Reivindicar mortos?

Diz o Nuno que Alegre reivindicou o nome de Álvaro Cunhal. Depreende-se daqui que o candidato terá mencionado o falecido líder comunista como que invocando um possível apoio post mortem.
Pelo que ouvi e consigo agora ler, não estou a ver que este rapto seja assim tão óbvio: Alegre afirmou que “durante muitos anos ninguém foi tão livre como os homens que aqui estiveram presos, venho aqui buscar a inspiração da sua coragem, da sua determinação, do seu inconformismo e da sua rebeldia”. A propósito de Álvaro Cunhal “e de muitos outros que resistiram aos maus-tratos, às torturas, à violência e nunca se renderam”, deu destaque a um episódio específico: “evadindo-se do Forte de Peniche, infligiram ao fascismo uma estrondosa derrota”. Francamente, não leio aqui esse intento de “reivindicar” Cunhal “contra o partido que ele ajudou a construir”. Aliás, o contra-ataque de Alegre foi certeiro: “não há donos de personalidades históricas, mesmo que tenham sido secretários-gerais”.
Não está aqui em causa a óbvia mitomania de Alegre. Desde que li a sua “Arte de Marear”, palpita-me que ele tem grande dificuldade em distinguir a realidade das suas fantasias de glória pessoal. Quando ele diz que conheceu Guevara, não duvido que esteja mesmo a acreditar nisso; sempre que o ego incha sem tino, acaba por nos obstruir a vista do mundo.
E atenção, que Alegre já fez, sem margem para dúvidas, aquilo de que o Nuno o acusa, mas com outra vítima defunta. Sem qualquer amostra de pudor, garantiu ele ontem: “sei que o Salgueiro Maia gostaria de me ouvir dizer o que estou aqui a dizer”. Isto aproveitando-se do apoio e da presença da viúva do capitão de Abril. Vergonhoso.
Mal no meio desta história, fica também a reacção de Jerónimo Sousa. Dizer que Alegre já tinha “insultado” Cunhal, “por via do seu projecto” é um disparate que hoje prosseguiu: “Manuel Alegre falou tão mal de Álvaro Cunhal e do seu projecto que também não teve uma atitude decente”. Discordar veementemente de um “projecto” passa assim a ser um insulto pessoal.
Neste lapso estratégico, o candidato comunista deixou cair a máscara de avôzinho simpático — ainda que com umas ideias vagamente destrambelhadas — revelando pela primeira vez, mas com toda a clareza, as linhas duras do político sectário e intransigente.

36 thoughts on “Reivindicar mortos?”

  1. Obrigado, Rui Pinhão, um grande bem-hajas por nos lembrares que nunca é tarde para partir os dentes à reacção!

  2. Meu caro Luís andas a ler demais, e isso leva-te a ler à pressa. O que o Jerónimo disse está muito bem dito… Porque o que o Alegre pretendeu foi autoproclamar-se herdeiro das lutas dos comunistas presos em Peniche… E essas lutas têm um projecto, um sonho… E todos sabemos o que o Alegre disse e fez contra esse projecto e sonho…
    Porque não se pode separar as coisas só quando nos convém… E depois o sr Alegre quer também ter sido aquilo que não foi…
    Lê com mais atenção o Nuno…

  3. E como seria interessante o Alegre ter lembrado outro heroi dessa fuga de Peniche, Francisco Martins Rodrigues, a quem o governo PS acaba de negar uma misera pensão.

  4. Evocações
    Esta (pre-)campanha tem tido várias demonstrações de oportunismo marcado. Já vários candidatos evocaram pessoas e referências estranhas à sua habitual esfera política. Ora obviamente nem ninguem nem nenhum partido tem usufruto exclusivo de referências culturais. O Cavaco tem todo o direito a ir ao Barreiro e aí cantar A Internacional de punho no ar, se assim entender. Mas todos comprenderão que o faria não por sentir com paixão os seus versos, nem pela sua ligação ao movimento operário, nem por entender incutir o espírito de “não mais deveres sem direitos, não mais direitos sem deveres”, mas unicamente para poder apelar a um sector de eleitorado que de outra forma lhe seria menos acessível. Daí que seja apropriada a crítica de oportunismo quando Cavaco fez uso da Grândola, Vila Morena. Não porque ele não possa cantá-la, obviamente, mas porque ele não a pode cantar naturalmente. É como um fato que não lhe serve.

