado que é para as sentenças serem despachadas nos horários escolhidos pelos anunciantes). Tendo em conta que já tentaram constituir como arguida uma cidadã e jornalista, no que deve ter sido caso único nas democracias mundiais, assistir aos editoriais da direcção do Correio da Manhã e da Sábado onde declaram guerra contra o Estado de direito, contra um certo partido e contra certos políticos (e ainda contra terceiros relacionados privadamente com os alvos) é só lógico, coerente, um novo normal sancionado pelo regime. Contam com a cumplicidade do Presidente da República, do sistema partidário e da oligarquia. No Expresso e no Observador há regulares sinergias editoriais e declarações de solidariedade para com os trabalhos sujos que a Cofina faz com proveito monetário, agenda política sectária, populismo de direita e puro deboche soberbo.

Acima vemos um exemplo da violência que se aceita por vir da Cofina, violência cívica e política que muitos com grandes responsabilidades sociais celebram: o tratamento dado a Armando Vara. O director do jornal escolheu colocar na primeira página uma mensagem que estabelece uma qualquer culpabilidade deste cidadão. O contexto é relativo à investigação parlamentar em curso à recapitalização da CGD e às declarações de Alexandre Santos, ex-director de Empresas Sul da Caixa Geral de Depósitos, na II Comissão de Inquérito. De acordo com a única leitura possível da chamada de capa, o tal Alexandre Santos proferira afirmações que comprovavam ter Vara cometido algum acto ilegal. A linguagem policial escolhida, o uso do verbo “entregar”, veicula a imagem de uma denúncia de um crime real por parte de quem o testemunhou ou dele foi cúmplice. Para os leitores habituais do CM, há anos a ler incontáveis variações da mesma acusação no mesmo pasquim, a promessa da “notícia” nem sequer consegue suscitar surpresa. Obviamente que alguém entregou Vara porque obviamente que Vara é culpado sem carência de provas. É culpado porque na comunicação social há quem jure que é culpado e disso faça um negócio, uma profissão de fé e uma festa. Vara é tão culpado, cogita informado o leitor-tipo do esgoto a céu aberto, que tudo o que se venha a provar contra ele só peca por tardio e por escasso. Muitos outros crimes, gigantes, cometidos por Vara nunca serão descobertos pois ele continua a ter a protecção dos restantes corruptos que estão em todo o lado: Estado, partidos, empresas, outros jornalistas que não sejam caluniadores profissionais; assim vai o contacto com a realidade e a decência nestes infelizes. É para a criação de uma legião de analfabrutos que a Cofina trabalha com o sucesso que se conhece.

Entremos na peça. Constatemos que ela está construída em cima de uma informação que não corresponde a qualquer actividade ilegal, sequer irregular ou moralmente duvidosa. A exploração caluniosa é feita apenas com o recurso à estupidez e desinteresse dos eventuais leitores. O discurso reafirma a crença que a audiência já possui cristalizada, não se perde um caracter a fazer jornalismo se por jornalismo entendermos o que o Estatuto e o Código Deontológico do Jornalista estabelecem. E se calhar perdermos o nosso rico tempo a ouvir o que realmente foi dito por Alexandre Santos – Audição de Alexandre Santos, Diretor de Empresas Sul da Caixa Geral de Depósitos – então não só fica patente que o ataque a Vara não tem matéria factual como exuberante irrompe a visão de uma típica operação de encobrimento por quem produz um sistemático assassinato de carácter e perseguição política. No caso, encobre-se a licitude da conduta de Vara, a normalidade do caso do financiamento a Vale do Lobo, a normalidade dos processos de financiamento na CGD, a normalidade das consequências da crise financeira e económica começada em 2008 para quase todos os investimentos e seus créditos e a decisiva responsabilidade colegial e administrativa na CGD que por completo dilui (ou alarga) qualquer eventual intento ilegal, seja ele qual for no campo das suposições.

Não faço a menor ideia se Vara cometeu algum ilícito enquanto foi administrador da CGD. Assim como não ignoro a razoabilidade da percepção comum de ser a banca um sector onde tais comportamentos encontram oportunidades variadas e muito tentadoras para ocorrerem. Apenas constato a sistemática degradação cívica nascida do constante emporcalhamento do espaço público. A quem interessa o afastamento dos cidadãos das instituições da República que os representam e servem? Esses mentores e algozes não querem que se pense pela própria cabeça a partir do acesso às fontes, aos factos. Preferem cultivar um clima social onde o ódio embrutecedor dos mais frágeis, vítimas dos efeitos mediáticos deturpadores e contagiantes, se constitui como força de pressão e desculpa para outras e sempre mais violências. Queremos mesmo ficar entregues a esta gente?

