Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Flower power

A escolha de Joe Biden para concorrer contra Trump pareceu nova partida de um destino cruel. Depois da insanidade em que a América está mergulhada desde o Verão de 2015 – altura em que aparece Trump em cena, então para todos apenas o palhaço-mor do circo presidencial, e ainda James Comey, então para todos impossível de prever quão decisivo viria a ser na derrota de Hillary Clinton a uma semana das eleições – esperava-se que os democratas fossem buscar um candidato à altura da crise histórica para as suas instituições que os EUA atravessam. Ter um Presidente que já fez mais de vinte mil afirmações factualmente falsas ou enganosas desde que entrou na Casa Branca dá conta da gravidade da anomia no topo do poder da maior democracia mundial. Ora, Biden não tem características que consigamos relacionar positivamente com a urgência de afastar Trump da mala nuclear e de castigar o seu legado moralmente aviltante e degradante. Parece um pachola, terá o seu mérito ao serviço do bem comum e dos seus concidadãos, mas também aparenta fragilidade física e não é o representante da sede de justiça que anima a oposição a Trump.

Pois bem, renasceu a esperança à volta da sua candidatura com a nomeação de Kamala Harris como candidata à vice-presidência. Estamos perante uma vencedora numa área da maior importância para a defesa do Estado de direito democrático e um símbolo vivo do melhor que a América representa como convivência e miscigenação de fenótipos e tradições. Se tudo correr pelo melhor, estaremos também perante a 1ª mulher a ser eleita Presidente dos EUA – a partir de Novembro de 2024, numa democracia (inspiradoramente) perto de si.

O teste do pato

Marina Costa Lobo, no texto onde em duas pinceladas explica que o livro “A Nova Direita Anti-Sistema – O Caso do Chega” pode ser tudo menos um trabalho académico, recorre ao cliché do “se parece um pato, nada como um pato e grasna como um pato, provavelmente é um pato” para encerrar um responso. Riccardo Marchi não tinha atingido os mínimos metodológicos para inscrever a obra no campo da investigação em história ou ciência política, segundo os critérios da autora, daí resultando uma ocultação da verdadeira natureza do Chega e de André Ventura. A coisa não passa de um “panfleto partidário“, rematou.

Para além da utilidade jornalística do exercício, uma curiosidade bem mais importante desperta: onde estão os trabalhos académicos – onde se cumpram critérios mínimos de distanciamento do objecto de estudo, seja do ponto de vista da ciência política e/ou da história, e com enquadramento analítico, teórico, e ainda apresentando comparações históricas ou da actualidade portuguesa ou europeia – a respeito do populismo como táctica do PSD e do CDS desde 2004, em força ostensiva desde 2008, e como assumida cultura política desde 2010? E onde estão os estudos dos cientistas sociais sobre o uso do ódio político pela direita portuguesa numa estratégia nascida com a perda do seu império bancário e desaparecimento da vida intelectual e da mera decência nas suas sedes partidárias, ódio que tem sido alimentado por crimes sucessivos cometidos por magistrados e jornalistas ao fazerem da judicialização da política e da politização da Justiça um fogo de barragem imparável que até dá para tentar condicionar procuradores e juízes à descarada? E cadê as monografias, ou que fosse apenas uma nota de rodapé, onde se analisasse com instrumentos conceptuais robustos o fenómeno do Entroncamento de vermos um Presidente da República a dar raríssimas honras de Estado a um fulano cuja carreira profissional consiste tão-só em despejar banalidades, lançar calúnias, perseguir difamatoriamente cidadãos por associação com uma tara que lhe deu a fama e o proveito e, last but not fucking least, bolçar que o regime é intrinsecamente corrupto logo a começar pela Assembleia da República e seus actos de soberania?

André Ventura não terá organizado a “parada Ku Klux Klan” junto à sede da SOS Racismo em Lisboa nem terá carregado no botão “enviar” que fez chegar ameaças dementes a diversos “dirigentes antifascistas e anti-racistas” mas aqui aplica-se a sensata máxima correlation may imply causation. A manifestação do dia 2 de Agosto, em que Ventura não só ocupou a rua como também o silêncio vexante de Rio (portanto, do PSD) que dias antes lhe tinha entregado a chave da cidade, foi poderosamente simbólica na dimensão em que não existiu qualquer força ou representante político a dialogar com o evento. E por causa disso ele ficou sem enquadramento democrático e sem contraditório axiológico, deixando-se que a prosápia insurrecta e megalómana do Ventura espalhasse confiança e ousadia junto daqueles apoiantes fanáticos que realmente não conseguem medir as consequências das suas acções – como se espera que a Judiciária e o Ministério Público no mais curto espaço de tempo possível ilustrem em nome da Lei e da liberdade que ela defende e consagra.

É neste nexo de causalidades paralelas que nos falta uma Marina Costa Lobo a reflectir, com o rigor do seu percurso na investigação, sobre a história de um certo Pedro que foi buscar um tal André para que este fizesse ao seu serviço exactamente o que anda agora a fazer para escândalo serôdio de tanto hipócrita. Uma Marina Costa Lobo capaz de explicitar o que leva o director de um “jornal de referência” a citar encomiasticamente vezes sem conta um cronista que podia ser ideólogo do Chega, tanto por partilharem o mesmo posicionamento de “nova direita anti-sistema” que vai acabar com os corruptos e esquerdalhos como por comungarem da mesma esperança messiânica no regresso de Passos Coelho, o herói que meteu na masmorra o dragão socrático. Uma Marina Costa Lobo com tempo para ajudar a comunidade a dar sentido, fosse no âmbito da história ou da ciência política, à tragédia de vermos o partido fundado por Sá Carneiro a pedinchar o apoio de Ventura e seus amigos.

Sim, o teste do pato à decadência da direita portuguesa nos últimos 17 anos está por fazer. E aposto os 5 euros que tenho no bolso como assim continuará até que o Fabril do Barreiro ganhe a Champions. Três vezes.

Em defesa do racismo

«Ao trazer para a altercação a ideia de associar à cor da pele do seu antagonista uma hipotética deformação de carácter, como se fosse uma característica inata a todos os que têm o mesmo tom de pele, o homicida de Bruno Candé Marques, factualmente, acrescentou ao ódio pelo individuo, com quem discutia não sei o quê sobre uma cadela, um preconceito racial contra os negros em geral - e isso é, como é óbvio, racismo.

