Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Avenida da Liberdade

Tão certo como se tivesse sido combinado

Ao telemóvel numa mensagem recebida

Numa cidade com ruas por todo o lado

Logo havia de te encontrar na Avenida

Uma alegria há muito tempo perseguida

Num intervalo quase terra de ninguém

Mas eu já via o teu olhar numa ermida

Na romaria anual da terra da tua mãe

Teimo ver no risco do quiosque a capela

Na tua pressa a ideia da promessa a pagar

A tua garrafa de azeite deixada na janela

Faz de noite a luz da lamparina no altar

Um sonho destruído pela ambulância

Que passou agora em alta velocidade

Rasgando na tua pressa uma distância

Trazendo ao meu olhar outra saudade

Vinte Linhas 416

«A casa e as sombras» de Joaquim do Nascimento

Este é um título feliz para o conjunto de 18 crónicas sobre uma aldeia do Alto Douro (Pereiros) e os seus quotidianos entre 1930 e 1980. A casa pressupõe sinais de vida; as sombras são sinais de morte. Entre a vida e a morte, estas crónicas são povoadas por pessoas e pelas suas memórias. Ou seja: «As casas fizeram-se para serem habitadas. Mas não chegaram a cumprir o seu destino, mudada que foi a sina de quem lá iria viver e, desabitadas, começaram a sofrer de frio, a criar fantasmas, a revelar segredos antigos. E o povo começou a olhá-las de lado.»

O autor domina a geografia do espaço («Esta rua, sem deixar de ser a mesma, toma várias designações ao longo da sua extensão: Fonte da Ladeia, Rua de Cima, Cômbaro, Fundo do Povo, Rua de Baixo, Acácias») mas também a dos afectos a partir dum retrato a enviar para Angola: «Vê lá tu António estão lindas as nossas filhas, olha como cresceram e se fizeram mulheres. Que mal te fizemos nós, António?» A partir de uma foto de estudantes surge outra memória: «Sinto um terno prazer em revisitar cada um de vós, nome, rosto, voz, a circunstância, a terra, já soube de cor a terra de cada um de vós, nesse tempo era mais natural perguntar a alguém donde és do que perguntar quem és porque o lugar onde se nascia era um elemento importante da identidade».

Entre a casa e as sombras fica o registo das tarefas agrícolas («Vindimas pobres, sem rogador, nem rancho, nem concertina, nem ferrinhos, nem bombo») dos artistas de ofício («carpinteiro, pedreiro, sapateiro, modista, alfaiate, tecedeira, ferrador, barbeiro») e das viagens: «Da Meda para o Pinhão era jornada de meio-dia. Antes do Vilarouco fica os Pereiros, aqui entrava pouca gente e saía ainda menos, mas quem quisesse ir dos Pereiros a Penedono ao mercado quinzenal subia a pé o Monte Airoso que começa nas margens do rio Torto, Póvoa, Bebezes, Granja, Santa Eufémia, o castelo sempre à frente, para descer à tardinha. A Fernanda sabe.»

(Editora: Padrões Culturais, Apoio: Associação Amigos de Pereiros, Capa: Mário Andrade)

Um livro por semana 141

folclore íntimo valter hugo mãe

«folclore íntimo » de valter hugo mãe

«Entre solidão e perplexidade» – poderia ser este o título desta recolha poética de valter hugo mãe (n. 1971) que engloba 13 anos de labor poético. Um ponto de partida possível é o Eu: «és um rapaz estranho, aí metido num amor nenhum que te magoa e espera ter lugar no mundo». A solidão desse Eu é atravessada pelas memórias de África («as mulheres excisadas alinharam-se perante eles e exigiram a morte») e da Europa: «o meu irmão dizia que havia fantasmas no sótão. eu via-os de encontro às paredes».

Perante a perplexidade do Mundo e da Morte («os homens mortos ficam a comer erva pela raiz. vi num sonho») só o Amor surge como resposta: «já reparaste na maneira engraçada como nos deixaram sozinhos. foi propositado. sabem enfim que gosto de ti e que poderemos casar, um dia, quando formos mais velhos». Apesar dos desencontros: «somos cruéis / tão imaturos no amor / que ele acaba por ir-se embora / talvez para nunca mais voltar / perdoa-me helena».

