Sei que não consigo exprimir fluentemente o entusiasmo com que fui atingido pelo soco de Scolari. Estava num restaurante e apeteceu-me lançar as mãos para os céus a reclamar vitória, ao arrepio do silêncio atónito dos restantes comensais. É um acto-fronteira, marcando distintas eras. Rompeu-se o manto que esconde o caldo imprevisível, uma bolha de singularidade cósmica explodiu no cérebro do Felipão.
Há um mundo pré-soco, onde Scolari era apenas mais um representante da banalidade, sem possuir mensagem digna de registo. Quando muito, de notável para o meu interesse, a possibilidade de ele ter um acordo secreto com os fabricantes de bandeiras, ganhando à comissão. O resto eram as matemáticas do caos. No mundo pós-soco, espantosamente, o mais hierático dos responsáveis desportivos pode preferir abdicar de uma carreira de prestígio, de contratos milionários e, até, da própria dignidade. Tudo penduricalhos menores quando comparados com o valor da poesia para a busca de sentido e ordenação da realidade.
Como as imagens mostram, imediatamente antes da agressão a carranca do pugilista ficou crispada, furiosa. Depois, soltou-se a mão impulsionada por braço sem hesitação no intento de esmagar a voz outra. Mesmo após o movimento, quando o afastavam, a linguagem corporal continuava bélica, pronta para destruir o inimigo. Estávamos perante uma estreia: o representante máximo de uma selecção nacional de futebol, no cumprimento das suas funções contratuais, abdicava da racionalidade em favor da animalidade. Mas isto ainda seria manco de alcance filosófico não fossem as declarações do próprio na conferência de imprensa. Um acto de contrição, um qualquer laivo de responsabilidade, uma mísera ou manhosa aceitação de culpa, deitaria por terra o imponente monumento em construção. Felizmente, Scolari não falhou nessa sua hora. Veio dizer que nada se tinha passado de anormal, nada lhe parecia merecer reparo, nada tinha feito de mal. O que todos viram e viam e veriam era mentira.
Essa assunção de inocência é dos mais belos momentos públicos de que me recordo, pois só um poeta a poderia ter levado a cabo. Só um poeta tem a força suficiente para enfrentar uma plateia hostil, munida dos seus obsoletos e alienantes factos incontestáveis, e defender um ideal que transcende a vulgar dimensão material, aquela que se oferece a plebeias máquinas de guardar imagens. Fazer a invocação desses campos relvados, Elísios ou outros, apelando a uma renovação do olhar para que nos libertemos dos regulamentos, da legalidade, da moral, da ética e do respeito próprio, eis o gesto artístico por excelência.
Zidane já o tinha tentado, mas não foi capaz de levar o acto ao seu pináculo revolucionário, não teve força para afirmar que uma cabeçada faz parte da praxis desportiva profissional e paga pelos impostos da turbamulta. Mas alguém, finalmente, venceu a hipocrisia de uma maioria instalada na honra e na coragem. Alguém, um scolarizado qualquer.