Muitas questões são assim

«[…] o que esta carta faz, ao afirmar que há menos liberdade discursiva e de debate hoje, é fazer de conta que antes não havia grupos inteiros de pessoas “canceladas”, sem direito a voz ou a sequer se autonomearem, e que esse cancelamento, derivado de estruturas relacionais de poder que se perpetuam, não continua a subsistir.»

Embora falar de “cancel culture”, então

Fernanda Câncio tem razão nesta leitura da carta A Letter on Justice and Open Debate porque a omissão que aponta permite-lhe considerar que tal não é inocente, antes merecendo ser denunciado na sua positividade: os autores estarão a ser cúmplices de “cancelamentos” passados e presentes no acto mesmo de protestarem contra o fenómeno posto que não se enquadram nesse contexto retrospectivo e comparativo no manifesto publicado. Esta razão que invoca e desenvolve nasce do seu activismo incansável na defesa de minorias e direitos humanos, do seu combate admirável no espaço mediático, e ao sol e à chuva, promovendo a participação cívica contra as mais graves formas de discriminação.

Contudo, não tem a razão toda – nem a melhor razão. Os autores da carta visada estão focados noutra problemática que é absolutamente legítima. Existe, realmente, um crescente (medido anedoticamente, caso faltem as estatísticas) activismo iliberal nas instituições académicas em diferentes partes do mundo que começou há vários anos e se espalha para outras esferas sociais; talvez como consequência do frenesim emocional introduzido pela invasão das comunicações digitais nas gerações que cada vez mais cedo constroem a sua sociabilidade nelas e a partir delas, à mistura com uma generalizada e profunda iliteracia política. O imediatismo, fragmentação e impulsividade das trocas digitais escritas radicaliza e afunila a cognição, levando a essa cultura de permanente, epidérmica e inconsequente indignação. Desabando as grandes estruturas políticas e suas narrativas com que se fez a travessia ideológica dos séculos XIX e XX, a necessidade de imersão na cidade leva à mobilização contra as “impurezas”, as nódoas na camisa não passarão. Ora, tal é nefasto, pouco importando a sua boa intenção original, porque colide com os valores que têm guiado todas as batalhas do passado que a Fernanda Câncio está a convocar na sua crítica. Ceder ao maniqueísmo em nome da protecção daqueles que são suas vítimas ao longo da História corresponde a um atrofio científico e intelectual. Ou seja, assinar a tal carta em nada de nadinha de nada impede que se durma o sono dos justos relativamente ao que mais importa na dignificação de todos os seres humanos sem excepção e no compromisso de continuar a dar o melhor de si nesse ideal. Porque é de liberdade que se fala, é a liberdade que nos une contra o poder opressivo de ontem, hoje e amanhã.

Pelo que há muitas questões assim. Onde quem está no mesmo lado da barricada fica costas com costas.

12 thoughts on “Muitas questões são assim”

  1. ….. É nos detalhes que a vida é complexa…. Excelente, este texto – como sempre – da grande jornalista Fernanda Câncio…
    ….Mas o mundo está mais complicado… Ou a realidade atomiza-se cada vez mais….

  2. pois, o problema aqui está precisamente na agenda de alguns dos subscritores da carta, talvez os mais mediáticos. na verdade a carta não propõe absulotamente medida nenhuma para resolver ou ajudar a mitigar aquilo de que se queixa, o que indica que mais alguma coisa a motiva.
    ora, não só os proponentes e organizadores da carta admitiram mais tarde em entrevistas que “cancelaram” algumas pessoas propostas para subscrição da mesma, como alguns dos mais mediáticos, nomeadamente bari weiss e jk rowling, tiveram no passado recente momentos em que tentaram e em alguns casos conseguiram “cancelar” outras pessoas e/ou ideias no seu acesso ao palco mediático global.
    ora, assim sendo, toda a carta não passa de um exercício de hipocrisia e cinismo, onde se pretende, a coberto das mais nobres intenções, proteger do escrutínio e confrontamento publico algumas ideias bem bem asquerosinhas.
    por exemplo, quem podia bem ter assinado a carta era o andré ventura

  3. “I am a woman, I am a woman, I am a woman!”

    https://youtu.be/XloQck4v3-Q

    Sure! You (try to) walk like a woman, you (try to) dress like a woman, you (try to) scream like a woman, you (try to) pee like a woman. So… of course you are a duck!

  4. Tem uma carrada de gajos em cima dela a imobilizá-la. Tem um cão aparentemente controlado por esses gajos a mordê-la sem que eles façam grandes esforços para o impedir, mas o que interessa é que estão a fazê-lo a uma mulher? Se fosse um homem estava tudo certo? A uso excessivo da força estava legitimado? Se fosse um homem será que podiam até pôr o cão a morder-lhe os tomates, a sacar-lhe rente o “privilégio masculino”? Foda-se que estes americanos, gajos e gajas, são mesmo burros!

