Lapidar

Rui Rio, o homem sério

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NOTAS

– Esta entrevista de Rui Rio na RTP está a ser reduzida à declaração que abre a porta para um qualquer tipo de futura aliança política do PSD com André Ventura e/ou o Chega. Justifica-se a hipertrofia daqueles poucos segundos de paleio pois estamos perante um abalo fundacional num partido nascido com o 25 de Abril, somos as testemunhas perplexas de uma traição que lhe saiu inconscientemente do bestunto pela força cega e burra do egocentrismo que o consome – e que agora tanto os seus chocados apoiantes como os seus oportunistas detractores estão inevitavelmente a transformar num terramoto.

Porém, o resto da entrevista igualmente merece atenção. Porque é um desastre, para o qual o Vítor Gonçalves contribuiu com genuína vocação. Fica-se com a ideia de que Rio está em mutação acelerada para iniciar uma carreira de humorista no dia a seguir às próximas eleições legislativas, ou talvez logo na própria noite eleitoral ao tomar conhecimento dos resultados. A sua constante preocupação em se colocar às cavalitas de si próprio é um espectáculo que realmente tem piada (da primeira vez em que tropeçamos nele) mas que devia alertar as pessoas que lhe são mais próximas, família e amigos, para a necessidade de elaborarem um plano do foro psicoterapêutico para ajudá-lo ao longo da fase seguinte da sua vida.

– Rio respondeu ao alvoroço refugiando-se em tábuas e culpando quem lhe fez a pergunta. Foi por causa dela que ele teve de dizer algo que, explica agora, não era o que queria ter dito calhando não lhe terem feito essa tal pergunta. Pelo que o seu destino político de curto prazo está neste momento nas mãos dos jornalistas. Se mantiverem o assunto na agenda o homem não aguenta porque só tem duas opções: ou começa a justificar como é que vai ter como parceiros aqueles que não se revêem na defesa dos direitos humanos e no Estado de direito ou acaba por reconhecer que não domina por completo o que lhe sai da boca, especialmente em matérias onde é aconselhado ter algum gasto cognitivo para não assustar as pessoas.

Entretanto, o palhaço que ao lado de Passos já tinha prometido que Loures ia deixar de ser a “prostituta barata de Lisboa” virou-se agora contra a “dama de honor do Governo socialista”, a qual também se chama Rui Rio. Há aqui um padrão. Este Ventura sabe coisas que nós desconhecemos e parece bem focado no intento de dificultar a vida a certas senhoras. Não contente, convidou o presidente do PSD para aparecer numa próxima reunião domingueira onde se vai andar de braço estendido a saudar este e aquele. Moral do episódio: Rio conseguiu, com uma singular resposta numa entrevista aparvalhada, que Ventura ganhasse altura e força para o tratar como um farrapo, ao pontapé – e mais alcançou promover uma manifestação do Chega de repente transformada na acção de um potencial aliado do PSD que se está a fazer de difícil. Uma jovem força política que finge fugir, gaiata e namoradeira, do respeitável senhor de idade. A dimensão grotesca da coisa merece umas centenas de teses de mestrado e doutoramento.

– Esta é a direita decadente no seu esplendor. Passos Coelho foi buscar Ventura precisamente para ensaiar em Loures uma retórica abertamente racista e xenófoba sob a chancela do PSD. Caso tivesse sucesso, Passos seria elogiado pela ousadia da estratégia e a fórmula poderia ser repetida em demografias e eleitorados semelhantes. Ao tempo, toda a comunicação social foi cúmplice da operação, em grande parte por esta estar na sua quase totalidade na mão accionista e editorial da direita. Por isso não houve qualquer escândalo em ver o patrocínio do partido fundado por Sá Carneiro a uma figura abjecta em todos os aspectos que tenham a ver com a política e a cidadania, como é este cada vez mais histriónico e debochado demagogo de taberna.

Ventura é o corolário de 15 anos em que a direita partidária portuguesa desistiu de competir no plano das visões e projectos políticos e passou a querer ganhar o poder através das campanhas negras e das golpadas judiciais, preferindo a política da terra queimada ao interesse nacional e ao bem comum. Reconhecendo-se politicamente inferior a Sócrates e ao PS, temendo que Sócrates superasse Cavaco em longevidade governativa e daí saltasse para a Presidência, desesperando com o desabar do seu império bancário, agarraram-se à pulsão assassina de quererem aprisionar – no mínimo, destruir e afundar nos tribunais durante anos e anos – os de outra forma invencíveis adversários políticos.

Agora o génio está fora da garrafa. A tradição de defesa intransigente do Estado de direito, que tanto os conservadores como os liberais na direita sempre defenderam modernamente como fundamento sagrado da vida em comunidade, perdeu-se e não se vê ninguém capaz de a recuperar. Ninguém. Não o Rui Rio que prometeu recuperar para o partido a dignidade de acabar com a judicialização da política e que, acossado e cobarde, nela mergulhou na campanha eleitoral de 2019. Nem sequer Marcelo Rebelo de Sousa, que há uns tempos recebia Ventura no palácio de Belém e o tratava com condescendência e paternalismo, esperando domar o animal com chazadas na poltrona e bacalhaus na varanda. O retrato é de derrelicção, não se vislumbra quem possa, a partir desse terreno onde o Estado de direito democrático suporta e supera todas as divergências, vir a refundar a direita portuguesa de forma a que possa regressar à cidade da decência, da coragem e da liberdade.

5 thoughts on “Lapidar”

  1. totalmente de acordo, o rui deveria apoiar a candidatura do andré à presidência do condomínio e o ventura afogava-se com o rio nas próximas legislativas. o problema das maiorias absolutas ficava resolvido até 2048 ou mais.

  2. É uma desgraça, para a democracia portuguesa, a miscigenação em curso entre a direita e a extrema-direita. Mas não é uma desgraça menor ver o Governo do PS submisso à agenda do minúsculo PAN, um grupo marginal de activistas urbanitas, com a mesma presunção de superioridade moral, que odeia e promove o ódio ao Mundo Rural, aos que nele vivem e dele dependem, e cujo projecto político consiste na sua destruição. António Costa não é sério ao ajoelhar-se cinicamente em frente a essa gente. E vai com essa atitude empurrar muitos eleitores para o outro lado.

  3. O Salazar tinha ou não razão?
    Se tinha,o Rui Rio vai no seu bom caminho: Chegas, e tudo o que este trouxer no regaço só endireitarão o Partido que o dissidente Ala Liberal Sá Carneiro teve o topete de criar na hora da traição.
    Se não tinha, a História se encarregará de enviar para o ostracismo estes funambulistas baratos,especialistas em manobras a um palmo do chão. Durão,Duarte Lima,Cavaco,Marques Mendes,Passos Coelho ganharão a vida na Galeria dos Horrores deste Circo Barnum em que deu o PPD…

  4. Leitura (mais do que) recomendada.
    Se o Rio tivesse capacidade de aprender, teria aqui uma magistral lição.
    Felizmente, não têm.

  5. Nem mais Valupi. Um homem sério que é um chorrilho de demagogia. A entrevista não foi assustadora, foi aterradora!

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