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Querem tudo, contribuem com nada

Numa democracia, as oposições exercem um poder complementar ao do Governo. Fiscalizam-no, criticam-no, corrigem-no, melhoram-no. Ou não. Essa responsabilidade atinge o seu máximo quando o Governo é minoritário. Tudo o que um Governo minoritário faz é consequência da sua viabilização parlamentar – para o bem e para o mal.

O que nos leva para o papel que PCP e BE têm tido neste quadro de necessidade de ajuda externa e, ainda mais importante, para o seu papel a seguir às eleições de 2009. À proposta do PS para coligações ou acordos, eis o que estes partidos tinham para dizer:

Quanto à possibilidade do PCP vir a fazer entendimentos com o PS, que venceu as eleições, mas apenas com uma maioria relativa, Jerónimo de Sousa impôs como condição a “mudança de políticas”.

“Sem uma ruptura e uma mudança de política é ilusório estar a discutir entendimentos, o entendimento faz-se em torno de coisas concretas”, frisou.

“O Bloco de Esquerda, considerando o mandato que recebeu dos eleitores para a constituição de uma esquerda de alternativa e para trazer ao Parlamento propostas que enfrentem o núcleo decisivo da crise económica e seus efeitos sociais, e pelas diferenças óbvias em relação às grandes escolhas que o Governo e o PS têm feito ao longo do tempo, [conclui que] não há condições para qualquer forma de coligação”, disse Louçã, após reunião de duas horas com Sócrates, no Palácio de São Bento.

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Perguntas complicadas

Apesar da inacreditável série de asneiras, tonteiras e bacoradas com que o PSD espanta o País desde 12 de Março, o que será ainda preciso que Passos diga ou faça para que o eleitorado se convença da sua absoluta incompetência para o cargo de primeiro-ministro?

Medonho

O Eng. Sócrates governou Portugal condicionando Portugal. Condicionava os meios de comunicação social, condicionava com os subsídios e os prémios que pagava. Era tudo aquilo que nós sabíamos e que foi, ao longo de cinco ou seis anos, a claustrofobia democrática, essa forma de tentar espartilhar e condicionar a sociedade portuguesa.

Este é o homem que é o rosto do medo em Portugal, é o rosto do medo que tem duas faces: o medo que ele criou e o medo que ele nos quer criar.

Paulo Rangel

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Foi esta miséria que o PSD recusou ao eleger Passos em vez do favorito do baronato, Rangel. Na altura do congresso em Carcavelos, em 2010, alguns militantes social-democratas chegaram ao ponto de se lamentarem publicamente por não existir no PSD a unidade que existia no PS, deixando claro que estavam fartos da estratégia difamante e caluniosa seguida por Ferreira Leite, a qual levou a um belo resultado eleitoral. Estava na altura de terem um líder que deixasse a fulanização e as campanhas sujas para voltar a falar de política, voltar a espalhar a esperança, voltar a congregar vontades. Era por esta elevação e carisma que o povo das bases ansiava, exactamente aquilo que reconhecia em Sócrates, porque nas bases os eleitores que votam PSD ou PS têm muito mais características que os aproximam do que aquelas que os separam.

Passos, entretanto, rendeu-se a Cavaco. O derrube do Governo, o ataque aos interesses nacionais pela cupidez do Poder, a influência decadente de Catroga não são acasos, antes a necessária consequência de Cavaco continuar a papar presidentes do PSD ao pequeno-almoço. E cá temos Rangel a explicar que isto da claustrofobia democrática, a Jerusalém celeste do Pacheco, tem 5 ou 6 anos – pouco faltando para dizer que começou na própria noite eleitoral em que o PS atingiu a maioria absoluta depois da humilhante governação de Barroso e Santana.

Nestes 5 ou 6 anos, de facto, o PSD tem sido cada vez mais insistente na tese de que as vitórias eleitorais do PS são ilegítimas, porque os socialistas não prestam, não têm palavra e são criminosos. A continuação deste desprezo pela democracia e pelos portugueses dá-nos a ver um partido verdadeiramente medonho.

Já é oficial: PSD está à direita do CDS

Passos Coelho quer alteração à lei do aborto

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Actualização

CDS tenta colar-se ao PSD no extremismo ideológico:

Paulo Portas diz que reavaliação da lei do aborto é “evidência que se impõe”

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Reactualização

Passos diz que estava outra vez a reinar com a malta, mas lembrou que a brincar, a brincar, é que o macaco foi ao cu à mãe:

Passos Coelho: “PSD não propôs referendo” ao aborto

Marcianos

A New Scientist quer descobrir a melhor frase para ser dita quando o Homem chegar a Marte

“Estamos à procura de alguma coisa engraçada e intrigante”, respondeu Highfield ao PÚBLICO por e-mail, que defende que o meteorito será “um grande prémio para os leitores – um prémio do outro mundo”.