A vida («estou no enredo irrevogável da minha vida») não se esgota no quotidiano; há respostas nas artes e nas letras como no dia da morte de Mário Cesariny: «vamos levar-te para o panteão mas não sem antes surrealizar aos gritos os chatos que lá estão / traz mais dinheiro o que tenho hoje não chega para ser feliz / amanhã vendo algo e pago-te».

Entre a ameaça da Morte e o precário do Amor, a felicidade é possível: «quem deixou sobre o coração / um feixe de luz / não cega nunca».

(Editora: COSMORAMA, Capa: José Rui Teixeira sobre imagens de Nelson d´Aires e Isabel Lhano, Foto: Nélio Paulo)

Vinte Linhas 415

«Você tem-me cavalgado, seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você»

Passam dois anos depois do escândalo do golo fantasma que ditou a vitória do Porto sobre o Sporting por 1-0 com um árbitro do Belenenses a ir à televisão explicar tudo (Jorge Coroado) pois a palavra deliberadamente é chave na interpretação da letra da lei. Um jogador caído no chão só faz cortes; não faz passes. Dois anos depois aí está novo escândalo. O responsável pelos árbitros que se calou como um rato depois do golpe do Algarve com aquele penalty fantasma que levou o Benfica ao colo na Taça da Liga, afirmou agora que esta era uma nomeação «normal». Mentiu. Este árbitro Duarte Gomes está envolvido num processo pois agrediu o treinador de guarda-redes do Sporting antes dum jogo Sporting-Setúbal depois de ter entrado pela baliza dentro dos «leões» no aquecimento. Também empurrou o «segurança». Se houvesse uma réstea de bom-senso nesse trambolho (Vítor Pereira) não teria nomeado este Duarte Gomes pois só atirou petróleo para a fogueira. Ontem ele poupou a expulsão ao Raul Meireles e foi lesto em dar dois amarelos ao Miguel Veloso em duas faltas mas esqueceu-se de mostrar cartão ao Tomás Costa quando este trambolho deu uma joelhada ao Caicedo e não mostrou amarelos aos jogadores do Porto que fizeram faltas violenta e sucessivas. Sei que isto está tudo montado pois por um lado o Porto tem que «ganhar sempre custe o que custar e doa a quem doer» e o Benfica investiu mais de 50 milhões de euros em jogadores e, tal como se viu em Leiria, esse investimento não se pode perder. Lembro-me sempre dos versos do Alexandre O´ Neill – «Você tem-me cavalgado seu malvado / mas não me tem posto a pensar como você / que uma coisa pensa o cavalo / outra quem está a montá-lo».

Um livro por semana 143

irene flunser pimentel história das organizações femininas do estado novo

«História das Organizações Femininas do Estado Novo» de Irene Flunser Pimentel

Os ideólogos do Estado Novo fizeram os possíveis por colocar as raparigas nas Escolas Técnicas de onde sairiam como assistentes sociais, professoras, parteiras e enfermeiras. A Obra das Mães pela Educação Nacional (OMEN) de 1936 e a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF) de 1937 são estudadas neste volume de 456 páginas. Apenas três breves notas. Em 1938 a delegada de Braga da OMEN reclamava contra «a crueldade de certos capitalistas que rebaixa de forma aviltante o salário em favor dos seus lucros». Em 1941 o Boletim da MPF definia a rapariga ideal no texto «O que nós queremos que as raparigas sejam» nos seguintes termos: «verdadeiras, amáveis, sãs, novas, elegantes, activas, contemplativas e boas» enquanto a revista Menina e Moça alinhava as qualidades a possuir («simplicidade, elegância, boa educação e cultura») e os defeitos a evitar: «má-língua, vaidade, desleixo, cólera, curiosidade, tagarelice, indolência e arrogância».

A Menina e Moça, muito preocupada com a moral, publicava em 1958 uma curiosa «Carta a uma rapariga» dirigida a um casal visto no cinema que concluía deste modo: «não gostei do modo como quase te abandonaste sobre o ombro. Fiquei com a impressão que se ele te pedisse um beijo lho darias (…) pensas que te vais casar com ele mas talvez isso não aconteça. Não estou a chamar-te estúpida mas é que as teorias modernas têm o condão de tornar as raparigas inconscientes do bem e do mal. Precisas de alguém que te tire dessa onda de modernismos e inconsciência. Confia tudo à tua mãe».