O assassino talvez não tenha disparado quatro balas no corpo de Bruno Candé Marques por ele ser negro, mas usou a negritude do ator para o ferir psicologicamente durante a subida da tensão nervosa que o levou a cometer homicídio e, por isso, o quadro completo do crime não pode ser desenhado sem lhe acrescentar essa tinta estigmatizadora do racismo, que envenena a paz das nossas sociedades.

[...]

Seguindo esta lógica, se eu estiver de cabeça perdida e lançar um insulto a um negro por ele ser negro, não deixo de ser um racista.»


Pedro Tadeu – Porque há racismo no homicídio de Bruno Candé?

«Quem procura esconder o racismo que existe no nosso país dirá que tudo começou naquele momento, que uma coisa leva à outra e depois tudo se descontrolou. Ficará convencido disso quem disso se quiser convencer, pois a realidade mostra tudo de forma bem diferente.

O crime foi premeditado, o assassino regressou dias depois do desentendimento com o único objetivo: matar Bruno Candé. Para isso usou uma arma ilegal, cujo percurso ainda está por explicar. Os insultos racistas dão conta de um ódio que já era antigo, que vinha de trás, e do qual Bruno Candé não podia fugir: a cor da sua pele. Isso incomodava o assassino muito antes da cadela se ter atravessado ao caminho e é o que torna tudo diferente.»


Pedro Filipe Soares – Sim, é racismo

Servem estes dois exemplos para ilustrarmos o caso. O caso em que a problemática do racismo é tratada na comunicação social de uma forma que fornece armas e munição aos manipuladores de ignorantes, alienados e veros racistas. Tentar explicar isto ao Pedro Tadeu e ao Pedro Filipe Soares é que será missão impossível, pois eles não estão em condições de aprender. Pelo que continuarão a ser cúmplices involuntários de um fenómeno de irracionalização muito perigoso mas passível – e com urgência – de ser analisado racionalmente.

Na primeira citação, Tadeu constrói o argumento para a existência de racismo a partir do registo discursivo do assassino no momento que antecede o disparo. Ele próprio se encarrega de dar ênfase à tese: insultar alguém com referências a aspectos corporais é “racismo”. E ponto final na conversa. As palavra ditas chegam e sobram para a conclusão, não carecendo o seu texto de conhecer seja o que for a respeito de quem as proferiu para se encerrar o inquérito. Na segunda citação, Soares assume o estatuto de narrador omnisciente e revela o que se passou na subjectividade do criminoso a partir de um passado indeterminado; altura em que terá começado a premeditar a morte de Bruno Candé, garante. Não só o autor nos dá um calendário integral do processo psicológico de alguém com quem nunca sequer falou como nos serve uma versão policial sem direito à menor dúvida: a cor da pele foi o móbil do crime. Quem vier tentar pôr em causa o seu diagnóstico ficará vergonhosamente carimbado como traste que anda a “esconder o racismo”.

Ora, estes dois senhores com banca na imprensa não faziam parte das relações pessoais entre os envolvidos, não assistiram ao episódio, não pertencem às polícias e às magistraturas que estão a recolher a informação e a estabelecer a mais rigorosa versão possível. O acto de escreverem sobre o assunto, portanto, não pode estar a nascer de processos relativos ao conhecimento factual, científico, policial e judicial. Donde virá a sua opinião, se não vem da inteligência empírica por via pessoal nem das autoridades envolvidas? Vem das impressões, do senso comum, da ideologia e, especialmente, da desumanização. Parece paradoxal, posto que a retórica utilizada é justamente para lamentar e denunciar um supremo acto de desumanização que acabou com uma vida humana, mas acontece que para o fazerem estas duas figuras, representando milhares ou milhões de outras, acham-se no direito de desumanizar o assassino. Ao tratá-lo sem demora nem critério como “racista”, ao reduzirem o seu comportamento ao longo de décadas à atitude da agressão fatal num certo dia, a inerente complexidade psicológica, cívica e antropológica dessa pessoa desaparece e é substituída por uma abstracção, pela caricatura que serve os oportunistas cheios de boas intenções e satisfeitos com o espantalho disponível para despachar jornalismo de opinião.

Do outro lado estava Ventura, o oportunista só com más intenções que agradeceu a benesse e montou aquela que fica como a mais pujante manifestação política de apoio ao Chega depois dos resultados eleitorais de 2019 que o meteram no Parlamento. Vir para a rua gritar que não há racismo em Portugal comunica directa e identitariamente com a enorme maioria silenciosa cujos processos cognitivos afirmam exactamente o mesmo. E esta consciência radica nas evidências: não há racismo em nenhuma esfera da estrutura do Estado e da sua produção legislativa. Precisamente ao contrário, como comunidade escolhemos punir o racismo através do Código Penal e das instituições públicas, para além de estarmos constantemente na sociedade em campanha contra o racismo e em vigilância para detectar e castigar manifestações de tal por mais ténues que pareçam. Há uma aversão sociológica ao racismo que torna residual, e fonte de dano na reputação, a mera expressão de humor a respeito de diferenças etnográficas e antropológicas. Pelo que foi oferecido a um palhaço do calibre tóxico do Ventura um bastião invencível: Portugal não é racista, obviamente – e quão mais se atacar esta posição mais forte ela ficará.

Todavia, o racismo existe, né? É possível identificar várias, muitas, inúmeras situações que, por isto ou aquilo, entram nessa categoria, certo? Claro que sim, só que aqui também os nossos paladinos anti-racistas estão a borrar a pintura. Os conceitos de “racismo estrutural” e/ou “racismo institucional” fazem todo o sentido como instrumentos intelectuais e políticos em certos contextos onde as audiências tenham literacia e motivação suficicentes para eles serem operativos e consequentes. Não sendo o caso, perdem por completo a eficácia original e transformam-se em brechas na muralha contra o próprio fenómeno discriminatório que intentam combater. Insistir neles para comunicar com os públicos-alvo do Ventura e quejandos já nada terá a ver com a procura de soluções seja para o que for, fica apenas como uma radicalização que suscita radicalização simétrica. Porque ninguém, a começar por quem envia para o espaço público esse alarme e essa indignação, sabe como é que o racismo estrutural vai acabar sem com isso acabar a própria estrutura onde ele acontece. E ninguém sabe porque sabemos todos bem demais que o “racismo” é apenas um dos nomes que se dá à universal pulsão para o tribalismo. O tribalismo ocorre a propósito das diferenças corporais, vai sem discussão, mas igualmente ocorre a propósito de milhentas outras características humanas como a nacionalidade, a religião, a força política, o género, a idade, o estatuto social, a corporação, o clube, a geografia, as melífluas afinidades electivas – todo e qualquer elemento simbólico, todo e qualquer nexo afectivo, que se torne vector do instinto de sobrevivência.

