Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 432

«A Quadrilha Selvagem» da Câmara Municipal no Príncipe Real

Aqui há uns tempos (está os registos do Blog) publiquei no «aspirinab» um texto no qual me referia ao miradouro do ex-jardim de São Pedro de Alcântara e a dois guardas da Polícia Municipal que, à noite, vi a caminhar lado a lado para fazerem uma patrulha ao vazio. Com o quiosque fechado, sem alma nem vida, aquele espaço era mesmo o vazio. Na altura referi o filme «A Quadrilha Selvagem» de Samuel Peckimpah com Robert Mitchum a dizer aos três companheiros minutos antes de atacarem o Banco local: «Vamos formar!»

Este caso da destruição do jardim do Príncipe Real cometida em nome de uma falsa «requalificação» lembrou-me a referência à quadrilha selvagem (ao filme mas também à ideia) de alguém que avança para um espaço indefeso depois de combinar o ataque. As 46 árvores mortas, as cercas derrubadas e o pavimento destruído, surgem depois de ter sido afixada uma placa no gradeamento sem qualquer informação concreta sobre o projecto de «requalificação». Já falei com o professor Fernando Catarino que entre outras coisas me confirmou o óbvio: o facto de ter falado a um jornalista do «Público» não sanciona a acção da Câmara Municipal, como erradamente alguns tentaram fazer passar aqui no «aspirinab». A CML não ouviu o especialista e dizer que «os choupos não são o ideal» para um jardim citadino não significa aprovar a medida tomada pela Câmara, tal como a quadrilha selvagem. A Junta de Freguesia das Mercês foi ultrapassada neste assunto. Os moradores foram ignorados neste processo de destruição disfarçado de «requalificação». Tal como no filme «A quadrilha selvagem». A ferro e fogo.

Um livro por semana 147

José Rui Teixeira Diáspora

«Diáspora» de José Rui Teixeira

Percorre este livro de 102 páginas uma década de poesia (2000-2009) de José Rui Teixeira. Os primeiros poemas oscilam entre o medo («Houve um tempo em que eu desconhecia o medo») e a morte: «Mexemos excessivamente nos mortos».

A memória da infância não é um paraíso perdido mas sim um olhar de morte: «Quando eu era criança os velhos escolhiam dias amarelos para morrer.»

Além do povoamento, há nestes poemas uma paisagem desolada: «Quando eu era criança anoitecia / sobre a verdade intrínseca de haver ruas / pequenas e horizontes pequenos / no fundo das ruas».

Num espaço de morte e de hostilidade, só o amor pode ser resposta: «Eu nasci anos depois, já tinham morrido / muitos daqueles que mais tarde viria a amar».

Porque o lugar do poema é o lugar da terra, entre a morte e a vida, entre o amor e o ódio, entre o vazio e o esplendor: «A minha terra é onde descansam os meus mortos / um país com plátanos à beira dos caminhos / e mulheres com epistemas na voz.»

O último conjunto lembra que o poeta é, muitas vezes o profeta, castigado por «demónios antigos»: «Zerbino adormecia na periferia da infância, sob o silêncio ensimesmado de árvores lúgubres ou de um amarelecido domingo do tempo comum».

(Editora: Cosmorama, Capa: Karin Somers)

Um livro por semana 157

«30 Anos de mau futebol» de João Pombeiro

Num livro com frases de jogadores, árbitros, treinadores, dirigentes ou jornalistas é muito difícil escolher a mais disparatada. A de Lourenço Pinto é uma proposta: «Todos os árbitros são sérios. O mundo do futebol é um mundo pacífico, é um mundo de respeito». Na verdade, neste mundo poliédrico, o futebol pode ser uma vigarice («Quando saí deixei uma gaveta cheia de bilhetes de identidade, passaportes, cédulas e certidões de nascimento falsificadas») ou uma confusão («O futebol é uma selva») mas também uma porcaria («A porcaria que existe na Federação tem de ser varrida») ou uma máfia: «O futebol português não é uma máfia porque uma máfia exige organização». Ou então foco de palavras e expressões insólitas: Artur Jorge («Em todos os jogos fizemos coisas bonitas»), Carlos Padrão («O sonho comanda a vida…vamos lutar até à morte. Desculpe o pleonasmo»), Luís Filipe Vieira («A boca morre pelo peixe»), Paulo Sousa («Certo dia Csernai atirou-me com esta – Se queres voltar a jogar traz-me um presunto e uns garrafões de vinho tinto lá da tua terra») ou ainda Hernâni Gonçalves: «O bitaite é assim uma coisa doce, um sweet-nothing, algo que não é grande mas que pode ser profundo».

