Cadáveres de crianças como arma de propaganda

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Henrique Raposo, à laia de balanço minimalista, descobriu o “facto revelador de 2005”. E tem a ver com o massacre que vitimou 31 crianças em Bagdade, em Julho passado. A história, como a conta ele, é simples e tem uma moral clara:
1- Um terrorista mata dezenas de crianças que recebiam doces das mãos de soldados americanos.
2- “Porém, na Europa, continua-se a usar os termos ‘insurgentes’ e ‘rebeldes’ para descrever estes actos terroristas”; “quando o relativismo reduz um massacre de crianças a uma ‘insurgência’, então, estamos mesmo no caminho escolhido pela brigada multiculturalista: destruição do Ocidente a partir do seu interior.”
3- Pegando de forma despropositada em Lévi-Strauss, HR denuncia que uns tais “marxistas culturalistas” (?) andam a disseminar a ideia de que é “preciso sentir vergonha por ser-se ocidental”.
4- Este ponto tem de ser transcrito por inteiro, para não perdermos uma só vírgula: “Por tudo isto, a culpa, segundo este culturalismo relativista, não é do terrorista que matou as crianças. É, isso sim, do soldado que, malvado e sem vergonha do seu chocolate ocidental, oferecia esse mesmo chocolate a um grupo de crianças. É mesmo preciso não ter vergonha nenhuma, de facto.”

Numa coisa ele tem razão: é preciso uma desvergonha total… para escrever esta prosa previsível, simplista, mal informada e mentirosa.
Comecemos pela tal Europa pusilânime e cúmplice dos assassinos de crianças. Indaguemos, por exemplo, o sinistro Libération que, segundo Helena Matos, é um bom exemplo do anti-semitismo e da cegueira que nos estropia o entendimento. Como descreveram eles este evento? “Massacre d’enfants à Bagdad”? Mau. E falaram ao menos de “insurgência”? Não. Pior: até dão voz a um reaccionário local que não teve pejo em afirmar “Ceux qui ont fait cela ne sont pas des résistants, ce sont des criminels qui tuent nos enfants”. Pouco depois, o diário de eleição dos tais “multiculturalistas” ainda descreveu o atentado em termos brutais, daqueles que raramente se lêem por cá: “Sur les lieux de l’attentat, gisaient des dizaines de paires de sandales baignant dans le sang, ainsi que des morceaux de chair et des bras démembrés.” Diria eu que nem com muito esforço se poderá ler aqui qualquer desculpabilização dos terroristas. Deve ser erro de paralaxe causado pelo meu “multiculturalismo”.


Mas demos de barato que HR até leu em muitos jornais europeus a redução do massacre a uma “insurgência.” É que há mais histórias a pairar em redor desta monstruosidade. Para começar, e ao contrário do que HR afirma, os soldados americanos não estavam a distribuir guloseimas ás crianças. Pelo menos, a fazer fé no desmentido que um porta-voz da divisão envolvida tratou de exarar: “They were not handing out candy”. E lá se foi, se acreditarmos na palavra do Tio Sam, toda a fábula que tanto impressionou HR.
Ou será que não? Se todas as testemunhas, incluindo jornalistas que depois ali viram o chão ainda juncado de chocolates, confirmam que os GIs estavam realmente a distribuir doces pelos infelizes miúdos, qual terá sido o motivo do desmentido? Será que ele teve a ver com o facto, confirmado pelo mesmo porta-voz, de os soldados estarem ali numa operação de “cordon-and-search”, seguindo uma denúncia de que havia um dispositivo explosivo na área? É que já tinha ocorrido uma desgraça similar em 2004, pelo que os soldados foram proibidos de interagir dessa forma com os miúdos iraquianos.
Se dermos crédito a relatos (inverificáveis) que garantem que as principais facções da resistência emitiram um comunicado conjunto pouco tempo depois, declarando que nenhuma delas organizara semelhante atentado-suicida, outras hipóteses poderão surgir: acidente, negligência na inspecção a um carro armadilhado, etc.

Dito isto, urge reter o importante deste caso:
1- HR quer fazer-nos crer que atrocidades como esta são vistas e relatadas com indulgência na Europa. Sem explicar onde nem por quem.
2- Ele aceita como verdadeiro um elemento da história que já foi desmentido pelo exército americano. Logo, alguém mente.
3- Por sua vez, o desmentido americano choca com as descrições da imprensa, incluindo a insuspeita (do tal “multiculturalismo”) Fox.
4- Se calhar, até houve mesmo alguma culpa dos soldados envolvidos: tendo sido formalmente proibidos de o fazer e estando ali à procura de uma bomba, nunca deveriam distribuir fosse o que fosse pelas crianças presentes.
5- É muito feio fazer acusações generalizadas sem qualquer sustentação. E simplificar histórias complexas e tristíssimas só para obter uns bonitos parágrafos de propaganda ainda é mais feio.

A mim, só me dá alguma vergonha de ser ocidental quando leio coisas destas.

13 thoughts on “Cadáveres de crianças como arma de propaganda”

  1. Feio é passar a vida a deitar abaixo tudo o q os outros escrevem, ora acusando-os de plágio, ora acusando-os de “desonestidade intelectual” ou lá que raio isso seja, ora porque dizem mal do velhadas francês do tabu, ora porque votam no Cavaco e não num dos candidatos “democráticos”, ou porque a Helena Matos é infinitamente mais inteligente e não tem tiques ressabiados que conhecemos ao Sr. Luis, etc etc.

