Todos os artigos de Valupi

Afinal, descobriu agora o Expresso, parece que Sócrates andou foi a salvar a economia

«Durante a recessão de 2009, o investimento público ascendeu a 4,1% do PIB para contrabalançar a queda do investimento privado e reanimar a economia após a crise do subprime e a falência do Lehman Brothers. Agora, o valor previsto não vai além de 2,5% do PIB. E a crise de 2020 será bem mais violenta que a de 2009, quando o PIB caiu 3,1%. Em 2020, o Ministério das Finanças já admite que a economia portuguesa caia mais do dobro (-6,9%) e as mais recentes previsões nacionais e internacionais apontam para mais do triplo (-9,4% a -9,8%).»

Covid-19. Sócrates investiu mais 60% do que Costa para amortecer crise de 2009

Ricardo Costa descobriu o culpado: Ivo Rosa

A falsa equivalência é falácia (leia-se: uma tanga para alimentar borregos) que delicia os pulhas. Estamos sempre a levar com ela. Se calha falarmos de Hitler, o pulha vai logo buscar Stalin alegando que fez igual ou pior. O objectivo é defender Hitler e o nazismo. Se calha falarmos da violência dos racistas, o pulha vai logo buscar os episódios em que os anti-racistas agrediram alguém nas suas manifestações contra o racismo. O objectivo é defender os racistas e o racismo. Se calha apontarmos o dedo para um juiz que se acha superior à Lei, o Ricardo Costa vem logo a correr avisar a malta de que o culpado é outro juiz, o que defende a Lei em nome do Estado de direito democrático e dos direitos individuais dos cidadãos. O objectivo é defender um magistrado instrumental para a oligarquia e atacar um outro que ameaça expor a farsa e o processo político que originou e conduziu a Operação Marquês.

Exagero? É ouvir este génio da análise pulhítica: Caso EDP. “O que estamos a assistir é uma guerra pública entre dois juízes”

Há nisto uma faceta maravilhosa de desplante e acefalia. É a insistência desta infeliz figura em mostrar o seu processo mental. Que consistiu em delirar, é o próprio que o confessa: “Uma boa parte da conferência de imprensa foi direcionada ao juiz Carlos Alexandre”. Ou seja, o ás do jornalismo “sick” ouviu Ivo Rosa a descrever a desvairada complexidade do que Rosário Teixeira montou, e de como não seria justo para ninguém, arguidos e a própria Justiça, ter de decidir no prazo dos 10 dias regulamentares, e pensou “Hum… este gajo está a querer ser isento e respeitador dos principais direitos e interesses em jogo, está a querer fazer o mais zeloso trabalho que for humanamente viável, está a tentar chegar à melhor justiça possível sem se deixar condicionar pela colossal pressão política, mediática e popular à volta do caso judicial mais importante de sempre na democracia portuguesa … então, só pode estar a atacar o Carlinhos!”

Do muito que se poderia dizer sobre este pulha, o qual foi para a TV avisar todos os magistrados para acabarem com as denúncias do populismo judicial sob pena de entrarem na lista dos inimigos do superjuiz, vou só agarrar no que me parece mais odorante da latrina em que transformou o seu papel público: “Ivo Rosa gosta de destruir e duvidar sistematicamente, e na minha opinião exageradamente, do que o Ministério Público lhe apresenta. Um defende demasiado, se quisermos, os direitos da defesa, Ivo Rosa. O outro não protege assim tanto os direitos da defesa, Carlos Alexandre.“. Portanto, Ivo Rosa, cuja suposta função é a de ser o juiz dos direitos e garantias dos arguidos perante a acção e poderes do Ministério Público, acaba denunciado como vilão pelo director-geral de informação do grupo Impresa devido à sua má vontade “sistemática” (??) contra os coitados dos procuradores que lhe chegam já com as condenações prontas a transitar em Cofinado. O outro, que calha também ter como suposta função constitucional a defesa dos direitos e garantias dos arguidos, já se está um bom bocado (sistematicamente, talvez?) a cagar para os direitos da defesa, se é que ele admite que tenha algum direito, o que recolhe a aprovação do director-geral de informação do grupo Impresa.

Não seria impecável podermos assistir a uma qualquer exposição, nem que fosse por escrito num papel de embrulho com nódoas, deste senhor onde ele justificasse o que diz sobre Ivo Rosa – sem contraditório – no império mediático do militante nº 1 do PSD? Mais rapidamente chegará a notícia de o Inferno ter congelado do que tal dia.

Alguns de vossemecês são muito estúpidos, caramba

Pedro Marques LopesUma ministra não pode vir dizer, como ela disse, "que não, isto não há problema nenhum com os transportes". Ou seja, como é que ela sabe? Portanto, o confinar foi muito fácil. Desconfinar, pelos vistos, foi mal programado. Se nem transportes estavam programados para fazer isto, mal andamos.

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Luís Pedro NunesO descaramento do Pedro Nuno Santos, no Parlamento, a dizer que os transportes públicos de Lisboa não têm absolutamente nada a ver com a transmissão do vírus...
Clara Ferreira AlvesA ministra também disse isso, a ministra também disse isso...
Luís Pedro NunesA lata dele a dizer que os números não batem com alguma acusação, os senhores deputados preparem-se melhor. A vontade que dá é mandar o ministro de manhã para a linha da Amadora-Sintra e para alguma dessas imagens que se vê...

😳

Clara Ferreira AlvesA mim não me interessa a chicana política, não me interessa mesmo nada a chicana. [...] As conferências da Dra. Graça Freitas são catastróficas, são catastróficas, são catastróficas, são catastróficas! A senhora já disse tudo e o seu contrário, não tem uma opinião definida sobre nada, chuta para a Organização Mundial de Saúde que também já disse tudo e o seu contrário sobre certas coisas. [...] Não somos todos estúpidos, caramba... [...] Há uma perfeita descoordenação. Eu conheço um caso, uma pessoa infectou a [e conta o caso que conhece] Ou seja, está-se a poupar dinheiro nos testes, a verdade é esta! A verdade é esta!