Muito bem. Então, procura-se uma coisa engraçada e intrigante para o astronauta dizer assim que colocar o pezinho em Marte? Que tal esta:

Em nome da Humanidade, declaro-me comovido para além do que as palavras conseguem transmitir por, após tantos esforços grandiosos, termos conseguido chegar ao planeta onde nasceu, e viveu até aos 21 anos, esse extraordinário extraterrestre chamado Eduardo Catroga.

Mas podemos arranjar mais frases, ó NASA!

Por pouco

A direita, no seu deserto de talento político e de liderança, criou o mito da implacabilidade e superlativas capacidades oratórias, agonísticas, de Sócrates. Fizeram-no por retinto e justificado medo, por um lado, e por táctica insultuosa, pelo outro. Sócrates era o arrogante, o animal feroz, aquele que pervertia e desprezava as boas maneiras entre políticos sérios. Há uma parte real que substantiva estes apodos, os debates parlamentares. Aí, Sócrates saiu invariavelmente por cima no confronto com os melhores tribunos opositores, espadeirando a torto e a direito sem piedade, duas vezes por mês ao longo de 6 anos. Mas quanto aos debates televisivos, estamos no mundo da fantasia.

Em 2005, não há memória de Sócrates ter feito qualquer brilharete digno de registo na TV. Até pelo contrário. Embora se tenha considerado que venceu o debate com Santana, no qual se gastaram os 20 minutos iniciais a falar da campanha suja que o PSD então promoveu e Santana cavalgou, a sensação final foi de alguma frustração. Perante tão debilitado e indigno adversário, Sócrates tinha optado por se concentrar em transmitir competência técnica para governar e um sentimento de confiança para o futuro. Parecia pouco onde se esperava reparação e admitiria vingança. Em 2009, teve um retumbante sucesso frente a Louçã, mas foi só. Com Ferreira Leite, por exemplo, não se viu nenhum especial desequilíbrio no debate, mais uma vez assomando o sentimento de frustração por tão iníqua personagem ter sido poupada ao justo castigo. Nestas eleições, os debates que antecederam o confronto com Passos mostraram um Sócrates a repetir a sua fórmula de sempre: crítica pertinente, decisiva, das propostas do adversário (ou sua ausência) e transmissão clara, com impacto memorável, das suas propostas. Pelo meio, um genuíno gosto pela disputatio originada na espontaneidade das afirmações. Diríamos, portanto, que para fazer isto talvez não seja preciso cair no caldeirão da poção mágica em gaiato.

Sócrates nada apresenta de especial em matérias de retórica face aos outros líderes partidários, salvo uma característica que muito os aborrece: onde os outros parecem estar a representar, ele aparece genuíno, sanguíneo, inteiro. Pode parecer pouco, mas por pouco se ganha e perde. Por pouco tudo se pode perder ou tudo se pode ganhar.

Dois minutos

Estas são as declarações finais do debate. Bastam dois minutos para descobrirmos o que cada um pretende para Portugal.

Passos

Eu creio que o País tem hoje muito claro que a partir do dia 5 de Junho precisa de ter um Governo que seja competente e capaz. E que seja realmente possível entregar um resultado que aqueles portugueses que hoje estão desempregados, que estão assustados com o futuro, porque sabem que o País foi conduzido a uma situação de praticamente bancarrota – quer dizer, de não ter dinheiro para honrar os seus compromissos – esses portugueses sabem que há um responsável por essa situação, essa responsabilidade cabe ao Eng. José Sócrates, e ele não tem desculpa na medida em que o PSD já cooperou, e cooperou bastante, para que o Governo pudesse ter alcançado um resultado que fosse satisfatório para todos os portugueses. O que está em causa agora aqui, portanto, é de saber se devemos ou não mudar a liderança. E não há dúvida que o País precisa de mudar a sua liderança. Precisa de alguém que respeite os compromissos, alguém que tenha capacidade de diálogo, alguém que pode não ter experiência governativa, como eu, mas não traz na sua consciência ter 700 mil desempregados e um Estado Social que está em perigo se não conseguirmos colocar a economia a crescer. Esse é o meu compromisso com os portugueses. Formarei um Governo coeso e sólido se essa for a vontade dos portugueses, e se eles tiverem, como eu, confiança em que podemos ser capazes em Portugal de fazer diferente do que fizemos nestes 6 anos.