Futebol pode ser também delírio ou alucinação. Seja de Vale e Azevedo («Quando o Benfica vence as pessoas sentem-se mais realizadas, o trânsito flúi melhor e há mais produtividade»), seja de Pimenta Machado («Então vocês nunca ouviram dizer que o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira?», seja Miguel Sousa Tavares («O 25 de Abril só se concretizou quando o F.C. Porto foi campeão») ou de novo Vale e Azevedo: «Pretendo ser não um mecenas mas uma espécie de Sílvio Berlusconi do Benfica».

(Editora: Quetzal, Ilustrações: Pedro Vieira)

Balada das Escadinhas de S. Cristóvão

S. Cristóvão, escadinhas

Na esquina da Madalena

Sem prateleiras sozinhas

Na Livraria tão pequena

Toda a riqueza do Mundo

Teatro, poesia ou ficção

Cabe num olhar segundo

Se o primeiro é confusão

Já os turistas do Castelo

Descem e ficam a olhar

Depois de quebrar o gelo

Não há pressa para pagar

Levam seus sacos repletos

De saldos e livros antigos

Os dias ficam completos

Quando chegam os amigos
Rubem Braga, a saudade

«O conde e o passarinho»

Nas encostas da cidade

É que faço o meu caminho

No «Morro do isolamento»

Em Manaus há gente morta

O cronista é pressentimento

Olha o Mundo, abre a porta

De repente oiço-lhe a voz

Passa por aqui de raspão

Rubem Braga, somos nós

A ler teu «Poeta cristão»

Já digo adeus à livraria

E continuo a caminhada

Levo nas mãos a poesia

Mas ninguém dá por nada

Um livro por semana 148

dennis mcshade mulher e arma com guitarra espanhola

«Mulher e arma com guitarra espanhola» de Dennis Mcshade

Corria o ano de 1968 e Dinis Machado, editor da colecção RIFIFI da Editorial IBIS, apresentava Dennis Mcshade, autor deste livro. Depois de lembrar Conan Doyle e Ellery Queen, Chandler e Hammett, afirmava: «o género policial tende a desdobrar-se em vários planos, procurando pistas de vida em todas as direcções que a vida tem». A história passa-se em Nova Iorque («não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da vida, dinheiro, poder, mulheres») e envolve Maynard («Nós sabemos distinguir entre as nossas necessidades reais e as nossas fraquezas congénitas») e Ricco: «era um dos maiores malandros que conhecera em toda a minga vida, um homem de uma baixeza quase integral». Este Ricco tinha pago dez mil dólares ao «Menino» para este matar Nora mas este tinha desaparecido sem matar a mulher e sem devolver o dinheiro. A morte é uma coisa simples para estes homens: «É preciso um automóvel e dois ou três homens com pistolas, às três da madrugada, num certo sítio. Depois, levam-no.» Pelo meio da história surge Marlowe («homem ligado a muitos interesses obscuros, mudava de automóvel todos os meses») e a organização nazi dos EUA, a John Birch Society. E um bar com um nome insólito (As vinhas da Ira) e frequentadores conhecidos: Zola, Charlotte Brote, Proust, Baudelaire, George Sand, Pablo Neruda, Hemingway, John Keats. E sempre, por todo o livro, opiniões divergentes sobre o Concerto de Aranjuez de Joaquim Rodrigo: há quem prefira a guitarra de Andrés Segóvia; outros a de Narciso Yepes. A reedição deste clássico de 1968 anuncia o inédito «Blackpot», algures numa gaveta desde 1985.