Não é fácil encontrar um racista. Porque não é racista quem quer. Ou quem finge ser, como o Ventura. O nível de aberração intelectual a que se tem de chegar para criar uma identidade racista numa democracia da União Europeia ou implica atrofio cognitivo ou psicopatia grave. E nesta constatação há uma noção incontornável para os cultores da liberdade: o racismo não pode nunca limitar-se à esfera do discurso calhando este apontar para diferenças, sejam elas quais forem, entre grupos de humanos; o racismo tem sempre, sempre e sempre de ser visto como uma prática de perseguição a certos grupos ou indivíduos ofendendo os seus direitos humanos e o Estado de direito democrático. Isto significa que as expressões “preto de merda”, ou “cigano do caralho”, ou “porco judeu”, ou “branco filho da puta”, não provam por si só o racismo seja de quem for que as utilize. O mais provável, bem acima dos 99%, é apenas servirem para provar a imaturidade, estupidez ou miséria moral de quem assim se mostrou na sua fragilidade, na sua humanidade.

O caso Rui Pinto ou a última tentação do MP. Sempre no caminho da total alienação do Estado de Direito em Portugal.

1º Acto – Roubar um banco! Pessoalmente nada contra mas uma sociedade que não condene o roubo...

2º Acto – Roubo, chantagem e tentativa de extorsão a um fundo de investimento, no caso a Doyen Sports. Mais conhecido como Doyen a quem doer para outro trafulha como o BdC. Vale apreciação semelhante.
Mais uma série de roubos e acessos ilegítimos e violação da privacidade e sabotagem informática a uma série de sociedades comerciais e uma sociedade de advogados e até imagine-se uma das principais Instituições da República. Nomeadamente da área da Justiça, nomeadamente a PGR.

3º e espera-se derradeiro Acto – Rui Pinto vai finalmente começar a ser julgado em Tribunal por quase uma centena de crimes, a partir do dia 4 de Setembro.

Até lá e como de um dia para o outro alguma magistratura do MP e a própria PJ conseguiu lavar por completo a imagem de um ladrão informático e transformá-lo em mais um justiceiro da luta contra a corrupção. E desta feita ao serviço do Estado?! Quando o MP já o trata como uma testemunha do Estado protegida e arrependida, dos seus próprios actos criminosos aliás. E a PJ já o trata como colaborador – ainda a fazer lembrar o fantasioso FBI Tom Hanks no “Catch Me If You Can” do Spielberg com Di Caprio - deve estar para breve o anúncio da nova categoria aí como alto oficial da mais alta pantomina da Gomes Freire. A quem até a magistratura judicial, por pressão, já foi obrigada a vergar-se. E que diga ele ou os seus, entretanto contratados advogados, o que disserem hoje, é notório por onde começou todo seu empreendedorismo. Ou como era costume dizer, a sua motivação criminal – pelo belo do proveito próprio. Já que não consta que alguma vez o fruto do seu primeiro saque, que o próprio banco se viu obrigado a esconder, tenha beneficiado mais alguém além do próprio. E a sua namorada ao que parece. Também parece que a extorsão já contemplava um advogado do mesmo saco. Do interesse público que caracteriza os whistleblowers é que nem sinal. E quando numa sociedade os princípios começam a justificar quaisquer meios já deixamos de viver num verdadeiro Estado de Direito Democrático.

Aliás, ao pé disto a inversão do ónus da prova, ainda recentemente chumbada na AR, era uma brincadeira de crianças. E o que se seguirá? Recomeçar finalmente a tão ambicionada recompensa de todo o género de bufaria - que até a mãe vendiam - de forma oficial e à velha maneira da António Maria Cardoso? Ou talvez a demissão total da PJ de toda a investigação criminal, económica e financeira? Ou a demissão total do MP da obrigação de defender sempre a legalidade democrática e os interesses que a lei determina? Logo agora, que nunca têm meios para nada e ainda assim parece que finalmente conseguiram perceber o que ainda ninguém tinha percebido. Ou seja, que os capitalistas do velho regime afinal nunca meteram 1 tostão no business as usual além dos Milhões todos que o Cavaco generosamente lhes ofereceu. E alguém tinha que pagar as reprivatizações. Várias vezes. Ainda assim parece que têm algum pudor em chamar-lhe um esquema em pirâmide. Que foi o que o BES sempre foi. Uma pirâmide de dívida até ao dia… Neste caso, até ao crash, para sermos inteiramente francos. Não, espera lá! Parece que isso tudo já aconteceu.

Até a MJM já veio juntar-se à festa como sempre. Para depois algures mais à frente também ela se mostrar novamente uma verdadeira arrependida. Desta feita para dizer que lhe faz muitas impressão ouvir um hacker em 2019 a repetir o que ela já tinha dito em 2002, que: “O futebol é um mundo de branqueamento de dinheiros sujos com promiscuidades políticas indesejáveis”. Futebol com o qual o hacker colabora mas adiante. E nós perguntamos: - e o que é que o MP e a PJ fizeram entretanto? Ou também andaram muito ocupados, com os meios que nunca têm, a tentar mudar o regime?

Investiguem-se e criminalizem-se todos os crimes pff. Ou será que já é pedir muito?

P.S. Como sempre aberto a todas as concordâncias e a todas as discordâncias mas poupem-me a “ingenuidade” dos doutos e do estatuto whistleblower. Uma ideia que só surge na mente do meliante quando já acossado pela justiça. Enquanto foi caindo o dinheiro dos e-mails nunca se lembrou de denunciar quem efetivamente beneficiou da sua divulgação. Depois até tinha alguns documentos da PLMJ mesmo ali à mão. Deixa lá criar uma cortina de fumo e passar por bom samaritano. Enquanto também ia controlando o andamento da investigação através da violação da privacidade de vários magistrados e outros tantos elementos da Administração Interna. Através da violação informática da própria PGR!