(Editora: Temas e Debates, Capa: Fernando Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 414

Cardoso Pires, de súbito, numa rua da Ericeira

Na pontuação destes dias de Setembro a espuma branca das ondas na Foz do Lizandro faz com que elas pareçam parágrafos e os rapazes estrangeiros, quando passam com as pranchas debaixo do braço a caminho do mar, parecem pontos de exclamação. É o fim das férias para quem trabalha e haver mesas com menos gente na esplanada é já um sinal. Os outros, desempregados de longa duração ou sujeitos a biscates ocasionais, não podem dizer que estão de férias. Pelo contrário; eles sabem que não há nada mais sem esperança do que um recibo verde. Terminado o meu dia de trabalho frente ao ginger ale e ao livro à espera de uma nota de leitura, despeço-me da praia do Lizandro trazendo nos ouvidos o som da rebentação e no nariz a força do iodo tão comum das praias do Oeste. De súbito Cardoso Pires aparece numa placa no nº 35 da Rua (salvo erro) Francisco Granate. São estas as palavras: «Nesta casa viveu José Cardoso Pires com os seus amigos. A sua escrita e a dignidade solidária de um dos maiores escritores do nosso tempo. Maio 1999». Esta rua não faz parte das minhas voltas diárias mais voltadas para o Parque de Santa Marta e para o Jogo da Bola, para a Biblioteca Municipal e para o simpático café em frente – o Paloma. Dei por mim a pensar numa história que JCP me contou na Estufa-fria numa mesa com Maria Ondina Braga e António Torrado. Um indivíduo pede boleia ao Cardoso Pires no Porto, mete conversa, julga-o conhecido da tropa e, em Coimbra, surge a polícia de trânsito. Excesso de velocidade dá multa. O da boleia tenta convencer o polícia a perdoar. Já em Lisboa o desconhecido pára nos Olivais e entrega a JCP não só a carta apreendida pela PVT mas também o caderno completo das multas. Era um profissional.

Nota final – esta crónica integra a antologia das crónicas jornalísticas do século XX de Fernando Venâncio para o Círculo de Leitores.

Vinte Linhas 413

Estive duas vezes de acordo com Pinto da Costa

Corria o ano de 2002 e a editora Padrões Culturais acabava de publicar o meu «Os guarda-redes morrem ao domingo» que foi apresentado na FNAC Colombo por Manuel Alegre. Como há nesse meu livro um poema para Pavão, contactei o senhor Pinto da Costa e ele deu-me a morada para lhe enviar um exemplar. Ainda recordo essa morada: FCP SAD Avenida Fernão de Magalhães 4350-158 Porto. Estive de acordo com Pinto da Costa. Corria do ano de 2006 quando surgiu um novo jornal desportivo cujo primeiro número incluía uma entrevista com Jorge Nuno Pinto da Costa realizada (salvo erro) por Vasco Resende. Guardei o dito jornal para o oferecer à mãe do Miguel Garcia, Dona Albertina Garcia e fui a Moura de propósito para lho entregar. A razão desse «estar de acordo» é simples: Pinto da Costa nessa entrevista recordava um lance ocorrido no Estádio José Alvalade entre Miguel Garcia e Simão Sabrosa quando, na grande área do Benfica o primeiro foi derrubado pelo segundo. Mas o árbitro não marcou embora estivesse perto. Estive de acordo com Pinto da Costa duas vezes: uma por razões poéticas e sentimentais, outra por razões de arbitragem. Lembrei-me disso hoje ao ver como a União de Leiria foi brutalmente prejudicada com a marcação de uma grande penalidade completamente inventada. O lance é um simples corte, o jogador leiriense joga apenas a bola, nada mais. Lembrei-me porque o árbitro é o mesmo. O que não viu em Alvalade viu em Leiria. Sou do tempo em que os árbitros eram todos do Benfica menos o Décio de Freitas (OS Belenenses) e Joaquim Campos (Sporting). Em Portugal de 2009 voltou a coboiáda em que é tudo do xerife. Não há quase ninguém do lado dos índios.