😵

Fonte

Lamento ver o Pedro Marques Lopes, de quem sou o maior fã neste planeta (logo a seguir à família e amigos, bem entendido), a mergulhar de cabeça no espectáculo de se comportar como um borrego. Já o Luís Pedro Nunes não surpreende (embora nos surpreenda por vezes pelo serviço público que presta, como também foi o caso nesta última quinta-feira ao denunciar Carlos Alexandre) e a Clara Ferreira Alves é uma traumatizada do socratismo mediático a precisar de urgente apoio profissional, pelo que nos devemos preparar para o pior de cada vez que opina em matérias relativas ao PS e à política em geral.

Uma forma de explicar o caudal de estupidez que as citações acima exibem é remeter o fenómeno para as distorções típicas dos registos orais emocionados. No fundo, estes artistas estão tão à-vontade em palco que se permitem agir como se estivessem numa almoçarada na casa de um deles, vocalizando alto qualquer fantasia e barbaridade que lhes dê na gana. Pode ser. Vamos fingir que sim.

Então, aqui vai um outro exemplo de alguém que, aparentemente, teve tempo para pensar no que queria dizer, tempo para confirmar que disse o que pensou dizer, e tempo para eventuais correcções ao pensamento e ao que ficou dito:

«É por isso estranho que a ministra da Saúde tenha dito que não se pode associar os transportes públicos à existência de novos casos. Na sexta-feira explicou-se melhor e clarificou que nas “identificações de infecção, não há nenhuma associada a contágio em transportes”. Apesar disso, reconheceu, há “uma probabilidade elevada” de transmissão. Marta Temido queria dizer que os transportes públicos não merecem ser olhados com desconfiança e preconceito porque são essenciais às populações. Mas isso não significa que o vírus não apanha o metro.»

Sónia Sapage

Vinte e três anos depois de ter concluído o curso de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa, esta jornalista usa um espaço de opinião para nos ajudar a entender uma ministra que pinta como tendo graves problemas de comunicação e ainda mais graves problemas de responsabilidade política. Uma ministra, afiança descontraída Sónia Sapage, que precisou de uma segunda oportunidade para se explicar e permitir que o povo entendesse o que pretendia, afinal. Mesmo assim, foi só à terceira tentativa, agora com a ajuda do “jornalismo de referência”, que pudemos perceber o que está em causa: cuidadinho com os transportes públicos não se vá apanhar um bicharoco fodido. Ora, será verdade? Será, sequer, remotamente aproximado com o que aconteceu ou com os factos (por favor, riscar o que não interessa)? Para o tira-teimas, nada mais isento do que usarmos os materiais que a própria Sónia faculta no seu artigo, um deles onde Ana Maia, colega da jornalista Sapage, faz o relato do que afirmou Marta Temido na famigerada primeira ocasião em que ousou tocar no assunto. Eis o que o Público garante ter sido dito a 1 de Julho:

- «A ministra da Saúde afirmou, na quarta-feira, que não existe reporte de novos casos de infecção associados aos transportes públicos, apesar das cautelas que são necessárias.»

- «“Temos de ser honestos e verdadeiros sobre os dados que temos em cima da mesa. Não é pela circunstância de conhecer fotografias actuais ou pretéritas de transportes públicos, que têm uma lotação acima daquilo que são as recomendações da Direcção-Geral da Saúde, que nos fazem esquecer que na informação reportada pela Direcção-Geral da Saúde, e de acordo com o último relatórios que disponho da terceira semana de Junho, nos novos casos, não há nenhum caso de infecção associada a transportes públicos”, reforçou.»

- «A ministra chamou a atenção para uma realidade semelhante noutros países. “A circunstância mais ou menos de em todo o lado se indiciar que essa poderia ser uma fonte de infecção, e provavelmente será, mas depois quando encontramos os resultados, não encontramos a correspondente evidência. Isso tem de nos fazer estar atentos e pensar que isso também faz parte da exigência que se coloca ao nosso trabalho. Uma vez mais, sem desvalorizar aquilo que são os riscos associados a estas circunstâncias e as cautelas que são necessárias e o que são as possibilidades.”»

- «Mais à frente, novamente questionada sobre a situação de Lisboa e Vale do Tejo e a questão dos transportes públicos, Marta Temido explicou que o que disse foi que “não são conhecidos casos de contágio que tenham tido origem em transportes e não que os transportes não sejam pela sua sobrelotação, pelas suas condições, espaços a merecerem uma especial cautela”. “Se não fosse assim, não tinha o Governo decidido desde o primeiro momento que haveria uma coima pelas viagens em transportes públicos sem máscaras ou viseira”, salientou.»

- «“Penso que estes dois aspectos sublinham intensamente o ponto para o qual estava a chamar a atenção e para aquilo que era sobretudo a substância da minha chamada de atenção. Estamos a enfrentar um fenómeno novo relativamente ao qual temos muitas incertezas e, em muitas circunstâncias, lapsos de conhecimento. Esta questão dos contágios em transportes é uma delas. Embora da nossa vida empírica percebamos que há um conjunto de circunstâncias para que sejam locais particularmente expostos. Mas se não tivermos estes dois argumentos em paralelo, penso que não estamos a prestar bom serviço ao conhecimento e à objectividade”, reforçou Marta Temido.»

Como é que estas declarações – exemplares de objectividade científica, pedagogia cívica e responsabilidade governativa – se transformaram numa caricatura aberrante e bronca em que até uma jornalista com décadas de profissão nem sequer percebe o português da colega? Ou achará que é mais giro inventar assassinatos de carácter para encher colunas de opinião à conta de uma epidemia que está a causar uma inaudita crise de saúde pública e de segurança económica no mundo inteiro? Questões que não terão resposta, claro, pelo que volto ao Pedro Marques Lopes. Creio que o pior castigo que lhe consigo arranjar é o de exibir as companhias para onde se deixou arrastar pela boçalidade do meio. Toma lá disto, ó pá:

«“Os transportes públicos não estão associados a nenhum dos novos casos de infecção”, afirmou Marta Temido esta semana na Comissão Parlamentar da Saúde.
É uma frase extraordinariamente absurda da ministra, no seu misto de irresponsabilidade política e desonestidade científica, tendo em conta que ninguém sabe a origem de inúmeras infecções.»

Caluniador profissional

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Pregnancy stereotypes can lead to workplace accidents
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Study asks who’s playing ‘hard-to-get’ and who’s attracted by the ploy
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Life-hack: Rituals spell anxiety relief
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Declining eyesight improved by looking at deep red light
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How conspiracy theories emerge – and how their storylines fall apart
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep11)

«“Quem mais ganha com a comissão de inquérito são os concorrentes da Caixa — esses são os maiores entusiastas, além de alguns ressabiados“, diz o presidente da Caixa, garantindo que a Caixa tirou muitas lições do que a aconteceu e que não só a Caixa mas toda a banca rege-se, hoje, por práticas muito diferentes, incluindo na área do crédito e do risco.