(Editora: Assírio & Alvim, Capa: João Fazenda)

Vinte Linhas 431

A primeira palavra vinte e cinco anos depois

Em 1984 o meu filho Filipe, nascido em 1981, procurou escrever o seu nome numa página A4 e o resultado em maiúsculas saiu assim – EFILPI. Vinte e cinco anos depois o meu neto Thomas tentou escrever o seu nome e saiu apenas um conjunto de três letras THO. As outras três letras MAS não couberam no quadro porque o tamanho não o permitiu. No meu tempo de criança e na terra onde vivia a minha infância, as pessoas não passavam muito cartão aos miúdos. Um miúdo numa família nesse tempo, anos cinquenta, não era um indivíduo e mesmo quando se encontrava uma criança num carreiro ou numa serventia entre duas fazendas semeadas ninguém lhe perguntava «como te chamas?» mas sim «de quem és tu?». As crianças eram dos pais assim como no tempo da Bíblia se lê que os homens ao atravessarem o deserto levavam consigo «as mulheres, os filhos, os criados e os animais». É com um misto de ternura e esperança que olho para estas três letras THO escritas pelo meu neto de três anos ou seja a mesma idade do meu filho quando escreveu EFILPI em vez de FILIPE. Ternura pois uma coisa lembra a outra e se o tio está em vias de ver publicado o seu primeiro livro vinte e cinco anos depois o sobrinho está a dar os primeiros passos nesta fascinante relação com as palavras.

Não sei onde está essa folha com as palavras EFILPI do nome do Filipe e a foto com o nome THO do Thomas ficará no computador porque não existe em papel.

A vida não está fácil, as coisas são complicadas, há uma agressividade apor aí à solta nas ruas, basta ver que dantes nos agradeciam quando se chamava a atenção para as luzes acesas dos automóveis e agora insultam mas estas pequenas coisas tudo salvam.

Sábado na Calçada

Passa o eléctrico leva GRAÇA na bandeira

Mas já vem outro para MARTIM MONIZ

O teu olhar fica suspenso até segunda-feira

Multiplicado por quatro na luz destes carris

Quando o sol de sábado dispara tão devagar

Feixes de luz e calor até ao fim da calçada

Onde o eléctrico parece vai entrar no mar

As ruas em ângulo parecem porta do nada

Como se o pano de cena agora se fechasse

Os eléctricos e passageiros fossem levados

No lugar sem nome, sem espaço ou classe

Entre o real e o imaginário, nos dois lados

Aqui passam eléctricos, passa uma pressa

De chegar lá onde proclamam os roteiros

A verdade não existe assim e não é essa

A hora do meu mostrador e dos ponteiros

Vinte Linhas 430

O arboricídio camarário floresce no Príncipe Real

Embora mal disfarçada de «requalificação» o que a Câmara Municipal de Lisboa está a fazer no Jardim do Príncipe Real desde o passado dia 23 de Novembro é, de facto, uma monstruosa destruição de árvores muitas delas «jovens» e sem qualquer sinal evidente de «doença». Para quem, como eu, gosta deste Jardim desde 1966 isto é uma aberração. Ver a Câmara Municipal a destruir as árvores (são quase cinquenta árvores mortas) é como se diz em bom português «uma dor de alma». Porque o que se espera de uma autarquia é que conserve, amplie e melhore o que existe – nunca que estrague, faça ruína e destrua. Mas além das árvores (que á o aspecto mais doloroso) estão também a destruir o pavimento e os gradeamentos do Jardim. Alguém tinha pressa, muita pressa, em destruir muito e rapidamente, de modo a evitar as reacções. O mais curioso é que o vereador Sá Fernandes que ficou conhecido por colocar nos Tribunais muitas «providências cautelares» é o rosto escondido desta destruição. Segundo me disseram no Jardim, esse vereador terá dito a alguém que havia árvores «doentes» mas tudo de uma maneira muito vaga e imprecisa. Para mim doentes são os indivíduos que, eleitos para dirigirem os destinos da Cidade, se esquecem do bem comum e se agarram aos seus privilégios, conveniências e interesses. Para mim doentes são na verdade os indivíduos que vão ganhar com esta falsa «requalificação» do nosso Jardim. Porque se nós, moradores e habituais utilizadores do Jardim, perdemos muito; então alguém vai ganhar muito (mesmo muito!) com este negócio. Já no século XIX dizia o nosso Almeida Garrett nas «Viagens» que para fazer um rico são precisos duzentos pobres…

