Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Calúnia sistémica, com o alto patrocínio da Justiça portuguesa

A juíza Margarida Gaspar, que participa em furtos públicos, é fake news?

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A venda da justiça

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Fernanda Câncio, por estritas razões ligadas à sua vida privada, é um alvo não só inevitável como sistémico de calúnias. Por “sistémico” refiro-me à sua inscrição como símbolo popular, aparecendo socialmente no espaço público transformada numa caricatura que atrai pulhas e broncos, e como munição política e sensacionalista, sendo pretexto para atacar indivíduos (quase sempre Sócrates, mas não só) e o PS (por associação via Sócrates e terceiros). Para além disso, dado ser uma das melhores jornalistas portuguesas (é ler o que publica) e não ter vocação para mártir (é ler o que publica), gera telúricas reacções de aversão adentro dos seus “colegas” de carteira. Solidariedade da classe, nicles. Em cúmulo existencial, é mulher. Tudo o que lhe aconteça de mal é muito bem feito, é para ela aprender. Fica como exemplo para as outras.

Um dos mais poderosos desses “colegas”, o King Kong da indústria da calúnia, teve isto a dizer no ano passado: “Com franqueza, Marquesa”, por Octávio Ribeiro. O registo é de chungaria à moda da Feira da Malveira. Mas tal é o menos, o quase nada, o irrelevante. O que assombra, ou deslumbra, são as diversas ameaças, vermos um órgão de comunicação social a substituir-se ao Ministério Público tentando colocar como arguida uma determinada cidadã, o à-vontade com que se calunia – técnica e juridicamente falando – sem qualquer rebuço nem vestígio de contenção. Não por acaso, quem assim usa o poder mediático à sua disposição é o mesmo escroque responsável por incontáveis crimes de violação do segredo de justiça e suas criminosas explorações e consequências. Um criminoso que se sabe protegido pelo próprio sistema que lhe alimenta a actividade criminosa, o sistema da Justiça. Também isto é sistémico.

Fernanda Câncio pergunta às devidas autoridades por que razão não actuam perante os crimes da Cofina et alia. É a pergunta que repito, e nesse território reside a explicação que encontro para não votar PS; a não ser numa situação de crise nacional como aconteceu em 2011. Acho inconcebível que o principal partido português seja conivente com os criminosos que fazem parte das magistraturas e da comunicação social. Mas estes dois gritos acima ligados trazem outra pergunta em subtexto: como é que os directores dos órgãos da “imprensa de referência” – jornais, rádios e televisões – conseguiriam justificar a sua cumplicidade com o uso da Justiça como arma política ou como legitimação das calúnias? Nunca o saberemos, pois grande parte deles vive disso. Acham-se protegidos. Até gostam, é uma gozação sem fim. E a vida é curta. Eles não têm tempo a perder com a honra, a liberdade e a coragem.

Balsemão, o altifalante de Marcelo

«Não se sabe se na conversa que teve com António Costa antes de se demitir, Azeredo Lopes lhe confessou que leu o memorando entregue no seu gabinete mas não percebeu que havia um encobrimento de um dos responsáveis pelo roubo de Tancos. Mas esta é uma narrativa que facilita as juras do primeiro-ministro e do Presidente da República de que não sabiam que a PJ Militar tinha descoberto o material roubado recorrendo a um complô que envolveu os criminosos. Se o ministro da Defesa não percebeu toda a dimensão da tramoia, é mais natural que a tenha omitido a Costa. E se Costa não soube da tramoia, não podia partilhá-la com Marcelo. Mas, coincidência ou não, a tese que foi ganhando credibilidade em Belém passa precisamente pela convicção de que Azeredo Lopes não percebeu.

O Presidente privou bastante com o ministro da Defesa desde que, há mais de um ano, o obrigou a ir a Tancos com o roubo ainda quente. Logo nessa altura, como o Expresso noticiou, Marcelo teria visto com bons olhos a demissão do ministro e chegou a ter a expectativa de que António Costa aproveitasse a demissão da então ministra da Administração Interna para remodelar também a Defesa. O primeiro-ministro não o fez mas a avaliação de Azeredo Lopes no Palácio de Belém nem por isso mudou. “O PR passou a vida a receber informação militar que o ministro ou desvalorizava ou não percebia”, relataram ao Expresso. Daí que, não tendo António Costa alguma vez deixado perceber a Marcelo qualquer informação sobre a estratégia montada pela PJM para recuperar as armas, o Presidente tenha firmado a convicção de que o ministro recebeu o memorando mas desvalorizou-o.»

Expresso

Aplauso de uma só mão para Bolsonaro

Jair Bolsonaro chega ao poder através do voto democrático. Isto tem de ser saudado.

Se, em resultado de tomar o poder democraticamente, Jair Bolsonaro vier a ser o responsável directo ou indirecto por qualquer tipo de violência, injustiça e crime, à mesma a sua eleição continua a merecer ser saudada por ter sido democrática, livre, soberana.

Jair Bolsonaro não tem de ser um democrata nem de se comprometer na defesa da democracia para receber o respeito dos democratas na hora da sua vitória.

Chegará o dia em que Jair Bolsonaro deixará de ser o presidente do Brasil. Parte do que esse país será nesse dia vai nascer do que os democratas fizerem com a sua inalienável liberdade, aconteça o que acontecer neste imprevisível e assustador ciclo que se inicia.

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What’s up, democracia?

Apesar de todas as perversões políticas nascidas nas e pelas novas ecologias mediáticas digitais, onde a tecnologia para a criação de conteúdos é fácil e está popularizada, é preferível ter alguém a acreditar numa estupidez falsa ou a espalhar uma mentira com intento político do que ter alguém que não quer votar, nem quer saber do que acontece nas eleições e nas instituições da República. Com os primeiros, há uma lógica e uma motivação que abrem portas naquilo que parece uma muralha inexpugnável. Com os segundos, o prado bucólico e plácido que ostentam na sua indiferença esconde um deserto onde a cidade está soterrada em areias estéreis.

Um imaturo, um bronco e um pulha que papem tangas políticas revelam ter fomeca. Falta só quem lhes consiga servir pratos mais nutrientes, quem os ensine a saborear nacos de inteligência e postas de coragem.