Esboço para um retrato

Agora eu pouco sei das tuas rotinas

O chão do poema é deserto povoado

As nuvens são o aviso das neblinas

E este vento traz um frio antecipado

Há aqui uma luz azul intermitente

No carro da patrulha estacionado

A mensagem para ti está pendente

Ouves a confusão no prédio ao lado

Agora eu pouco sei das tuas rotinas

Ao fim da tarde, telemóvel desligado

O teu rosto desenhado nas cortinas

Mantém toda a frescura do passado

Quando ias entre a Estrela e a Graça

No eléctrico tão ronceiro à janela

A madrinha pedia as coisas da praça

À noite ias da Graça para a Estrela

Vinte Linhas 412

Avieiros – A Leandra de Loureiro Botas chegou em 1938

No texto anterior que dava conta da reunião de um grupo de 16 carolas em Alpiarça para arrancar um Fórum Ribatejo (ou coisa parecida) pois o Tejo está em perigo e a causa dos avieiros é um bom pretexto, cometi um erro crasso por omissão. Referi-me ao livro «Avieiros» de Alves Redol de 1942 mas esqueci-me que José Loureiro Botas tinha publicado em 1940 o seu célebre «Litoral a Oeste» com capa de Manuel Ribeiro de Pavia. Nesse livro de contos (Prémio Fialho de Almeida em 1940) um deles («A Leandra») foi escrito em 1938 e ganhou o prémio literário desse ano do Ateneu Comercial de Lisboa. Loureiro Botas nasceu na Vieira de Leiria, viveu em Lisboa e conheceu bem as histórias dos avieiros como a Leandra. Vamos ao conto.

A Leandra quase naufragou uma noite no Tejo e por isso «sabia rir de tudo, sem ligar importância aos pequeninos nadas». Um dia foi pelo Tejo acima com o seu marido (o Joaquim) e os dois filhos mais pequenos (os outros três ficaram com a mais velha em casa) mas de repente apareceu um temporal e ficou escuro como «a ferrugem da chaminé» mas o pior foi que começou a chover muito e veio uma trovoada. No meio do medo e da confusão aperceberam-se da chegada de uma barca grande com o António Milhafre, pescador conhecido a quem pediram ajuda. A resposta do outro foi «arranjem-se como puderem, levo o barco a abarrotar de peixe e não o vou perder por causa de vocês». Horas depois rompeu o dia e apareceu um barco grande que os ajudou num reboque gratuito. Do António Milhafre nunca mais ninguém soube. Do seu barco só bocados «tábua aqui, tábua acolá». A Leandra nunca mais quis nada com tristezas.

As mãos de meu avô José Almeida

Caiu o telhado. Não sei se imaginas

Como tudo agora é sombrio e triste

A casa onde vivemos está em ruínas

O quarto onde se nascia já não existe

As pedras e os barrotes são só entulho

Ficou tudo acumulado no rés-do-chão

Há um silêncio onde antes era barulho

Que era um sinal de vida em profusão

Fosse na casa, no quintal, no palheiro

Onde também se fazia o nosso lagar

As tuas mãos à luz do velho candeeiro

Trabalhavam na noite fora sem parar

E aos domingos a trompete tão diferente

Faiscava entre a luz do sol na procissão

As tuas mãos, o chumbo e a água quente

Faziam na trompete um som de perfeição

Vinte Linhas 411

Alpiarça: Depois de uma adiafa no Patacão nasceu o Fórum Ribatejo

Apesar de fazer parte do emblema de Alpiarça, o barco avieiro parece estar perdido nos alçapões do esquecimento. Almoçar na sombra dos salgueiros do Patacão uma magnífica caldeirada feita pelo avieiro Fernando Saboga, foi uma espécie de adiafa sentimental. Os 16 convivas (amigos, antropólogos, músicos, investigadores, jornalistas) homenagearam a memória de Álvaro Brasileiro na presença do seu filho. Alguns desandaram dali pois não suportam ver a aldeia abandonada e em total degradação, outros talvez mais resistentes ao esplendor das ruínas, andaram pelo interior das casas dos avieiros que ainda não caíram de todo. Há ali ainda um frémito de vida. Roupas, facturas, papéis diversos. Um relatório de 1972 sobre um «RX» dum avieiro no Cartaxo, quatro páginas da bateria de análises feita em 1971 a uma avieira em Alpiarça. O forno comunitário e a respectiva barraca de apoio (onde ficou esquecida uma garrafa de Rical) são o contraponto do lado de cá ao abandono das casas do lado de lá do dique onde algumas árvores cresceram e derrubaram os telhados. A secura e a aridez da areia completam a desolação das casas. Horas depois a sala da Junta de Freguesia, local onde se realiza a Assembleia Municipal, recebe os 16 agentes culturais com uma mentira na parede – um quadro que anuncia a recuperação do Patacão. Mas o processo dos avieiros não pára; ainda agora um grupo de investigadores foi recebido no Ministério da Cultura (parece que existe…) e um Blog vai nascer para contactos activos dos agentes culturais do Ribatejo que nele queiram participar. É tudo uma questão de coração. Afinal Alves Redol escreveu «Avieiros» quando descobriu que a sua avó de Tomar era neta, filha, irmã e viúva de avieiros.