Sócrates

Os portugueses sabem que eu sempre assumi as minhas responsabilidades. E sabem também que nunca virei a cara nos momentos difíceis. Pela minha parte, os portugueses conhecem-me e sabem que tomei sempre as medidas difíceis, exigentes, que foram necessárias para defender o interesse nacional. Para vencer a crise, o País precisa de um Governo responsável, com uma liderança forte, uma liderança preparada e uma liderança segura de si. O que o País dispensa são as aventuras e o radicalismo ideológico que nos levariam a mudanças perigosas, insensatas, e muitas vezes nocivas àquilo que são os interesses das pessoas. Pela minha parte, o que tenho a propor aos portugueses é um caminho de uma governação responsável e moderada. Que resolva os problemas nacionais cumprindo os objectivos que estamos comprometidos com a União Europeia e com o FMI. Mas que também modernize a nossa economia ao mesmo tempo que defende o nosso Estado Social e aquilo que é a protecção social do Estado. Com um Serviço Nacional de Saúde acessível a todos os cidadãos, com uma Escola Pública que esteja disponível para promover a igualdade de oportunidades e com uma Segurança Social Pública que seja uma Segurança Social ao serviço dos mais idosos e dos mais carenciados. Esta é a escolha que temos pela frente. Eu, pela minha parte, confio nos portugueses e confio em Portugal.

As putas das sondagens

As sondagens podem ter um efeito paradoxal. Desmobilizar parte dos que vão à frente, estimular parte dos que ficam atrás. Todavia, para a enorme maioria, as sondagens funcionam como ansiolíticos e antidepressivos na falange do 1º lugar, chegando a causar euforia em situações de grave carência afectiva, e aparecem como injustiças dolorosas para os restantes, ferindo-os no seu orgulho de acordo com o tamanho das expectativas engordadas. Daí a recorrente paranóia a respeito da suposta manipulação a favor dos que aparecem no topo das preferências. Ora, mesmo que haja tramóias à bruta ou sofisticadas (sei lá se há, nem se podendo saber sem se estar por dentro do processo), muito maior é a ignorância a respeito das limitações e potenciais distorções da epistemologia das sondagens e variegados métodos e modos aplicados em cada caso. Donde, quando os comentadores botam faladura a respeito dos valores de uma qualquer sondagem, existe uma altíssima probabilidade de estarmos perante o pacóvio espectáculo de se tomar a nuvem por Juno e de se tomarem correlações por causalidades.

Embora não seja imune ao efeito reconfortante, tranquilizador, das sondagens positivas para os meus gostos, faço parte do reduzido grupo dos que preferem ver sondagens negativas para as suas preferências. Porque elas põem à prova as minhas convicções e obrigam-me ao confronto com o sentido das minhas conclusões ou intuições. A pulsão gregária que nos é inata tenta levar-nos para as escolhas do maior número por boas e evidentes razões relativas à sobrevivência. Regra geral, imitar os outros é o que nos salva. Mas crescer implica tomar consciência de que em muitas situações – muitas, muitas, muitas – estar do lado das minorias, ou ser verdadeiramente pioneiro e original, é a lógica e necessária consequência de nos estarmos a salvar por nossa própria capacidade e iniciativa. Munido deste heroísmo, até uma sondagem aparentemente desastrosa pode assinalar o triunfo da vontade.

E tu, que preferes?

Uma maioria, um Governo, um Presidente… e um Nobre

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A confirmar-se a tendência de crescimento do PSD na recta final, que esta sondagem assinala sem margem para dúvidas, o partido do pote poderá mesmo chegar à maioria absoluta. Quer dizer que será o improvável Coelho a realizar o sonho de Sá Carneiro, e com brinde: Nobre a ser eleito para segunda figura do Estado*. O efeito acumulado da reunião destes cromos na propalada broad coalition for change, coligando o refugo do Cavaquismo com as cantorias de Passos e os cozinhados de Relvas, promete não deixar pedra sobre pedra na administração da coisa pública.

Epidemia de estupidez

Uma das características mais intrigantes da política nacional consiste na estupidez da direita, em geral, e do PSD, em especial. Durante o período em que Cavaco foi primeiro-ministro, essa estupidez criou o Cavaquistão – cujas consequências ainda estamos a pagar por causa das actividades criminosas no BPN e SLN. Seguiu-se o Governo de Barroso, o qual só agravou os problemas, mais a sua fuga para Bruxelas e a promoção de Santana pela porta do cavalo. O resultado foram quatro meses de despautério. Vieram as eleições e começaram as campanhas sujas contra Sócrates – boato da homossexualidade e conspiração para a criação do caso Freeport, envolvendo indivíduos ligados ao PSD, CDS, Judiciária e imprensa. Santana sai de cena, entra Marques Mendes. O seu propósito regenerador, ou assim parecia, não convenceu as bases. Menezes atinge a ribalta e aguenta-se apenas 6 meses tamanha a parvoeira que produziu. Mesmo assim, ainda teve tempo para lançar uma campanha suja, como a Fernanda lembra neste texto. O edil de Gaia foi trocado pelo trio Manela-Pacheco-Cavaco. Iniciou-se um período de calúnias, difamações e ensaios de criminalização de elementos do PS como ninguém julgava possível vir a assistir em Portugal. Culminou com a Inventona de Belém e as escutas a Sócrates e respectiva tentativa de golpada judicial. Absolutamente escandaloso o que aconteceu em 2009 e 2010 e, sobretudo, o que não aconteceu como resposta a este inaudito ataque ao Estado de direito e à democracia.

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Sigamos a realidade

[…] E eu quando, porventura, mudo de opinião, porque a realidade muda e nós devemos seguir a realidade, e não procurar pintá-la de outra maneira, assumo as minhas diferenças de opinião. […]

Passos, segundos antes de acusar o seu interlocutor de ter mudado de opinião quando a realidade mudou.

Cineterapia

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Pina_Wim Wenders+Tanzträume_Anne Linsel_Rainer Hoffmann

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Já viste a Pina B filme do W.W.? Experiência alucinante. Génios os 2! vontade de criar vontade de dançar vontade de ficar nu.

22:00:09, 19-05-2011

Vou ver esta noite por tua causa :)

22:19:53, 19-05-2011

E por causa dela vais gostar. Um beijo

22:39:31, 19-05-2011

Enganei-me no filme, vi o Sonhos de Dança. Já viste?

15:42:42, 20-05-2011

Não. Que tal?

15:37:55, 20-05-2011

É uma viagem oblíqua aos bastidores do trabalho da Pina. Transbordante de força e delicadeza. Ou dessa delicadeza tão forte da dança.

15:49:32, 20-05-2011

Vou ver

16:03:12, 20-05-2011

Dinâmicas e Dinamene

A TVI cortou a primeira parte da análise de Marcelo Rebelo de Sousa ao debate Sócrates-Passos no vídeo que disponibiliza para suportar esta notícia: «Dinâmica de vitória está do lado do PSD». Na parte censurada, Marcelo diz coisas hilariantes, embora não tão hilariantes como aquelas que o vídeo truncado oferece. Uma delas consiste no seu veredicto a respeito da discussão do tema da Saúde. Passos foi às cordas, foi espancado, asseverou o Professor. Com tal dano que, à maneira do futebol, o jogo parecia resolvido. Marcelo até sabia como concluir a faena sem hipótese para o animal: bastava ter ido buscar as Novas Oportunidades e continuar a sangria até ao fim. Estranhamente, lamenta-se sem o conseguir esconder, Sócrates não foi por aí. E já não estranhamente, diz que este tema tomou 15 minutos ao debate; quando o relógio fixou 30, exactamente metade do tempo total. Assim, temos aqui duas ideias: Marcelo regista uma abissal diferença entre os dois a favor de Sócrates na primeira metade do debate, e Marcelo indica que gostaria de ter visto Passos reduzido a uma papinha.

Porém, o segmento que a TVI teve o cuidado de seleccionar cirurgicamente é ainda melhor quanto ao apreciado efeito de comicidade. No seu estilo salão de chá para tias de Cascais, que lhe deu justa popularidade na indústria da política-espectáculo, inventa sem pingo de vergonha uma tanga esquizóide onde Passos aparece a vencer o debate nos 30 minutos finais. E como? Marcelo alinha na inanidade da claque do PSD: através da repetição da expressão “700 mil desempregados” e da acusação de culpa fulanizada em Sócrates. Tão debochada é a sua criatividade analítica, apagando os episódios em que Passos continuou a ser castigado em cada um dos temas seguintes, que chega ao ponto de falar das expressões faciais de Sócrates (??) e da ultrapassagem do minuto final (!!) como provas da sua derrota. Estamos num registo que sugere mazelas neuronais decorrentes do consumo de LSD aquando do Cascais Jazz em 1971.

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