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Caminho relvado

Como se pode ver ou rever, a partir do minuto 22, António Costa surpreendeu a minha preciosa ingenuidade ao comentar o caso Relvas com estas declarações:

– Que não estava em Portugal na semana do acontecimento da denúncia dos telefonemas de Relvas para o Público.
– Que estávamos perante declarações contraditórias.
– Que a directora do Público tinha desvalorizado o incidente num primeiro momento.
– Que existiria um conflito dentro do jornal entre a Direcção e a Redacção.
– Que existem duas versões quanto aos factos, ambas legítimas até prova em contrário.
– Que Relvas pode ter sido mal interpretado, podendo haver um empolamento de algo inócuo.
– Que não conhece Relvas o suficiente para desconfiar da sua palavra, mas que o conhece o suficiente para confiar na sua palavra.
– Que a suspeita sobre Relvas é ridícula à luz da propalada ameaça sobre a vida privada da jornalista, porque isso contradiz a tal imagem de Ministro super-poderoso que os atacantes de Relvas alimentam.
– Que a sua mãe era jornalista no salazarismo e ela nunca se amedrontou.
– Que a ERC vai resolver isto sem nada ficar esclarecido e ponto final.
– Que não vale a pena falar mais sobre este caso de um ridículo atroz.
– Que não é possível chegar à verdade neste caso, pois para isso era preciso ir para tribunal e interrogar exaustivamente os intervenientes.

Que raio é isto? Isto é a mais peremptória lavagem de Relvas de todas as que apareceram desde que a bronca rebentou. Costa começa por usar a ironia com o fito de pintar a opinião do Pacheco como exagerada e sem relação com a realidade, depois reclama conhecer menos do caso do que qualquer outro na conversa ou na audiência, de imediato avança para uma descrição formal do episódio onde enfatiza a falta de credibilidade da acusação e a credibilidade do acusado, e termina em cavalgada heróica dando o peito contra as lanças dos ridículos que perseguem Relvas.

O choque que estas declarações me causaram não está no seu teor. Que Costa pense exactamente isto é para o lado em que durmo melhor, mesmo que o tenha passado a ver como um estranho. O choque vem é do desaparecimento do político. Como é que lhe foi possível ignorar a gravidade da ameaça à jornalista? Pior: como é que ele se permite desconstruir e desvalorizar a indignação que a chantagem, precisamente pelo sórdido donde nasce e que procura espalhar, provoca em qualquer cidadão que ainda encontre uma cara para lavar pela manhã? Mesmo que estivesse decidido a caminhar no fio da navalha, num registo de imparcialidade, equidistância e cega justiça exemplares, teria de representar em igualdade intelectual o lado daqueles que acreditam ser Relvas uma figura que ofende o Estado e a comunidade. Precisamente por não o saber, por nada saber, o futuro secretário-geral do PS estava obrigado a defender a cidade – preferiu defender uma erva daninha.

Temos elite, mas onde está o escol?

Mais duas figuras intimamente ligadas a Sócrates aparecem a defender Relvas, Maria de Lurdes Rodrigues e Proença de Carvalho. Estarão a fazê-lo pelas melhores razões, dando lições de decência e civismo por contraste homérico com o que sofreram no passado, e continuam a sofrer no presente, por se terem cumprido livres ao lado de quem nunca abandonaram, fosse por vínculo político ou profissional.

Contudo? Com tudo o que dizem não falam do essencial: é impossível defender Relvas sem com isso ofender a inteligência alheia. E isto para começar, pois as ofensas não se ficam pelo domínio da lógica. Tanto no que diz respeito ao caso dos serviços de informação, onde Relvas mentiu abertamente e um adjunto seu teve de se demitir, como no caso com o Público, onde é o próprio Relvas a validar a versão do jornal, há uma leitura moral e política que não está dependente dos processos formais de apuramento dos acontecimentos. Se a ideia for, inclusive para o PS, a de manter Relvas no Governo, pois nem esse propósito imuniza os responsáveis políticos face às consequências éticas do espectáculo das últimas semanas. Portanto, quem bota faladura sobre os casos está concomitantemente a comprometer-se pessoalmente nos episódios, pois é obrigado a julgá-los do ponto de vista do espaço público.