Balada da Praça da Fruta

(a Carlos Querido)

João Cristo, sua cocheira

Onde o meu avô sabia

Que a burra trabalhadeira

Era a dez tostões por dia

Ficava ela a descansar

Nas cocheiras da cidade

Desconfiada do lugar

E moscas em quantidade

Minha tia Francelina

Nascida no Zambujal

Vinha vender obra fina

Os bichos do seu quintal

Numa carroça pequena

É que o seu mundo cabia

Sempre calma e serena

Dava-me um beijo e sorria

Exame era uma guerra

Bebemos uma gasosa

O grupo da minha terra

Não levou uma raposa

Nos armazéns do Chiado

Pronto-a-vestir é um fato

Nunca tinha reparado

Neste novo artesanato

Meu exame da terceira

Foi feito sem companhia

Em Abril, segunda-feira

Já não me lembro o dia

Chamado para a inspecção

Sou dado como capaz

Dentro duma contradição

Não sou guerra mas paz

Minha prima Deolinda

Professora de crianças

Na doçura que não finda

Dava-me muitas esperanças

Suas torradas matinais

A caminho do regimento

Davam-me forças especiais

Para marcha e movimento

Fosse das suas orações

Ou fosse da entrevista

Eu passei sem ralações

E fiquei em contabilista

Com três filhos crescidos

E acrescentado um neto

Compro beijinhos pedidos

E cavacas no Gato Preto

Praça da Fruta eterna

Onde o mundo nunca pára

És tão antiga e moderna

Porque és uma praça rara

Povoada por mil paixões

Todos nós mesmo distantes

Trouxemos nos corações

A força dos teus instantes

E mesmo na chuva londrina

Tomas, meu neto à escuta

Recorda Santa Catarina

E lembra a Praça da Fruta

Vinte Linhas 410

Príncipe Real – A perversão dos ecologistas

Nada tenho contra os ecologistas. Fui ecologista nos anos 70 e 80 quando escrevi sobre o assunto e li todos os livros de Sicco Mansholt (1908-1995), o holandês que lutou contra os pesticidas e produtos químicos (em geral) que obrigavam os agricultores da Ardenas a beberem água engarrafada. A dos poços já não de podia beber. Sicco Mansholt foi presidente da Comissão Executiva da CEE depois de ter sido o vice entre 1967 e 1972.

Aqui no Príncipe Real tivemos um terramoto ecologista: vieram rebentar com a bomba de gasolina que havia no jardim. Depois de há alguns anos terem feito desaparecer a bomba que existia no Pátio do Tijolo, numa garagem de recolhas, vieram acabar com esta nossa bomba de gasolina. Um vereador recusou a prorrogação da licença com o argumento de que o espaço era para um silo de automóveis. O vereador saiu mas a licença nunca foi prorrogada; agora acabaram com a nossa bomba de gasolina. Digo nossa porque a vida na cidade só faz sentido se for organizada a favor das pessoas. A nossa bomba permitia um atendimento personalizado. Parece que não mas é importante. Já houve quatro pessoas de idade que venderam os seus automóveis pois não podem abastecer-se com um olho no burro outro no cigano. Além do mais na bomba comprava-se gás e gelo. Ela apareceu nas crónicas do Alçada Baptista. Não estava dentro de nenhum prédio. Foi sacrificada por uma perversão do espírito ecologista. A Câmara deixou-se ir a reboque de alucinados com a ideia de trocarem a vida verdadeira por uma vida falsificada feita de saladas em vez de carne, de animais em vez de pessoas, de bicicletas em vez de automóveis, de produtos ditos biológicos em vez de alimentos naturais. Uns trambolhos, enfim.