Rui Pinto só se move por interesses pessoais como até a juíza de instrução fez questão de deixar bem explícito na acusação. De resto, há de tudo no mercado. Parece que o “grande” constitucionalista Bacelar Gouveia - mais um com ligações ao génio do BdC – também acabou de descobrir alguns conceitos novos na nossa Constituição como, por exemplo, “Estados Regionais”. Para satisfazer a ambição dos clientes das ilhas do costume. Desta feita em acabar com integralidade do nosso território marítimo. Já com os olhos em algum lucro dos minérios no fundo do “mar dos Açores”. E todos sabemos no que toca aos governos autónomos das ilhas as transferências de recursos só podem fazer sempre um caminho. O de casa. E juristas com pareceres consoante os clientes é o que há mais no mercado. É mesmo para isso que são pagos. Em mais um excelente texto do PTP, completamente perdido no Obs. A apelar ao último sentido de Estado do PR. Depois do falhanço clamoroso da AR!

 

Repórter P

Começa a semana com isto

__

Joe Rogan não é o melhor entrevistador do mundo mas tem o mérito de deixar falar os convidados. No caso, só se perde o que Daryl Davis não se lembrou de dizer.

Estamos perante um excêntrico que fez – continua a fazer – milagres? Sim. Olhar a besta nos olhos e ver no seu interior a humanidade aprisionada no medo e no ódio é miraculoso. A mistura de empatia e coragem fica como o supremo desafio ontológico ao absurdo cósmico onde somos consciências efémeras. E coragem e empatia é o que Daryl Davis tem em tal abundância que o mais provável é não conseguirmos dar outro exemplo igual atendendo ao seu tempo histórico e contexto social.

Comparações à parte, prefiro definir a sua pessoa de outra maneira, talvez ainda mais lírica: eis um americano puro, de raça.

Revolution through evolution

Experiencing childhood trauma makes body and brain age faster
.
Placebos prove powerful… even when people know they’re taking one
.
To bond with nature, kids need solitary activities outdoors
.
Lava tubes on Mars and the Moon are so wide they can host planetary bases
.
The News Junkies of the Eighteenth Century
.
Whiteness of AI erases people of colour from our ‘imagined futures’, researchers argue
.
Journalists’ Twitter use shows them talking within smaller bubbles
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Porque não há locutores ou apresentadores negros na TV portuguesa?

Muito mais do que mil manifs de rua ou inflamados discursos “anti-racistas”, vale a análise séria dos fenómenos do preconceito racial e, sobretudo, das práticas quotidianas de discriminação racial em Portugal, pondo com rigor o dedo na ferida e apresentando, com serenidade e inteligência, propostas de reformas viáveis e realistas. O racismo propriamente dito também existe em Portugal, mas, para combater as suas principais expressões, que são principalmente casos de polícia, temos a lei penal e a Constituição.

Um dos casos mais patentes de preconceito e discriminação racial é, em Portugal como numa nação tão multirracial como o Brasil, a invisibilidade dos afro-descendentes na comunicação audio-visual, muito especialmente na informação, programas de debate e talk-shows. Ora a televisão é (ou podia ser) um dos meios mais eficientes, se não o mais eficiente, do combate ao preconceito e à discriminação racial.

Ao contrário de um país dito “racista” como os EUA, os canais de televisão portugueses (e brasileiros), públicos ou privados, não têm locutores de notícias, comentadores, entrevistadores ou pivôs de talk-shows negros, nem sequer apresentadores de programas de entretenimento, desporto ou meteorologia, salvo raríssimas excepções. A RTP 2, que quase ninguém vê, apresenta de longe em longe filmes de realizadores africanos e acha cumprida a sua missão. Se quisermos ver negros que não sejam atletas, futebolistas ou músicos nos canais de televisão de grande público, a solução é ver a CNN, o 60 Minutes da CBS, filmes americanos, séries americanas, inglesas, francesas ou escandinavas, telejornais franceses ou até alemães. Até a NHK japonesa e a CGTN chinesa têm apresentadores negros.

A RTP África, onde predominam os profissionais portugueses brancos, é um curiosíssimo canal onde alguns jornalistas afro-descendentes também podem fazer trabalhos destinados… aos africanos dos PALOPs (ia quase a dizer: aos povos das colónias). Na RTP 1, 2 e 3, que eu saiba, não há jornalistas negros a fazer programas para portugueses (brancos ou negros) e sobre a realidade portuguesa (negra ou branca). Como se esses jornalistas — se é que os há por lá — não fossem também portugueses e não tivessem legitimidade para trabalhar e falar sobre a sociedade, a política ou a cultura portuguesa. O preconceito consciente ou inconsciente está aqui presente em toda a sua força.

A situação em Portugal nas últimas décadas melhorou quase exclusivamente em alguns programas de entretenimento, com a participação de actores e outros profissionais afro-descendentes. Até no tempo do Estado Novo havia um locutor de notícias da RTP que era negro. Dir-se-á que era propaganda conveniente no tempo da guerra colonial, mas depois do 25 de Abril os locutores negros simplesmente desapareceram da televisão. Interessante efeito da descolonização!

Tudo isto e muito mais é exposto numa tese de mestrado apresentada há dez meses no ISCTE por Helena Patrícia Vicente, “Presença e percepções dos profissionais negros nos programas de informação e entretenimento na televisão portuguesa”, baseada numa investigação que abrange o período 1992-2017 e que se pode ler aqui. Faz o diagnóstico e apresenta propostas e estratégias para uma mudança. Não me lembro, na minha inocência, de a autora ter sido entrevistada por nenhum canal da televisão portuguesa sobre o tema da sua tese…

O caso paradigmático em Portugal do excesso de informação

Ou será antes do excesso de desinformação? Causada pela escassez de notícias para tantos canais de televisão, públicos e privados meramente de notícias em Portugal. E agora até pode ser relacionado com a silly season mas a verdade é que não conhece melhoras algumas durante o resto do ano. Porque neste caso vamos só falar do que as televisões e as centenas de especialistas que se juntam sempre à festa conseguem fazer em meia-dúzia de dias a qualquer facto. E nos últimos quatro ou cinco dias foi paradigmática a forma como conseguiram tratar um ventilador hospitalar e um acidente ferroviário.

Como aliás acontece por norma com qualquer acidente mais bizarro em que as televisões também por norma passam os dias seguintes à procura da mesma bizarria por todo o globo até ficarmos todos com a sensação de que afinal não aconteceu bizarria nenhuma. Conseguindo por essa via distorcer completamente a própria realidade. O que chega a parecer o principal objectivo muitas vezes.