A Caixa está diferente hoje, ou não, do que eram aquelas práticas? Está de certeza muito diferente, porque a banca toda está diferente: a supervisão é outra, a regulação é outra, as práticas de risco são outras, as tecnologias, a governance”, diz Paulo Macedo. “As lições que temos de retirar do passado levam-nos a que hoje em dia tenhamos, por força da supervisão e da regulação, uma ação concreta e sistemática em termos de governance. Além disso, a Caixa hoje tem rácios de capital mais fortes” e aprendeu a lição de que não pode voltar a ser a “última a ajustar os seus custos à redução de negócio”, diz o presidente-executivo.»


Fonte

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O PCP era contra a realização de mais uma peixeirada à pala da CGD. Estávamos em finais de Janeiro de 2019, os comunistas pareciam querer cumprir com zelo o mote da “política patriótica e de esquerda” pois alegavam que aquela que viria a ser a terceira comissão de inquérito parlamentar dedicada às venturas e desventuras da Caixa numa única legislatura só servia os interesses da direita e da banca privada. Daí, o plano ser o de lavar as mãos abstendo-se no plenário, deixar para os outros o trabalho de montarem o circo, e aproveitar as sessões para dar uns pontapés nos inimigos do povo e dos trabalhadores.

Paulo Macedo também era contra a realização de mais um festival de bombarda à reputação da Caixa. O CEO da instituição financeira lamentou, antes de a comissão começar os seus trabalhos, que se estivesse outra vez a discutir o passado em vez de se estar a ganhar o futuro. Depois da palhaçada terminar, veio expor detalhadamente o mal que tinha feito ao seu negócio – portanto, a um negócio que dá dinheiro aos portugueses quando há lucros. As suas palavras, citadas acima, são à prova de estúpidos mas não de ressabiados. Elas resumem a questão ao que é objectivamente essencial: até à crise económica de 2008-11 as regras eram outras para toda a banca, onde a CGD tentava ser competitiva por missão pública. Vir agora julgar o passado com as regras do presente pode servir para encher a indústria da calúnia de tráfego, e a direita e a esquerda sectárias de cagança demagógica, mas não puxa a carroça do interesse do banco público.

Comunistas, a esquerda pura e sem mistura, a esquerda da revolução e da felicidade marxista, estavam de braço dado com o responsável pela sujeição da CGD à gula do imperialismo capitalista, abraçados a uma estrambólica figura que tinha sido um ás da fiscalidade do barrosismo e do ferreira-leitismo, para depois dar por si a participar no “Assalto ao BCP” colaborando com o gangster Vara, só para, logo a seguir, receber o prémio de ser um dos mais prestigiados ministros do saudoso Passos Coelho. Malhas narrativas que fanáticos e pulhas tecem, onde a racionalidade e a decência jazem mortas e arrefecem.

A comissão gerou-se no (e para o) charivari eleitoral de 2019. PSD e CDS garantiram que era desta, à terceira tentativa em 4 anos, que iam finalmente expor os podres do socratismo bancário, muito provavelmente conseguindo enfiar em Évora mais uma meia dúzia de socialistas do piorio (ou do ainda pior). Isto porque iam poder vasculhar tudo e mais alguma coisa, os gatunos não tinham por onde escapar. Pois bem, que aconteceu ao aprovarem o relatório final? Aconteceu que o PSD nem sequer lá conseguiu enfiar a expressão “indícios de gestão danosa“. Teve de se contentar com “a CGD não foi gerida de forma sã e prudente“. É o equivalente a estarmos no Ticão a sermos espancados pelo Calex e, de repente, sermos teletransportados para uma consulta com um nutricionista distraído. Para quem perder (ou ganhar) o seu rico tempo a tomar conhecimento das negociações semânticas com que os deputados despacharam 36 audições (com duração total de 136 horas e 32 minutos), depoimentos escritos de várias personalidades e entidades (como o de José Sócrates ou da Comissão de Ética do Banco de Portugal) e milhares de documentos, só há uma conclusão: a retórica com que entraram foi a retórica com que saíram. Um festival de pescada, antes de o ser já o era.

Tal circularidade esgota a segunda oportunidade dada a Paulo Sá para interrogar Vara (Ep10), em que assistimos ao seu crescendo emocional até ficar à beira de um ataque de nervos por não conseguir que o interlocutor aceite, que meramente verbalize nem que fosse para o consolar, uma avaliação subjectiva que o deputado tinha cristalizado na cachimónia e perante a qual toda a alteridade circundante tinha de se anular. Não contente, conseguiu gastar uns inacreditáveis quase três minutos do reduzido tempo disponível para colocar a segunda e última questão – inacreditavelmente sobre Vale do Lobo e com uma inacreditável estupidez inquiridora. O retrato de inutilidade que o deputado deixou é de uma transparência patética. Símile exacto da sórdida inutilidade desta comissão de inquérito.

O super juiz que cercou a República

Existe um juiz em Portugal que em 2016 deu uma entrevista. Nessa entrevista atacou um inocente à sua guarda constitucional enquanto arguido, tratando-o como criminoso e violando o dever de imparcialidade. Ao violar o dever de imparcialidade, também mentiu em público a respeito da sua vida privada. Após mentir sobre a sua vida privada, ameaçou políticos, empresários, cidadãos avulsos e, com especial ênfase, outros juízes, declarando que a sua memória a respeito dos bastidores da Justiça e dos processos judiciais que lhe tinham passado entre as mãos era tão boa que até as alcunhas dos visados estavam decoradas. O Conselho Superior da Magistratura, depois de analisar profundamente o caso, sancionou a violência.

Existe um juiz em Portugal que em 2018 deu uma entrevista. Nessa entrevista sugeriu que o sorteio da fase de instrução da Operação Marquês estava viciado, assim violando o dever de reserva. Ao violar o dever de reserva, questionou publicamente a competência e/ou honradez de Ivo Rosa e acusou o Tribunal Central de Instrução Criminal de ser cúmplice de criminosos. Após declarar que a Justiça o tinha afastado recorrendo a um falso sorteio para proteger Sócrates da santa espada de Mação, acrescentou outros sinais que indiciam poder ter perturbações psíquicas graves do foro da megalomania e da paranóia. O Conselho Superior da Magistratura, depois de analisar profundamente o caso, sancionou a violência.

