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Deuses de mãos limpas?

Quem tem o Islão por fé cruel e guerreira faria bem em ponderar no papel que as várias Igrejas tiveram no genocídio do Ruanda. Mais de 40 padres católicos, segundo a African Rights, participaram activamente nos massacres, transformando muitos templos em casas da morte. Pastores anglicanos e adventistas deixaram-se igualmente contaminar pela febre de sangue que assolou aqueles 100 dias terríveis.
Já adivinharam quem foram os únicos que então se recusaram a fazer distinções entre Tutsis e Hutus, opondo-se às matanças e acolhendo os perseguidos? Pois é: os muçulmanos.

Dilema do quadrado

Experimentem lá jogar este jogo. Há um quadrado vermelho que tenta escapar incólume ao contacto com outras quatro figuras geométricas. Ou seja, o objectivo é não tocar e não ser tocado. Tarefa difícil, a exigir rapidez de movimentos e capacidade de fuga (o meu melhor score ficou-se pelos 15 segundos).
Como é óbvio, qualquer semelhança entre este passatempo algo básico e a candidatura de Manuel Alegre não passa de pura coincidência.

Estamos fora-de-jogo!

Sei que parece incrível, mas julgo que nenhum de nós leu o “Bilhete de Identidade” de Maria Filomena Mónica. Assim sendo, ficamos excluídos da discussão que por aí anda acerca desta autobiografia. Assim, sendo, e por muito que me custe, não podemos dar razão ao João Pedro George (nem, improvável hipótese, ao Martim Silva).
Está mal. Não pode ser. Vamos lá a escolher, pelo consagrado método da palhinha mais curta, um “voluntário” para emborcar a coisa. Para compensar tal esforço, este mártir da Cultura será também o nosso enviado especial ao próximo Mundial de Futebol.

Obrigado, gracias

Nem preciso de consultar os restantes para saber que estamos todos gratos às menções que por aí vão fazendo ao nosso pequeno recanto farmacêutico. Mas há uma que me deixa mesmo surpreendido: José Luis Orihuela, no seu eCuaderno, recomenda-nos na categoria de blogues grupales. Não fazia ideia de isto era uma cena “grupal”. Nem que poderíamos merecer o interesse de um simpático professor de Navarra. Mas olhem que o agrado é recíproco: o eCuaderno merece mesmo uma visita demorada.

Bem-vindo Professor Silva

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Há um filme com Peter Sellers , passou pelo burgo como “Bem-vindo Mister Chance”, em que um jardineiro levemente atrasado, que vive a ver televisão e a dizer frases pueris do tipo: “a seguir ao Inverno vem sempre a Primavera”, chega a Presidente dos Estados Unidos da América. Todas as pessoas que o ouvem atribuem-lhe uma inteligência e profundidade que ele não tem. Falam-lhe da crise económica e ele, distraído com o Outono, responde algo do tipo: “as folhas caídas, serão sementes e dessas sementes vão nascer frutos”. E tudo reage como se uma profunda sabedoria económica estivesse subjacente. Com as devidas distâncias (Sellers treme pouco e não costuma fazer aqueles esgares húmidos ao canto da boca) o Professor Aníbal Cavaco Silva faz lembrar a personagem: as suas receitas optimistas, a sua ideia de que o consenso utilitário entre quaisquer duas pessoas com a mesma informação, desde que bem intencionadas, chegam às mesmas conclusões é enternecedora. É genial como há alguém que depois ler as formulações do utilitarismo, aplicado à Microeconomia, acredita nelas. Como é possível resumir a sociedade a formulações do tipo: “um consumidor, com toda a informação, tenderá a maximizar a sua satisfação gastando as suas unidades de compra até que a utilidade marginal, conseguida com o dispêndio de mais uma unidade equivalha ao seu gasto…”.
O ar basbaque dos comentadores ouvindo as generalidades do professor é notável. Graças a Deus, o professor, ao contrário do jardineiro do filme, não é tão inocente. E todos sabemos que por detrás das formulações consensuais está um programa político e económico, que é uma escolha determinada que favorece determinados critérios, em prejuízo de outros.
Ao contrário do que a vulgata, e o professor, nos pretendem fazer acreditar, não há uma “Economia”, mas várias políticas económicas.

Utilizador? Pagador?

Depois do regresso em força das hostes a reclamar pela aplicação do famoso princípio do “utilizador/pagador”, sempre a propósito das SCUTs, lembrei-me de uma modesta proposta: porque não inventamos o princípio do Pagador/Utilizador?
Aplicada ao ramo das vias de comunicação, a coisa funcionaria assim: cada euro apurado com o Imposto sobre Combustíveis, com o IVVA e demais alcavalas que já atacam os automobilistas seria usado exclusivamente no financiamento de estruturas e serviços que lhes facilitassem a vida. Ao diabo com as escolas, com o fundo florestal, com os doentes e outros deserdados da vida moderna. A partir de agora seria assim: pagou, desfrutou. E mais nada.
Disparatado, não é? Mas não mais do que este súbito fervor justiceiro contra o tal “utilizador”; a seguirmos por aí, no limite, cada um poderá vir a exigir que os seus impostos sirvam unicamente para melhorar a sua vidinha.

PS: Já uma vez solicitei que me isentassem de pagar impostos destinados a financiar as incontáveis obras públicas da Madeira, sempre levadas a cabo por amigalhaços do Alberto João. Até à data, ainda não deram provimento à minha justa pretensão.

Ápice

Imaginem que, sem aviso, vos acontece algo que acende um candeeiro inesperado sobre um canto escuro da existência. Só por um segundo. Vocês piscam, assombrados pela luz e pela breve visão. E lembram-se de já terem imaginado, talvez enquanto crianças, que o mundo poderia incluir aqueles quartos secretos, resistentes às plantas mais precisas e fiáveis.
Horas depois, esse pequeno mas inegável episódio ainda anda a berrar, lá do fundo da memória, que talvez, afinal, haja mesmo mais coisas entre o céu e a terra. Mas de que adianta ficar a matutar, se amanhã, ou depois de amanhã, a anomalia já vai estar armazenada na arrecadação da tralha inexplicável e por isso inútil, na gaveta das aberrações que por certo a estatística esclareceria?
E para quê escrever sobre o indizível, se vos falta o golpe de asa para as palavras certas?

Garantem-me que não, mas às vezes ter Fé deve dar imenso jeito. E paz de espírito.

Pequenos Sísifos

Quando miro, ao fim da noite, todo o labor diurno dos Riapas, sinto-me quase como quando reparo num heróico e persistente escaravelho que me tenha rastejado pela casa adentro, rebolando o seu tesouro de cocó. O bicho, mais a sua carga repugnante, tem mesmo de ser removido. Mas até faz pena. Carregar tanta merda, ou acumular tanto comentário merdoso, só pode ser tarefa árdua, ainda que incompreensível.
Deve ser um esforço insano, juntar e guardar bolas de excrementos, todo o santo dia… quase me sinto mal a estragar-lhes essa dura labuta, apenas com um golpe de rato. Ou de vassoura.