Perguntas simples

Depois de Cavaco ter exibido o sentido de Estado de um profissional em calhandrice da Nova Gente, e de Passos ter prometido ir fazer o mesmo e pior, será que ainda iremos ver Portas a mostrar um vídeo do celebérrimo e generoso Jacinto Leite Capelo Rego a fazer uma doação no CDS?

Exactissimamente

De um juiz espera-se que aplique a justiça. De um juiz estranha-se quando lança suspeições sobre a Justiça. Carlos Alexandre, o dito superjuiz, levanta dúvidas sobre o sorteio que ditou ser o magistrado Ivo Rosa o titular do processo "Operação Marquês", deixando no ar a possibilidade de ter sido viciado. Lançou a suspeita numa espécie de entrevista ao Canal 1 da RTP. Perante as dúvidas do entrevistado, esperava-se também do entrevistador a pergunta óbvia. Não o fez. Sendo assim, ficamos sem saber se o impoluto Carlos Alexandre tinha dado conta dessas dúvidas aos órgãos competentes, ou seja, ao Conselho Superior da Magistratura (CSM). A pergunta não existiu, mas a resposta havia já sido dada, logo após a promoção da entrevista pela RTP, com o CSM a abrir um inquérito. Portanto, o juiz Carlos Alexandre, que muitos portugueses confundirão com um representante do Ministério Público, guardou as dúvidas para um programa de televisão, que revelou a origem humilde do magistrado. Numa amena cavaqueira, em que se orgulhava de nunca ter faltado ao emprego, "a não ser por morte de algum familiar", revelou ter pedido folga para o dia do sorteio. E a malandragem aproveitaria para viciar o processo.

O superjuiz, todavia, ficou-se por meias-palavras, insinuações, sorrisos cúmplices com o entrevistador. Não afirmou, portanto, que o sorteio havia sido viciado: como seria de esperar de alguém que lança uma suspeita desta envergadura. Apenas insinuou. E se as insinuações são sempre deploráveis, são-no ainda mais na boca de um juiz de direito.

O homem a quem coube conduzir a investigação de um dos mais importantes processos judiciais da Justiça portuguesa - com um antigo ex-primeiro-ministro arguido, suspeito, entre muitos outros crimes, de corrupção - não confia na Justiça. E tal posição é muito grave. Carlos Alexandre, além de levantar reserva de confiança sobre um seu colega, lança sobretudo um anátema sobre o nosso sistema judicial. Fez mais um favor aos que todos os dias cavam um pouco mais a já profunda cova da democracia.


Paula Ferreira

Joana Marques Vidal, o palimpsesto

[o texto abaixo é o da verdadeira entrevista concedida por Joana Marques Vidal ao Expresso e que se encontra escondido sob as mentiras publicadas, basta escarafunchar o papel ou o ecrã com uma carica para recuperar a versão original]

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Ficou surpreendida com a dimensão do fenómeno da corrupção em Portugal?

Devo dizer que fiquei. Mas mesmo muito. É que eu só entrei para o Ministério Público em 1979, sabe. Quando cheguei a 2012, ainda estava completamente verde nestas porcarias da corrupção. Sabia lá eu o que havia para aí. Mas depois, aqueles senhores muito simpáticos que me convidaram para procuradora-geral da República, o senhor Pedro, a senhora Paula e o senhor Aníbal, explicaram que Portugal estava infestado de socialistas, e que esses socialistas andavam todos a roubar para dar ao chefe, um tal de Sócrates de quem nunca tinha ouvido falar. Fiquei banza com a corrupção que esse bandido andava a fazer. É que era corrupção mesmo corrupta, uma coisa do Diabo.

Há a Operação Marquês, o caso Lex, os Vistos Gold, etc. O que é que se passou para estes processos terem acontecido num espaço tão curto de tempo, durante o seu mandato, quando não aconteciam tanto em mandatos anteriores, nomeadamente no do seu antecessor, Pinto Monteiro?

Ora, o que é que se passou... que raio de pergunta... Então não se está mesmo a ver?... Oiça lá, esse Pinto Monteiro não é o tal que foi uma vez almoçar com Sócrates, o chefe dos corruptos portugueses? Pois, portanto não estou a perceber a pergunta. Só se quiserem que eu faça um desenho.

Qual é o papel do procurador-geral da República? É deixar que se faça?

O papel do procurador-geral é promover a organização, a articulação interna e a capacidade de gestão que permita aos magistrados irem ao aeroporto deter fulanos que estejam a chegar ao País precisamente com a intenção de se dirigirem ao Ministério Público para prestarem declarações. Acho que se eles estão com essa maçada, então o mínimo que um procurador-geral pode fazer é proporcionar um automóvel com condutor e serviço de bagageiro de modo a que esses cidadãos não tenham a despesa do táxi. Claro, se ainda der tempo para avisar a malta da comunicação social, mais composto fica porque todos podem ver nos telejornais e primeiras páginas como é que tratamos cidadãos inocentes dispostos a colaborar com as autoridades.

E a atitude de o Ministério Público não ter medo de investigar políticos, ou inclusivamente de os prender?

Bem lembrado. Isso dá muito jeito e, inclusive, é giro. Só acrescentaria a atitude de o Ministério Público não ter medo de devassar e achincalhar políticos, familiares dos políticos, amigos dos políticos e colegas dos políticos. Porquê? Porque nos concebemos como um Ministério Público democrático. Já que esses políticos não têm moral - e não têm, aquilo é uma depravação dos infernos - então comem todos.

Tem pena que os seus argumentos não tenham sido suficientes para convencer os juízes do Tribunal Constitucional em relação a uma lei para o enriquecimento ilícito?

Tenho muita pena, muita pena. É uma pena haver socialistas em tanto lado, até no Tribunal Constitucional. Mas sabe como é, eles reproduzem-se a uma velocidade doida nos esgotos e depois passam pelas canalizações e buracos dos edifícios. Foi assim que conseguiram empestar o Tribunal Constitucional.

A delação premiada seria também um bom instrumento nesse combate?