Um livro por semana 155

«Dança dos Demónios»» – Intolerância em Portugal

Com coordenação de António Marujo e José Eduardo Franco e com prefácio de Anselmo Borges, este volume de 630 páginas conta com a participação de dez autores: Esther Mucznick (Anti-Semitismo), Faranaz Keshavjee (Anti-Islamismo), Luís Machado de Abreu (Anticlericalismo), João Francisco Marques (Antiprotestantismo), José Eduardo Franco (Antijesuitismo), Rui Ramos (Antimaçonismo), Ana Vicente (Antifeminismo), Ernesto Castro Leal (Antiliberalismo), Miguel Real (Anticomunismo) e Viriato Soromenho – Marques (Antiamericanismo).

Com se refere na introdução dos dois coordenadores (António Marujo e José Eduardo Franco) «Hoje vivemos numa sociedade aberta, alicerçada em valores como a liberdade, o pluralismo, a tolerância o respeito pela cultura e crenças do Outro. No entanto bastas vezes se fendem e sangram as cicatrizes mal saradas dum passado conspiracionista e intolerante. Expressões, apreciações simplistas ou nostalgias de um passado segregacionista pretendem acordar os velhos fantasmas da conspiração oculta. Esse é um dos perigos que a democracia enfrenta e para o qual importa estar atento, especialmente pela via da educação para a tolerância».

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: António Rochinha Diogo)

Um livro por semana 154

«Sacerdotes em Cristo» – 12 testemunhos de um chamamento

Num volume de 126 páginas com uma parte das vendas a reverter para a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre se reúnem doze testemunhos, doze histórias, doze depoimentos dos quais tomamos seis breves notas. D. Manuel Clemente, (n.1948), ordenado em 1979 e bispo desde 1999, viveu a infância em Torres Vedras: «ao domingo acorria à igreja com os outros da minha idade, havia o adro e o jardim em frente onde a tarde continuava com brincadeiras e jogos. Mesmo ao lado, os presos da cadeia pediam-nos ofertas por entre as grades». D. Serafim Ferreira e Silva (n.1930), ordenado em 1954 e bispo emérito de Leiria/Fátima, recorda: «Sou o nono filho dum casal de lavradores da Maia. Pelos meus 11 anos um cónego ofereceu-me um santinho que representava um sacerdote. Fiquei seduzido pelo mistério». O padre Dário Pedroso (n. 1943) ordenado em 1975, explica: «Nasci numa família quase pagã, num lar onde nunca vi ninguém rezar. Foi preciso esperar pela maioridade e, no dia seguinte, fugir de casa, sem mala, sem enxoval, sem nada e partir rumo ao noviciado em Braga». O padre David Sampaio Barbosa (n. 1949) ordenado em 1969, adverte: «Os pobres ainda estão fora da Igreja; não entram nos nossos templos; os seus cadeirais são os degraus que precedem a entrada das nossas igrejas. O Evangelho ainda não é Boa Notícia para muitos deles». O padre Duarte da Cunha (n. 1968) ordenado em 1989, afirma: «Um padre não pode ser imparcial. Ele tem de tomar partido. Não por partidos mas pelo Evangelho, pelas pessoas. Há momentos em que calar é um pecado, um crime. Um padre não é da direita, não é da esquerda, não é do centro; é do fundo. É da profundidade de Deus que ele tem de brotar».