Este mesmo juiz acaba de atingir um nível superior de violência. No despacho de pronúncia do processo de Tancos deixa lavrado um documento institucional onde insulta em registo de provocação pessoal Azeredo Lopes (“Bizarro é fazer-se de coitadinho e de irresponsável“) e onde expõe a natureza estritamente política do processo (“Todo este lodaçal tem de ser investigado”). A intenção do juiz é persecutória e revanchista, procurando ainda atingir um primeiro-ministro e seu Governo. Isto significa que o regime, neste momento, aceita pôr um tribunal ao serviço de ódios políticos e demais interesses que os manipulam ou deles recolhem vantagens. Não só isso: actualmente, como o prova exuberante e a gargalhar Carlos Alexandre, o regime permite que a Justiça seja usada como arma de facção e de humilhação.

O juiz que age com esta impunidade tem uma vastíssima claque que solta urros e lança as cartolas ao ar assistindo aos seus números cada vez mais ousados, mais excitantes, lúbricos no despudor com que exerce a violência sobre os alvos. À volta, não vemos ninguém capaz de lhe fazer frente, capaz de denunciar que o tirano vai de beca. Os jornalistas e comentaristas decadentes deliram com o espectáculo e repetem e amplificam a porrada nas vítimas – enquanto os políticos se dividem entre aqueles que têm a caçadeira pronta a disparar caso algum mosquito incomode a sua estrela e aqueloutros que tremem de pavor e andam pela cidade de olhos no chão, já esquecidos do que é ser livre ou, tão-só, do tempo em que tinham respeito próprio.

A República está cercada pelo super juiz. E as muralhas são papéis pintados com tinta.

Serviço público

A Covid19 e o elitismo

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NOTAS

– Sendo verdade que os pobres não adoecem porque fazem muitas festas, a seguir ao desconfinamento foi visível que alguns pobres acorreram a locais onde se vende álcool e fizeram as suas festas. Foi ostensiva a recusa em usar máscara e manter distanciamento físico. O clima era de celebração. De festa. Muitas? Não faço ideia, seguramente menos do que as festas dos putos e adultos não pobres, até aos 50 anos de idade especialmente, ocorridas no mesmo período. Se isto foi visível na rua, podemos imaginar o resto nos circuitos dos relacionamentos afectivos, do consumo de droga (onde entra o álcool como a mais acessível e consumida das drogas) e da prostituição. O mesmíssimo fenómeno ocorre em diversos países.

– Dentro do desconhecimento acerca dos meios principais da propagação do vírus, é fácil aceitar a informação dada pela ministra da Saúde sobre a ausência de qualquer caso de infecção em Lisboa associado à utilização de transportes públicos. E isso é verosímil se pensarmos que os transportes públicos são ambientes similares aos das lojas tanto quanto à quantidade de utilizadores como quanto às situações de proximidade física.

– Num quadro de incerteza epistémica tão crítico como o actual, usar a epidemia para atacar governantes e autoridades a partir da estupidez e da má-fé é abjecto. Se é para criticar, que se pense a partir do bem comum e da fraternidade, como faz o Paulo numa valiosa reflexão sociológica, política e moral.

– Rui Pena Pires e Paulo Pedroso reabriram o Canhoto, mais uma fonte de inteligência na cidade.

Impunidade sem fim

«A primeira coisa que eu constato é o seguinte (com alguma graça, mas acho que muito injusta). Quando foi a investigação, quando foi a acusação e quando foi o julgamento do processo Vistos Gold, grandes notícias, grandes parangonas, grandes reportagens televisivas. Estava em causa um ex-ministro, um ex-director de uma polícia, parangonas... Esta semana, com a absolvição confirmada pelo Tribunal da Relação de Lisboa, dei-me ao cuidado de ver, não houve uma notícia na primeira página dos grandes jornais nacionais. Quer dizer, houve depois em páginas interiores, mas em páginas principais nem pensar. [...] Só digo isto, porque é assim, acho que é uma certa desproporção de tratamento, acho que devia haver um pouco mais de equilíbrio.»

Marques Mendes, minuto 19.46

Contemplar Marques Mendes a falar da Justiça transporta-nos para uma réplica do que terá sido a experiência mosaica (a do Moisés, pá) ao receber os 10 Mandamentos: o respeito pelo que se está a escutar de Deus é tanto que até o espaço entre as letras é fonte de revelações. Assim com este consigliere de Estado, um dos mais poderosos e activos passarões da oligarquia. Ouvi-lo, especialmente ouvir o que cala, é uma travessa cheia de aprendizagens sobre o que passa lá onde não entra o Soberano.

Nesta introdução à notícia da absolvição final de Miguel Macedo, acima citada, começa por surpreender o desplante de vê-lo a chamar a atenção para a manifestação fulgurante de um dos maiores problemas da comunidade – num certo sentido cívico, o principal problema: o facto de, desde 2008, a direita partidária e presidencial ter começado a usar a Justiça como arma política preferencial. Quem aliciou procuradores e juízes para serem carrascos e aliados na perseguição a adversários políticos não pode sequer comentar o fiasco do processo Vistos Gold pois tal implica ter de desmontar a ignóbil campanha à volta de Joana Marques Vidal. Uma campanha onde Passos Coelho, Cavaco Silva e Marques Mendes, para referir só os cabecilhas, acusaram Marcelo e Costa de estarem a correr com uma santa para meterem de novo uma raposa no galinheiro. No caso deste processo, ter-se chegado a um ministro do PSD foi agitado pelos propagandistas decadentes como a prova de ser a Senhora Vidal a nossa dama de ferro, a heroína que tinha instaurado o “fim da impunidade” para acabar de vez com a raça satânica dos socráticos e com mais um ou dois corruptos que sobrassem; um deles, portanto, o nosso simpático Miguel Macedo apanhado pelo fogo amigo. O enorme Marques Mendes, exsudando confiança e estrelato, não resistiu no último domingo a reclamar ser o único a destacar o assunto na berlinda e a referir o silenciamento que o editorialismo e o comentariado despejaram para cima do episódio, pelo que nem se preocupou com a possibilidade de alguém reparar nos espaços vazios da sua converseta.