Vinte Linhas 409

O cavaleiro da Mongólia chegou ao Largo do Carmo

Ruslam Botiev, o pintor e escultor que veio da Mongólia para Portugal e a quem eu, por brincadeira, chamo cavaleiro da Mongólia, acaba de se instalar com armas e bagagens no Largo do Carmo. Depois de ter andado ao sol e à chuva pelas escadas da Basílica dos Mártires e da Igreja do Sacramento, este é o poiso ideal para Ruslam Botiev. Um pouco a exemplo do que aconteceu no Príncipe Real onde o pintor japonês Nagashima se instalou no quiosque do senhor Oliveira, este simpático cavaleiro da Mongólia está a expor e a vender os seus trabalhos junto do quiosque do Largo do Carmo. Mais protegido da chuva e do sol, a sombra do quiosque dá-lhe uma protecção objectiva. Deixou de ser nómada e tornou-se habitante do lugar, passando a integrar a paisagem.

Há um anúncio da Superbock no Youtube sobre a cerveja «Stout» no qual o amigo Ruslam Botiev surge como protagonista – é ele que entrega a rapariga a troco de 2 milhões de cervejas. Mas porta-se bem e não estraga a «menina» no momento do resgate. Mas voltando à pintura: ele continua a fazer os seus Cristos-Rei, as suas Praças de Touros, os seus Eléctricos de Lisboa, as suas Sés-Patriarcais e os seus cavaleiros da Mongólia. Às vezes em vez de cavalos são dromedários pachorrentos mas eficientes.

Gostei de ver Ruslam Botiev no Largo do Carmo. Aquele lugar que já foi um espaço de revolução está a ser para ele uma revolução silenciosa. Deixou de andar com a casa às costas, ao sol e ao vento. Deixou o precário e instalou-se num (relativo embora) quotidiano organizado e estável. Merece toda a sorte do Mundo este homem de paz, sempre armado dum sorriso capaz de desfazer todos os equívocos – «Bom dia Portugal!»

Um livro por semana 140

meu brasil brasileiro duda guennes

«Meu Brasil Brasileiro» de Duda Guennes

O jornalista Duda Guennes (Recife, 1937) vive em Portugal desde 1974 e colabora em A BOLA desde 1980 com «Meu Brasil Brasileiro». Ali cabem «crónicas, causos, estórias, factos, fofocas e acontecências» como esta curiosa definição de árbitro de Armando Nogueira: «O árbitro de futebol é o único ladrão que rouba a gente na presença de milhares de pessoas e ainda vai para casa protegido pela polícia». José Miguel Wisnick afirma que «A arte do amor, como a do futebol, é abrir espaços onde não há» e Rubem Braga testemunha que um dos maiores prazeres da vida é «Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro». Garrincha respondeu uma vez a um director que lhe chamou boémio por frequentar boates – «O senhor também já foi visto várias vezes em velório e não é defunto». Roberto Pásqua, presidente do Corinthians disse em 1985 – «Se minha vida particular atrapalhar o Corinthians, abandono a vida particular». Eurico Miranda, presidente do Vasco da Gama afirmou sobre a corrupção – «Ética é coisa de filósofo». Dissertando sobre a estética do futebol, o jogador Dadá Maravilha afirmou – «Não existe golo feio. Feio é não fazer golo».

Garrincha, farto de levar pontapés do chileno Eulálio Rojas no Mundial de 1962, gritou esta maldição – «Olha aí, ó panasca, vocês chilenos não jogam nada. O Chile só é bom em terramoto e mesmo assim perde para o Peru». Por fim um clássico: o médio Ananias antes de um Náutico-Santa Cruz no Recife disse – «Só faço prognóstico no final do jogo».

(Editora: Prime Books, Capa: Luís Afonso, Apresentação: Vítor Serpa, Prefácio: José Carlos de Vasconcelos)

Vinte Linhas 408

«Outros frutos» de Luísa Ribeiro (uma leitura)

Organizada em dois capítulos («Outros frutos» e «Intervalo»), esta edição bilingue tem como ponto de partida a voz da solidão («Estou só e ferida») e como ponto de chegada o encontro do amor («tens um coração e dois / olhos como toda a gente mas não sei / o que te reveste de tão puro que ficas / parecido com a lua). Entre a solidão e o amor existe uma distância igual à que distingue a Natureza da Cultura: «não passas do papel / para a ogiva dos meus braços e morro / antes que me encerrem as palavras / numa fábrica de significados / e uma língua de água / me passe perdida no rosto / alucinado».