A favor da santidade de Cavaco

«"De facto, não me recordo de ter conhecimento completo - já foi há muitos anos - entre relações familiares dentro do Governo, mas, por aquilo que li, não há comparação possível em relação ao Governo a que dei posse em 2015. E, segundo li também na comunicação social, parece que não há comparação em nenhum outro país democrático desenvolvido", afirmou Cavaco, quando questionado sobre a questão das relações familiares no Governo.

"Nos últimos dias aprendi bastante sobre as relações familiares entre membros do Governo e confesso que era bastante ignorante em relação a quase tudo aquilo que foi revelado, mas entendo que não devo fazer qualquer comentário porque já foi dito tudo ou quase tudo e eu não acrescentaria nada de novo", disse.

Cavaco Silva adiantou, depois, que "por curiosidade" foi verificar a composição dos três governos em que foi primeiro-ministro e não detetou lá nenhuma ligação familiar.»


27 Março 2019

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É não só possível como altamente provável que Cavaco não se lembre do que fez, e deixou fazer, nos seus Governos. Passaram-se mais de 30 anos desde que se estreou como primeiro-ministro, amnésia natural. Acresce que a memória em todos nós é selectiva, tende a soterrar o que doeu e faz doer, o que atormenta, vexa. Mas seria faltar ao respeito ao líder histórico da direita decadente portuguesa, a figura viva que melhor representa o espírito reaccionário e sonso que sobreviveu ao 25 de Abril, se desprezássemos as suas palavras. E o que nelas encontramos é a seguinte revelação: Cavaco depende do que lê na comunicação social para construir a sua visão do que se passou consigo próprio ao longo da sua carreira política.

Lê, ouve e acredita. Acredita e repete à comunicação social o que descobriu na comunicação social. Por exemplo, ficou a saber que o actual Governo é muito diferente do então mesmíssimo Governo a que deu posse em 2015, e que essas diferenças fazem com que Portugal já não possa ser visto como um “país democrático desenvolvido”. Por já não ser democrático ou não ser desenvolvido? Tanto faz, branco ou tinto, quer é o copo cheio. Como tem o cuidado de frisar duplamente, isto são coisas que ele não inventou, que não lhe apareceram de repente na cachimónia vindas sabe-se lá de que intentos canalhas. Não, nada disso. Ele apenas leu e tão-só repete, mas foram os outros que disseram. Os outros, pá, os que escrevem as notícias fresquinhas que ele papa guloso ao pequeno-almoço.

A relação de Cavaco com os canais mediáticos tende a ser vanguardista. Como podemos recordar viajando até ao debate presidencial que teve com Manuel Alegre, em 2011:

MA – [atabalhoada, confusa, errada, inepta apresentação do caso das escutas]

JSCavaco Silva, quer responder?

CSQuero responder e mais do que isso… O sr. candidato anda muuuito distraído. Um candidato não pode andar distraído quando tem todos os seus meios à disposição. Pode ir consultar a página da Internet da Presidência da República e está lá tudo aquilo que eu devia dizer – e que é a verdade! Sabe, a verdade é muito fun-da-men-tal, principalmente para a resolução dos problemas de um país. Porque um cidadão in-for-mado, um povo informado, enfrenta melhor os problemas do País. A verdade gera confiança, enquanto a ilusão o que faz é gerar descrença.