(Editora: Paulus, Introdução: Padre Senra Coelho, Apoio: Ajuda à Igreja que Sofre)

Um livro por semana 153

«Narrativa» de Paulo da Costa Domingos

O autor rejeita a «autobiografia» mas não deixa de falar de si para falar do Mundo: «Nem me lembro de ter nascido. Um mês depois de eu chegar, partia António Maria Lisboa». O miúdo lisboeta («Tronco em flor. Não esqueço o S na fivela») vive numa família (A mãe vinha queimar folhas de eucalipto, o pai chegava com o Condor, o Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante») e vê o país: «Portugal é isto: uma fila de velhos muito pobres, verdade e fingimento à porta de um dispensário, num coro constante de tosse; também ramelas». No Liceu vem paixão pelos livros (John Osborne, Boris Vian, Carlos de Oliveira, Maupassant, Herberto Hélder) porque «a leitura faz de nós melhores pessoas; faz de nós pessoas». Depois, com a revista «&etc», a descoberta da censura: «Lá no alto de uma escada em madeira num prédio da Ruía da Misericórdia situava-se um postigo semelhante a um oratório ou um confessionário». Mais tarde em 7-7-80 agentes da Judiciária apreendem 580 exemplares de «O Bispo de Beja», ordem dum juiz que não sabia a data de edição do livro – 1910. Daí nasce a sua editora, a «Frenesi» – «porque eu tive que ser eu, num país onde tantos se escondem no grupo». Homenagem a Almeida Garrett e José Daniel Rodrigues da Costa, neste livro de PCD se recordam os amigos mortos (Mário Botas, António José Forte, Ricarte Dácio, Luiza Neto Jorge, Al Berto, Hermínio Monteiro, Eduardo Guerra Carneiro, João César Monteiro, Álvaro Lapa, Mário Cesariny, Manuel João Gomes, Acácio Barradas) e os vivos: Luís Carvalho, Jorge Fallorca, Rui Baião, Manuel Fernando Gonçalves, Luís Manuel Gaspar, Anabela Duarte, Vera Pinto, Jorge Pires, Telma Rodrigues), amigos e livro lado a lado: «cada livro punha-me momentaneamente no exacto centro do Universo. Refiro-me tanto àqueles que li, ou leio, como aos que fui escrevendo».

(Editora: Frenesi, Capa: sobre desenhos de Francisco Cervantes de Haro, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

Um livro por semana 151

«Nós dois ainda» de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984) é autor de vasta obra poética e de artes plásticas mas começou por dar nas vistas com a rejeição de Namur, a sua terra de origem: «Os belgas foram os primeiros seres humanos de quem tive a ocasião de me sentir envergonhado». Este volume inclui o poema «Nous deux encore» (francês/português) dedicado à sua mulher Marie Louise que em 1948 morreu vítima dum incêndio em casa: «Música do fogo, tu não soubeste tocar. / Lançaste sobre a minha casa um pano negro. / O que é este opaco em toda a parte? / É o opaco que tapou o meu céu. / O que é este silêncio em toda a parte? / É o silêncio que calou o meu canto».

E as suas 64 páginas integram também a comunicação («A verdadeira poesia faz-se contra a poesia») de Henri Michaux em 1936 ao Congresso Internacional dos Pen Clubes em Buenos Aires na qual o autor afirma: «Em poesia vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento do que expor o melhor programa de entreajuda social. Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias. É isso a transfiguração poética. O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias que, frequentemente, são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Tradução e apresentação: Rui Caeiro)

Vinte Linhas 82

Dissertação sobre um nome

O teu primeiro nome tem, dentro de si, a força da Terra e a graça de Deus.