Não foi Balsemão quem obrigou Relvas a telefonar para a Leonete Botelho. Não foram 32 minutos para responder a perguntas que o fizerem perder a cabeça ao telefone. Não foram perguntas que declarou serem irrelevantes acerca de situações que garantiu serem lícitas que lhe despertaram a gana de ameaçar com boicotes de ministros e publicação de informações pessoais de uma jornalista na Internet. Isto não tem defesa, e ele nem sequer se defende, anda é a ser defendido por aqueles de quem menos se esperava tal cumplicidade.

Se a nossa elite não está à altura dos mínimos de respeito que Portugal merece, talvez o melhor seja ficarem calados.

Já se pode voltar ao optimismo sem medo de passar por mentiroso e louco, decreta o Marcelino

Isto é de subir aos postes e apalpar o cu às lâmpadas. No DN descobriu-se no finalzinho de Maio de 2012 o que se andou a fazer desde 2005. As gozações com a política comercial de Sócrates, o achincalho permanente da confiança exibida pelos governantes ao tempo na capacidade da economia nacional em inovar e produzir, o consolo sádico em ver o País a ser afundado só para trocar a cor do poder, o histerismo venenoso que se enfurecia e negava qualquer sucesso que pudesse ser associado a socialistas, dão agora lugar ao discurso contra as lamúrias e modorra dos indígenas. Bem sabemos que o Marcelino nunca assumiu publicamente esta retórica decadente e demente, mas o seu estilo “português suave” fez força na mesmíssima direcção.

A verdade crua dos números diz-nos que essa presença vinha em crescendo nos anos de 2006 e 2007, estagnou, em 2008, e levou um enorme tombo, arrastada pelo colapso do comércio internacional, em 2009, para voltar com redobrada força, desde janeiro de 2010, a projetar os bens e serviços portugueses em cada vez mais mercados estrangeiros, com ganhos de quotas de mercado em vários continentes e crescimentos anuais de dois dígitos.

O processo é muito anterior ao desembarque da troika no Rossio e resulta de um investimento persistente e sustentado do Governo e das associações empresariais, que semearam negócios no Magrebe, no Golfo, na América do Norte e do Sul, em África e na Ásia, cujos frutos começam agora a tornar-se tão visíveis, que até o FT os vê.

Não há, pois, razão para derrotismos ou desânimos. O que faz falta é resiliência e persistência, qualidades que, ao contrário dos seus mais míticos antepassados, não constituem o forte da alma dos lusitanos modernos.

Precisas de ajuda para apanhar o gajo, Pacheco?

Na Comissão de Inquérito sobre a tentativa de José Sócrates de controlar a TVI, tive ocasião de ver como uma parte significativa da nossa elite política, social e económica mentiu com todos os dentes que tinha para proteger um Primeiro-ministro então “amigo” e também para proteger os seus negócios, presentes e futuros. No final do inquérito, Passos Coelho interveio pessoalmente para proteger Sócrates de conclusões que denunciavam as suas mentiras e o seu papel, e mesmo o BE e o PCP actuaram para evitar as consequências plenas de se verificar que o Primeiro-ministro mentira ao Parlamento. Nenhum quis colocar Sócrates perante as suas responsabilidades e isso por uma razão fundamental: todos pensavam que os portugueses não “compreenderiam” que o Primeiro-ministro pudesse cair porque conduzira através dos seus homens de mão uma operação para controlar uma estação televisiva que tinha noticiários hostis e fazia mossa ao governo. E, deste ponto de vista, tinham razão.

Os jornalistas, por sua vez, salvo raras excepções, é muita indignação e lábia, mas rapidamente se deixam envolver nos “lados” da politização do caso e nas tricas entre jornais e entre eles próprios. Ainda há um pequeno número de órfãos de Sócrates nos jornais, que hoje protestam contra Relvas, indiferentes às sucessivas tentativas de Sócrates de manipular a comunicação social, muitas com êxito.

Pacheco

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Que diria o Pacheco Pereira se o Pacheco Pereira tivesse tempo e disposição para dizer coisas a respeito do Pacheco Pereira? Talvez daqui por 10 ou 15 anos o saibamos, numa autobiografia mais do que merecida. Entretanto, temos à disposição a facúndia pela qual ganha a vida e rivaliza com Marcelo no topo da cadeia alimentar das estrelas da política-espectáculo. Tal como Marcelo, Pacheco é bífido, ora julgando os políticos como observador, ora indo para a política julgar os observadores. Este exemplo acima, o seu papel no caso Sócrates-TVI, é paradigmático da duplicidade que lhe permite jogar com as brancas e com as pretas ao mesmo tempo e ainda ter lata para se queixar da inclinação do tabuleiro.