O segundo espaço («Intervalo») organiza-se em prosopoemas e desloca o fulcro dos textos do Corpo para a Casa: «A minha casa é eterna, se eu escrever a minha casa». Essa casa existe perto do mar («Vem da luz do mar aos meus olhos de fera perdida») e situa-se numa ilha: «Assaltam-me piratas na madrugada. Roubam-me da arca os bichos de pelúcia, degolam-me bonecas cegas e rasgam os poemas que te escrevi aos dez anos». Na desordem do Mundo a saída possível está numa peregrinação ao contrário – do Universal para o Local: «Sou peregrina de Compostela à Serreta. Faço descalça qualquer trilho, rumo infinito. Prometo aos pés doidas caminhadas. Guardo num vaso o cabelo rapado. Não evito urtigas, agulhas, espinhos e vou forte prometer a vida. Peço três desejos de águia. No regresso, tomo o caminho do Paraíso».

(Editora: DAURO, Prefácio e Tradução: Emílio Ballesteros, Prólogo: Nuno Júdice)

Um livro por semana 139

crepúsculo teixeira de pascoaes

«Crepúsculo» – antologia – de Teixeira de Pascoaes

Teixeira de Pascoaes (1877-1952) foi vítima, enquanto poeta, de uma espécie de «Sporting-Benfica» na literatura portuguesa: «Se lês Pessoa não leias Pascoaes». Quem lê Pessoa deve ler Pascoaes e Sophia e Herberto e Carlos de Oliveira e Ruy Belo e Jorge de Sena e Vitorino Nemésio. Não há Sporting-Benfica em literatura.

Este volume recolhe três livros publicados em 1924/1925 por Guilherme de Faria: Elegia do Amor, Sonetos e Londres. O mentor do Saudosismo («a religião da saudade») abre deste modo a Elegia do Amor:

«Lembras-te, meu amor / Das tardes outonais / Em que íamos os dois / Sozinhos, passear / Para longe do povo / Alegre e dos casais / Onde só Deus pudesse /Ouvir-nos conversar?»

Mas já os Sonetos entram em contradição; vejamos o início do poema Amor:

«Para que foi, Senhor, que ao mundo vim / Se eu hei-de, nesta vida, amar somente / A mais sequinha flor do meu jardim / E o bailado das sombras do poente?»

Já no livro Londres (dedicado a Aubrey Bell) a viagem na cidade inglesa (Trafalgar, Westminster, Hide Park) termina sempre na portuguesa saudade:

«Tudo é saudade… E aqui, debaixo deste Azul / Que a tristeza em feições quiméricas dilata / Evoco dolorido o meu País do sul / Lá, onde é oiro o sol que, neste céu, é prata».

(Editora: Cosmorama, Prefácio/Organização: José Rui Teixeira, Capa: sobre desenho de Carlos Carneiro, Apoio: Câmara Municipal de Amarante)

Vinte Linhas 407

Pátio do Tijolo – desapareceu a placa e no Gabinete ninguém faz nada

As pessoas que moram no Pátio do Tijolo entre os números 39 e 59 (onze habitações com vários andares) estão a ser prejudicadas pois o seu correio está a ser entregue na Calçado do Tijolo. Não se trata dum capricho do empregado dos CTT mas sim da consequência natural do facto de o empreiteiro da obra ter retirado a placa toponímica respectiva e de a mesma nunca ter sido recolocada. Ninguém inspeccionou, ninguém se apercebeu, ninguém se preocupou com o assunto. Tanto quanto sei as obras são fiscalizadas. Em teoria é assim, na prática não. Quando eu era membro da Assembleia de Freguesia da Encarnação queixei-me informalmente de ter perdido o meu bocado de Tejo que desde 1976 (ano em que vim para aqui morar) tinha a partir da janela da cozinha. Tudo porque umas obras (que presumo ilegais) alteraram a volumetria de um prédio na Rua da Atalaia e eu deixei de ver o Tejo. Disseram-me logo que não valia a pena questionar o Gabinete do Bairro Alto pois não iriam fazer nada. Agora com este caso da placa toponímica desaparecida no Pátio do Tijolo fui lá ao dito Gabinete três vezes, não consegui falar com ninguém responsável e hoje disseram-me na recepção que o melhor era apresentar o assunto no Campo Grande, no edifício da Câmara Municipal.