  5. Antes que alguém (com toda a justiça) me caia em cima, quero fazer uma autocrítica. O meu comentário das 22.01 foi de mau gosto. A única (fraca) atenuante é o facto de na primeira visualização do vídeo me ter parecido que o cão era da agredida, estaria preso a ela por uma trela e por isso estrebuchava e não se afastava, dado que não parece um cão polícia. Depois de despejado o comentário, visualizei de novo o vídeo e só então me pareceu que o cão a mordia e era d polícia, pelo que tentei às 22.20 limpar a merda que fiz às 22.01. A tentativa foi patética, o que lamento, merda cagada descagada não pode ser.

  6. é uma chatice ò capacho, aqui não podes reescrever as histórias que contas, vestígios de mau gosto ou eliminar mau cheiro das distracções reaccionárias endógenas do comunismo. não é grave os direitolos que por aqui andam tamém sofrem do mesmo e vão sobrevivendo.

  7. Por mais que, de cinco em cinco minutos, pinte a cuequinha de cor diferente, não entende o coliforme parvalhatz que, sendo a cueca a mesma e a peida igual, o fedor é tal e qual. O Joaquim Camacho, nativo do mundo dos homens, e como é próprio dos homens, falha. O coliforme parvalhatz, teimosa e pegajosamente colado às solas dos sapatos dos homens, e como é próprio dos coliformes, não falha nunca e fede sempre, 365 dias por ano, 24 horas por dia, 3600 segundos por hora (+24×3600 segundos nos bissextos).

    Post scriptum — Sapatos dos homens, mulheres e LGBTetc., claro!

  8. os defeitos que apresentas não fazem pendant com a imagem que queres passar. oportunismo, mau gosto e bafio reaccionário não são compatíveis com um capacho generoso, culto e prá-frentex. muito perfume que bebas nunca irás disfarçar esse hálito de comuna mal cariado. trata dessa obsessão com as consoantes lgbt e deixa-te de tentativas insulto infantil-ò-hilárias com explicações eruditas sobre coliformes e apurado conhecimento de relojoaria bi-sex.

  9. A muitos parece meter asco um comunista! O comunismo ainda não existiu, apesar da existência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ! Vladimir Ulianov dizia que o socialismo é um passo em direcção ao comunismo,mas ousar dar por implantado o Comunismo ninguém sério o ousou, até agora.
    Então um comunista terá confiança bastante na Ciência para admitir que, no futuro, se construirá o comunismo! Notar bem: tem confiança e nunca têr fé!!! Fé nunca foi nem será Ciência!!!
    Asco a quem confia na Ciência e admiração por quem acredita, sem provas, no dinheiro?

  10. O Vladimir Ilitch Ulianov, Chevrolet, não ultrapassou nunca a condição de burocrata. Um burocrata hábil e relativamente bem sucedido, é certo, mas não mais do que isso. Quanto a comunismo, o único que até agora parece ter existido terá sido o chamado “comunismo primitivo” de que falava Karl Marx. O que existiu na URSS com comunismo teve nada a ver, não passou de capitalismo de estado, capitalismo com rédea curta. A acumulação de capital estava lá na mesma, a diferença era o modo como esse capital acumulado era distribuído e aplicado, e quem decidia essa distribuição e aplicação, neste caso uma casta (ou “classe”) de burocratas com uma prática “experimentalista”, chamemos-lhe assim, assente numa visão do futuro teorizada em wishful thinking. Houve por lá muito boa gente, muitos avanços foram conseguidos em vários aspectos, nomeadamente o científico e o técnico, não menosprezando o social, mas era em muitos aspectos uma construção forçada pelo impulso inicial dado pelo obscurantismo fixista e cegueta do czarismo. O cimento que durante décadas manteve a barca a navegar, no fim de contas, era apenas a aversão e reacção violenta do capitalismo “tradicional”, ainda mundial, à heresia experimentalista. No fundo, ainda que muita gente lá houvesse com excelentes intenções, não só na política interna mas também no apoio eficaz aos esforços de libertação de outros povos (Cuba, Angola, Guiné, Moçambique, Vietname e outros), eles andavam (como aliás andamos todos) perfeitamente à nora, e assim andaram até ao dia em que Gorbachev, um homem bem-intencionado mas lírico, se lançou no patético esforço de salvar o que salvação não tinha.

    “Quando o homem sonha, o mundo pula e avança”, dizia o outro, e houve ali indiscutíveis avanços, a par de muito sofrimento, mas agora é como diz outro Vladimir, o Putin: “Aqueles que não lamentam o fim da URSS não têm coração. Os que a querem de volta não têm cérebro.”

    Post scriptum — É claro que disso percebe mesmo é ponta de corno o coliforme parvalhatz, que se limita a folhear um manual de “Capitalismo para Totós” (capítulo “Anticomunismo Bafiento e Acéfalo”) que encontrou numa casa de banho do mundo dos homens, de uma vez em que uma descarga demasiado forte do autoclismo o fez salpicar para fora da sanita.

  11. Camacho:
    Eu tenho confiança na Ciência ! Em que mais poderemos confiar? Com todos os erros,falhas,más decisões,não encontro no Mundo (e muito menos fora dele) nada que tanto nos possa ajudar.
    Deixemos o palavreado para os oradores (mesmo sacros). O homem digno informa-se e faz,correndo o risco de errar,correndo o glorioso risco de ser Homem!

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