Comecemos por lhe dar razão. É altamente provável que Sócrates quisesse “controlar a TVI” e acabar com o “Jornal de Sexta”, entre outras malfeitorias. E isso pela mais lógica das razões: por ser lógico querer defender-se e/ou atacar os adversários. A TVI do casal Moniz era uma entidade com uma agenda política de destruição do Governo e do PS com recurso a difamações e calúnias sistemáticas. Igualmente provável é ele ter verbalizado isso mesmo, ou parecido, com os seus amigos e/ou colaboradores mais próximos. Acresce que a área do PS não tem nenhum patrão de imprensa, estando o panorama mediático português quase todo nas mãos da direita ou coisa pior. E, para cúmulo, a exploração do caso Freeport era especialmente penosa para a vida pessoal e política de Sócrates, sendo um dos principais factores de desgaste num ciclo já profundamente condicionado pela crise de 2008/9 e o conflito com os professores. Logo, passar-lhe pela mona a fantasia, ou a cobiça, de se ver livre dos mastins de Queluz é algo que o bom senso popular carimba como normal.

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Afinal, eles bem sabiam o que vinha a caminho

Os contornos multiformes do caso Relvas, a ter como protagonista um ministro socialista, dariam origem a um pandemónio. De imediato o Aníbal, a direita, a esquerda, os sindicatos, as ordens, a sociedade civil, os fogareiros, os clubes do tapperware, os grupos de escuteiros, e qualquer macaco capaz de juntar um adjectivo a um substantivo, saltariam alucinados de indignação para o espaço público. Basta recordar o que se disse e escreveu nos episódios dos corninhos infantilóides do Pinho ou no desvairo pateta e hilariante do Ricardo Rodrigues ao fanar os gravadores dos jornalistas em frente às câmaras. Estes dois casos, um deles levando à imediata demissão e seu prejuízo político, o outro ao custo político da continuação em funções, não têm qualquer comparação com o que já está estabelecido no tribunal das evidências a respeito de Relvas, pois a temática das secretas e da chantagem para cima de jornalistas é de um outro e inaudito campeonato. Assim, não havendo ninguém do PS para abater, reina o civismo, o sentido de Estado, o protocolo de esperar pelas averiguações e demais minudências. Temos até disponibilidade para apreciar o espectáculo imperdível de ver aqueles infelizes que aparecem a defender o indefensável, autênticos farrapos que teriam sido dos mais assanhados e furibundos caso o alvo não fosse laranja e sim cor-de-rosa.

Criar pânico na população, instigar ao clima de permanente histerismo foi instrumental e decisivo para o desgaste e abate de Sócrates. Correia de Campos, que entrou no Ministério da Saúde sabendo o que lhe iria acontecer inevitavelmente mais cedo ou mais tarde, caiu porque de repente até algumas figuras gradas do PS alimentavam a irracionalidade contra si e contra o Governo. Estes fenómenos tinham diferentes causas, desde a permanente desconfiança face ao poder até à dificuldade de aceitar mudanças de cultura, passando pela eficácia mediática na construção das percepções, imagens e sentidos. Mas à volta de Sócrates o histerismo igualmente nascia do seu carisma, da sua força que vencia e, por isso, que ia subindo a parada do desafio para os seus opositores. Tal destino humilhou a gente séria, impotente e corroída por uma endógena decadência intelectual. Não tinham generais nem guerreiros à altura, mas tinham veneno. Abundante, inesgotável veneno.

Centenas de milhares de desempregados atrás, no tempo em que seria impossível admitir que algum Governo se atreveria a cortar subsídios à má-fila, quanto mais defender a pobreza como meta ideológica, e os sinais de uma economia a modernizar-se iam aparecendo com consistência apesar das conjunturas de crise sucessivas, o dia-a-dia era preenchido com a legião de clones do Medina Carreira que garantia estarmos a caminhar para o abismo em passo de corrida, que estávamos a ser governados por incompetentes, criminosos e loucos. Honra lhes seja feita, finalmente acertaram em cheio.