Era o que faltava. Usam o pomposo nome de «Unidade de Projecto Bairro Alto e Bica» e afirmam-se integrados na «Direcção Municipal de Conservação e Reabilitação Urbana» mas uma simples placa toponímica que desaparece durante umas obras e está a prejudicar a vida de dezenas de pessoas não aparece nem é substituída. Se isto é tratado assim com o peixe miúdo imagine-se o que não será com os tubarões.

Vinte Linhas 406

Há 43 anos era assim: não igual mas parecido

Comecei a trabalhar em 9 de Setembro de 1966. O vencimento era de 900$00 mas como não trabalhei todo o mês recebi 660$00 ilíquidos. Descontaram-me 13$20 para o Fundo de Desemprego, 2$50 para a Caixa de Abono de Família e 7$00 para a quota do Sindicato. Total – 22$70 para a corda do sino, como se diz na minha terra. Sendo empregado bancário nunca poderia vir a beneficiar do Fundo de Desemprego pois os Bancos não estavam na Segurança Social, tendo 15 anos de idade não podia ser sócio do Sindicato mas descontava, sendo bancário não beneficiava de «Caixa» mas descontava. No mês seguinte já trabalhei os 30 dias e o vencimento ilíquido foi 900$00 mas os descontos também aumentaram: 18$00 para o Fundo de Desemprego, 9$00 para o Sindicato e 2$50 para a Caixa. Total: 29$50 para a corda do sino. Dito de outra maneira: por cada 30 dias que ganhava 1 dia inteiro ia para descontos injustos e sem fundamento. Mas em 1966 era assim: comer e calar. Há tempos referi a macacada dos mínimos nas Finanças, aquela história da jovem arquitecta paisagista que ganhou 1.225,00 euros mas que as Finanças obrigaram a pagar 2.998,00 de mínimos, ignorando ostensivamente que ela começou a trabalhar em Outubro e que não faz sentido obrigar uma pessoa nessas condições a pagar tanto como quem começa a trabalhar em Janeiro, não percebi logo o alcance. Foi hoje que percebi. Em 43 anos pouco mudou nas mentalidades. O «espírito de guichet» permanece. As respostas que deram à jovem arquitecta paisagista agora («Não há nada a fazer») são as mesmas que me deram a mim há 43 anos. Não há nada a fazer. As mentalidades demoram muito tempo a mudar. Quando mudam.

Vinte Linhas 405

Hóquei, andebol, futsal, ténis de mesa e bilhar ou memória para António Ramos

Morreu António Ramos, jornalista de «modalidades» que trabalhou nos jornais «Record» e «Sporting». Gostaria de repetir o seu desembaraço quando, na secretária em frente à minha, «despachava» sucessivas notícias sobre os jogos do nosso fim-de-semana desportivo. Como tinha várias modalidades não podia estar em todos os pavilhões ao mesmo tempo mas ninguém ficava sem notícias. Com alguns telefonemas para a pessoa certa, fosse no ténis de mesa («Amigo Adérito, estamos a ganhar?») fosse no bilhar («Amigo Salgado está tudo bem?») ou fosse no futsal («Amigo Paulinho já acabou?») o António Ramos conseguia sempre dar a notícia em tempo útil. A sua agenda de contactos era um mapa de amizades em todo o país incluindo a Madeira e os Açores. Muitas vezes apanhámos o mesmo táxi, lá para as duas da madrugada, quando o jornal do Sporting fechava. Trajecto: Telheiras – Campo de Ourique – Bairro Alto. Algumas vezes, noite alta, lhes coloquei perguntas inoportunas («Se são 128 golos no quadro não podem ser 129 na lista dos mercadores») mas nada que não se resolvesse («Tire um golo ao melhor marcador, amigo Zé»). Tivemos um tempo pleno (1996-2006) em que acamaradámos muito à mesa no Chinês mas há três anos que falávamos menos. Continuávamos porém a compartilhar o mesmo barbeiro aqui no Bairro Alto. Além do sportinguismo e do amor aos jornais, muita coisa nos unia: a paixão pelos livros e pelos netos. Quando a conversa derivava para aí o António Ramos era um gigante de ternura derramada. Na noite tantas vezes agreste de Lisboa, a sua voz entre Telheiras e Campo de Ourique lembrava sempre as palavras de Tasso – «Tempo perdido é todo aquele que não se gasta em amar».