No pico da pandemia, mais precisamente no dia 9 de Maio, foi anunciado que o CEIA (Centro para a Excelência e Inovação para a Indústria Automóvel), um investimento público de excelência que visa sobretudo ligar mais a Investigação e a Universidade à Indústria, com sede em Matosinhos, estava pronto para entregar os primeiros 100 ventiladores hospitalares portugueses aos hospitais portugueses como é óbvio. Portanto o CEIA tinha conseguido criar e produzir em tempo record um equipamento tecnologicamente muito evoluído, no caso o ventilador Atena, que visava essencialmente salvar vidas no pico da pandemia. O que já tinha aliás acontecido em Portugal em relação a outros bens pelo qual as maiores potências ainda se digladiavam no mercado, como as máscaras e os kits para testes. Depois de vários experts também já terem afiançado que Portugal nem nunca conseguiria produzir uma simples zaragatoa, que envolvia matérias primas de várias nações e por aí em diante.

Logo na altura também foi noticiado que o licenciamento CE, independentemente da qualidade ou nacionalidade do ventilador, demoraria sempre vários meses e por essa mesma razão, o Infarmed tinha anuído em conceder uma licença extraordinária também em tempo record. Que abria portas a que doravante já ninguém morreria por falta de ventilação artificial em Portugal, com o Atena como equipamento de recurso nos hospitais. O que sabemos que infelizmente aconteceu em muitos países. E que o próprio CEIA já estava entretanto a produzir outro ventilador mais evoluído, o Atena II. Hoje, depois de não sei quantas horas de noticiários e não sei quantas centenas de especialistas depois, o ventilador Atena já só serve para negros e zucas. O que é rigorosamente falso! Devemos regozijarmo-nos sim pela controle da pandemia em Portugal, onde ao contrário dos nossos vizinhos Itália e Espanha, nunca se fez sentir a falta ventiladores nos hospitais. Como nos devemos regozijar pelo excelente trabalho do CEIA.

No último sábado também fomos todos despertados para um acidente ferroviário entre um comboio de passageiros e uma máquina de manutenção, no troço entre Soure e Leiria, que viria a causar duas vítimas mortais. Precisamente os dois profissionais da Dresina onde o Alfa viria a embater num dos troços da via-férrea mais modernos do país. Aberto o respectivo inquérito e ainda sem relatório final mas já com a certeza que a Dresina não terá respeitado um sinal vermelho, mais uma vez começamos a ser bombardeados por centenas de especialistas aí para a 10ª redundância do sistema de segurança ainda por implementar nalguns troços da ferrovia em Portugal. Não obstante toda a consternação do país e sobretudo toda a falta de investimento nas últimas décadas na ferrovia em Portugal devia haver limites para tudo. Às tantas pergunta a flausina da RTP 3, toda embalada, hoje a um expert: – Portanto mais um acidente pré-anunciado? E responde o expert: – Eu espero que não e até parece que as vítimas mortais são o potencial infractor que não respeitou um sinal vermelho. Desta vez saiu-lhe mal.

E podia continuar com as viseiras da PSP. Quando foi o próprio Magina da Silva a anunciar a sua compra, depois da respectiva consulta ao mercado, num Prós e Contras da RTP 1. Fica também sobretudo a ideia que a comunicação social hoje, com a pandemia mais controlada, já deixou de atribuir qualquer carácter excepcional à pandemia. Se é que algum dia chegou a atribuir. E como descobriu o escrutínio da corrupção há tão pouco tempo, agora primeiro dispara e depois faz as perguntas. E o último a sair que feche a porta.

Até Rui Rio, em quem ainda hoje aqui esgalhei no post do Valupi que estava coberto de razão, também aqui há algum tempo conseguiu pronunciar qualquer coisa como: – “A crise das instituições também passa pela forma como a comunicação social, muitas vezes, as trata publicamente.” No seu discurso à nação onde defendeu que a forma como a Comunicação Social exerce muitas vezes a sua função em Portugal é um dos maiores problemas do regime. O problema de Rio é que tirando umas farpas certeiras à Justiça e à Comunicação Social…

Outro facto que é de salientar é o pluralismo da informação em 6 ou 7 canais de televisão em Portugal. Mais perto de um regime ditatorial. Fica sempre a ideia que alguém lança o isco e… não deve ser nenhuma agência de comunicação pública.

Repórter P

Revolution through evolution

How women and men forgive infidelity
.
Negotiating with Your Kids
.
Lithium in drinking water linked with lower suicide rates
.
Human sperm roll like ‘playful otters’ as they swim, study finds, contradicting centuries-old beliefs
.
Survey results: Having a higher purpose promotes happiness, lowers stress
.
Psychology of Masking: Why Some People Don’t Cover Up
.
Laughter acts as a stress buffer – and even smiling helps
.
Continuar a lerRevolution through evolution

Lapidar

Rui Rio, o homem sério

__

NOTAS

– Esta entrevista de Rui Rio na RTP está a ser reduzida à declaração que abre a porta para um qualquer tipo de futura aliança política do PSD com André Ventura e/ou o Chega. Justifica-se a hipertrofia daqueles poucos segundos de paleio pois estamos perante um abalo fundacional num partido nascido com o 25 de Abril, somos as testemunhas perplexas de uma traição que lhe saiu inconscientemente do bestunto pela força cega e burra do egocentrismo que o consome – e que agora tanto os seus chocados apoiantes como os seus oportunistas detractores estão inevitavelmente a transformar num terramoto.

Porém, o resto da entrevista igualmente merece atenção. Porque é um desastre, para o qual o Vítor Gonçalves contribuiu com genuína vocação. Fica-se com a ideia de que Rio está em mutação acelerada para iniciar uma carreira de humorista no dia a seguir às próximas eleições legislativas, ou talvez logo na própria noite eleitoral ao tomar conhecimento dos resultados. A sua constante preocupação em se colocar às cavalitas de si próprio é um espectáculo que realmente tem piada (da primeira vez em que tropeçamos nele) mas que devia alertar as pessoas que lhe são mais próximas, família e amigos, para a necessidade de elaborarem um plano do foro psicoterapêutico para ajudá-lo ao longo da fase seguinte da sua vida.

– Rio respondeu ao alvoroço refugiando-se em tábuas e culpando quem lhe fez a pergunta. Foi por causa dela que ele teve de dizer algo que, explica agora, não era o que queria ter dito calhando não lhe terem feito essa tal pergunta. Pelo que o seu destino político de curto prazo está neste momento nas mãos dos jornalistas. Se mantiverem o assunto na agenda o homem não aguenta porque só tem duas opções: ou começa a justificar como é que vai ter como parceiros aqueles que não se revêem na defesa dos direitos humanos e no Estado de direito ou acaba por reconhecer que não domina por completo o que lhe sai da boca, especialmente em matérias onde é aconselhado ter algum gasto cognitivo para não assustar as pessoas.