A cidade do Luís Arnaut


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Seria possível fazer um mestrado de ciência política e comunicação só com estes 20 minutos de vídeo como matéria de análise e reflexão. Trata-se de um episódio que não interessa a ninguém, no sentido em que entrou imediatamente no eterno esquecimento, mas onde podemos ver exposta em detalhe a essência da política enquanto exercício de mera luta do poder pelo poder, sem qualquer outro critério para além do da aparência de respeito pela Lei. O protagonista é José Luís Arnaut, um dos principais homens do aparelho do PSD no consulado de Durão Barroso, alguém que conhece de ginjeira todas as manhas e todos os podres do laranjal. O que confere notabilidade a esta peça é o registo do desespero cru de um político profissional, o qual entra de cabeça num exercício de pura erística ao arrepio de qualquer laivo de consciencialização ética ou moral.

Arnaut foi para a porqueira do Crespo sabendo duas coisas: (i) que o caso Relvas atinge gravemente Passos Coelho, o Governo e o PSD e (ii) que Relvas não tem defesa possível. É nestas alturas que se entende a preponderância de advogados nas organizações partidárias pois, para além dos partidos terem de elaborar legislação, na maior parte do tempo é necessário manipular o discurso dos adversários, desconstruindo argumentos e reinterpretando factos. Exactamente o que faz um causídico na defesa dos seus clientes, procurando maximizar os seus interesses através das competências e técnicas tribunícias. Não sabemos o que levou Arnaut a querer defender publicamente Relvas mas, uma vez assim decidido, o único caminho teria mesmo de ser esta mixórdia de confrangedoras, insultuosas e miseráveis hipocrisias:

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Revolution through evolution

Anger in Disputes Is More About the Climate of the Marriage Than the Heat of the Moment
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Disagreeable People Prefer Aggressive Dogs, Study Suggests
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Anxiety May Hinder Your Sense of Danger
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Rats Display Altruism
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Soldiers Who Desecrate the Dead See Themselves as Hunters
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What Baboons Can Teach Us About Social Status
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Expressing Sadness Can Break Climate of Anger in Couples
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Exercising In Your 50s, 60s, 70s and Beyond
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Persistent Sensory Experience is Good for Aging Brain
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“Personality Genes” May Help Account for Longevity

Correio da Tarde

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Felizmente não existe, e queiram os deuses da cidade que nunca venha a existir, mas podemos imaginar a sua existência. Podemos imaginar o que seria, diria, faria um pasquim igual ao Correio da Manhã que, em vez de estar ao serviço exclusivo da agenda do PSD e das canalhices da gente séria, andasse a servir os interesses de uma ala pulha da esquerda. Nesse universo alternativo, o material à disposição para manchetes, Jornais de Sexta, arquitontos do Chiado, porqueiras à la Crespo, Helenas Matos e Pachecos Pereiras cor-de-rosa ia desde o lúbrico Jacinto Capelo Rego até ao ínclito Presidente da República que levou para o Conselho de Estado alguém que é agora suspeito na Justiça de ser um dos maiores escroques portugueses de sempre, passando por figuras gradas do Cavaquistão envolvidas em todo o tipo de burlas e corrupção, algumas já provadas em tribunal, até num homicídio. E isto sem ser preciso chegar à Madeira, esse pedaço da República onde a Constituição não se encontra numa versão completa. Este pântano daria para alimentar na comunicação social mil anos de campanhas mais negras do que o breu.

O teor da manchete acima foi replicado pelos direitolas que escrevem na Internet, alguns acumulando com serem pagos para escreverem em jornais e dizerem coisas na televisão. O tom era de júbilo, festa, desforra, vingança. Pessoas que se descreverão como estando na posse de todas as suas faculdades mentais, e como exemplos de decência e civismo, celebravam a calúnia como expoente do combate político. Elas não queriam saber em que condições as afirmações tinham sido obtidas, qual a sua credibilidade, importância, consequência. Elas apenas queriam, salivando fel queriam, explorar a oportunidade de voltarem a violar a honra de um adversário que odeiam e que precisam de imaginar destruído sem qualquer possibilidade de recuperação para conseguirem adormecer quando se enfiam na caminha.

