“Talvez seja a grande revolução que ele fez num país cansado de crispação; trazer a afectividade para a política. É, a par com a coragem, a sua arma mais eficaz. E por isso ele é, de facto, irresistível. E também imprevisto. Com o Mário, o inesperado pode sempre acontecer. Desenganem-se os que o julgam sentado sobre uma por vezes aparente lassidão. De repente ele salta. Para sacudir o marasmo e de novo forçar o destino.”
Escreveu isto Manuel Alegre, no seu infausto “Arte de Marear”. Esta passagem coroa oito páginas de panegíricos à figura de Soares. E segue-se à descrição da forma como Alegre pôs “os delegados a ferver” num congressos do PS, enquanto o chefe, na mesa da presidência, “barafustava: este gajo está-me a lixar o Congresso.” Claro que tudo se sanou com uma palmadinha no ombro e a admissão por Soares de que o seu amigo “é um tribuno temível”.
Hoje, Alegre espera que o seu ex-amigo não sacuda coisa nenhuma nem force o destino que o parece condenar à derrota sem glória nem proveito. Hoje, o exorbitante ego do poeta-candidato já não se deixará apaziguar com festinhas e elogios utilitários. Hoje, ambos surgem à luz impiedosa da atenção dos media como dois velhos de costas voltadas, tremendos no seu egoísmo, naufragados bem longe das correntes que estão já a moldar as costas de um novo mundo.