    Outro episódio de oportunismo, como já notado aquí neste blog, foi quando Francisco Louça na sua declaração final no debate com Jerónimo de Sousa, evoca a memória de João Amaral e Lino de Carvalho, com quem diz ter aprendido muito na Assembleia da República. Sem querer aquí repetir o que foi dito anteriormente, aproveito para lembrar umas palavras do Lino de Carvalho, para as quais um amigo me chamou recentemente à atenção. Dizia o deputado na sua intervenção de 29 de Março de 2000, no âmbito da discussão da Lei de Bases da Segurança Social:
    Quanto ao projecto do Bloco de Esquerda, tem duas componentes bastante diferenciadas: dois terços é cópia, decalcada, do Projecto de Lei do PCP, como aliás o próprio Bloco assume na sua exposição de motivos.
    É caso para dizer que FL terá de facto aprendido mesma bastante com Lino de Carvalho, tanto que a sua proposta presidencial para a Segurança Social ainda vai beber muito à proposta do PCP.

    Por fim temos este caso mais recente de Manuel Alegre a evocar o nome de Álvaro Cunhal, e depois a ripostar à crítica de oportunismo, com este joia “Conheci Álvaro Cunhal antes do 25 de Abril. Até vivi na casa dele. O Jerónimo só o conheceu depois”. Só faltava dizer que o conheceu melhor, que é ideologicamente mais perto de Cunhal que o Jerónimo, e que tomaram banho juntos sob o luar mirando-se olhos nos olhos. Mais uma vez, não está em causa do direito de evocar o nome de Cunhal, mas o facto de ao o fazer Alegre está a pintar afiliações que não são genuínas. Claro que tb Alegre foi combatente anti-fascista. Se ele quer puxar dos galões desse passado, que tal organizar um evento com os ex-combatentes anti-fascistas e recolher os seus apoios. Talvez porque os antifascistas organizados e empenhados, que ainda podem fazer uso da sua voz, e não se deixam manipular, deram o seu apoio ao Jerónimo.

    Publicado por André Levy (http://maislivre.blogspot.com/)

  5. Para Alegre pelos vistos vale tudo

    Alegre, na linha coerente do oportunismo com que vem assumindo posições nesta campanha, resolveu enfeitar-se citando os nomes de Álvaro Cunhal e de Dias Lourenço. E insistiu mais tarde: “falarei de Álvaro Cunhal sempre que me apetecer. Tenho legitimidade para isso e tenho por ele um enorme respeito, mesmo enquanto figura histórica.”
    De onde retira ele essa “legitimidade”, e de onde veio “o enorme respeito” de fresca data percebe-se, estamos em campanha e pelos vistos para ele em campanha vale tudo.
    Agora não poderá é evitar que lhe lembremos que o respeito, se ele o tem, não era mútuo. E será útil reler a elevada estima com que Álvaro Cunhal refere (no Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista) os golpes e as manobras anticomunistas do “grupo de Argel”, e a elevada consideração que tinha pelo papel assumido por Alegre na contra-revolução, como conspirador com a direita militar e pombo-correio entre Soares e a reacção spinolista.
    Publicado por Filipe Diniz. (http://maislivre.blogspot.com/)

  6. João,

    Não exageremos. O homem disse “Parto daqui com a inspiração e com o exemplo de todos estes homens”; o que é substancialmente diverso daquilo que ele afirmou a propósito de Salgueiro Maia. E não me parece que tenha mencionado apenas nomes de comunistas. Falou de Manuel Serra, por exemplo.

    Luisa & Margarida,

    Para citar um post de outro blogue, basta o excerto relevante e o link. Não copiem para aqui tudo,por favor. Pode ser?

  7. Luís,

    tens de admitir que o PCP tem um direito real de gozo pleno devidamente registado sobre o Álvaro Cunhal e o Manuel Alegre está a tentar usá-lo em time-sharing.