Em diferentes ocasiões, enquanto Presidente da República, mandou jornalistas para o tal local na Internet onde estava a “verdade”, assim evitando perder tempo com declarações redundantes em certos assuntos para os quais não tinha paciência para aturar curiosos e atrevidos. Estávamos perante uma presidência digital, do mais avançado que se praticava no Mundo. Já quando Fernando Lima denunciou em público que – de facto, e como acabou por ser óbvio ainda em 2009 – tinha partido do Chefe de Estado a ordem para lançar a “Inventona de Belém”, aí Cavaco ficou caladinho. Explicação? Simples, a coisa tinha saído em livro. Ora, para quem tinha conseguido enfiar a “verdade” na Internet, deixava de fazer sentido gastar um segundo da sua atenção com esse meio tão arcaico para armazenar informação. Provavelmente, nem sequer terá reparado que Fernando Lima gastou 432 páginas só para inscrever na História que tivemos um Presidente da República conspirador e golpista, autor de uma inaudita violação do seu juramento e deveres constitucionais. Responsável por um colossal e cristalino atentado ao Estado de direito. Para Cavaco, essa gente que dá cabo das árvores só para sarapintar papéis com tinta não pode estar do lado da “verdade”. A “verdade”, pensa convicto e com toda a razão, jamais seria capaz de fazer mal ao lar dos passarinhos.

Há algum mistério neste ecossistema em que Cavaco tem a felicidade de encontrar na comunicação social uma imagem idílica da sua magnífica e impoluta pessoa? Népias. Podemos até ir buscar um cromo direitola para nos resumir o fenómeno em poucas palavras:

«O caso [compra e venda de acções do BPN por Cavaco e filha] passou e nunca se esclareceu totalmente se o lucro de Cavaco foi de favor. O desmentido do então Presidente acabou por ser de uma enorme competência, ao criar a ilusão de que havia um esclarecimento sem nada esclarecer. E de cada vez que surgia o assunto, os jornalistas eram remetidos para esse comunicado. Não foi, aliás, a única vez que Cavaco usou este expediente. Tudo isto é “normal” nas democracias, desde que o povo aceite.»

Fonte

Eis o máximo a que chega Vítor Matos, um dos mais activos caçadores de socráticos, socialistas e esquerdalhos actualmente ao serviço do Expresso, vindo do Observador e com a escola Cofina. Mas o quase nada chega para se expor o essencial, o sistémico “nunca se esclareceu totalmente se” Cavaco isto ou aquilo. Nada se esclarece e tudo se disfarça e oculta pois os jornalistas só têm uma vida e, acima e antes de tudo, têm patrões. Que o diga Marcelo Rebelo de Sousa, um cúmplice de Cavaco na “Inventona de Belém”, tendo posto o seu enorme poder mediático ao serviço de uma operação de limpeza que em menos de nada tinha voltado a permitir ao nosso querido Aníbal passear a vista com um sorriso rasgado pela paisagem dos jornais e televisões. Uma comunicação social nas mãos da gente séria, pois claro, daí conseguir diariamente encontrar “verdades” tão interessantes e úteis sobre os bandalhos socialistas que teriam de nascer duas vezes para serem tão “honestos” como o homem que não detectou ligações familiares nos seus Governos. O tal primeiro-ministro que favoreceu a Universidade Católica contra os interesses do Estado, só por acaso a instituição onde ele e a mulher foram professores durante anos e anos. Um santo.

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Tempos interessantes: Lobo Xavier defende o Governo da extrema-esquerda

«Lobo Xavier defendeu que "o alerta de crise energética teve dificuldades em ser aplicado enquanto as forças de segurança não endureceram um bocadinho a sua limitação e o seu combate à violação, à intimidação, ao insulto e à agressão". Procurando especificar a que tipo de intimidação se referia, Lobo Xavier explicou que foi aquela que foi exercida sobre "centenas de trabalhadores dispostos a conduzir camiões e que não se sentiam seguros".

Perante as críticas feitas ao Governo, o advogado advertiu que "não foi o Governo" quem não se preparou, mas sim os próprios transportadores: "Não levaram a sério o aviso de greve e nunca estimaram que a greve pudesse chegar ao ponto a que chegou e ter a dimensão, efeito e produção de incómodos ao funcionamento da vida em Portugal que chegou a ter."

Quanto aos serviços mínimos decretados, e admitindo que "ficava mal" ser o próprio a explicar, os parâmetros dos mesmos foram "basicamente definidos em cima da situação pelas empresas de transporte. O Governo concordou. Depois de estarem em práticas, percebeu-se que eram muito limitados", já que o país não se resume às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Em conclusão, Lobo Xavier saudou a forma positiva como esta greve foi concluída, até porque "podia ser trágica para o país e ter efeitos políticos que não sabemos até onde poderiam ir".

"Em Portugal culpa-se o Governo por tudo, para o mal e para o bem", concluiu.»


Fonte