A delação premiada... eu não gosto da palavra. A delação tem em si mesmo um sentido pejorativo para os portugueses, atendendo à nossa história recente com a ditadura. Portugal deveria caminhar num sentido de realmente alargar o âmbito da colaboração premiada, que já está prevista no nosso sistema jurídico há muito tempo em leis específicas como a lei da droga. Se a colaboração premiada continuar a causar reticências, tenho outras opções para sugerir. Por exemplo, a cooperação remunerada, o contributo recompensado, a ajudinha bacana, a sacanice valiosa e a pulhice d'ouro. É escolher.

Mas vê alguma recetividade a isso na Assembleia da República?

Naaaa, 'tá de chuva. O problema da Assembleia da República são dois: está cheia de socialistas e cheia de portugueses. Talvez com a crescente imigração de brasileiros consigamos ter, daqui por 25 anos, uma Assembleia da República onde se celebre o exemplo e legado de Sérgio Moro. Enfim, estas coisas demoram na Europa, longe vão os tempos em que era canja prender com facilidade a malandragem. Mas temos de lutar para que voltem, temos de lutar.

Foi informada antecipadamente da detenção de José Sócrates?

Claro! Então iam fazer caixinha comigo, a chefa?!... hehehe...

Deu a sua concordância?

Não só dei a minha concordância como dei urros de felicidade e grandes palmadões nos costados do Rosário! Que festa, pá! Agora, isto não se pode contar assim porque há para aí umas coisas, umas leis ou lá o que é, que dizem que os magistrados não precisam de pedir autorização aos procuradores-gerais para fazerem as suas avarias. O Pinto Monteiro, esse socialista asqueroso, estava sempre a resmungar contra isso porque dizia que lhe dificultava muito a corrupção que ele andava a fazer a mando do Sócrates. Lembro-me muito bem disso e uma vez até cheguei a ter pena dele.

Então, porque lhe deram conhecimento?

Estou convencida que foi porque eu tinha ido à terra uns dias antes e trouxe de lá um presunto magnífico e um garrafão de água-pé como já não se encontra em lado nenhum. O pessoal sabia disso porque tinha deixado os produtos em cima da mesa e eles gostavam sempre de espreitar para dentro do gabinete a ver se apanhavam estes mimos regionais. Mas também pode ter sido por causa de uma aguardente de pêra que um familiar me tinha oferecido em Aveiro no ano de 2009 e que foi um sucesso louco lá na Procuradoria.

Era a primeira vez que se colocava a questão de deter um ex-chefe de Governo. Como é que se sentiu?

Olhe, deixe cá ver se encontro palavras para explicar... A minha preocupação foi perguntar: têm fundamentos suficientes, indícios aprofundados, em termos jurídicos e factuais? Têm verificada a situação que leva a essa decisão processual? “Não temos. Nem fazemos puto ideia de qual seja o crime em causa.” Então, ao perceber que o fulano ia ser engavetado à má-fila, sem sequer ser preciso provar fosse o que fosse, nem ter de perder mais tempo a vasculhar papelada aqui e ali, comecei a sentir uns calores que iam subindo pelas pernas, passaram pela barriga e vieram alojar-se no peito deixando-me a arfar. Ao mesmo tempo, tinha as mãos geladas e os pés com formigueiro. Foi incrível e inesquecível. Só comparável com o meu primeiro beijo ou com a primeira vez que fui ao Colombo.

Acompanhou de perto este processo?

Diga-me você. Acha que me ia aborrecer de um processo com tanta escuta e tanto interrogatório? Só a ler a listagem do que os arguidos guardavam nos computadores e telefones passei noites e noites em branco. Absolutamente fascinante descobrir o que aquela maltósia andou a fazer com as suas vidas.

O engenheiro Sócrates chegou a acusar o Ministério Público de fazer uma perseguição política, de que havia um plano para impedi-lo de se candidatar a Presidente da República. Estava à espera de ataques deste género?

Aqui tenho de fazer uma confissão: estava à espera de bem pior. Quando foi aquilo do gamanço em Tancos, o primeiro suspeito que me ocorreu foi o Sócrates. Em segundo lugar, coloquei o Vara. Cheguei a fazer uma lista. Para ver a seriedade da coisa, nessa lista entram dois Santos Silva, e não foi por erro. E depois de Tancos voltei a desconfiar de Sócrates por causa do incêndio no Pinhal de Leiria. Ainda hoje estou convencida de que aquilo foi ele a fazer um ensaio para incendiar a Procuradoria-Geral da República com vista a destruir pelo fogo a nossa acusação. Está com azar porque já mandei colocar um balde junto da secretária de cada magistrado. Pelo que só lhe resta o armamento roubado em Tancos que ainda esteja em falta. Do mal o menos.

Chegou a haver uma fricção entre a procuradora-geral e os investigadores relativamente ao tempo da investigação. No final, acha que é uma boa acusação?

Mais do que boa, óptima. Veja bem, conseguimos misturar tudo e mais alguma coisa no processo, só faltou incluir o afundamento do Titanic e a Guerra da Crimeia. Nem daqui a trinta anos ele se livra daquilo. E, com sorte, vai mesmo de cana ou vai ficar sem um tostão. Mas mesmo que algum juiz socialista e corrupto acabe por ilibá-lo dado não termos provas de crime algum de corrupção, lá isso é verdade, acho que estamos de parabéns porque para nós é igual ao litro. Foi apanhado e triturado. Está feito em merda para o resto dos seus dias. E ainda teremos uma estátua para celebrarmos condignamente a Operação Marquês, gravem estas palavras!

Um relatório polémico feito pela inspeção do Conselho Superior do Ministério Público em 2014 sobre métodos usados pelo DCIAP, o departamento que investigou a Operação Marquês, dava conta de críticas que nós agora vemos na defesa dos arguidos deste caso e que têm a ver com os chamados processos administrativos, ou seja, investigações que estariam a decorrer fora do âmbito do inquérito-crime. O que tem a dizer sobre isto?

Não tenho muito. É que agora estou cheia de pressa. Instalei o Wi-Fi em casa e ando a tentar navegar o máximo que posso, descontrai-me tanto. Já passei por um sítio de apoio ao regresso do Bruno de Carvalho para salvar o Sporting, pelo que devo estar mesmo a chegar ao fim da Internet.

E não há um abuso por parte do Ministério Público em relação a esses procedimentos?

Mas quais procedimentos? Os procedimentos de apanharmos os corruptos? Tenha juizinho e fale do que interessa. Tudo o que servir para entalarmos os socialistas, isto é, os marginais, é santo.