    Quer mais exemplos de fealdade?

  2. SMP, quanto a mim essas chegam perfeitamente. E servem também de exemplos de gente que anda a sonhar. No caso até se aplicam a si.

    O Luís não “deitou abaixo” nada. Ele desmontou uma argumentação onde nem sequer teve pejo de apontar uma mentira (venha ela de onde vier). O plágio aconteceu mesmo e, se se der ao trabalho de seguir a argumentação (e os links) que o Luís fornece, certamente que notará a verdade dessas afirmações. Acho que ainda não se apelidou o Cavaco de anti-democrático, mas o período 1985-95 demonstrou, especialmente nos últimos anos, que existem para ali uns tiques de autoritarismo. A Helena Matos até pode ser a mulher mais inteligente à face da Terra. É pena é que tente dar outra imagem a cada palavra que escreve.

  3. Mais um plágio, não tem uma ideia única e própria, para escrever sacia-se cmo os vampiros das ideias dos outros.

    Para além de paranóico, obsessivo, é histriónico.

    Será trauma familiar? Ou alguma diminuição sexual?

  4. Ó Luís, mas tu tás parvo? A dar parágrafos inteiros em francês a ler a esta malta? Em francês?! Mas então tu não sabes que a única língua que os gajos conhecem é o amaricano?!

    Não querem lá ver isto, hã?…

  5. Há uma coisa que estes gajos que escrevem nos panasquins portugueses não dizem é que, tal como os chocolates, os carros onde rebentam as bombas são também muitas vezes importados dos Unaited Steites, já armadilhados com o último grito da ciência electrónica Hisraelense. Depois, claro, quem paga as favas são os sunis que ficam a ser odiados pelos shiitas. Elementar golpe de intriga, isto é, mercadoria do mesma linha de montagem donde saiu um Hamas a trabalhar para o estado de Hesrael. Há meninos neste blogue que sabem disto, mas têm é vergonha de dizer.

  6. Ao que parece, há versões bem diferentes, desse mesmo facto. Certamente que quem assistiu é que sabe o que se passou:

    “Quem chacinou 32 crianças iraquianas?
    A notícia da morte de 32 crianças iraquianas, na explosão dum carro-bomba, ainda está na memória de todos.
    Por isso decidi reproduzir um excerto deste artigo.
    É que, quando os opositores da guerra falam de chacina, falam de forma fundamentada, pelos casos conhecidos e também por muitos outros que nunca chegam a ser notícia.
    Isto é um acto de terrorismo, vil, duma potência militar, nazi, ocupante; é um crime de guerra abominável! Por isso aqui fica a notícia que, como tantas outras, foi silenciada pelos facínoras que controlam os órgãos de comunicação social, que não lhe deram o destaque merecido, e que assim se constituem em cúmplices destas atrocidades.
    Tradução:
    “- A totalidade dos grupos de Resistência iraquianos, conhecidos, emitiram um comunicado conjunto, declarando que esta operação não foi executada por nenhum destes grupos, nem a nível de execução, nem de planeamento nem de implicação.
    – Entrevistados alguns residentes no local [testemunhas da explosão] declararam que as forças norte americanas fizeram perímetro de segurança na rua pretextando que um veículo (um KIA) aparcado ali, estava preparado para explodir.
    – Declararam ainda que os soldados americanos começaram a repartir caramelos e mochilas escolares, atraindo as crianças para o local.
    – Quando os residentes, temendo pelas suas crianças, preguntaram pelo veículo KIA, os soldados responderam que se tratava dum “falso alarme?” e que não havia bomba (no entanto, alguns soldados continuaram a revistar o veículo).
    – Apareceram crianças vindas de todas as ruas adjacentes, atraídas pela notícia de que estavam a distribuir caramelos e mochilas (também corria o rumor de que se distribuíam jugos Pokemón) .
    – Passados uns 15 minutos desde que as tropas americanas entraram na referida rua, os soldados deixaram o resto dos jogos/caramelos formando uma pilha, ali mesmo na rua e saíram disparados conduzindo a toda a velocidade. Na precipitação atropelaram 4 crianças com o seu veículo.
    – Segundos depois o veículo KIA explodiu matando 32 crianças que estavam agrupados, na rua e ferindo cerca de 10 outras crianças.
    – Os residentes informaram também que, contrariamente ao que declarou o exército americano, a explosão não matou nem feriu nenhum soldado americano, visto que as tropas tinham abandonado, precipitadamente, a rua, imediatamente antes de se dar a explosão.
    -Segundos informações do serviço de bombeiros iraquianos, a explosão não deixou as marcas características duma explosão provocada por TNT, que é usado pela Resistência (explosivo proveniente de munições russas utilizadas pelo exército iraquiano, no tempo de Saddam). A onda de choque do TNT expande, sempre, para fora, desde o lugar da explosão e não deixa una cratera como a que provocou este carro-bomba.”
    E é assim… Mais palavras para quê?”

    Há outros episódios semelhantes, como o daqueles dois militares ingleses, vestidos de árabes, que foram detidos quando se preparavam para executar um “atentado”…
    Ser-se cego, a gente pode compreender, agora insistir na cegueira, ao fim de tanto tempo e de tantas evidências, ou é má-fé “remunerada”, ou então é paranóia suicida, cretina…

  7. A minha solidariedade pelas leituras que és obrigado a fazer, eu tenho cada vez menos pachorra para esses rabos abanadores de cães.

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