Hoje a Música, amanhã o mundo!

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Diz o psicólogo Adrian North que a omnipresença do formato mp3 está a minar os laços emocionais que nos ligam à música.
“No sec. XIX, a música era vista como um tesouro precioso, com poderes fundamentais e quase místicos de comunicação humana”, garante o cientista, depois de um estudo onde acompanhou 346 indivíduos no seu convívio diário com a arte de Orfeu. Hoje, criámos “uma geração de pessoas que não apreciam seriamente canções ou desempenhos musicais”.
Se a simples disponibilidade massificada de uma forma de arte basta para nos deixar apáticos e incapazes de avaliar a sua beleza ou complexidade, que maldades indizíveis nos terá já feito esta sociedade da comunicação? A primeira vítima a merecer sentidos obituários foi o Cinema: com a TV, os downloads e outras piratarias, também já perdeu valor, sendo por certo avaliada por muitos como mais uma mercadoria indiferenciada e desprovida de valor.
Agora, o que se seguirá? A poesia? A filosofia? O pensamento, tout court? Se calhar, e bem vistas as coisas, ainda alguém vai recensear a blogosfera como mais uma inimiga da inteligência: afinal, disponibilizar trabalho mental assim, para todos, de graça e sem mais aquelas, só pode vir a acabar mal.

9 thoughts on “Hoje a Música, amanhã o mundo!”

  1. Que palhaça, meu Deus.

    O mesmo foi dito no séc. XVI com o invento da imprensa, no início do século XX com o formato de bolso da Penguin e há cerca de dez anos com o livro electrónico.

    Há simplesmente pessoas (chama-se a isto «conservadorismo», não é?) incapazes de ver as virtudes que o futuro nos reserva.

    (Gostei muito do tom irónico do teu post, Luís.)

  2. Eu acho uma certa piada aos “pensadores” que, sempre que aparece qualquer coisa nova vêm com notícias de cataclismos ( a tv acabaria com o cinema, a net com os livros, o video com as salas de cinema, etc…) Até agora não acertaram uma!

  3. Luís, prometo que é a última vez que digo isto ( porque acho que já me aconteceu várias vezes e começa a parecer mal ) mas concordo tanto com o que acabas de dizer que tinha já escrito um post sobre isto e só ficou à espera desta noite porque entretanto perdi o link…Felizmente que entretanto passei por aqui, senão cá tínhamos um caso de plágio do meu lado, mas com plena inocência. :)
    Para já achei a amostra minúscula para tirar consequências dessas. E depois o que se podia concluir seria exactamente o contrário: quanto mais difundida estivesse a música mais possibilidades havia de se encontrar verdadeiros amantes da dita. Aliás como com tudo o resto, esse medo da “banalização” seja do que for, é de quem tem receio de deixar de ser elite. Com franqueza!!!

  4. Gostei muito de ler este texto, Luis. O formato MP3 não é culpado per si de uma influência negativa no apreciar de canções ou desempenhos musicais. Até pode tornar mais abrangente o que era um privilégio de uns poucos, das elites. O próprio conceito de beleza, é que se vai alterando, talvez. O facto de ser mais fácil aceder à música de Beethoven não altera o que a sua música significa para mim. A magia do acesso modificou-se, irreversivelmente. Quem vai a uma loja comprar o último álbum da sua banda favorita em pulgas por ouvir as canções? Quem rói as unhas na ante-estreia de um filme há muito anunciado? Tudo isso está, para o bem e para o mal, a um clic de distância na Internet. Vivemos numa sociedade em que o excesso de informação vai ser um dos grandes problemas do futuro. Há uns meses, em casa de um amigo, admirei-me da sua colecção caseira de DVD’s, cerca de 400 filmes baixados da net. Quando vi o “A.I.” do Spielberg, comentei que tinha adorado aquele filme. Ele encolheu os ombros e disse que só tinha visto um bocado, tinha lá tantos filems que não tinha ainda acabado de ver aquele. A quantidade, a facilidade, ocultam a atenção. Tal como na política actual, aliás. Excesso de informação. E no meio de tudo isto, há uma espécie de beleza que vai ficando soterrada no banal.

  5. Isso é um bocado confundir a mensagem com o meio pelo qual ela é vinculada, ou pelo qual lhe acedes, não?
    Parece-me que o tal psicólogo procurou as causas do desinteresse e da falta de apreço (que talvez se devessem até descrever de outra forma – provavelmente não é falta de apreço é só uma forma diferente de apreciar) no local errado. Mais interessante, parece-me, seria estudar a forma como a mensagem mudou e como isso afectou a forma como as pessoas a recebem.

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