Entretanto, o palhaço que ao lado de Passos já tinha prometido que Loures ia deixar de ser a “prostituta barata de Lisboa” virou-se agora contra a “dama de honor do Governo socialista”, a qual também se chama Rui Rio. Há aqui um padrão. Este Ventura sabe coisas que nós desconhecemos e parece bem focado no intento de dificultar a vida a certas senhoras. Não contente, convidou o presidente do PSD para aparecer numa próxima reunião domingueira onde se vai andar de braço estendido a saudar este e aquele. Moral do episódio: Rio conseguiu, com uma singular resposta numa entrevista aparvalhada, que Ventura ganhasse altura e força para o tratar como um farrapo, ao pontapé – e mais alcançou promover uma manifestação do Chega de repente transformada na acção de um potencial aliado do PSD que se está a fazer de difícil. Uma jovem força política que finge fugir, gaiata e namoradeira, do respeitável senhor de idade. A dimensão grotesca da coisa merece umas centenas de teses de mestrado e doutoramento.

– Esta é a direita decadente no seu esplendor. Passos Coelho foi buscar Ventura precisamente para ensaiar em Loures uma retórica abertamente racista e xenófoba sob a chancela do PSD. Caso tivesse sucesso, Passos seria elogiado pela ousadia da estratégia e a fórmula poderia ser repetida em demografias e eleitorados semelhantes. Ao tempo, toda a comunicação social foi cúmplice da operação, em grande parte por esta estar na sua quase totalidade na mão accionista e editorial da direita. Por isso não houve qualquer escândalo em ver o patrocínio do partido fundado por Sá Carneiro a uma figura abjecta em todos os aspectos que tenham a ver com a política e a cidadania, como é este cada vez mais histriónico e debochado demagogo de taberna.

Ventura é o corolário de 15 anos em que a direita partidária portuguesa desistiu de competir no plano das visões e projectos políticos e passou a querer ganhar o poder através das campanhas negras e das golpadas judiciais, preferindo a política da terra queimada ao interesse nacional e ao bem comum. Reconhecendo-se politicamente inferior a Sócrates e ao PS, temendo que Sócrates superasse Cavaco em longevidade governativa e daí saltasse para a Presidência, desesperando com o desabar do seu império bancário, agarraram-se à pulsão assassina de quererem aprisionar – no mínimo, destruir e afundar nos tribunais durante anos e anos – os de outra forma invencíveis adversários políticos.

Agora o génio está fora da garrafa. A tradição de defesa intransigente do Estado de direito, que tanto os conservadores como os liberais na direita sempre defenderam modernamente como fundamento sagrado da vida em comunidade, perdeu-se e não se vê ninguém capaz de a recuperar. Ninguém. Não o Rui Rio que prometeu recuperar para o partido a dignidade de acabar com a judicialização da política e que, acossado e cobarde, nela mergulhou na campanha eleitoral de 2019. Nem sequer Marcelo Rebelo de Sousa, que há uns tempos recebia Ventura no palácio de Belém e o tratava com condescendência e paternalismo, esperando domar o animal com chazadas na poltrona e bacalhaus na varanda. O retrato é de derrelicção, não se vislumbra quem possa, a partir desse terreno onde o Estado de direito democrático suporta e supera todas as divergências, vir a refundar a direita portuguesa de forma a que possa regressar à cidade da decência, da coragem e da liberdade.

O estranho caso de António Barreto

António Barreto que passou os últimos anos a verberar contra a corrupção e todos os seus discípulos como o tráfico de influência, o clientelismo, o nepotismo, o favorecimento indevido… até à cunha, foi nas últimas semanas uma das poucas vozes na imprensa escrita a tecer loas a Carlos Costa. Quando terminou o mandato como Governador do BdP. E depois na Grande Entrevista na televisão pública teve oportunidade de desenvolver mais o tema com o amigo Vitor Gonçalves. Um direitola travestido de jornalista. Que a par com Sandra Felgueiras, lideram ambos o ranking de mandar a ética e a deontologia da profissão às malvas semana após semana na televisão de todos nós. Mais parciais era impossível.

E precisamente na semana em que a UE aprovou um fundo histórico para a retoma das economias no pós-pandemia e em que Portugal ficou a conhecer o seu envelope financeiro ou a bazuca como lhe chama o PM, resultante de um plano em que pela primeira vez na história a UE emitirá títulos conjuntos de dívida, maior frete era impossível. E foi nestas circunstâncias, para lá de aziado, que Vitor Gonçalves optou por chamar alguém do Governo para sei lá, discutir uma tradicional muito fraca percentagem de aproveitamento de fundos europeus em Portugal como se diz por aí. Quando na verdade até somos o país que executa mais fundos. Perdão. E foi nestas circunstâncias, para lá de aziado, que Vitor Gonçalves optou por fazer um frete a um amigo na luta contra o favorecimento de amigos (??). Precisamente um dos grandes assuntos da vida de António Barreto nos últimos largos anos. Para entre muitas outros temas neoliberais, como a pedinchice, falar sobretudo do ex-Governador do BdP. Que afinal também é um amigo pessoal de António Barreto. Portanto uma mesa de café mais entre amigos era impossível na televisão pública. Que também é para o que serve a Grande Entrevista. E ainda deu para promover o novo livro de António Barreto. Agora mais na área da investigação cor-de-rosa. Onde muito provavelmente aproveita para tratar os pobrezinhos e temas como a caridadezinha com o mesmo tom paternalista da esposa, Maria Filomena Mónica.