  8. Luís,
    O Alegre falará as vezes que quiser de Álvaro Cunhal, o que eu contesto é a sua réplica a Jerónimo de Sousa: dizendo que tinha mais legitimidade, do que ele, para falar de Cunhal, porque o conheceu antes e viveu com ele.

  9. Nuno,

    Também não façamos o homem mais grotesco do que já é. Ele não afirmou que tinha “mais legitimidade”; Limitou-se a um mais modesto “tenho legitimidade para o fazer”. Podes ouvir aqui.

  10. Luís,
    Acrescentou/insinuou que o Jerónimo Sousa só o tinha conhecido depois do 25 de Abril.
    E se é o facto de o conhecer, que lhe daria legitimidade, o que me parece excessivo, então é preciso dizer, qual era a opinião que o finado tinha dele.

  11. Essa da legitimidade porque o conheceu antes dá vontade de rir e é caquética… A ida a Peniche e todas as histórias que pretende ir reescrevendo… Talvez o Carlos Brito o consiga chamar à razão… Porque se não ele ainda vai dizer que sempre esteve com o Cunhal…

    Já todos percebemos que os dois candidatos do PS já desistiram de ganhar as eleições, agora já não quer é perder as primárias do partido e para isso vale tudo…

    Força Jerónimo e Louçã…

  12. Talvez para iluminar o Luís e o Manuel Alegre seja interessante dar a conhecer a opinião do Cunhal sobre o Alegre…
    Talvez…

  13. Fui reler essa intervenção do Lino, de 29/03/00 que o André Levy menciona, e sobre o assunto em questão reponho a totalidade dessa apreciação. Dizia então o Lino, na Assembleia da República:

    ” Quanto ao projecto do Bloco de Esquerda, tem duas componentes bastante diferenciadas: dois terços é cópia, decalcada, do Projecto de Lei do PCP, como aliás o próprio Bloco assume na sua exposição de motivos. Essa parte é boa, obviamente. Mas quanto aos poucos artigos novos há alguns deles que nos merecem a maior das reservas, designadamente o que se propõe resolver o desemprego de longa duração antecipando a idade de reforma para os trabalhadores nessas condições. É uma proposta há muito reivindicada pelo patronato mas também desde sempre recusada pelo movimento sindical. O desemprego não se resolve enviando para a reforma trabalhadores em plena idade activa, com pleno uso das suas faculdades de trabalho, criando-se, além do mais, novas situações de desadaptações e disfunções sociais”.

  14. “(…) Não são apenas os C.M.L. (na sua primeira, segunda, terceira, quarta versão) que anunciam a realização de tal tarefa. Vários outros (E.D.E., Cadernos e caderninhos, trânsfugas, agora também os aventureiros de Argel) propõem-se criar ou “ajudar” a criar a “vanguarda revolucionária”. Imitando os mesmos passos ao entrar em cena dos actores que antes desempenharam o mesmo papel, há quem agora diga, que uma “nova aliança revolucionária” de verbalistas pequeno-burgueses de todos os matizes, será o ponto de partida para “a criação de um partido marxista (?) revolucionário (?) capaz de dirigir e de concluir, sozinho (!) ou com outros partidos revolucionários (?), a revolução socialista em Portugal” (M. Sertório, “Por uma nova aliança””, p.6). Assim se julgam dignos do reconhecimento eterno dos trabalhadores, “incapazes” de definirem a sua estratégia e, mais de 120 anos após o “Manifesto Comunista”, irem além de uma ideologia sindicalista, sem a ajuda da “teoria revolucionária” “introduzida” e “inculcada” no movimento operário do “exterior”, por obra dos intelectuais pequeno-burgueses.

    Com o seu espírito típico de classe, não consideram a chefia política como um apuramento de quadros e como o reconhecimento de uma situação resultante da acção desenvolvida, mas como uma espécie de “lugar”, para ocupar o qual, basta haver vagas e concorrentes. Começam pois por proclamar que “não há dirigentes”, que “não há chefes”, para depois avançarem: “aqui estamos nós”.