«Agora vamos ao mais importante. O mais importante é assim: acho que este processo termina e é uma grande derrota para o Ministério Público, talvez das derrotas mais pesadas que o Ministério Público teve nos últimos anos. E eu acho que deviam de ser tiradas algumas ilações. Primeiro ilação. Convinha que o Ministério Público - que é muito competente nuns casos, mas muito pouco competente noutros - pensasse no seguinte: para se vencer em tribunal não chega ter uma boa narrativa, não chega ver essa narrativa depois nos jornais e convencer a partir daí a opinião pública, tem que haver provas, não chega ter opiniões. E quando não há provas, perde-se. E quando se perde, a credibilidade do Ministério Público fica obviamente afectada.»

Marques Mendes, minuto 20.27

Parece ser mentira mas tem de ser verdade, pois vem de um conselheiro de Estado escolhido pelo próprio Presidente para dele acolher o seu conselho acerca das mais ponderosas questões nacionais e internacionais. Marques Mendes disse mesmo na TV que lá no Ministério Público não sabem que é preciso ter provas caso a ideia seja chegar a tribunal. Portanto, fazendo fé nas suas palavras, no Ministério Público não se percebe patavina de Direito e da Constituição, estão convencidos que basta ter opiniões. E quem é que não tem uma opinião sempre pronta a dar sobre tudo e mais alguma coisa, né? Pois é, Zé.

Mas estará o nosso valente Mendes a falar de todos os processos? Claro que não. Como teve o cuidado de detalhar, o Ministério Público “é muito competente nuns casos, mas muito pouco competente noutros“. Infelizmente, não lhe ocorreu explicar em quais e porquê, certamente por falta de tempo. Isso deixa-nos completamente à nora, banzos, com as flutuações de competência no Ministério Público. Serão sazonais, estando ligadas à temperatura e aos pólenes? Será algo na água canalizada? Será por pirraça? Ou será da tipologia dos alvos, estando o impoluto advogado-conselheiro a circunscrever a avaliação aos processos que envolvam políticos acusados de corrupção? É que se sim, então, minha nossa senhora do Caravaggio, do que o bacano está a falar é da Operação Marquês, quem diria! E se é dessa fruta, obviamente que estamos então num desses casos onde o Ministério Público se mostrou “muito competente” – senão vejamos: tratou de arranjar uma narrativa espectacular que meteu no bolso de Sócrates entre 20 a 40 milhões de euros sem que alguma conta em seu nome com esse dinheiro tenha sido encontrada nem façam ideia de como identificar e concretizar quais são os actos de corrupção respectivos para lucro tão jeitoso, tratou de encher a indústria da calúnia com essa narrativa logo na noite em que o rei do crime foi detido assim obtendo um julgamento popular de imediato transitado em linchado, e convenceu os juízes que têm sido cúmplices de todos os abusos e ilegalidades nesse processo de que as “provas” serão suficientes para se repetir a receita com que se engavetou Armando Vara. No caso de não serem, no problemo: voltará o papão da Justiça na mão de Sócrates e do PS, nada importando que seja uma teoria da conspiração para imbecis e fanáticos pois o tribalismo e os impérios mediáticos da direita se encarregarão de atiçar a turbamulta obtendo novo triunfo do ódio político. A judicialização da política e a politização da Justiça favorecem sempre, sempre e sempre o infractor.

«Segundo. Convinha também o poder político, em vez de passar a vida, muitas vezes, a tentar encontrar soluções para ver se consegue controlar politicamente o Ministério Público, o que é um desastre, pensasse em exigir resultados e eficácia ao Ministério Público - resultados e eficácia, porque não é apenas acusações, é decisões. Ou seja, eu gostava de ver o Presidente da República, o primeiro-ministro, ou a ministra da Justiça não apenas a garantir a independência ao Ministério Público, muito bem, mas também a exigir eficácia e resultados, porque senão, é a credibilidade da Justiça que sai machucada.»

Marques Mendes, minuto 21.13

Dizendo de forma elegante, como disse Aristóteles, não devemos discutir com quem não respeita a lógica e não tem princípios; ou seja, não devemos perder tempo com aqueles que são intelectualmente desonestos. Dizendo o mesmo de forma mais prosaica, a essência do aldrabão é a de esse cabrão dizer tudo e o seu contrário. Como neste naco acima citado, onde o aldrabão começa por castigar supostas intervenções políticas no Ministério Público, não identificando de quem nem quando, para no mesmo fôlego castigar três representantes políticos ao mais alto nível por não intervirem politicamente no Ministério Público. É que só politicamente será possível condicionar em nome dos “resultados e eficácia” as “decisões” (??) dos procuradores e demais pessoal auxiliar, escusado será explicar. Faz isto algum sentido? Faz quando voltamos a correr para o regaço de Joana Marques Vidal. Segundo a lógica do estupendo e decentíssimo analista Marques Mendes, a santa Joana deveria ter sido reconduzida para mais 6 anos de serviços de limpeza da escumalha corrupta socialista porque ela estava a cumprir as ordens do poder político de então, daí ter tido um mandato exemplar de “resultados e eficácia”. Enquanto que com os socialistas, que só pensam em garantir a independência do Ministério Público, é a miséria que se vê no processo dos Visto Gold. Foi ele que o disse, e o homem sabe tanto.

Ironia das ironias, ou tragédia das tragédias, com Joana Marques Vidal tivemos Passos Coelho arquivado, Paulo Portas arquivado, Dias Loureiro arquivado, Miguel Macedo absolvido, todos os casos com material probatório que daria para cobrir o Pacífico com capas de jornais assim houvesse indústria da calúnia à esquerda. Com Pinto Monteiro, acabámos por ver Armando Vara preso sem provas e sem Estado de direito que o protegesse da vingança política. A intrujice do “fim da impunidade”, de que Marques Mendes é um dos mais poderosos publicistas, é realmente de uma impunidade sem fim.