Mas também têm um tempo de duração limitado. Não podem ficar adormecidos...

Ó homem, você é que me parece andar a dormir. Acha mesmo que é possível apanhar algum corrupto que dê gostinho, daqueles a pingar e exalar corrupção por onde passam a caminho do Rato, apenas com as leis que esses corruptos aprovam no Parlamento? Oiça lá, você é parvo ou faz-se?

E como vê as suspeitas levantadas sobre uma alegada batota que o Ministério Público teria feito para escolher o juiz de instrução Carlos Alexandre, para que fosse ele e não outra pessoa a acompanhar o inquérito-crime da Operação Marquês?

Vejo com naturalidade e simpatia. Provavelmente, são suspeitas vindas de pessoas que sabem do que estão a falar ou de pessoas de bom gosto. Qualquer das alternativas faz-me todo o sentido.

Passaram-se quatro anos desde que foram abertas as investigações ao colapso do BES. Em que pé estão?

No pé direito. Como sabe, a família Espírito Santo não era propriamente conhecida por conviver com a esquerdalha.

Há capacidade em Portugal para investigar offshores e esquemas financeiros nos casos do universo BES?

Haver, há. Mas tem de se ter em atenção que se trata, na enormíssima maioria desses esquemas financeiros do BES, de gente séria. Ora, ninguém quer um Ministério Público que não consiga distinguir entre a gente séria e a canalha. Com a canalha, pode-se atalhar nos procedimentos e acelerar um bocado porque eles já estão habituados a levar nas orelhas. Com a gente séria tem de se ter cuidado e outras maneiras. É que a gente séria não está nada habituada aos ambientes policiais e judiciais e depois estranha e até pode desenvolver alergias que acabam por prejudicar e atrasar ainda mais as investigações. Pelo que o melhor é ir com calma, offshore a offshore, esquema a esquema, mas sem pressa e, acima de tudo, sem stress. A gente séria odeia stress e eu percebo-os muito bem porque sou igual. Séria e alérgica ao stress.

Acredita que vai ser possível descobrir quem são os beneficiários efetivos do famoso saco azul do Grupo Espírito Santo?

Uma coisa lhe posso dizer com grande confiança. Sejam quem forem, são pessoas que merecem respeito e consideração. Não estou nada a ver o Grupo Espírito Santo a ir escolher um saco de cor azul, uma cor tão bonita, se em causa não estivesse a fina flor da nossa sociedade.

O opositor secreto de Passos Coelho

Quem acreditar nas memórias de Cavaco, fica agora a saber que ele se terá oposto às políticas do governo de Passos Coelho – a descida da TSU, os cortes dos vencimentos e o roubo dos 13º e 14º meses dos funcionários públicos (salvaguardando, porém, os rendimentos do capital), a forma como a política de austeridade foi aplicada pelo governo (sem equidade nem justiça social), a estratégia de comunicação do governo no anúncio dessa política de austeridade (quase parecendo “ter prazer em anunciar medidas negativas”), a extinção dos governos civis, a “falta de coragem para enfrentar as clientelas do PSD e do CDS” (que terá servido de pretexto à extinção dos governos civis), etc., etc.

Terá Cavaco afinal militado secretamente na oposição?

Mas porque não usou ele a sua voz para criticar as políticas daquele governo de que diz ter discordado – já não digo do mesmo modo como torpedeou sonoramente o governo de Sócrates, mas ao menos com uns puxõezinhos de orelhas amistosos? No seu silêncio público, Cavaco foi inteiramente cúmplice do governo de Passos Coelho, que agora diz ter criticado e admoestado nos bastidores. Compreende-se que queira reescrever a história, mas é preciso ter muita lata!

Neste novo volume das suas memórias, Cavaco critica também Passos Coelho pela sua “inexperiência governativa” e ignorância em matéria macroeconómica. Critica Paulo Portas pelos seus humores irresponsáveis. Diz ter ficado espantado com a nomeação de Relvas como ministro-adjunto, pelo que não ficou muito surpreendido quando ele teve de sair (vergonhosamente) do governo. Revela que Passos Coelho e Paulo Portas atiravam um para o outro a batata quente de nomear um ministro das Finanças para suceder a Vítor Gaspar. E adianta, em primeira mão, que Passos Coelho ameaçou demitir-se três vezes!

Não está mal, não senhor! Ao lado da sólida “geringonça”, o governo de Passos Coelho mais parece ter sido uma caranguejola ferrugenta sempre a cair em pane.

Cavaco diz ter declarado a Passos Coelho e Portas, após o episódio da demissão irrevogável: “No futuro, serei menos condescendente em relação a desentendimentos no seio da coligação que ponham em causa a estabilidade política.” Ai que medo! Certamente cortava-lhes a semanada e proibia-lhes as idas à discoteca.

Podemos perguntar-nos porque relata Cavaco estes desaires, erros e insucessos do governo que ele apoiou publicamente até ao fim – e que quis mesmo reeditar em Outubro de 2015, sabendo de antemão da falta de apoio no novo parlamento. Uma explicação plausível para estas confissões é que, perante o êxito ulterior da “geringonça”, de que ele desconfiava mortalmente e que chegou a pensar em evitar mediante um governo de iniciativa presidencial, Cavaco prefere agora apontar os erros Passos Coelho e Portas a ter, logicamente, de reconhecer o bom desempenho de António Costa. A mensagem que quer passar é esta: se a geringonça da esquerda triunfou, não foi por mérito próprio, foi por culpa da caranguejola da direita… Ele bem avisou Passos e Portas, mas não foi ouvido! Espera-se ansiosamente a reacção dos visados.

Entretanto, Marcelo garantiu hoje que jamais comentará as memórias de Cavaco. Perde, assim, uma excelente oportunidade para dar um show e divertir o país.

Podia ser uma comédia se não fosse tão triste

«O ministro é evidente que se tinha que demitir, já vai muito tarde. Na primeira fase, quando começou com graçolas, percebeu-se logo que ele não tinha muita habilidade para fazer aquilo que fazia. Depois, com o conhecimento do memorando, nós ficamos a saber que o homem nem sequer sabia o que se passava no seu gabinete quanto mais nas Forças Armadas.»