À luz das evidências judiciais apuradas e do seu aproveitamento mediático e partidário, Sócrates tem sido vítima política e pessoal de uma conspiração, ou bem mais do que uma, ao longo de 7 anos, culminando com esta colossal filha-da-putice onde o suspeito de ter lucrado – ou de ter tentado lucrar – com o uso do seu nome aparece invocado pelos ranhosos como autoridade que se sobrepõe em veracidade à palavra de Sócrates e à de todas as entidades policiais e judiciais que têm investigado as suspeitas lançadas in illo tempore de 2005 para ajudar esse grande heterossexual de seu nome Santana Lopes.

Seguro, agora é contigo

Depois da ida de Relvas à ERC e subsequentes declarações públicas do próprio, já dispomos de todos os elementos para reconstruir o filme sem precisarmos de ler a papelada final. Foi exactamente (ou quase) assim:

– Relvas constatou que as perguntas enviadas por Maria José Oliveira na quarta-feira da semana passada expunham as mentiras que proferiu no Parlamento um dia antes e abriam outras suspeitas não exploradas pelos deputados. Passado dos carretos, toma consciência de que tem de estancar por completo aquela investigação. Decide telefonar de imediato a Leonete Botelho.

– A conversa com a editora de política do Público corre bem enquanto ele faz pressão e ameaças, chegando ao cúmulo de explicitar o modus faciendi da chantagem: divulgação de informações relativas à privacidade da jornalista Maria José Oliveira na Internet. Mas acaba mal, porque a Leonete não lhe faz a vontade. Desliga furibundo. Volta a ligar e a repetir as ameaças, com igual resultado.

– De seguida, Relvas liga para Bárbara Reis, a directora do jornal, a qual o ouviu e calou. Entretanto, os jornalistas do Público foram esperando, conversando, esperando e conversando. Até que se fartaram de esperar: na sexta-feira lançam um comunicado a denunciar a situação, assinado pelo Conselho de Redacção. A Direcção começa por o repudiar, para logo depois juntar a sua voz à versão dos acontecimentos nele vertida, passado a ser a posição oficial do jornal daí em diante. A reacção de Relvas é de completa negação e de ameaça de processo judicial contra o jornal.

– No seguimento desta acção que uniu a Redacção e a Direcção do jornal, Bárbara Reis liga a Relvas para apresentar um protesto formal e recebe um pedido de desculpas. De seguida, o Ministro continua a negar ter feito pressão, quanto mais ameaças, e remete-se a um silêncio apenas interrompido com a sua ida à ERC.

Foi assim (ou parecido) e nunca se tinha visto em Portugal. Isto é, nunca um órgão de comunicação social denunciou ameaças deste calibre, para mais vindas da 2ª figura do Governo e explicitando uma chantagem torpe e sórdida, eventualmente criminosa. Todos os factos em cima da mesa tornam inevitável a concordância com a versão do jornal, até porque é o próprio Relvas que vai confirmando às mijinhas o mesmo relato. Confirmou que fez os telefonemas, confirmou que ameaçou com a ERC e tribunais, confirmou que ameaçou com um boicote unipessoal ao jornal e confirmou que estaria em condições emocionais anormais e agressivas. Acima e antes de tudo, não contesta judicialmente a versão do Público, versão essa que nos mostra um cidadão sem condições para exercer cargos governativos e partidários, pelo menos.

Mas tudo isto não passa da ponta solta de um novelo muito maior, o qual nos faz regressar a Silva Carvalho e à sua generosidade secreta. Algo de muita importância deixou Relvas a espumar da boca, uma boca bem suja, e levou-o para um número mafioso que julgava nunca vir a dar esta bronca. Honra e aplauso para Leonete Botelho e quem no Público decidiu não alinhar no silenciamento vindo da Direcção. Agora, que se assumam os corolários do episódio no que à imprensa e ao Parlamento disser respeito. Particularmente, que se investigue o vínculo de Silva Carvalho a Relvas a partir das perguntas mesmas a que ele não quis responder. E que se dê o passo inevitável, esse de chegar a Passos e perguntar se ele confirma nunca ter ouvido de Relvas conversas a respeito de mensagens engraçadas vindas do super-espião com tantas informações para partilhar entre os amigos. Seja qual for a resposta de Passos, diga sim ou não, o futuro político deste Governo e dos seus carolas mudará instantaneamente.