Revolution through evolution

Challenging yet positive parenting style benefits children’s development
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Adolescents from disadvantaged neighborhoods show gene regulation differences
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A fair reward ensures a good memory
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Dolphins learn foraging skills from peers
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Marine training may take more mental than physical grit
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Smokers good at math are more likely to want to quit
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‘Game changer’ for reporters: 2016 US presidential election coverage
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Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep10)

Quem se interesse por política, quem ame a liberdade, gosta muito da imprensa. Gosta tanto que até gosta quando não gosta. Esse gosto estende-se aos editorialistas, os cromos que na imprensa exercem o poder sobre os conteúdos seleccionados, destacados, desenvolvidos e explorados liberrimamente. Estas mentes brilhantes atravessam jornais, rádios e televisões exercendo funções directivas ou delegados para tal pelos directores da casa. São muito poucos, e ainda menos se os contabilizarmos pela fatia de mercado com um mínimo de relevância que ocupem e pelos seus circuitos profissionais, gerando assimetrias que reduzem a menos de dez nomes aqueles que têm audiências suficientemente largas e/ou especializadas para se convencerem que influenciam o espaço público – e que condicionam a classe política – através das suas opções editoriais e das suas opiniões. Um deles, um dos maiores, é Ricardo Costa.

Este senhor tem assinado por baixo, há longos anos, uma ideia que não se cansa de repetir sempre que a ocasião o propicia, sendo que não lhe faltam ocasiões para tal: a ideia de que Vara só chegou a administrador da CGD pela mão de Sócrates, e que depois só foi para o BCP porque montou um assalto entregando dinheiro da CGD aos cúmplices que compraram poder de voto para meter Vara no outrora trono de Jardim Gonçalves, assim oferecendo a Sócrates e ao PS o domínio da banca pública e privada; portanto, o domínio de toda a economia nacional – possivelmente para o demónio e sua legião se perpetuarem mil anos no poder, acabamos por concluir inspirados pela magnificência da teoria da conspiração esgalhada por tão prestigiado jornalista em tão prestigiados órgãos de comunicação social. Acontece que o Ricardo Costa, apesar da caudalosa repetição da cassete, nunca apresentou qualquer prova do que apregoa. O que é curioso, tendo em conta os anos que já leva de comício e a disponibilidade imediata de recursos humanos tão bem preparados e altamente motivados à espera da ordem do chefe nas equipas de jornalistas do Grupo Impresa. E não só é curioso como também cheira a esquisito, dado que uma operação desse calibre, envolvendo tanta gente e tão estouvada ambição num meio tão controlado por tantos outros e tantas autoridades, teria de ter deixado cabeludos indícios para começo de implacáveis investigações. A verdade é a de que os bravos justiceiros que montaram a Operação Marquês deixaram de fora o material que recolheram na espionagem do Face Oculta, a tal mesma cassete do Ricardo mas ali com o título “Atentado ao Estado de direito”, assim dando a entender que os famosos telefonemas entre Vara e Sócrates eram óptimos para a indústria da calúnia e para a direita decadente mas arriscavam queimar um procurador ou dois caso fossem usados num tribunal sem a garantia de se ter um juiz fã do “fim da impunidade” que lhes desse o devido tratamento à maneira. Para resolver este imbróglio, do que precisávamos era de um Ricardo Costa paralelo que fosse capaz de dizer desassombradamente, como o faz com tanta classe e deontologia o Ricardo Costa que nos revela quem é Armando Vara, o que pensa realmente sobre o assunto o poderosíssimo Ricardo Costa, irmão de um primeiro-ministro, que trabalha para o militante nº1 do PSD e põe e dispõe a bel-prazer na sua chafarica. Como não aparece esse Ricardo Costa segundo explicador do primeiro, o melhor é usarmos os poucos neurónios de que dispomos e tentarmos a nossa sorte.

Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP foram aprovados colegialmente depois de percorridos todos os trâmites normais do banco para casos similares, não resultaram de um acto isolado de Vara ou dele em conluio secreto com Santos Ferreira. Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP só foram aprovados depois da intervenção do departamento jurídico do banco, na altura chefiado por Celeste Cardona, militante do CDS vinda de ser ministra da Justiça por escolha de Paulo Portas no Governo de Durão Barroso. Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP não chegavam, nem de perto nem de muito longe, para alterar o sentido de voto da assembleia que elegeu a lista onde estavam Santos Ferreira e Armando Vara. Paulo Macedo, que viria a ser ministro da Saúde de Passos Coelho depois de ter sido uma estrela de Manuela Ferreira Leite, fazia parte da lista de Santos Ferreira para o BCP e tinha nela a mesma posição hierárquica dada a Vara. Figuras principais do movimento “Compromisso Portugal”, iniciativa de empresários apoiantes do PSD e do CDS, foram decisivas para a eleição de Santos Ferreira como presidente do BCP. Jardim Gonçalves, quando apresenta a sua versão de como perdeu o papado no BCP, atribui a uma coligação PSD-PS a culpa pelos acontecimentos que colocaram Vara a passear-se nos corredores que foram seus. Tudo o que teclei neste parágrafo até à frase anterior, inclusive, são factos. Factos que não atrapalham aqueles que fazem de Vara um sobrenatural bandido que teria escapado à bófia depois de cometer o crime do século estando fechado e amarrado à parede num calaboiço de uma prisão de alta segurança. É dessa magnitude de pensamento mágico que estamos a falar, a fantasia demente e sórdida de ter ficado suspenso o Estado de direito entre 2005 e 2011 – e que Cavaco Silva estaria a observar de uma janela do Palácio de Belém o filme do “Assalto ao BCP”, vendo o mesmo que Ricardo Costa também viu, e mais não conseguiria fazer do que roer as unhas paralisado de medo, enquanto Vara, ajudado pelo Vítor Constâncio disfarçado de ninja, distribuía centenas de milhões de um banco público pelos comparsas e andava possuído pelo Diabo a emporcalhar o solo sagrado da finança privada e católica.

Como se pode ver na segunda intervenção de Cecília Meireles (Ep9), a deputada do CDS gastou a totalidade do seu tempo num exercício de chicana. O intento, exclusivo, foi o de colocar o “Assalto ao BCP” na mesa para ser pasto de jornalistas e, de caminho, tratar Vara como um pau-mandado de Sócrates e um abominável corrupto. Atente-se como as perguntas não têm qualquer função investigativa, não remetem para nenhuma parte do relatório da Ernst & Young na origem da comissão, e quase todas já tinham sido feitas e respondidas várias vezes ao longo da audição. O ânimo fogoso desta jurista, gravado para a posteridade numa sala da Assembleia da República, alimenta-se da oportunidade para tentar humilhar o cidadão Armando Vara, uma pessoa que se encontra destituída da liberdade e do seu bom nome a ter de enfrentar representantes do Estado com autoridade política e judicial. Cecília Meireles usou o poder que lhe foi outorgado pelo Soberano para torturar emocionalmente Vara.

