Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep10)

Quem se interesse por política, quem ame a liberdade, gosta muito da imprensa. Gosta tanto que até gosta quando não gosta. Esse gosto estende-se aos editorialistas, os cromos que na imprensa exercem o poder sobre os conteúdos seleccionados, destacados, desenvolvidos e explorados liberrimamente. Estas mentes brilhantes atravessam jornais, rádios e televisões exercendo funções directivas ou delegados para tal pelos directores da casa. São muito poucos, e ainda menos se os contabilizarmos pela fatia de mercado com um mínimo de relevância que ocupem e pelos seus circuitos profissionais, gerando assimetrias que reduzem a menos de dez nomes aqueles que têm audiências suficientemente largas e/ou especializadas para se convencerem que influenciam o espaço público – e que condicionam a classe política – através das suas opções editoriais e das suas opiniões. Um deles, um dos maiores, é Ricardo Costa.

Este senhor tem assinado por baixo, há longos anos, uma ideia que não se cansa de repetir sempre que a ocasião o propicia, sendo que não lhe faltam ocasiões para tal: a ideia de que Vara só chegou a administrador da CGD pela mão de Sócrates, e que depois só foi para o BCP porque montou um assalto entregando dinheiro da CGD aos cúmplices que compraram poder de voto para meter Vara no outrora trono de Jardim Gonçalves, assim oferecendo a Sócrates e ao PS o domínio da banca pública e privada; portanto, o domínio de toda a economia nacional – possivelmente para o demónio e sua legião se perpetuarem mil anos no poder, acabamos por concluir inspirados pela magnificência da teoria da conspiração esgalhada por tão prestigiado jornalista em tão prestigiados órgãos de comunicação social. Acontece que o Ricardo Costa, apesar da caudalosa repetição da cassete, nunca apresentou qualquer prova do que apregoa. O que é curioso, tendo em conta os anos que já leva de comício e a disponibilidade imediata de recursos humanos tão bem preparados e altamente motivados à espera da ordem do chefe nas equipas de jornalistas do Grupo Impresa. E não só é curioso como também cheira a esquisito, dado que uma operação desse calibre, envolvendo tanta gente e tão estouvada ambição num meio tão controlado por tantos outros e tantas autoridades, teria de ter deixado cabeludos indícios para começo de implacáveis investigações. A verdade é a de que os bravos justiceiros que montaram a Operação Marquês deixaram de fora o material que recolheram na espionagem do Face Oculta, a tal mesma cassete do Ricardo mas ali com o título “Atentado ao Estado de direito”, assim dando a entender que os famosos telefonemas entre Vara e Sócrates eram óptimos para a indústria da calúnia e para a direita decadente mas arriscavam queimar um procurador ou dois caso fossem usados num tribunal sem a garantia de se ter um juiz fã do “fim da impunidade” que lhes desse o devido tratamento à maneira. Para resolver este imbróglio, do que precisávamos era de um Ricardo Costa paralelo que fosse capaz de dizer desassombradamente, como o faz com tanta classe e deontologia o Ricardo Costa que nos revela quem é Armando Vara, o que pensa realmente sobre o assunto o poderosíssimo Ricardo Costa, irmão de um primeiro-ministro, que trabalha para o militante nº1 do PSD e põe e dispõe a bel-prazer na sua chafarica. Como não aparece esse Ricardo Costa segundo explicador do primeiro, o melhor é usarmos os poucos neurónios de que dispomos e tentarmos a nossa sorte.

Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP foram aprovados colegialmente depois de percorridos todos os trâmites normais do banco para casos similares, não resultaram de um acto isolado de Vara ou dele em conluio secreto com Santos Ferreira. Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP só foram aprovados depois da intervenção do departamento jurídico do banco, na altura chefiado por Celeste Cardona, militante do CDS vinda de ser ministra da Justiça por escolha de Paulo Portas no Governo de Durão Barroso. Os empréstimos da CGD usados para comprar acções do BCP não chegavam, nem de perto nem de muito longe, para alterar o sentido de voto da assembleia que elegeu a lista onde estavam Santos Ferreira e Armando Vara. Paulo Macedo, que viria a ser ministro da Saúde de Passos Coelho depois de ter sido uma estrela de Manuela Ferreira Leite, fazia parte da lista de Santos Ferreira para o BCP e tinha nela a mesma posição hierárquica dada a Vara. Figuras principais do movimento “Compromisso Portugal”, iniciativa de empresários apoiantes do PSD e do CDS, foram decisivas para a eleição de Santos Ferreira como presidente do BCP. Jardim Gonçalves, quando apresenta a sua versão de como perdeu o papado no BCP, atribui a uma coligação PSD-PS a culpa pelos acontecimentos que colocaram Vara a passear-se nos corredores que foram seus. Tudo o que teclei neste parágrafo até à frase anterior, inclusive, são factos. Factos que não atrapalham aqueles que fazem de Vara um sobrenatural bandido que teria escapado à bófia depois de cometer o crime do século estando fechado e amarrado à parede num calaboiço de uma prisão de alta segurança. É dessa magnitude de pensamento mágico que estamos a falar, a fantasia demente e sórdida de ter ficado suspenso o Estado de direito entre 2005 e 2011 – e que Cavaco Silva estaria a observar de uma janela do Palácio de Belém o filme do “Assalto ao BCP”, vendo o mesmo que Ricardo Costa também viu, e mais não conseguiria fazer do que roer as unhas paralisado de medo, enquanto Vara, ajudado pelo Vítor Constâncio disfarçado de ninja, distribuía centenas de milhões de um banco público pelos comparsas e andava possuído pelo Diabo a emporcalhar o solo sagrado da finança privada e católica.

Como se pode ver na segunda intervenção de Cecília Meireles (Ep9), a deputada do CDS gastou a totalidade do seu tempo num exercício de chicana. O intento, exclusivo, foi o de colocar o “Assalto ao BCP” na mesa para ser pasto de jornalistas e, de caminho, tratar Vara como um pau-mandado de Sócrates e um abominável corrupto. Atente-se como as perguntas não têm qualquer função investigativa, não remetem para nenhuma parte do relatório da Ernst & Young na origem da comissão, e quase todas já tinham sido feitas e respondidas várias vezes ao longo da audição. O ânimo fogoso desta jurista, gravado para a posteridade numa sala da Assembleia da República, alimenta-se da oportunidade para tentar humilhar o cidadão Armando Vara, uma pessoa que se encontra destituída da liberdade e do seu bom nome a ter de enfrentar representantes do Estado com autoridade política e judicial. Cecília Meireles usou o poder que lhe foi outorgado pelo Soberano para torturar emocionalmente Vara.

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Se no final aumentares o som do vídeo para o máximo consegue-se ouvir em fundo, quase imperceptivelmente, um bater de palmas frenético e o grito “Dá-lhe, Cici!“. Sim, é o Ricardo Costa.

One thought on “Quem tramou Armando Vara? Nós todos (Ep10)”

  1. Agora tenho que envergar o casaco para assuntos mais importantes .
    Qualquer quadro médio ou superior de uma entidade bancária, sabe que a regra elementar de um banco de retalho é a de seguir a máxima reinante na sala de compra e venda de accões, que dita o seguinte: se amanhã estiver Sol, ganha o banco ; se estiver chuva, perde o cliente .
    Portanto, com elementar prudência e bom senso na gestão do risco se deve analisar se se deve ou não conceder crédito e qual o montante .
    Acresce que desde que a banca começou a arregimentar matemáticos para fazerem algoritmos que determinam que seja em que caso fôr a banca ganha sempre, menor ou quase nulo passou a ser o risco . Isto é valido mais para os produtos estruturados ou complexos, mas seja como fôr, o princípio continua a ser válido, a banca hoje em dia está muito mais preparada para enfrentar as dificuldades . A menos que a falta de bom-senso e a prudência, imperem claro . Ou que não tenham aprendido nada com os erros do passado, como parece ser o caso .

    O quadro negro da banca portuguesa, começa com o escândalo do BPN, passa pelas declarações do então suposto banqueiro supremo, Ricardo Salgado, no sentido de que, “não ha dúvida que a crise financeira internacional não contaminou a banca portuguesa, entronca no espectáculo obsceno e degradante do Victor Ramalho, do Novo Banco, que a cada trimestre surge de chapéu estendido e ar arrogante a solicitar mais injeções de capital, sem tirar as conclusões da gestão ruinosa que vem desempenhando, e deságua ( já tinha desaguado ) nas águas fétidas da CGD, para onde tinham sido despejados grande parte dos problemas dos bancos privados .
    Ninguém sabia de nada, nem mesmo aqueles que era suposto serem a polícia da banca, os senhores quadros do Banco de Portugal . Que já disseram que não são polícias, são apenas supervisão. Eu acho que nem visão normal têm, quanto mais super-visão.
    Pelo meio, mistério dos mistérios: no acordo com a troika, ficou estabelecido o empréstimo de um montante especificamente destinado a acorrer a problemas da banca .
    Mas ninguém sabia de nada .
    Incluindo o PR de então que quando questionado de fugida à saída de qualquer sítio, ia dizendo “eu sei, eu sei de tudo, a presidência está bem informada “.
    Mais tarde, e após ter declarado que “uma coisa é o BES, outra coisa é o GES, o BES é um banco sólido “ viria a corrigir, dizendo que era a informação que tinha .
    Portanto, de assunção de culpas por parte de quem, sabia, ou se não sabia, devia saber, estamos conversados .
    Os vários inquiridos nesta comissão de inquérito, deram todos eles um espectáculo triste, e o assunto é fetido, mal-cheiroso, pestilento mesmo, tal a podridão em que foi embrulhada a total desresponsabilização .
    O último a ser inquirido, Teixeira dos Santos, disse que partiu dele a iniciativa de indicar Armando Vara . Mais à frente, referiu “senhor deputado, eu sou responsável pelas nomeações, não pelos actos das pessoas” – como se as pessoas pudessem ser dissociadas dos seus actos e se o acto de nomear não devesse ser ele também um acto de ponderação prudência e previsão, mas sim e antes um acto de risco sem consequências.
    Acabou sentenciando, “falhamos todos” . Já é uma correção .
    Vara, em síntese, disse que foi para a CGD, para integrar a equipa por exigência ou convite – já não me recordo bem – de Santos Ferreira .
    Eu sinceramente, acho que há aqui uma questão de bonecreiros e marionetes .
    E que talvez as marionetes tenham ganhado vida própria e o(s) bonecreiro(s) ou os que pensavam ser o(s) bonecreiros, acabaram por ficar sem o papel principal .
    Há aqui todo um jogo de espelhos e uma cortina de fumo, que dá que pensar .
    Vara, nas explicações e justificações, vai-se defendendo dizendo que a prática era assim, em todo o lado, naquele tempo, e que ao fim e ao cabo, era o risco do negócio. Em suma é isto.
    Chegados aqui, já se vê que regra que devia ter imperado, e que era a do Sol e da Chuva, descambou no “com sucessos e falhanços se vai enganando os tansos” uma cantilena chocante de desresponsabilizacão completa . Os tansos foram aqueles todos que tinham especial obrigação de saber, e dizem que, ignoravam .
    Quem teria sido o bonecreiro ?
    José Sócrates ?
    A meu ver, e apenas baseado no que sei e é pouco, a não ser a satisfação pessoal de ver um amigo num cargo relativamente importante, nada mais há a retirar . A eventual futura questão de empréstimos, não colhe manifestamente. E o montante efectivamente pedido, uns míseros 100 ou 120 mil euros, não é suporte para coisíssima nenhuma. Em suma, não vou por aqui, já três pessoas incluindo o próprio Sócrates, negaram que a iniciativa tivesse partido dele .
    Teria sido Santos Ferreira ?
    Aqui e mesmo correndo o risco de ser injusto, já dá mais que pensar, pois que a nomeação de Vara funcionaria como que uma espécie de “carta de conforto”, por parte do Governo .
    E daria a SF, a satisfação pessoal de poder pensar, pensas que me controlas mas quem te lixou fui eu. Porque está aqui comigo o teu amigo, e, entre outras coisas, se eu cair cai ele também.
    Agora, Vara, funcionando como bonecreiro de Sócrates e de SF, é que não acredito .
    Seja como fôr e há muitas coisas que não sabemos, a realidade é só uma : tivesse Vara atuado de forma a ser diferente e não tido sido uma espécie de “Maria vai com as outras” tivesse ele batido o pé e não alinhado em coisas que não devia, e agora certamente teria um lugar de dignidade e um olhar de respeito, por parte da colectividade .

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