    “O problema político nacional (escrevem uns) é em grande parte (…) um problema de direcção” (Cadernos de Circunstância”, nº 2, p. 25).

    “O problema político português (dizem outros) é fundamentalmente o problema duma vontade política e duma determinação revolucionária que tem faltado às forças antifascistas (…) A culpa é dos que têm a direcção do movimento antifascista (…) O que o povo não tem tido é as organizações e os dirigentes revolucionários de que precisa e que merece (Piteira, Alegre & Cª – “Textos da Voz da Liberdade”, p. 20).

    Até ao momento, claro, em que eles aparecem no tablado.

    Na sua contestação do PCP e dos quadros de direcção do movimento operário e democrático, procuram mostrar que há um completo vazio de direcção e que entre eles, candidaos à chefia, e o povo “desorganizado” e “espontâneo”, nada de válido existe. Vendo-se a si próprios como guias predestinados, fazem demagogicamente a “guerra aos dirigentes”. Erguem-se contra “a mísica do Partido” (entenda-se do PCP) (Cadernos de Circunstância”, nº 6, p.13). Bradam ao povo para que “deixe de estar à espera de salvadores” e para que se organize “sobre as suas próprias forças” (CMLP, VIII, 1969, p.2). Proclamam: “nem salvadores, nem Messias iluminados, nem chefes perpétuos” (Piteira, Alegre & Cª, “Textos”, pp.2 e 6). Intrigam e caluniam quanto podem. E, julgando ter reduzido a zero a autoridade do PCP, dos seus dirigentes e de outros dirigentes do movimento operário e democrático, põem-se em bicos de pés e afirmam que eles sim vão “criar o que falta” e “dar o exemplo”, que eles sim serão os “agentes históricos” (sic), os dirigentes, os chefes, os salvadores, os Messias!

    Processo tão velho como o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista, tão velho como a história dos inimigos do partido do proletariado. (…)

    Tanta bazófia, senhores meus! Tanta suficiência e “superioridade” de “pessoas instruídas” em relação aos trabalhadores! Como imaginam a classe operária a correr para eles, para os “consultórios” dos Cadernos, para os estrategos da E.D.E. ou do CMLP, para Paris, para a Suiça, para Argel, para que a esclareçam do “conteúdo revolucionário implícito das suas lutas, para que sejam a sua “memória colectiva”, para lhes implorar: Senhores intelectuais pequeno-burgueses! Por piedade! Coordenai-nos, unificai-nos, explicitai-nos, memoriai-nos, pois a nossa “débil saúde política”, a nossa “incapacidade de organização”, a nossa “falta duma estratégia própria”, nos desarma perante o capitalismo e perante os falsos Messias e salvadores! Como dizem sabiamente alguns de vós, estamos à espera que a nossa consciência progrida para sentirmos a necessidade duma organização política. Sois vós, senhores intelectuais pequeno-burgueses, “as minorias historicamente mais conscientes”, sois vós as “minorias depositárias (quem depositou não sabemos, mas acreditamos no que dizeis!) da experiência historicamente acumulada”! Acudi-nos, senhores! Sede os nossos verdadeiros Messias e Salvadores!

    É assim que os radicais pequeno-burgueses de fachada socialista imaginam o processo de criação do seu futuro partido, da sua “vanguarda revolucionária”.

    E como, nos seus sonhos de hegemonia, encontram por diante o partido do proletariado, como as suas considerações são desmentidas pelo próprio facto de que o Partido existe, consideram como tarefa primeira, “prioritária” (quase todos o afirmam) o combate ao Partido Comunista.

    Os estudantes ou ex-estudantes da E.D.E., escreveram um dia que o “anticomunista tornar-se-à o grande denominador comum de uma nova frente política, da direita à esquerda burguesa”. A verdade é que o anticomunismo deixou de ser apanágio da burguesia reaccionária e se está tornando o “denominador comum” de intelectuais esquerdistas, de despeitados, de trânsfugas, ou seja da “nova frente política, da direita à esquerda” do radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista. (…)”

    (pp 172 a 176, do livro “O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, de Álvaro Cunhal, 3ª edição, Edições “Avante!”, 1974)

  15. Margarida, só por sua causa, eu vou votar no Jerónimo (sério!) Será que você pode descrever a mulher que está atrás do nome (idade, aspecto físico, situação marital)? I’m getting fond of you…

  16. A Direcção do Partido Comunista Português
    Fez transmitir pela Rádio Portugal Livre
    No dia 11 de Setembro a seguinte nota.

    1. Em princípios de Setembro, dois membros da Junta da FPLN, com sede em Argel (Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre), aproveitando a ausência dos dois outros membros da Junta (Manuel Sertório e Pedro Soares) e o condicionalismo político local fizeram uma reunião e declararam tomar conta dos meios materiais de propaganda e dos recursos financeiros da FPLN. Trata-se de um golpe de aventureiros, de uma tentativa de apropriação indevida da sigla FPLN e de meios de trabalho que foram obtidos apenas porque a JRP (FPLN) era uma emanação do movimento antifascista e anticolonialista português.

    Qualquer que seja o seu resultado imediato no plano local, esta manobra, caracterizada pela extrema deslealdade e desonestidade de processos, está, no plano político, condenada ao fracasso.

    2. Estes dois indivíduos, procurando legitimar o seu golpe, dizem ter feito “uma consulta aos militantes do interior” (?!) que teriam aprovado a sua iniciativa, Numa carta sem assinatura nem data dirigida à Direcção do Partido Comunista Português escrevem que estiveram na Argélia “enviados do interior representativos de sectores vários – católicos, CDE e militantes comunistas”.

    Estas afirmações constituem uma escroqueria política. No que se refere a comunistas, o Partido Comunista Português desmente categoricamente tais afirmações. Quanto às outras forças e sectores citados não é necessário o desmentido do PCP. O ataque destrutivo à actividade e à própria existência da CDE tem sido a posição constante e conhecida destes dois elementos.

    Nenhum sector político responsável em Portugal está comprometido nesta manobra de divisão e diversão, objectivamente provocatória.

    3. Num documento enviado a várias pessoas, esses dois elementos tornam explícito que pretendem apossar-se de meios de trabalho e de recursos que lhes não pertencem, tendo como objectivo o que chamam “a criação de uma nova aliança revolucionária” e de “uma estratégia revolucionária”.

    Se acaso (por razões completamente estranhas à opinião e à decisão das forças antifascistas e anticolonialistas em Portugal) elementos irresponsáveis conseguissem apropriar-se dos meios de trabalho e recursos da FPLN, não restem dúvidas de que os utilizariam contra o movimento antifascista e anticolonialista em Portugal, procurando esconder a sua acção de diversão e divisão, a sua desligação da luta do povo português e a sua incapacidade operativa, por detraz dum exaltado palavreado pseudo-revolucionário.

    De momento, tomam como centro da sua manobra ataques ao Partido Comunista Português. A plataforma com que procuram atrair elementos dispersos e desclassificados é o anticomunismo. Mas eles tomam ao mesmo tempo uma atitude completamente negativa em relação a todas as forças e sectores antifascistas e anticolonialistas que representam alguma coisa de sério em Portugal.

    No plano internacional, em vez da popularização da luta do nosso povo e do esforço para desenvolver a solidariedade a essa luta, não fariam (como já hoje fazem) senão denegrir aqueles que lutam em Portugal nas condições da repressão fascista, insistindo em apresentar-se eles, na emigração, como os únicos verdadeiros “revolucionários”.

    É por demais evidente que, divorciados das forças democráticas portuguesas e desde o seu golpe, eles não representando qualquer organização, pretendem, não servir a luta do nosso povo, mas servir-se desta para as suas ambições pessoais.

    As suas actividades receberão o merecido repúdio das forças antifascistas e anticolonialistas portuguesas.

    4. O Partido Comunista Português informa que, desde o dia 8 de Setembro, tudo quanto tem sido e venha a ser feito a partir de Argel em nome da FPLN não tem a aprovação nem a participação do Partido Comunista Português e representa um uso abusivo da sigla FPLN.

    5. O Partido Comunista Português manterá as forças antifascistas e o povo de Portugal informados da evolução da situação da JRP (FPLN) em Argel.

    Setembro de 1970

    (fac-simile no http://maislivre.blogspot.com/)

  17. «Não conheço a margarida, mas pela mancha de texto parece uma brigada bigornas de esquerda. Tanta data, tanta citação!»

    Comentário de: luis M. Jorge | janeiro 9, 2006 10:50 PM
    ___________________

    É verdade. Isto de estar informado, de se ter conhecimento de factos, é uma maçada. Não há nada como mandar umas bocas, sem fazer a mínima do que se dis…

  18. “Não basta a Alegre o eleitorado do PS?”

    Carla Soares, DN, 10/01/06

    Jerónimo de Sousa agravou o tom das críticas a Manuel Alegre acusando-o de procurar, nesta campanha para as presidenciais, tirar o eleitorado do PCP de um modo indecente.

    “Não lhe chega o eleitorado socialista? Também quer o comunista?”, questionou, recusando os argumentos avançados ontem por Alegre para legitimar o facto de ter evocado o nome de Álvaro Cunhal, em frente ao forte de Peniche. Em campanha por Lisboa, estranhou também que aquele candidato, havendo no quadro da luta anti-fascista vários camaradas do seu partido, “tenha escolhido” os do PCP.

    Jerónimo respondia a Alegre que, por sua vez, já tinha reagido à acusação de “oportunismo” e recordado que partilhou lutas com Cunhal antes do 25 de Abril e que o agora líder do PCP só o conheceu depois. “Pois pudera, também é mais velho do que eu. Isso não é argumento”, retorquiu, dizendo não ter dúvidas de que usou os nomes do ex-líder e de Dias Lourenço como “instrumento eleitoral”. Mas, para Alegre, “não há donos de personalidades históricas”.

    O deputado foi ainda acusado de incoerência. “Considerou indecente que Jardim tivesse recebido Cavaco, após o ter criticado. Alegre, que falou tão mal de Cunhal, também não teve uma atitude decente”, denunciou (…)

  19. Há 35 anos, em 1970, o PCP acusou Alegre de ter praticado um “golpe de aventureiros”, de “apropriação indevida da sigla FPLN e de meios de trabalho” de “extrema deslealdade e desonestidade de processos”, de “escroqueria política” de ser “elemento irresponsável”, de praticar uma “acção de diversão e divisão” de “desligação da luta do povo”, “incapacidade operativa”, “anticomunismo”, “atitude completamente negativa em relação a todas as forças e sectores antifascistas e anticolonialistas”, de “servir-se da luta do povo para as suas ambições pessoais”. E o SG do PCP era então Álvaro Cunhal.

  20. Escreveu o Luís Rainha: “Neste lapso estratégico, o candidato comunista deixou cair a máscara de avôzinho simpático — ainda que com umas ideias vagamente destrambelhadas — revelando pela primeira vez, mas com toda a clareza, as linhas duras do político sectário e intransigente.” Ainda mantém?

  21. Margarida, esta conversa de marretas entre Jerónimo e Alegre, não tem qualquer sentido.

    O adversário principal de todos aqueles que se RECLAMAM DE ESQUERDA, é a personagem de Boliqueime.

    O Alegre referiu em Peniche, Cunhal, Dias Lourenço Manuel Serra, João Pulido Valente, ESQUECEU Francisco Martins Rodrigues…

    E referiu-os como exemplo de combatentes contra a ditadura ,de que ele tambem se sentia parte, não vejo daí mal ao mundo.

    E Margarida, se o debate sobre a luta das VÀRIAS forças politicas e cidadãos livres, que combateram contra o fascismo, fosse trazido a esta campanha, certamente que haveria muito para dizer.

    Eu por mim continuo a ler:
    Luta pacifica ou luta armada, no nosso partido

    Luta de classes… ou unidade de todos os potugueses honrados

    A minha amiga prefere, o radicalismo pequeno burguês de fachada socialista

    A cada um a suas leituras

    Mas um ponto comum, talvez…. derrotemos a direita a 22

  22. Insisto. Escreveu o Luís Rainha: “Neste lapso estratégico, o candidato comunista deixou cair a máscara de avôzinho simpático — ainda que com umas ideias vagamente destrambelhadas — revelando pela primeira vez, mas com toda a clareza, as linhas duras do político sectário e intransigente.” Ainda mantém esta afirmação, Luís Rainha?