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Se no final aumentares o som do vídeo para o máximo consegue-se ouvir em fundo, quase imperceptivelmente, um bater de palmas frenético e o grito “Dá-lhe, Cici!“. Sim, é o Ricardo Costa.

Estado de guerra, 4 meses depois

“The coronavirus pandemic pits all of humanity against the virus. The damage to health, wealth, and well-being has already been enormous. This is like a world war, except in this case we’re all on the same side.”


Bill Gates

A chegar aos 4 meses após o aparecimento dos primeiros casos de infecção pelo coronavírus em Portugal, que aprendemos entretanto?

Por exemplo:

– que a ciência não tem balas de prata contra o papão, antes parece ter pés de chumbo (mas sendo esse peso a dar equilíbrio e segurança ao conhecimento produzido)

– que os políticos têm de cometer erros, caso contrário não nos estariam a ajudar (limitar-se a apontar supostos erros aos governantes adentro de uma calamidade inaudita é a glória dos inúteis)

– que os números registados em cada país, região ou cidade para as infecções pelo vírus não são retratos da realidade, são tão-só esboços para um capítulo de um livro com imprevisível número de capítulos (o qual só começará a ser escrito depois da pandemia passar)

– que tudo somado e subtraído, o único aspecto decisivo no fluxo dos números é relativo à capacidade hospitalar em Portugal para dar a cada doente todas as condições para o seu melhor tratamento (podendo até se ver como boa notícia o aumento das infecções pela simples razão de corresponder a um processo imparável que, se não matar, nos torna mais fortes)

– que a natureza humana é a natureza humana é a natureza humana, pelo que a necessidade de proximidade física em contextos de dinâmica social ou psicológica é indomável (o que implica aceitar que os contágios irão sempre ocorrer até chegarmos à imunidade de grupo, sejam lá quais forem as medidas tomadas pelas autoridades)

– que as potências mundiais talvez venham a ter de criar uma nova ordem económica nascida directamente do impacto económico e social da actual crise (o que, a acontecer, não seria a primeira vez, tudo concorrendo para que se reconheça termos de avançar para uma nova fase do capitalismo onde a segurança na saúde e na ecologia sejam prioridades vitais à escala internacional)

– que a alergia ideológica à metáfora da guerra, vendo nela apenas o militarismo da sociedade e um ataque aos direitos individuais, ignora noções básicas do que seja a segurança nacional e a protecção da população em cenários de crise extrema (como se vê nos EUA e Brasil, o problema não é o do uso dessa metáfora, o problema é o da negação da sua adequação à situação global e local)

– que o tópico “Final Eight da Champions” se tornou um pântano de parolismo e catastrofismo onde até os mais sensatos e avisados comentadores se enterram de cabeça (o Mundo em guerra caga d’alto nesse evento, e ainda mais no que calharem ser os números diários das infecções em Lisboa nesse período, tudo a desaparecer instantaneamente na voragem da actualidade que, aposto os 10 euros no bolso, vai ter bem mais e melhor onde gastar a sua atenção do que com pontapés na bola num jardim à beira-mar desconfinado)

É bom ser racista, mas não ser é melhor

Excluindo deste argumento fenómenos à escala nacional e estatal como o da Alemanha nazi ou da África do Sul em apartheid, onde os contextos político-sociais e históricos originam respostas únicas no tempo e no espaço, a problemática da actual luta contra o racismo precisa de menos emoção e mais inteligência em ordem a finalmente chegarmos ao sentimento da sua repulsa à escala universal. Presentemente, são as emoções que dominam a cognição nos três grupos inorgânicos em inter-relação: o dos assumidamente racistas, o dos manifestamente anti-racistas e o dos nem-nem (nem pensam que são racistas nem actuam contra o racismo ideológico, estrutural ou ocasional).

Os que se dizem racistas ou são broncos e psicóticos isolados ou correspondem a grupelhos onde o racismo não é o resultado de uma opção intelectual pois não existe sequer actividade intelectual nesses meios, antes nasce como elemento identitário e folclórico. As violências que estes indivíduos cometem, algumas chegando aos crimes de homicídio e de assassinato, decorrem não de uma teoria assimilada criticamente sobre o que seja conceptualmente uma raça, e da importância de estabelecer uma qualquer hierarquia de “raças”, mas tão-só da afirmação interna dos seus membros adentro de uma dinâmica tribal tão frágil que depende do constante apelo à pulsão de sobrevivência. Eles atacam os seus alvos porque sem “inimigos” tudo o resto – os rituais, a simbólica, a retórica e o culto do medo – deixa-se ver como absurdo e doentio.

Os que participam activamente na luta contra o racismo nas suas múltiplas formas – seja indo para a rua, usando a comunicação social ou partilhando conteúdos com mensagens desse teor – canalizam as energias para a procura de uma alteração imediata ou conforme à motivação que os guie nas suas atitudes e comportamento. Na sua enormíssima parte, são incapazes de usar instrumentos intelectuais, ao dispor nas ciências sociais e humanidades, para analisar os casos avulsos que convocam a sua atenção. Mesmo nos que os possuam ou que a eles pudessem aceder, como é o caso dos líderes políticos e dos jornalistas, a retórica usual é de intento emocional e aceita ficar-se por um protesto superficial que dê para ocupar fugazmente a agenda mediática. Obviamente, há excepções a este “poucochinho” e, felizmente, também temos figuras públicas que fazem do combate ao racismo uma postura contínua em trajectos de muitos anos ou décadas. Dá é para serem contados apenas com uma mão, e talvez não seja preciso percorrer os cinco dedos.

Os que sabem que não são racistas enquanto não sabem que são cúmplices do racismo constituem o grupo maior, colossal e estupidamente maior. Compreender esta duplicidade aparenta ser o factor crucial na luta contra o racismo, diria armado em politólogo de praia e antropólogo de esplanada. Ela origina-se na dupla confluência em cada um de nós das forças biológicas e das forças civilizacionais. Na dimensão biológica somos racistas geneticamente, impulsivamente, inevitavelmente. Na dimensão civilizacional somos anti-racistas educadamente, socialmente, psicologicamente. Isto quer dizer que as pessoas neste grupo responderão convictamente “Não” à pergunta se são racistas ou se aprovam o racismo, e minutos depois poderão dar por si incomodadas, ou até assustadas, porque alguém com um fenótipo distinto do seu – com muito maior probabilidade se tiver sinais associados a um estatuto social inferior ou ao comportamento marginal – está na sua proximidade física. Que se passa, então?