Mas como já adiantei, António Barreto começou logo por abordar o tema do ex-Governador com uma declaração de interesses, afinal António Barreto é amigo pessoal do ex-Governador. “Que foi muito mal tratado nos últimos anos em Portugal e não merecia porque afinal é um homem muito honrado e de certeza um dos melhores gestores da coisa pública que Portugal já conheceu. E que foi Governador numa época muito difícil para o BdP e por aí em diante.” Em primeiro lugar e se esquecermos por alguns momentos o frete do amigo Vitor Gonçalves e da RTP, fica sempre bem defender um amigo. Sobretudo quando esse amigo está no chão. E ainda mais depois da auditoria do TdC ao departamento de resoluções bancárias do BdP. Mas eu também nunca vi ninguém chamar ladrão a Carlos Costa. Quanto muito um lambe botas incompetente, alguém demasiado reverente, sem tomates. E que se tivesse um pingo de vergonha na cara nunca aceitaria partir para um 2º mandato depois do desastre do primeiro como manga-de-alpaca. Nomeadamente nos custos para o país das resoluções do Banif e do BES. Porque na verdade muito da época muito difícil para o BdP de que fala o Barreto tem responsabilidades do próprio ex-Governador. Sobretudo pelo que nunca fez. Também é verdade que Carlos Costa refugiou-se sempre na falta de legislação que António Barreto também abordou e que precisou aliás de ser aprovada, para remover Ricardo Salgado da presidência do BES. Como se um simples telefonema entre Homens, com tudo o que o ex-Governador já sabia, não produzisse os mesmos resultados. Sobretudo se levarmos em conta outra informação adicional que António Barreto também confirmou ao amigo Vitor Gonçalves. Que afinal o Governador sempre esteve a par de muitas das ilegalidades. Ainda ninguém tinha percebido.

Sejamos claros, Carlos Costa podia e devia ter afastado a família Espírito Santo do BES, inclusive muito a tempo de ainda salvar um banco tão importante para a economia portuguesa. Não o fez porque nunca teve tomates para isso. Que já teve de sobra para cometer outro crime, como a passagem de informação confidencial, que o próprio Cavaco fez questão de confirmar ao vivo. Mas o verdadeiro assunto do post não é Carlos Costa mas António Barreto. Do qual só se pode extrair que afinal Sócrates – o principal tema que tem ocupado a cabeça do Barreto nos últimos anos – que à primeira vista até soube escolher muito bem os amigos a nível financeiro, nunca teve a mesma habilidade para escolher os amigos certos na principal área da vida política. E como tal ainda se paga muito caro em Portugal… Como acabou de o comprovar agora António Barreto na RTP. Ou a vida diária da casta dos Antónios Barretos que não admite cá misturas com chicos espertos. Isto claro depois dos laivos mais à esquerda da mocidade onde começou logo por boicotar a Reforma Agrária e já como Ministro ainda tentou reformar a nossa agricultura com os bons resultados que também se conhecem. Quem diria que um grande investigador da vida portuguesa – não confundir com a Catarina Portas – inclusive com uma passagem pela prestigiadíssima Fundação do Pingo Doce e mais um ícone português contra qualquer tipo de cunha afinal foi à RTP para tentar lavar a imagem de um amigo do peito?! No lugar do livro do próprio recomendava-lhe para as férias a recente auditoria do TdC à Autoridade de Resolução de Bancos do BdP.

Repórter P

Francisco Assis, francamente

Graças ao Público, de rajada o PS foi transformado no camarote da dupla Statler e Waldorf. No dia 25, Sérgio Sousa Pinto revelou à deliciada Ana Sá Lopes que isto da política é uma maçada e que o PS é uma piolheira. Tal como aconteceu ao Pacheco, também este cavalheiro ganhou alergia ao circuito da carne assada. Se lhe continuarem a dar uma cadeira no Parlamento, mas nas filas de cima, e umas colunas no Expresso para desanuviar, isso será uma felicidade olímpica onde se poderá dedicar sossegado e altivo a ler os clássicos, a varejar nos pós-modernos e a epater les burgessos com bojardas como essa de lançar Francisco Assis como potencial candidato a secretário-geral dos socialistas quando Costa saltar para outras cavalgadas. No dia 26, o convocado Assis surgiu embalado a ultrapassar o camarada Sérgio pela direita. Afundando-se no regaço de Maria João Avillez, esta operática figura lembrou-se de reescrever duas histórias: a do País e a sua.

Avillez, assumindo às escâncaras o papel de mandatária do regresso de Passos à liderança do PSD, teve um momento inigualável na carreira pois conseguiu levar um socialista com o percurso e protagonismo do recém-eleito presidente do Conselho Económico e Social a deixar para a posteridade o seguinte:

MJA - Concluindo, aceitou falar de Pedro Passos Coelho. Em duas palavras, quem é?
FA - Convicção e determinação, o que não é negativo. Tem méritos e tem defeitos. Usei o "intransigente" mas não significa sectarismo - é a personalidade dele. Não nego nenhuma das divergências que tive com ele, em muitas áreas, mas acho francamente que o País lhe deve alguma coisa. Pela forma como governou naquele contexto, sempre com a mesma serenidade e seriedade e absolutamente convicto que estava a servir o País. É uma personalidade que deveria ser respeitada e valorizada.
MJA - Não é?
FAC - Deveria ser muito mais.

Termina assim um exercício onde uma suposta jornalista faz uma suposta entrevista a um suposto socialista. Mas, a quem calhar ler o resultado, aterra-se no meio de uma operação de campanha onde Passos Coelho é apresentado e legitimado como o salvador da Pátria que, incompreendido e escorraçado pelos malvados esquerdalhos depois do seu sacrifício heróico entre 2011 e 2015, vive hoje solitário e orante numa escura floresta ou longínquo deserto (talvez nos dois locais ao mesmo tempo, visto estarmos a falar de um ser que já não toca com os pés na terra). Assis não só papou isto tudo como vinha preparado para se juntar à festa. Os trechos seguintes são inenarráveis de sabujice, santificação em curso e puro delírio:

FA - Aquilo que talvez mais aprecie na sua figura: foi um homem que pensou que era possível estabelecer com o País uma relação, não com base no discurso da ilusão, ou até de um discurso de esperança vã - que muitas vezes se faz - mas apresentando ao País aquilo que sabia serem sérias dificuldades. E nunca as trocando pela oferta de um caminho fácil. Há um amigo meu - uma personalidade interessante do País - que me dizia, aqui há tempos, que o Passos Coelho foi dos poucos políticos que o tratou como um adulto, os outros têm tendência para o tratar como uma criança. O que ele queria dizer é que os políticos têm tendência para produzir discursos encantatórios, correndo o risco de gerar a grande desilusão. Passos Coelho não se preocupou muito com isso. Fez o discurso das dificuldades e dos problemas. [...] Deliberadamente não semeou esperanças vãs e, hoje conhecendo-o um pouco melhor - a vida levou a que isso ocorresse nos últimos anos - acho que não é capaz, até por uma questão de reserva interior, de produzir esse tipo de discursos. Esteve sempre mais preocupado em explicar às pessoas as dificuldades reais do País, em vez de as adocicar. [...] Do que não tenho dúvidas é que agiu com uma grande seriedade, ocupando-se em libertar o País da situação em que estava, em vez de passar o tempo a criticar o Governo anterior... Nunca fez isso. E hoje é um homem praticamente em silêncio. São características um bocadinho incomuns na política que fazem dele uma personalidade especial na nossa vida política. [...] Passos Coelho é portador de um passado que lhe permite imaginar um futuro.