  23. Margarida,

    Claroq que mantenho que foi um lapso estratégico reagir com esta violência. Jerónimo estava a usar um estilo sempre sereno e afável; com esta cena estragou a pose. A verdade óbvia desta afirmação nada tem a ver com Alegre ou com Cunhal.

  24. A violência a que se refere foi Jerónimo ter perguntado? “Não lhe chega o eleitorado socialista? Também quer o comunista?”?

  25. É mais uma questão de tom, dos esgares que se fazem quando se fala. Mas essa pergunta, vinda de quem se gaba de ver a sua campanha a extravasar do campo comunista, é um pouco disparatada. Claro que Alegre quer eleitorado comunista, claro que Jerónimo quer eleitorado socialista; qual o mal?

  26. Agora diz que é “mais uma questão de tom, dos esgares”,
    ao mesmo tempo que diz que mantém “as linhas duras do político sectário e intransigente”? Em que é que ficamos afinal?

  27. “Deixou cair a máscara de avôzinho simpático” e revelou as “linhas duras do político sectário e intransigente”. Estou, como é óbvio, a falar da figura que ele fez a insurgir-se contra Alegre. Não foi bonito nem eficaz. Usou o tom errado e foi desnecessariamente agressivo.
    Ficamos assim precisamente onde partimos: no que eu disse de início e agora mantenho. Nem vejo porque haveria de ser diferente.

  28. O que é a FPLN?

    O “Dicionário da História de Portugal coordenado por António Barreto e Maria Filomena Mónica explica que a Frente Patriótica de Libertação Nacional nasceu da união de vários oposicionistas ao regime, entre os quais se encontram nomes como Humberto Delgado, Tito de Morais e Álvaro Cunhal.

    Reunidos, apesar dos diferentes posicionamentos políticos, em 1962, na I Conferência das Forças Antifascistas Portuguesas, estes dirigentes decidiram instalar a sede da Comissão Delegada em Argel, por via das boas relações de Piteira Santos com o governo revolucionário de Ahmed Bem Bella. Em 1964, o próprio Delgado viajou do Brasil para Prega, onde se encontrou com Álvaro Cunhal. A reunião serviu para criar as bases da II Conferência da FPLN, na qual ficou decidido substituir a Comissão Delegada pela Junta Revolucionária Portuguesa enquanto órgão executivo.

    A Direcção passou a ser presidida por Humberto Delgado e contava com as presenças de Álvaro Cunhal, Tito de Morais, Rui Cabeçadas, Piteira Santos e Manuel Sertório. O problema é que Humberto Delgado, que chegaria a Argel em 1964, se foi incompatibilizando com os membros da junta. Apesar dos grandes esforços de Álvaro Cunhal e Manuel Sertório para sanarem as divergências, Delgado entrou em ruptura com a FNLP, tendo de ser adiada a terceira conferência.

    O “General sem medo” acabou por fundar uma segunda FNLP, mudando o nome para Frente Portuguesa em vez de Frente Patriótica. Após o seu assassínio, a FPLN original continuou a ser dominada pelos comunistas de Argel, mantendo presença em Portugal e no estrangeiro através da rádio Voz da Liberdade. Alegre foi uma das suas vozes mais carismáticas. Em 1970, Alegre e Piteira Santos desferiram um ataque vitorioso contra o PCP, passando a dominar por completo a FPLN. Foram expulsos os representantes comunistas, num “golpe” que contou com a anuência do novo ditador argelino, Boumediéne. Ironicamente, a vitória de Alegre sobre os comunistas, que lançaram logo uma intensa campanha de descredibilização dos novos dirigentes da FPLN, foi de curta duração. O grupo liderado por Carlos Antunes e Isabel do Carmo criou as Brigadas Revolucionárias e expulsou Alegre e Piteira da FPLN. Esta transformou-se em Partido Revolucionário do Proletariado em 1973.

    (Independente, 13 de Janeiro de 2006)

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