[SIC Notícias]

«um ministro que diz graçolas do género "nem sei se houve assalto"»

[DN]

Pedro Marques Lopes

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Sou fã do Pedro. Vejo nele um autêntico liberal, de cepa clássica. Alguém que coloca a liberdade acima do sectarismo, do tribalismo, do egoísmo. Daí, conseguir ter a independência e a coragem para defender a decência e a comunidade bastando-lhe o critério da sua honestidade intelectual. Dado não passar fome, nem parecer ter problemas bicudos para desfrutar com os seus do conforto e segurança que lhe aprouver, corresponde ao modelo de cidadão descrito por Aristóteles como sendo o esteio do melhor dos regimes: aquele onde a classe média governa. Não faço ideia se o seu território de afirmação mediática iria resistir à entropia e dialéctica de um cargo partidário ou governativo, mas fica a bela esperança de que um dia façamos tal experiência; seja com ele ou com outro qualquer congénere.

Como admirador, tenho especial prazer em usar o seu exemplo para zurzir no espectáculo que começou a 10 de Setembro de 2017. Nesse dia, a TSF e o Diário de Notícias publicaram uma entrevista a Azeredo Lopes, feita por Anselmo Crespo e Paulo Tavares. Essa entrevista foi antecedida da publicação de textos de opinião de ambos os jornalistas onde optaram por um registo incendiário, sensacionalista e de ataque ao ministro da Defesa em cima do acontecimento. No decorrer da entrevista, esse clima de hostilidade, perseguição e acinte está presente na escolha das perguntas obsessivamente persecutórias de uma suposta responsabilidade política no caso, tendo acabado por gerar dois factos notáveis e com destino oposto. Um deles, a escolha do seguinte título: “”Não sei se alguém entrou em Tancos. No limite, pode não ter havido furto“. O outro, a censura no DN a parte da entrevista onde o então ministro desmente uma mentira publicada pelo jornal. Quanto ao primeiro, tal lançou uma reacção de matilha onde se passou a caricaturar Azeredo Lopes não por causa das verdadeiras e contextualizadas declarações com as quais (duas, separadas na entrevista) se montou o título, mas por causa da intencional perversão sensacionalista da responsabilidade exclusiva dos dois jornalistas e do então director, Paulo Baldaia, ao inventarem uma sequência de frases que não existe na entrevista. Quanto ao segundo, nenhuma alma falou nisso, sendo eu, se calhar, uma das 5 pessoas neste planeta que conhece a inacreditável violação deontológica. É comparar: entrevista transcrita com entrevista captada (as declarações censuradas começam ao minuto 22:23 e vão até 25:05, buereré de caracteres). Sei bem que jamais alguém irá aparecer a justificar o corte, a começar porque também ninguém está para perder uma caloria com o assunto, mas seria lindo ouvir uma qualquer tanga a respeito por parte de quem assim decidiu.

O ataque a Azeredo Lopes passou a fazer-se quase exclusivamente, até à sua demissão e ainda nos comentários à mesma, usando a munição dada pelo DN a quem a quis usar. E todos quiseram. Todos. Porque era de um sarcasmo universal, permitia pintar o ministro como um tontinho que andava a apanhar bonés. E quem é que resiste a juntar-se a essa turbamulta que atira ovos e tomates aos malandros dos políticos, para mais apanhados num caso escabroso e inacreditável, ainda por cima socialistas e, para cúmulo, tendo andado pelos mares profundos da comunicação social armados em importantes? Pelo que se tornou obrigatório associar “Azeredo Lopes” e “Pode não ter havido furto” se algum macaco se lembrava de dizer coisas a respeito de Tancos. E quanto menos tivesse para dizer mais se agarraria à banana do Azeredo. No entanto, contudo, todavia, a tal entrevista dada à TSF e ao DN é um exercício de apurada racionalidade e sentido de Estado, mesmo de alta responsabilidade política, que o presente confirma e o futuro reforçará. Por cada novo dado que aumente a nossa incredulidade face ao que se passou, ao mesmo tempo aumenta a relevância do que o Governo, pela boca do ministro da Defesa, veio dizer aos cidadãos nessa ocasião. Recordemos os factos estruturantes desse sofisticado e poderoso acto comunicativo:

– Azeredo Lopes deu a entrevista na sequência de ter recebido as conclusões dos primeiros inquéritos dos diversos ramos das Forças Armadas e da Inspeção-Geral da Defesa Nacional. Ter falado antes seria irresponsabilidade. Não falar depois, estando o tema a ser usado como arma de arremesso contra o Governo e havendo uma necessidade política de dar explicações preliminares pela tutela, seria irresponsável.

– Azeredo Lopes descreve na entrevista o que fez dentro da sua responsabilidade governativa após receber a notícia do assalto. Nessa descrição, deixa a nu, para quem quiser ver, que Tancos faz parte de uma questão cuja profundidade e complexidade atinge o próprio regime. Ao mesmo tempo, e precisamente por causa da gravidade geral do problema que ultrapassa desmesuradamente a ocorrência do assalto aos paióis, transmite a mensagem de que o problema não se vai resolver numa legislatura, muito menos começando a disparar contra o Exército.

– Azeredo Lopes responde à acusação dos direitolas – e dos jornalistas úteis aos direitolas – de que Tancos pedia a sua cabeça repetindo rigorosa, zelosa e enfaticamente que a solução para a crise aberta pelo assalto iria passar inevitavelmente pela acção do Ministério Público. Com isso transmitiu outra poderosa mensagem, a de que o Governo não seria conivente com as diversas ilegalidades que vieram espantar a sociedade no episódio. Quem tinha roubado, e quem tinha ajudado a roubar, teria de ser apanhado e castigado. Mas não pelo ministro da Defesa – e também não pelos próprios militares. Algo tão sério como o que se via e entrevia carecia dos mais poderosos instrumentos policiais do Estado civil para impor a força da Lei. Um ano e pouco depois, o primeiro-ministro fez exactamente dessa mensagem uma bandeira que agitou no momento mais intenso do cerco a Azeredo.

– Azeredo Lopes, no auge do aproveitamento das potencialmente ambíguas declarações de Marcelo a respeito de Tancos, responde exemplarmente dizendo o óbvio. Hoje sabemos que Marcelo e Costa – e, muito provavelmente, uma boa parte das cúpulas das Forças Armadas – estão unidos no propósito de tratar esta questão com pinças. Pinças de titânio, mas pinças. Ou seja, é um trabalho de ourives (um broche, usando o vernáculo de caserna).

Parafraseando o último “Eixo do Mal”, quem está de boa-fé percebeu que o ministro da Defesa foi alvo de uma pulhice jornalística. Um ministro com currículo incomparável na forma como fez respeitar a Constituição e o Estado de direito democrático na relação entre o Governo e o Exército. Ora, com aqueles que estejam de má-fé não vale a pena discutir. Daí o meu interesse pelo Pedro Marques Lopes, no qual jamais acreditarei que ceda à desonestidade intelectual. E, não cedendo, segue-se que ele jamais conseguiria provar que o ministro da Defesa alguma vez disse “graçolas” a respeito de Tancos, tal não passando do resultado de as suas emoções estarem a distorcer por completo a sua capacidade analítica. Essa constatação surge como uma disfuncionalidade importante por exibir incoerência com os valores que o próprio assume e promove. Seja como for, o seu caso não é tão grave como o do Anselmo Crespo. O mesmíssimo Anselmo Crespo que entrevistou um ministro da Defesa só para o queimar, para mais nada que tenha remotamente a ver com a missão do jornalismo enquanto actividade que ajuda o público a descobrir a realidade. Este amigo, cuja expressão escrita é um festival de empáfia e piroseira assanhada, chega a 12 de Outubro de 2018, depois do tudo que se sabe dentro do tudo que se desconhece, e abre assim um Bloco Central:

«O azar do Azeredo. Podia ser o nome de uma comédia se não fosse tão triste e, sobretudo, tão grave. O ministro que depois do assalto aos paióis de Tancos teve pérolas como "Não tenho noção exacta do material que foi roubado" ou "No limite, pode não ter havido furto nenhum", só para dar alguns exemplos, saiu de cena. [...] O que Azeredo Lopes não faz, nem na hora da despedida, é reconhecer qualquer responsabilidade política neste caso. [...]»

Revolution through evolution

Avoiding a spouse’s demands may benefit low-income couples but hurt wealthier couples, study says
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Men in Leadership Gain from Psychopathic Behavior, Women Punished
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Feminine leadership traits: Nice but expendable frills?
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No, we’re not all working for a bunch of psychopaths
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Us vs. them: Understanding the neurobiology of stereotypes
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Ó Paulo Tavares, tu tira uma sabática para curar isso

Queimados por más experiências nas últimas décadas, confundimos eleitoralismo com despesismo. Alguém pode dizer, sem confundir desejos com realidade, que estamos hoje no mesmo ponto em que estávamos em 2009? Quase um ano depois da queda do Lehman Brothers e com uma tempestade perfeita a formar-se à escala global, José Sócrates atirou-se a um aumento de 2,9% para a função pública. Aí, todos os adjetivos foram válidos.

Paulo Tavares

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Transformou-se num fenómeno do Entroncamento. Este amigo, uma semana depois, volta a repetir uma calinada inadmissível até num jornalista que estivesse a estrear a carteira. Desta vez, aumenta a tonteira ao introduzir o calendário do Lehman Brothers, o qual alega conhecer. Como explicar a estupidez e a mentira? Bom, acaba por ser fácil. Como a intenção é usar o aumento que o Governo de Sócrates – com os votos do PSD – deu aos funcionários públicos em Outubro de 2008 para entrar em vigor no ano seguinte, Paulo Tavares transfere para 2009 o seu nascimento de modo a reforçar a ideia de ter sido algo “eleitoralista” numa escala nunca vista, um acto de loucura a merecer a eterna condenação das gerações seguintes. Factos? Cálculos? Contextos? Dispensa. Isso iria perturbar o exercício sectário, a demagogia jornaleira nascida da sua displicência e soberba.

Dito isto, pode ser que este amigo tenha investigado o assunto, como mais ninguém antes ou depois, e tenha descoberto que o Lehman Brothers faliu na verdade em 2007 mas que conseguiu guardar segredo até Setembro de 2008. É uma hipótese. Seguramente mais simpática do que todas as outras que me ocorrem para explicar a sua fixação e a sua deturpação.

Perguntas simples

A Justiça à moda de Mação, onde os juízes passam a trabalhar para o Ministério Público e se permitem condenar arguidos ainda sem acusação formada, e onde esses mesmos juízes vão para a TV sugerir que estão cercados por criminosos na própria Justiça e no sistema político, merece ser referendada ou isso seria estar a perder tempo na cruzada contra a “corrupção”?

O quarto poder como quinta-coluna

O conceito de “quarto poder”, quando aplicado à imprensa, pressupõe a tríade “poder legislativo”, “poder executivo” e “poder judicial” como referentes. Num Estado de direito democrático, institui-se constitucionalmente a separação desses três poderes estruturantes do paradigma civilizacional liberal. Esta a paisagem que serve para imaginar um “quarto poder” fiscalizador do trio teorizado por Montesquieu. Nessa missão, os seus representantes (os jornalistas) concebem-se como isentos, objectivos, independentes – ou seja, o “quarto poder” igualmente reclama um estatuto de separação donde procede a sua legitimidade e autoridade. Os jornalistas não criam leis (porque não são parlamentares), não as usam na governação (porque não governam) nem as aplicam nos tribunais (porque não julgam), mas conhecem-nas tão bem como os representantes dos restantes poderes (esta a tese); daí poderem aferir se são respeitadas ou violadas por qualquer autoridade (para tal, possuem direitos de investigação e protecção especiais). Mas não só. Os jornalistas podem também reclamar uma maior (e melhor) proximidade à população, ao eleitorado, aos agentes económicos, sociais e culturais, aos simples cidadãos enquanto entidades com direitos e garantias estabelecidos nos princípios e códigos fundantes da vida social e em comunidade, para se assumirem como advogados mediáticos de qualquer causa ou caso que considerem merecer a justa protecção ou promoção do “quarto poder”. Nesta pureza guardiã das instituições e dos indivíduos, assim como dinamizadora das actividades económicas e artísticas, a imprensa constitui-se como um dos pilares mais importantes da democracia e da vida em sociedade. Esta uma definição mal-amanhada e à pazada do conceito de “quarto poder” (na sua abstracção) só para chegar ao Manuel Carvalho.

Neste texto já enterrado no esquecimento – O pseudogolpe na procuradoria – vemos o director do jornal Público, recorrendo à figura do editorial, a despachar em três curtos parágrafos o processo de substituição de Joana Marques Vidal por Lucília Gago. O poder de síntese demonstrado não terá a sua origem numa misteriosa limitação de espaço para a escrita, ainda menos no que o seu bestunto conserva como informação e opiniões a respeito da coisa, pelo que a explicação para tamanha modéstia analítica e reflexiva terá outra origem. Vou apostar na dimensão do livre-arbítrio e concluir que o senhor não disse mais porque não quis. Agarremos então no que foi publicado como declaração oficial da posição do jornal Público a respeito das questões associadas ao final do mandato de JMV e ao fenómeno de partidarização e campanha mediática a que se assistiu. O que lemos permite descobrir os mecanismos mentais dos decisores editoriais do que passa por “jornalismo de referência” – ou seja, do que nos dizem ser um típico representante do “quarto poder”; no caso, o Público – no trato de uma das mais emporcalhadas situações de que há memória a envolver a Procuradoria-Geral da República, o primeiro-ministro e o Presidente da República.

Para comodidade de exposição, divido as mensagens de MC em dois grupos, “Do Manel” e “Do Carvalho”:

Do Manel

– «Uma normal e legítima opção do Governo e do Presidente da República tornou-se para alguns sectores da direita a prova acabada de que o regime sucumbiu com enlevo à praga da corrupção. Como se em causa estivesse a escolha entre a vontade ou a renúncia à salvação, como se não houvesse Ministério Público para lá de Joana Marques Vidal, como se uma escolha sujeita a interpretações do espírito da Constituição se resumisse a uma certidão de que o Governo, o Presidente, o Bloco, o PCP e uma boa parte do PSD de Rio estão empenhados em acariciar a corrupção e proteger os poderosos com o braço da lei.»

– «Há mais procuradoria para lá da ainda procuradora-geral. Portugal é, apesar de tudo, um país dotado de aparelhos institucionais suficientemente maduros para dispensarem o papel do caudilho ou dos salvadores da pátria.»

– «dizer que a sua não recondução é um golpe digno de uma quadrilha de malfeitores só pode vir de cabeças que sujeitam a interpretação do mundo à forma dos seus desejos e ao tamanho das suas ambições.»

Do Carvalho

– «Joana Marques Vidal deveria ter sido reconduzida no cargo porque, para lá de todas as fragilidades do seu mandato, acabou com os resquícios de uma Justiça burocrática e rendida aos encantos do poder tão bem cultivada pela dupla Pinto Monteiro-Noronha do Nascimento.»

Aqui temos o Manel a descrever com objectividade a realidade, isso de termos assistido a uma campanha demagógica e populista por parte de uma direita ressabiada e rancorosa, decadente. E tão perigosa na obscena exibição da sua gula para usar a Justiça e polícias como arma política. Isso de não ser concebível que o Ministério Público e sua complexa e cristalizada autonomia esteja na dependência de um qualquer procurador-geral da República para cumprir o princípio da legalidade a que está obrigado. Isso de o procurador-geral da República, seja ele quem for, não obrigar o Ministério Público a abrir processos nem impedir ilegalmente os procuradores de investigarem o que, na sua autonomia e responsabilidade, sejam obrigados a investigar dada a existência de indícios conhecidos para tal. Isso de os resultados a que cheguem ou não cheguem as investigações não decorrerem da competência, esforço e traços morais dos procuradores-gerais da República, antes das equipas abaixo no Ministério Público que assumem a primeira responsabilidade judicial sobre os processos. Isso de que apagar estas evidências basilares para as substituir por caudalosas suspeições difamantes que chegaram a atingir o primeiro-ministro e o Presidente da República corresponde à mais degradante baixa política, uma chicana escandalosa e soez vinda de altas figuras partidárias, regimentais e mediáticas da direita acéfala.

À mistura com esta salubridade jornalística e cívica, tropeçamos no Carvalho caluniador. O que ele agita – surpresa! – é exactamente a bandeira da campanha demagógica e populista, difamante e paranóide, dos que exploraram o final de mandato da Joana Marques Vidal para obterem combustível que permita continuar a incendiar o espaço público e a espalhar um terrorismo sociológico que visa destruir a confiança nas instituições da República. Carvalho não se limita a apontar ao Pinto Monteiro, vai também buscar Noronha do Nascimento. Com isso está a transmitir aos seus amigos de almoçaradas e copázios que ele continua um bom soldado, disparando na direcção certa. A direcção certa é – espanto! – Sócrates. Ora, tirando o “Face Oculta”, que outro episódio o Carvalho poderia dar como exemplo da aludida rendição aos encantos do poder por parte de Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro? Nenhum de nenhum, escusa de fingir que procura na enviesada memória. Ninguém recorda qualquer outro acto de Noronha do Nascimento em suposto conluio com Pinto Monteiro. Mais: ninguém se lembra de ter visto o Conselho Superior da Magistratura e/ou o Conselho Superior do Ministério Público a sequer tecerem considerandos sobre eventuais irregularidades de algum desses dois magistrados difamados pelo Carvalho. Saberá o Carvalho caluniador como se constituem esses conselhos e a autoridade que possuem? Se sabe, como explica que não tenham opinado sobre tão colossal violação do dever por parte desses dois magistrados que ataca? Acontece que este senhor director de um semipasquim – pasmo! – nada conseguiria explicar caso fosse interrogado sobre a matéria acusatória que deixou com boçalidade na página. Nada conseguiria demonstrar que aparentasse ser uma irregularidade nas decisões tomadas que contrariaram a pretensão de se estar perante um “atentado contra o Estado de direito” só porque em Aveiro se conseguiu espiar Sócrates em banais conversas privadas com Vara. Ele apenas sabe dizer que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento eram demasiado “burocráticos” – ou seja, que essa dupla deixava a Lei interferir na pulsão justiceira de certos magistrados engajados e atrapalhar o uso dos instrumentos policiais mais poderosos na caçada a certos alvos tão politicamente valiosos. Já com a santa Joana, foi um despacho que deu gosto ver. Abriu-se um processo judicial sem se saber qual era o crime em causa e prendeu-se um ex-primeiro-ministro sem provas, apenas como oportunidade imperdível para o castigar e interferir numas eleições legislativas. O Ministério Público passou a cometer crimes diários de violação do segredo de justiça ao serviço de uma campanha de linchamento público e condicionamento do poder judicial e do clima político. E até tivemos direito a gozar de pança cheia com o fascinante espectáculo televisionado dos interrogatórios a arguidos e testemunhas gravados nos estúdios do Ministério Público, já para não falar de uma certa entrevista onde um certo juiz condenou na TV um certo arguido cujos direitos tinha a obrigação de não só respeitar como defender e que ainda nem acusado estava.

Será o Manuel Carvalho um mau rapaz? É ao contrário, pelo menos quando se vê ao espelho. Ele concebe-se como um probo, um valente. É por isso que quer muito, muito, muito apanhar a bandidagem que para aí anda a roubar a gente. Raios, ser jornalista e chegar a director de um jornal “de referência” e deixar escapar os gatunos não ficaria bem no seu currículo e memórias futuras. De quantos bandidos estamos a falar? Isso ele já não saberia dizer, mas pelo menos em relação a Sócrates e aos restantes bandidos socialistas cúmplices das extraordinárias actividades criminosas relatadas na indústria da calúnia não tem dúvidas. É daí que vem o seu apoio à JMV, uma santa que ele adoraria ver mais 6 anos a espezinhar a “burocracia” que protege a ladroagem com poder. Ou seja, o Carvalho escreveu aqueles três parágrafos para sossegar a sua malta. A malta que vê no Estado de direito democrático algo muita fixe quando se trata de proteger os seus, e que passa a considerar o Estado de direito democrático, o rigor na defesa da Lei, a integridade das instituições da Justiça, algo “burocrático”, um empecilho, mesmo um erro a ser corrigido por aqueles que têm o que é preciso para caçar os “poderosos” – ou, vá lá, pelo menos um ou outro “poderoso” mais apetitoso e que sirva de exemplo e ameaça para certos tipos que se costumam reunir ali para os lados do Rato.

Pelo que acabamos na síndrome de Janus, endémica no pseudojornalismo e na baixa política. O prestígio e aparato do jornalismo enquanto missão cívica, e considerado como pilar dos regimes democráticos, a ser usado por aqueles, cônscios ou sonâmbulos, que preferem a adrenalina e testosterona dos linchamentos e das conspirações, das campanhas e das golpadas. Um jornalismo transformado em auxiliar de um Ministério Público justiceiro que viola direitos e garantias, que alimenta operações mediáticas para a perversão da Justiça e assassinatos de carácter inclusive de magistrados, é precisamente o oposto do que qualquer conceito de democracia concebe como a defesa da liberdade.

Mas o que nos interessa a vidinha do juiz Carlos Alexandre?

Já lá vão duas – duas – reportagens sobre o juiz de Mação. Uma com óculos, outra sem óculos. A próxima virá de monóculo? Enquanto vejo, na RTP, e dado o desinteresse da temática, que mais uma vez insiste nos testemunhos da “rectidão moral” e religiosidade do senhor e me provoca bocejos após a incredulidade, só posso concluir que o juiz queria era dizer mal do sorteio que atribuiu a instrução do processo Marquês ao seu colega Ivo Rosa e esta reportagem serviu para pouco mais do que isso. Terá sido ele a pedir a entrevista?

Mas outras perguntas têm que ser feitas a propósito desta andorinha: por que razão não impugnou logo de imediato o sorteio e optou por denunciá-lo mais de um mês depois, com enquadramento televisivo sobre as suas qualidades morais? Porque não esteve sequer presente? Este juiz é esquisito. Não é discreto, auotoelogia-se com prazer, gosta de mediatismo e não se inibe de mentir para as câmaras (a história das razões pessoais para a sua ausência; pensa que goza). Com justiceiros destes, como não torcer pelos criminosos? São, obviamente, muito mais inteligentes. E elegantes.

Uma questão de pilas

João Ribas, o director do Museu de Serralves que se demitiu por alegada censura à exposição de Mapplethorpe, foi ontem ouvido pelos deputados da nação na comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República. A magna questão que mobilizou este órgão de soberania durante várias horas era a de saber se várias fotografias com pilas, presumivelmente erectas ou enfiadamente explícitas, tinham ou não sido retiradas ou desviadas da dita exposição, e por quem. Uma das pilas em causa seria talvez esta, mas não há a certeza, porque Ribas não acompanhou as suas declarações com imagens das peças alegadamente censuradas, talvez para não ferir a sensibilidade dos deputados menores de idade. Estaremos perante um novo e gravíssimo caso de (auto)censura?

Ribas evidenciou nesta história sumamente ridícula a sua enorme presunção e o seu evidente autoritarismo. O director do museu era ele, o curador da exposição era também ele, por isso ninguém mais tinha de meter a pila, perdão, o bedelho na arrumação das peças nas salas de Serralves. Ribas é que sabe o que pode e deve ser exposto, e como, num museu público visitado por gente de todas as idades, porque viveu muitos anos nos states e até comissariou exposições em galerias de Nova Iorque. Além do mais, Ribas é capaz de falar durante horas sem dizer rigorosamente peva. Veja-se como o gajo debita este charabiá pretensioso e intragável numa simples entrevista. Leia-se, entre outras, a resposta hiperconfusa à singela pergunta “Como é que a política se insinua no mundo da arte, hoje em dia, e vice-versa?”

Ofendido com a administração da Fundação de Serralves sabe-se lá por que insondáveis razões, Ribas optou visivelmente por tentar juntar ao seu currículo a glória de se ter demitido em protesto contra uma “censura” ao sagrado Mapplethorpe. Quando se souber disto nos states, o seu prestígio pessoal vai crescer e florescer, espera ele. Sejam quais forem as conclusões da ociosa comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República, o Ribas vai explorar a imagem (falsa) de defensor da liberdade e de S. Mapplethorpe até ao fim dos seus dias. Que o ature quem puder e gostar.