Que cagada é esta? Que vendaval de “factos alternativos” é este? Que monumental bebedeira apagou da sua cabeça a responsabilidade de Passos no chumbo do PEC IV, na campanha eleitoral mentirosa como nunca se tinha visto em democracia que se seguiu, na fúria destruidora e fanática do “ir além da Troika”, nos ataques ao Tribunal Constitucional, no desprezo com que provocou sofrimentos e misérias em milhões de portugueses só para o FMI ver e lhe dar medalhas de bom comportamento, na politização da Justiça e judicialização da política com que perseguiu e castigou companheiros de Francisco Assis, na constante e maníaca diabolização de Sócrates e dos seus Governos logo a partir do começo de 2012, na entrega de Portugal a preço de saldo ao domínio estrangeiro para poder aparecer com o retrato da “saída limpa”, no aproveitamento de um problema na liderança no BES para uma vingança pessoal que causou um cataclismo financeiro e social, e na forma como se preparava para continuar com a demência selvagem da “austeridade salvífica” caso continuasse a governar?

A internet está cheia de recordações que ilustram como Francisco Assis começou a desvairar a partir da derrota contra Seguro em 2011. De lá para cá, as suas contradições só se têm vindo a agravar, os seus erros de análise sobre a situação política com Costa a governar atingindo o paroxismo da estupidez, chegando a este grau prodigioso que a entrevista ilustra. Pelo que vou só deixar três exemplos da flexibilidade mental, e moral, de quem talvez devesse pensar seriamente em mudar de partido:

Francisco Assis vê na política do PSD práticas do Estado Novo2014

Assis acusa Passos Coelho de praticar política «trágica»2014

“Não pode haver compromissos com esta direita extremista”2015

Assis, francamente, não tens mesmo a noção?

Muitas questões são assim

«[…] o que esta carta faz, ao afirmar que há menos liberdade discursiva e de debate hoje, é fazer de conta que antes não havia grupos inteiros de pessoas “canceladas”, sem direito a voz ou a sequer se autonomearem, e que esse cancelamento, derivado de estruturas relacionais de poder que se perpetuam, não continua a subsistir.»

Embora falar de “cancel culture”, então

Fernanda Câncio tem razão nesta leitura da carta A Letter on Justice and Open Debate porque a omissão que aponta permite-lhe considerar que tal não é inocente, antes merecendo ser denunciado na sua positividade: os autores estarão a ser cúmplices de “cancelamentos” passados e presentes no acto mesmo de protestarem contra o fenómeno posto que não se enquadram nesse contexto retrospectivo e comparativo no manifesto publicado. Esta razão que invoca e desenvolve nasce do seu activismo incansável na defesa de minorias e direitos humanos, do seu combate admirável no espaço mediático, e ao sol e à chuva, promovendo a participação cívica contra as mais graves formas de discriminação.

Contudo, não tem a razão toda – nem a melhor razão. Os autores da carta visada estão focados noutra problemática que é absolutamente legítima. Existe, realmente, um crescente (medido anedoticamente, caso faltem as estatísticas) activismo iliberal nas instituições académicas em diferentes partes do mundo que começou há vários anos e se espalha para outras esferas sociais; talvez como consequência do frenesim emocional introduzido pela invasão das comunicações digitais nas gerações que cada vez mais cedo constroem a sua sociabilidade nelas e a partir delas, à mistura com uma generalizada e profunda iliteracia política. O imediatismo, fragmentação e impulsividade das trocas digitais escritas radicaliza e afunila a cognição, levando a essa cultura de permanente, epidérmica e inconsequente indignação. Desabando as grandes estruturas políticas e suas narrativas com que se fez a travessia ideológica dos séculos XIX e XX, a necessidade de imersão na cidade leva à mobilização contra as “impurezas”, as nódoas na camisa não passarão. Ora, tal é nefasto, pouco importando a sua boa intenção original, porque colide com os valores que têm guiado todas as batalhas do passado que a Fernanda Câncio está a convocar na sua crítica. Ceder ao maniqueísmo em nome da protecção daqueles que são suas vítimas ao longo da História corresponde a um atrofio científico e intelectual. Ou seja, assinar a tal carta em nada de nadinha de nada impede que se durma o sono dos justos relativamente ao que mais importa na dignificação de todos os seres humanos sem excepção e no compromisso de continuar a dar o melhor de si nesse ideal. Porque é de liberdade que se fala, é a liberdade que nos une contra o poder opressivo de ontem, hoje e amanhã.

Pelo que há muitas questões assim. Onde quem está no mesmo lado da barricada fica costas com costas.

Gente séria – e que sabe fazer contas – é outra coisa

"O que no passado tivemos e que não deveria voltar a repetir-se, e não vai voltar a repetir-se, é serem os contribuintes a serem chamados à responsabilidade por problemas que não foram criados pelos contribuintes, por isso é natural que sejam os accionistas e a dívida subordinada, nos termos da nova legislação, a responsabilizarem-se pelas perdas que venham a ocorrer".

"[A solução] é aquela que oferece, seguramente, maiores garantias de que os contribuintes portugueses não serão chamados a suportar as perdas que, neste caso, respeitam pelo menos a má gestão que foi exercida pelo BES".

Passos Coelho

"A solução de financiamento encontrada – um empréstimo do Tesouro ao Fundo de Resolução a ser reembolsado pela venda da nova instituição e pelo sistema bancário – salvaguarda o erário público".

"Os contribuintes não terão de suportar os custos relacionados com a decisão tomada hoje. A nova instituição será detida integralmente pelo Fundo de Resolução".

"Aconteça o que acontecer ao Novo Banco, [o Estado] não vai ser chamado a pagar eventuais prejuízos. Isso tem de ficar muito, muito claro".

Maria Luís Albuquerque

"A medida de resolução [para o BES] agora decidida pelo Banco de Portugal, e em contraste com outras soluções que foram adoptadas no passado, não terá qualquer custo para o erário público, nem para os contribuintes".

Carlos Costa

"A autoridade de supervisão, entre as alternativas que se colocavam, escolheu aquela que melhor servia o interesse nacional e que não trazia ónus para o contribuinte".

Cavaco Silva

__

Fonte

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório