Todos os artigos de Valupi

Dominguice

Não se escapa ao tribalismo. O mesmo mecanismo que garante a nossa sobrevivência, essa confiança inata dos animais acabados de nascer em relaçâo às criaturas que lhes dão calor e alimento, é o que nos leva para vieses cognitivos de protecção daqueles com quem nos identificamos e do que calhar acharmos que somos numa dada situação ou momento. O feio que amamos bonito nos parece; logo, bonito é. A nossa sardinha merece mais a brasa do que as sardinhas dos outros; ai dos outros que a puxem para as deles. E quem parte e reparte, etcétera e tal. O tribalismo acaba invariavelmente no mais encardido egoísmo.

Nada a fazer? Ao contrário, tudo por fazer. Sempre e sempre. Porque não é possível deixarmos de ter identidade, identificações, pulsão identitária. Podemos é escolher uma nova identidade — ou uma identidade nova, alérgica ao tribalismo e inimiga do egoísmo.

18 anos a perverter a Justiça

É o fim de uma era no ‘ticão’: o superjuiz Carlos Alexandre já formalizou candidatura a desembargador

18 anos em que a direita usou este juiz para judicializar a política e politizar a Justiça. Há 18 anos começava o caso Freeport. Alguém que faça as contas ao rácio entre as capas no esgoto a céu aberto que o senhor gerou e protagonizou versus os resultados dos processos que visaram figuras ligadas ao PS. É um monumento vivo do Portugal que está nas mãos das oligarquias decadentes.

Uma garrafa de água contra o putinismo

Putin disse que a resposta à explosão na ponte de Kerch foi o bombardeamento de edifícios civis e dos próprios civis que lá estivessem dentro ou nas imediações. O horário da destruição e matança foi também escolhido para apanhar a população a preparar-se para sair de casa e na rua. Que pensam os putinistas destes actos?

Eles aprovam e saúdam. Porque os putinistas estão preocupados é com o custo de vida e o apocalipse nuclear. Tudo o que seja para varrer os ucranianos do mapa merece o seu apoio. Eles sabem que Putin tem a mentalidade de uma criança mimada de 3 anos a quem não se pode tirar o brinquedo nem obrigar a comer a sopa porque o miúdo desata a escaqueirar as loiças e a mobília. No caso do presidente da Rússia, apetece-lhe ficar com umas partes da Ucrânia, ou mesmo com o território todo, ele depois decidirá conforme acorde bem ou mal disposto. Se tiver sucesso, é como se descobrisse a pólvora num tempo em que só há fisgas.

Será este menino homem o suficiente para levar a sua Rússia, e o resto do mundo, para o Armagedão? Os putinistas garantem que sim e trabalham diariamente para o evitar através de gongóricas e dementes teorias da conspiração acerca da culpa do “Ocidente”, da “América” e da “Europa” (não necessariamente por esta ordem) a respeito dos aborrecimentos e irritações que o Sr. Putin está a ter por causa da resistência ucraniana. A intenção é a de convencer as populações, para que estas convençam os seus Governos, de não valer a pena mandar mais armas para a Ucrânia se o preço a pagar for uma Hiroshima em cada capital dos países da NATO. Dá que pensar, né?

Ora, Andrei Kozyrev, que foi uma alta figura política no tempo da União Soviética e ministro de Gorbatchov, tem aqui um delicioso apontamento acerca dessa magna questão: Ex-Russian foreign minister lists Putin’s 3 major miscalculations. Refiro-me à passagem em que ele recorda qual é a marca da água que se põe na mesa para Putin beber nas reuniões no Kremlin, assim como o seu gosto por fatos “ocidentais” e ainda a sua condição de pai não se sabe de quantos filhos.

Claro, ao Vladimir poderá, apesar destas facetas dúplices (afinal, humanas), ainda lhe dar para querer destruir o seu país e mais uns quantos dada a natureza caótica da realidade, só que tal não é provável. E ainda menos provável seria que os russos o deixassem consumar a loucura máxima.

Costa, garante do regular funcionamento das instituições

As declarações de Costa sobre Marcelo – “Total solidariedade” com Marcelo. Costa lamenta “interpretação inaceitável” das palavras do Presidente – prestam-se a serem interpretadas cinicamente, vendo-se nelas um aprisionamento, ou diminuição, da autoridade do Presidente sob a capa de uma solidariedade institucional e política. E por boas razões.

Porém, acho mais curial (pun intended) ver nelas o alarme de Costa perante a súbita explosão política e mediática contra um “mais alto magistrado da Nação” que não está, factualmente, à altura do cargo. O episódio do telefonema para o bispo Ornelas, que conseguiu ser absorvido pelos sistemas político e jornalístico com vista a proteger Marcelo, tornou-se a bomba atómica que rebentou perante mais um momento insano do Professor: suscitar a percepção de que desvalorizava os denunciados abusos sexuais na Igreja Católica portuguesa. Para quem goza do prestígio de se considerar na política nacional como umas das figuras mais inteligentes e mais bem preparadas intelectualmente, excepcionalmente tarimbada na comunicação com o público, a qual se sabia sentada na boca do vulcão após as falhas gravíssimas das últimas semanas que protagonizou, a comparação que lhe ocorreu bolçar com os números de outros países escapa a qualquer lógica benéfica para o que está em causa. Quando o que havia a fazer era lamentar a existência de suspeitas, louvar a coragem dos que as denunciaram, pedir implacável investigação e eventual punição, e apelar a que outros casos ainda não denunciados sejam transmitidos às autoridades, estar a verbalizar que o número não lhe parecia “particularmente elevado” foi demais para a perplexidade e desgosto acumulados na sociedade.

Costa, um líder medíocre (mas o melhor que temos actualmente, a uma distância infinita da concorrência), está a ser o bombeiro de serviço por patriotismo e responsabilidade governamental. É ele, e só ele nesta situação, o verdadeiro garante do regular funcionamento das instituições. O Palácio de Belém foi consumido pelo ardor de uma pessoa que prefere ser mais católica do que estadista.

É muito simples, como diz Marcelo

«O Presidente da República manteve este domingo que o contacto que teve com José Ornelas não terá consequências na investigação criminal, após ter sido noticiado que o bispo está a ser investigado pelo Ministério Público num segundo caso.

"Não terá consequências na investigação. Aparentemente, a ter algumas consequências, seria aprofundar a investigação." Para Marcelo Rebelo de Sousa, o facto de estarem a surgir "mais dados sobre questões anteriores a 2016 - 2015, 2014, 2013 - em casos arquivados e não arquivados", mostra que o seu telefonema "não só não parou a investigação como, pelo contrário, as investigações se aprofundaram para além - e eventualmente por causa - do telefonema".»

Fonte

Estas declarações (em Nicósia!) são espantosas. Culminam bombasticamente uma sequência de contradições públicas que afundaram o Presidente da República, o Bispo de Leiria-Fátima e a Presidência da República num chiqueiro institucional. Só não abrem uma crise de regime porque o sistema político e a comunicação social preferem proteger Marcelo, por óbvias razões.

Para lá da manifestação de incapacidade funcional para o cargo, exibindo-se completamente atarantado, o actual Presidente da República conseguiu ilustrar através da sua conduta e palavras o que está na origem dos casos de abuso sexual efectuados por membros da Igreja Católica em Portugal: eles só foram possíveis – na sua extensão temporal e encobrimento – por directa cumplicidade das oligarquias religiosas, sociais e políticas.

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Dominguice

Os partidos na oposição passam os dias, e as horas no dia, a queixar-se do Governo. Recorrem a hipérboles, sensacionalismos, difamações e sofismas. Só abandonam essa retórica nos eventuais acordos estabelecidos nisto ou naquilo. Aí, passam a reclamar a causalidade dos supostos benefícios assim obtidos, transformam o acordo numa vitória sobre o Governo e o partido, ou coligação, que o suporta. De volta à pose opositora, repetem constantemente, obsessivamente, dementemente, que o Governo prejudica gravemente a população e que é urgente a sua substituição por eles, os da oposição.

Donde, há espaço para um partido que na oposição respeite a inteligência dos inteligentes, a coragem dos corajosos. Que não tenha medo, antes se orgulhe, de elogiar os Governos pelo bom serviço ao Estado e à comunidade. Que lance ideias admitindo que possam não ser melhores do que as de outros partidos, que precisem de mudar em parte ou no todo. Está é por criar.

Durão e a “verdade”

«O antigo responsável europeu começou por lembrar o modo como a Europa foi apanhada pela crise financeira. "A verdade é esta: nós não estávamos preparados. Nós tivemos de construir a jangada de salvação no meio da tempestade", recordou. "Não tínhamos instrumentos."

Durão Barroso sublinhou que "Portugal, graças ao Governo liderado pelo PSD, por Pedro Passos Coelho, conseguiu ultrapassar" a situação difícil "com grande dignidade" e insistiu que o governante "nunca se pôs numa situação de humilhação perante os seus credores".»


“Não se humilhou perante credores.” Durão Barroso sublinha “dignidade” de Passos Coelho durante crise

11 anos e 6 meses depois, Barroso vem contar a “verdade” sobre os idos de Março que afundaram Portugal num resgate de emergência e em 4 anos de destruição económica e social. Como ele próprio afirma, não existiam boas soluções para os países estruturalmente mais frágeis, o BCE ainda estava a um ano e tal de começar a resolver a crise. Daí a importância para a Europa do acordo que teria permitido a Portugal aguentar-se na corda bamba sem termos o FMI a aterrar na Portela e a dupla Passos-Relvas a fazer negócios com as empresas públicas. Acordo que o Parlamento resolveu chumbar numa coligação negativa que prova a cegueira sectária da esquerda e a gula infrene da direita. O interesse nacional, o bem comum, a mera racionalidade de se saber ser o PEC IV a melhor solução possível para lidar com a crise financeira, tudo isso ficou pulverizado pelas agendas da oposição e do Presidente da República de então.

Sendo a verdade essa, como reconhece, não está a contar a verdade toda. Falta dizer que ele próprio (pressionado por Merkel e pela evidência do que estava em causa) tentou levar Passos a viabilizar o PEC IV, e que tal só não aconteceu porque no PSD se temeu que Sócrates conseguisse assim escapar ao pedido de resgate, acabando por sair triunfador da crise. Pelo que aquela era uma oportunidade imperdível para entrar em S. Bento. Os portugueses que se fodessem (como veio a acontecer, sem pieguices).

De facto, Passos “nunca se pôs numa situação de humilhação perante os seus credores”. Foi exactamente ao contrário, ele viu os credores como os amigalhaços, o escudo que lhe permitiu servir os fanáticos da austeridade salvífica e da reengenharia social tentada. Mas sempre com dignidade, com “grande dignidade”.

Tadeuismo

«A etiqueta "putinista", que é norma usar-se no Ocidente para insultar uma alma qualquer que fale em procurar soluções para a paz, não cola, portanto, neste personagem.

[...]

Uma hipotética rutura da solidariedade capitalista ocidental mudaria rapidamente governos, políticas governamentais e narrativas mediáticas - e a atual ideia prevalecente de que esta guerra define o destino do ocidente pode bem não ser suficiente para o impedir, caso tudo se prolongue no tempo e as contradições dentro do sistema se acentuarem.

Mas, para já, como sempre, serão mais debatidas as sondagens de Musk no Twitter do que as sondagens dos jornais - como uma do Expresso, que dizia que 32% da população portuguesa, aflita para pagar as contas do mês, quer mesmo "cedências a Putin" (sic) e resolver a guerra... são todos putinistas, não é?»

Elon Musk é putinista?

Pedro Tadeu é uma figura irrelevante quando comparada com o PCP, e o PCP não tem nenhuma responsabilidade, sequer a mínima influência, nas decisões de Putin. Porquê dar atenção a este comentarista a propósito da invasão da Ucrânia pela Rússia, então? Porque ele nos ajuda a pensar.

Por exemplo, é óbvio que o Tadeu domina com segurança dois conceitos a que atribui extrema importância. Um deles é o “Ocidente“, o outro é o “ocidente“. A separá-los, a caixa alta; e talvez mais qualquer coisa. Assim, atesta, no “Ocidente” insulta-se quem “fale em procurar soluções para a paz“. Entretanto, no “ocidente” chafurda-se numa “solidariedade capitalista” colada com cuspo e condenada a implodir assim que “as contradições dentro do sistema se acentuarem“, como Marx vem repetindo desde 1867.

Ora, como é que o nosso Tadeu ficou na posse de conhecimentos tão tremendos e inquestionáveis? Isso ele não explica nem carece que se mace a explicar. A verdade é a de que quem não odeia o PCP, o comunismo, Putin, e tudo o seja russo, tem de admitir que há uma feroz perseguição a qualquer um que fale em paz para a Ucrânia. Nós, ocidentais retintos, o que queremos é guerra, guerra, guerra e mais guerra. Quem nos dera que ela nunca acabasse e que fosse sempre maior, mais destruidora, mais cruel. Somos assim, não há nada a fazer. Daí hostilizarmos esses pacifistas como o Tadeu, o Jerónimo e o Putin. Os quais, coitados, sonham com a paz, apelam à paz, comovem-se sinceramente ao imaginar a paz linda e pura, não falam noutra coisa — e um deles até está farto de gastar munições, juventude russa e material bélico defeituoso para isso mesmo, conseguir a derradeira paz e poder ir à sua vida descansado.

É uma situação tramada para os pacifistas que não se identificam nem com o Ocidente nem com o ocidente. Porém, como o Tadeu brilhantemente anota e remata na conclusão, 32% da população portuguesa está disposta a oferecer a Ucrânia ao Sr. Putin se isso levar à melhoria dos seus (dela, não dele) pagamentos mensais em despesas várias. Este é um pensamento da maior importância que, como igualmente alerta o comentarista, os ocidentais tentam abafar.

Tenho de concordar com o Tadeu. Isto de se declarar uma vítima tanto do Ocidente como do ocidente, e de caminho apelar a que se deixem os tanques russos estacionar em Kiev, não pode ser considerado “putinismo” nem esses bravos amantes da paz merecem o epíteto de “putinistas”, vocábulos contaminados de ocidentalismo. Fica muito mais claro, fazendo jus ao seu exemplar pacifismo, se os reconhecermos pelo que realmente são: grandes filhos do Putin.

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Dominguice

É natural que Deus não se queira pronunciar sobre os casos de abusos sexuais por iniciativa dos seus homens de mão (desconheço se há religiosas suspeitas). E a razão é esta: o silêncio de Deus é necessário ao pleno usufruto da liberdade para este tipo de criatura originalmente pecadora que somos. Que valor teria a nossa adoração se Deus aparecesse a cada um numa sarça ardente, num pinheiro chamuscado ou num bico de gás de botija, e desatasse a dizer-nos coisas, quiçá divinos impropérios? Pouco ou nenhum, está bem de ver. É útil fazer-se uma vez a um fulano já barbudo mas se fosse para fazer a oito mil milhões de papalvos (embora possível, não se discute) seria jogo falseado.

Não, deixemos Deus descansado no seu abismal silêncio. E soltemos esta curiosidade: os católicos que vão à missa, pelo menos estes, estão calados porque ninguém lhes pergunta nada ou por nada terem para dizer?

Gente feliz

Na véspera de 24 de Fevereiro, Putin foi para a cama sabendo que estava a horas de mandar matar muitos ucranianos, milhares, coisa que parece deixá-lo indiferente senão mesmo satisfeito. Mas ele igualmente sabia que muitos russos poderiam morrer, embora achasse que seriam muito menos. Tudo gente na flor da idade, na sua enormíssima maioria. 7 meses depois, a sua decisão já terá causado mais de 100 mil mortos na soma das baixas respectivas, fora os feridos. A previsão é a de que o conflito se arraste por meses, ou anos, sem poder ser ganho nem perdido por qualquer das partes, o que irá continuar a somar milhares de mortos à lista. E se porventura Putin for tão demente que resolva usar o arsenal nuclear, as fatalidades serão aos milhões num número imprevisível, tanto directamente no seu ataque como pelas consequências da retaliação sobre a Rússia e os efeitos da radiação no Planeta.

Putin não parece ser louco. Parece ser estúpido. Um estúpido que quis brincar aos imperadores achando que metia medo aos EUA e à Europa. Os militares russos que honram a tradição de incrível heroísmo da sua nação precisam de resolver esse problema chamado Putin. Um problema que ameaça a civilização.