O que primeiro há a dizer é que se passa algo absolutamente natural. Ninguém se lembra de ter pedido para nascer por uma excelente razão, não aconteceu assim. Quando damos por nós na nossa subjectividade, algures aos três ou quatro anos, não sabemos onde estamos, nem porquê, nem para quê. Seguramente, se nos tivessem pedido a opinião, o processo da gestação e do desenvolvimento até à plena posse das competências psicossociais poderia ter sido bem diferente. Tal como as coisas se passam desde que há Homo sapiens a calcorrear o Planeta, no entanto, todos sem excepção somos especialistas em discriminação ainda antes de tomarmos consciência da nossa individualidade. Os bebés e as crianças, e ainda os jovens e os adultos de todas as idades, dependem da sua capacidade para discriminar outros seres humanos caso queiram viver melhor, mais tempo, e, em diversas ocasiões, salvar a sua vida ou a dos seus. Preferimos os nossos e tememos, no mínimo desconfiamos, dos estranhos. Sentimo-nos em segurança junto daqueles que se parecem connosco corporal, cultural e economicamente. Preferimos quem nos pode beneficiar e excluímos quem nos pretende prejudicar ou não pode ou não quer beneficiar. Cultivamos o romantismo da “alma gémea”. Aceitamos a sentença aristotélica de que “os iguais procuram os iguais”. Isto constata-se em termos evolutivos pois é logo ao nível celular o que acontece na organização e explosão biológica, vindo daí a capacidade de discriminação em múltiplos níveis e funções para cada organismo a aumentar de complexidade em formas e ritmos imparáveis no reino animal. A gazela que se lembrou de ir brincar com os leões para mostrar que não era racista não teve tempo para nos deixar a sua história como exemplo edificador das futuras gerações de gazelas.

Assim, preferimos a família, o clã, a tribo, o reino, a nação, o país, o clube e o parceiro amoroso que calhe considerarmos os nossos. Seria possível escapar a este preconceito discriminatório dos parceiros amorosos, clubes, países, nações, reinos, tribos, clãs e famílias que não são os nossos? Sim – mas só no caso improvável, miraculoso à escala cósmica dentro dos actuais conhecimentos, de criarmos a civilização. Há várias civilizações, tomadas na sua dimensão etnográfica e histórica, mas só há uma civilização se entendermos o conceito na sua ambição universalista filha do Iluminismo e das Revoluções Americana e Francesa, neta do cristianismo e do mundo árabe, e bisneta da cultura greco-romana. Por aqui, consagramos o princípio da igualdade entre todos os seres humanos logo a partir do seu nascimento como a inspiração suprema de todas as subsequentes alterações legais, sociais e culturais que se vieram a estabelecer ao longo dos últimos dois ou três séculos na maior parte dos países do Mundo, um piscar de olhos nos trezentos mil anos da nossa espécie. Acreditar que somos todos iguais no plano dos direitos, dignidade e oportunidades é um lindo ideal que funda e molda a nossa moralidade. Daí, porque acreditamos na sua bondade e nos identificamos com os restantes que também o defendem e promovem, é-nos muito difícil dar conta da dissonância cognitiva inerente à diferença entre o ideal e o real. Na realidade, continuamos a viver aceitando discriminações de tipologia “racista” sem que isso nos tire o sono. Será que somos fatal e desesperadamente hipócritas?

Compreender que a discriminação é um mecanismo evolutivo estruturante e sistémico, sem o qual não haveria qualquer forma de vida, deve levar a luta contra o racismo para a inscrição do óbvio: há “racismo” contra mulheres, homossexuais, velhos, pobres, feios, doentes, baixos, gordos, carecas. Há “racismo” na perseguição inter-religiosa, na violência doméstica, nas empresas através do assédio moral, nas zaragatas entre adeptos de futebol, no tratamento a adversários políticos. As circunstâncias que podem gerar um comportamento discriminatório são ilimitadas, pelo que estar a tratar essa específica discriminação relativa ao tom de pele, traços faciais e tipologia capilar que se pode detectar transversalmente na sociedade portuguesa, e em todas em todos os continentes, como manifestação de racismo provinda de racistas encartados é ineficaz pois gera respostas defensivas nesse grupo maior que não consegue desconstruir o seu preconceito enterrado nos seus automatismos inconscientes.

Desistir de lutar contra o racismo? Nada disso, pá, exactamente ao contrário. O argumento que aqui deixo tão pauperrimamente amanhado apenas pretende chamar a atenção para um naco de sabedoria popular: não se apanham moscas com vinagre. Do que precisamos, logo a seguir à tolerância zero para o fenómeno no plano legal e cívico, é de trazer à tona a vítima de discriminação que todos fomos, somos ou viremos a ser se tivermos a sorte de lá chegar. Afinal, o que acaba definitivamente com o racismo é o sentimento de partilha de um bem comum.

Direita portuguesa: a fina flor do entulho

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Teatro Marcelino

Peça:

“Auto do Conselho de Estado”

Protagonistas:

Rui Rio – Presidente do PSD e Conselheiro de Estado
Luís Marques Mendes – Ex-presidente do PSD e Conselheiro de Estado
Marcelo Rebelo de Sousa – Ex-presidente do PSD e Presidente da República
Francisco Pinto Balsemão – Ex-presidente do PSD, Conselheiro de Estado e empresário da comunicação social

Enredo:

Francisco paga ao Luís para dizer mal do Rui num canal de TV em sinal aberto, o Rui vai para o Twitter dizer mal do Luís, e depois vão os três para um palácio emprestado ao Marcelo continuar a dizer mal deste e daquele e do outro. Os jornalistas e comentadeiros engajados abafam o escarcéu, e fingem que a direita portuguesa ainda guarda algum vestígio de decência e sentido de Estado. No final, há um número musical onde aparecem todos abraçados e a cantar que são muito felizes aqui na Parvónia a “fazer política” e “jornalismo de referência”.