Não se conhece a opinião de Seguro acerca do relatório PISA de 2012. Tendo em conta que esse documento corresponde ao mais apurado registo do estado e desenvolvimento da educação na Europa ao longo de uma série longa, tendo em conta que ele revela o efeito de medidas tomadas por Governos socialistas, tendo em conta que o tema da Educação é nuclear para a identidade do PS, do republicanismo e da democracia, tendo em conta que o PS lidera a oposição e tendo em conta o plano de desqualificação e esvaziamento da escola pública em curso pela mão de fanáticos e broncos, o silêncio de Seguro – em condições de normalidade política e sanidade cívica – seria suficiente para todo e qualquer militante estar agora aos saltos a berrar pela sua imediata demissão.
Pois não, reina o marasmo. Ou o apoio à derrelicção do passado, a especialidade deste secretário-geral. Mas o tenebroso espectáculo talvez tenha uma mui terrena e científica explicação. É que o PS possui um laboratório de ideias – Lipp – e quem tem manigâncias desse aparato tende a não se reger pelas lógicas dos simples. Com toda a certeza, neste preciso momento em que teclo o laboratório fervilha com ideias explosivas umas, virais outras, devidamente encafuadas em tubos de ensaio imaculadamente desinfectados e frascos perfeitamente rotulados e arrumados nas prateleiras. É um laboratório, foda-se, não é a taberna. E isto de andar a investigar pede muita paciência, não é para apressados. Aliás, ainda há dias tivemos Seguro a dizer que “Preparar um bom programa leva tempo” e que “O próximo Governo não pode ser de turno, mas de projecto, o que leva muito tempo até que projecto e pessoas estejam preparados“. O cândido reconhecimento da dificuldade, ou apenas demora, na sua missão de introduzir no PS e em Portugal “um novo ciclo“, “um novo rumo” e “uma nova forma de fazer política” oferece duas ilações de bónus:
1ª Dois anos de experiências no laboratório, misturando fórmulas e esventrando sem piedade resmas de cobaias, é curto. É curto porque estamos perante uma investigação séria, por gente que sabe o que faz e que não anda aqui para enganar ninguém – como tantos outros, e vocês sabem bem quem são.
2ª Quando Seguro apresentou uma moção de censura no Parlamento e pediu eleições aquilo era na reinação. Ou, então, a ideia talvez fosse a de derrubar o Governo e pedir para se adiarem as eleições até que o laboratório tivesse concluído o seu trabalho – fosse lá quando fosse, é assim na ciência.
Questões circulares que nos levam para a questão fundante. Donde veio a brilhante e fecunda ideia do Laboratório de Ideias? Terá nascido miraculosamente na cachimónia do fecundo e brilhante Seguro? Telespectadores zelozos garantem que não. Eles indicam o ano de 2010 e uma certa entrevista para o primeiro registo cósmico da coisa. A entrevista juntou dois gigantes do burlesco nacional, Carrilho e Goucha. E daqui lanço o apelo para que não se perca a performance de Goucha, o qual, para além de se apresentar em registo sabujo-chic e mostrar-se um fervoroso apoiante do genial Crato, ainda teve presença de espírito para dizer coisas como “os computadores prejudicam o ensino da escrita porque há uma linguagem informática, tecnológica“. Imperdível. Memorável. E luminoso.
Recorde-se o que Carrilho verteu para a populaça nessa histórica ocasião:
Há uma década perdida na educação em Portugal.
O Magalhães não passou de uma operação de propaganda que custou mil milhões de euros e que apenas visou satisfazer o interesse de algumas empresas.
Os computadores na escola agridem os professores.
Os computadores só devem entrar na sala de aula se os professores deixarem, os políticos não têm nada a ver com isso.
Todos os estudos que Carrilho consultou provam que os computadores dificultam a aprendizagem das crianças.
Os computadores só permitem gozar de períodos de atenção até um máximo de 3 minutos, porque após essa duração ocorre a chegada de um email e lá se vai a atenção para o galheiro.
Se as máquinas de calcular já eram o terror dos professores de matemática, os computadores são um perigo muito maior para todo o edifício escolar e seus processos pedagógicos.
Os partidos e os políticos não merecem nenhum crédito.
É preciso criar um laboratório de ideias.
A aposta no betão tem de ser substituída pela aposta nas pessoas. Não é com Magalhães que se lá vai. As pessoas estão primeiro.
“Eu digo a verdade.”
Esta entrevista ocorre no contexto da sua saída do cargo de embaixador na UNESCO. E, ainda estando em funções, Carrilho diz que aqueles que o convidaram para o cargo, e que o iam substituir após dois anos e um caso de desobediência, eram os mesmos que ele considerava ignorantes, irresponsáveis e corruptos. Quando um Governo gasta mil milhões de euros só para encher os cofres de certas empresas e, de caminho, consegue prejudicar gravemente as crianças e os professores portugueses, não há ninguém que se safe, dos ministros aos deputados. É difícil, de resto, conceber crime maior, excepção para as violações da integridade física.
Que fez Seguro depois de ouvir este seu estimadíssimo camarada? O que sabemos: inscreveu o laboratório de ideias na campanha eleitoral para secretário-geral e tentou meter Carrilho à frente dele após a vitória. Era o homem certo no lugar certeiro, um pensador de renome internacional com provas dadas no campo das ideias que importava desenvolver, aprimorar, tornar quimicamente puras. Porém, alguém lhe deve ter dito internamente que a filha-de-putice teria alguns limites e o episódio acabou com Carrilho a invocar que não poderia aceitar o olímpico desígnio da criação de ideias nascidas da soberba demente e do ódio alucinado porque tinha de ir dar uma aulas. Um festim da sonsaria.
Eis, finalmente, o quadro completo que nos permite compreender o silêncio de Seguro sobre o PISA. Pois se ainda nem o Laboratório nem Carrilho se pronunciaram, e se essas investigações e reflexões são para fazer com calma, que há-de o esforçado líder da oposição dizer a respeito? Bom, e que tal, como substituto, “saudar fortemente a aprovação da comida mediterrânica como património Imaterial da Humanidade“? Óbvio! Experiências já concluídas pelos investigadores do Lipp afiançam que se cortarmos a comidinha aos alunos eles começam a ficar com um olhar vítreo e alguns até chegam a cair redondos no chão. Portanto, o actual PS recomenda muita fruta, legumes, peixe, azeite (q.b.) e nada de PISA, essa porcaria gordurenta.