Durante este mês de crise política, balizado pelos discursos do 25 de Abril na Assembleia da República e o actual panorama de Portugal estar em cada vez melhores condições económicas, Pacheco Pereira escreveu dois textos que ofereceram consolo aos socialistas e provocaram azia e maus fígados nos direitolas, A crise do Governo, a crise do Presidente e a crise do jornalismo e Intoxicação da opinião pública. Escolho uma citação de cada, para ilustrar o acerto e relevância das suas palavras:
«No dia 2 de Maio, o dia da crise, em vários órgãos de comunicação o estilo e o tom político dominante foi todo o dia igual ao das manhãs do Observador, muitas vezes com o efeito repetidor das mesmas pessoas em vários órgãos de informação. Há um precedente a este efeito, o papel d'OIndependente que preparou a entrada de Paulo Portas na política, acabou com o CDS "centrista", e contribuiu para o fim do "cavaquismo". Na verdade, ninguém como a direita radical sabe fazer melhor este papel [...]»
+
«Na ausência de qualquer trabalho jornalístico, que incluía, por exemplo, ter preparado citações, e imagens, com as versões anteriores dos acontecimentos e mostrando contradições e mentiras, ou ter construído uma cronologia com o que se sabia, o que daria uma base muito mais sólida do que usar interpretações capciosas dos comentadores e jornalistas na base de impressões, ou apresentar como "novidades" coisas que de há muito eram conhecidas, o papel de imediatamente "interpretar" o que estava a suceder foi entregue a comentadores e jornalistas-comentadores esmagadoramente de direita, com relevo para a brigada do Observador, agora também à noite na CNN. Repetiu-se o que aconteceu no dia da crise, a 2 de Maio, uma fúria incontrolada que, insisto, nada tem que ver com o jornalismo. Quando um diz mata, o outro diz esfola e, por fim, outro diz esquarteje-se.»
O Pacheco não é apenas um ex-político do PSD com altas responsabilidades durante o cavaquismo e depois no consulado de Ferreira Leite, nem apenas um dos comentadores mais famosos e caudalosos há décadas, nem apenas um historiador com relevante obra de investigação na área política, ele é também um autointitulado especialista em comunicação social e jornalismo. Da soma destes predicados, a que acresce o seu papel de perseguidor apaixonado de Sócrates, resulta uma coisa muito parecida com autoridade. Autoridade na matéria, nesta: o monopólio da direita no espaço mediático desde os anos 90.
A mesma, mesmíssima, direita que provocou uma crise política que teve o seu clímax (mas ainda não o seu epílogo) numa certa terça-feira. Um dia em que essa tal direita dominante — ubíqua na imprensa, das direcções às redações, dos comentadores fixos aos volantes — foi toureada por um primeiro-ministro que optou por não se deixar chantagear. O espectáculo foi tão imprevisto, tão impressionante, que no primeiro texto o Pacheco chega a exclamar “não sei se daqui a dez anos haverá uma escola ou um curso académico de Comunicação que estude o dia 2 de Maio de 2023, nas rádios e na televisão, e os dias subsequentes. De manhã à noite não encontrará jornalismo.“
Só que há nas suas descritivas palavras grossa chatice. Resulta de ele ter dois pesos e duas medidas, o que deixa indelével nódoa de bosta no que pretende seja a sua imaculada honestidade intelectual. Ir até aos tempos do Independente para encontrar um precedente para o “2 de Maio” é falso seja qual for o ângulo da comparação. Então, essas capas geravam animação noticiosa nos telejornais mas não correspondiam a um domínio sistemático sobre todo — todo! — o editorialismo e comentariado em períodos contínuos de 24 sobre 24 horas, juntando-se o cabo e as redes sociais. Se a intenção fosse, realmente, a de encontrar um precedente outra data teria de ser convocada: 21 de Novembro de 2014, pelas 10 da noite.
A detenção de Sócrates foi planeada para ser um dos mais poderosos espectáculos mediáticos alguma vez registados em Portugal. Foi distribuído horas ou dias antes a certos jornalistas o argumentário que o Ministério Público iria apresentar ao juiz Carlos Alexandre, o que eles publicaram, comentaram e divulgaram em cima do acontecimento. Equipas de televisão foram avisadas para se apanhar o bandido a ser transportado para o calabouço. O comentariado entrou em êxtase, bacanal de vingança e ódio. Um político do PSD, amigo do juiz, usou o Facebook para agradecer a Deus. O resultado foi um misto de blitzkrieg com shock and awe, onde se pretendeu impor o julgamento instantâneo de um certo cidadão. Julgamento político para efeitos de linchamento social e condenação criminal. Julgamento criminal para efeitos de linchamento social e condenação política. Nessa noite, nos dias seguintes, nas semanas seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes, que fez o jornalismo?
Que fez e faz o jornalismo a respeito das evidências de não fazer sentido deter, muito menos para efeitos da instigação de culpabilidade e destruição de direitos de personalidade, quem está a entrar no País? Ou de as suspeitas nessa data apresentadas como justificação para a sua detenção não passarem de hipóteses agora dadas como infundadas? Ou de a data para a sua detenção e prisão parecer ter sido escolhida não por algum motivo atinente à investigação mas antes ao calendário político das eleições de 2015, ocorrendo um dia antes de António Costa iniciar o mandato de secretário-geral do PS? Ou de não existir objectividade racional e legitimidade moral para a prisão preventiva em estabelecimento prisional, tendo sido um arbítrio do juiz a pedido do MP? Ou de toda a comunicação social ter sido conivente com os crimes cometidos por magistrados na violação do segredo de justiça, e os ter explorado política e comercialmente? Ou de se ter iniciado uma caçada judicial e mediática a terceiros com relações pessoais ou profissionais a Sócrates? Ou de nunca se ter provado qualquer acto corrupto, apesar da completa devassa feita aos registos públicos e privados onde apareceu o nome José Sócrates? Ou de o juiz Ivo Rosa ter desmontado, e publicamente explicitado, o que não passou do maior e mais obsceno embuste na história da Justiça portuguesa em democracia? Que opinião tem o Pacheco a respeito do trabalho jornalístico neste caso e suas avassaladoras questões para qualquer defensor do Estado de direito e da civilização onde queremos viver?
Nunca o saberemos. Ou melhor, sabemos. Acha bem. Se tem a ver com Sócrates, os métodos da direita radical são um refresco que o Pacheco saboreia deliciado. Já se contam 3 142 dias em que o jornalismo se transformou em auxiliar do Ministério Público por actos e omissões. Ao lado deste fenómeno, o 2 de Maio é pateticamente risível.