Ele é, sem dúvida, o nome feminino mais divulgado em todo o Ocidente. Tem a sua origem nas profundezas da língua hebraica mas não se ficou pela Bíblia e pelos Quatro Evangelhos. Está presente na Eneida de Virgílio, no teatro de Luigi Pirandello, nos romances de Tolstoi, nos contos de Pushkin e nas óperas de Mozart. Está junto à Terra e o seu som pronunciado resolve as hesitações nas encruzilhadas sombrias dos caminhos quotidianos. Digo o teu nome e tenho, no momento de o dizer, uma direcção e um sentido. Porque sinto, dentro do seu som, a força da Terra e a graça de Deus.

O teu segundo nome tem, dentro de si, a força da Água e da Natureza. Vem de uma origem duvidosa, envolta na neblina da lenda. Terá sido a primeira mulher, a que saiu do mar e deixou os homens da praia, entre atónitos e cheios de júbilo, aquela a quem chamaram mar yam – gota do mar. Como se essa mulher quisesse mostrar que só há vida na água porque vivemos com a água e morremos quando estamos dezassete dias longe da água. O mistério da vida e os milagres da existência têm uma raiz nessa mulher que saiu do mar e a quem os homens chamaram mar yam – gota do mar.

O teu nome, feito de dois nomes, é uma bandeira feliz, um estandarte de alegria, uma luz que não se apaga. O teu nome, feito de dois nomes, é o lugar ideal para ouvir o som da voz da terra e o murmúrio do mar, o apelo a ficar e o convite a todas as viagens.

O teu nome, feito de dois nomes, tem a dimensão sem medida dos sonhos e a música sem fim de todas as orquestras. O teu nome, feito de dois nomes, Ana Maria.

Vinte Linhas 428

«O silêncio: lugar habitado» de Graça Pires

Autora que se estreou em 1990 com «Poemas», Graça Pires surge com o seu 11º título, Prémio Nacional Poeta Ruy Belo, edição da Labirinto, capa de Júlio Cunha e apoio da Câmara Municipal de Rio Maior. O título começa por suscitar uma interrogação. Como o silêncio é o oposto da palavra (A palavra é tempo, o silêncio é eternidade), o poema organiza-se entre Paisagem («as aves marinhas vão morrer no solitário coração dos barcos afundados» ) e Povoamento: «Não tem fim o silencioso enleio / que se esconde por entre a argila / nos dedos do oleiro; ou se enrola no linho / dos lençóis tecido pelas mães».

Depois funciona entre o Lugar («No meu país havia marinheiros / com braços de tempestade») e a Memória: «Os antigos conheciam os segredos dos caminhos e dos muros». A seguir oscila entre a Natureza («As abelhas coladas à cal dos muros / pela violência da luz / tornam impossível a essência das colmeias») e a Cultura: «Contra a luz não ousávamos quebrar / o silêncio que na música se abrigava / Schubert e as canções em palavras».

Por fim esta poesia discreta, alta e sábia, opõe a Morte («pode ser um nó / ou um grito ou uma trepadeira enroscada / no corpo ou na lápide onde escreverão / o nome que tivemos») e as Palavras: «Às vezes vêm de muito longe / de fatigadas viagens / de mortes prematuras / de excessivas solidões / Mas vêm. / E trazem a inicial pureza das fontes / E a lâmina do silêncio / E a desordem da noite / E a luz extenuada do olhar / Tão cúmplices, as palavras.»

Balada da Capela do Formigal

Capela do Formigal

Varanda abandonada

Dá para o porto fluvial

Quando rio era estrada

Porta caída no chão

Azulejos num altar

Faz doer o coração

O silêncio do lugar

Sombra de sacristia

Sino de som perdido

Já houve vida, alegria

E tudo tinha sentido

Havia a navegação

Porto é só memória

Fruta de exportação

Era receita acessória

País que faz de conta

Nada sabe deste rio

Carro em hora de ponta

Numa pressa de vazio

Vereador, presidente

Cultura, pasta na mão

Passa aqui indiferente

Só em ano de eleição
Podem até ser doutores

Com tese e dissertação

Nada sabem os horrores

Da chuva em dissolução

Se não fosse o arvoredo

A proteger o que resta

Entre vergonha e medo

Já não havia uma festa

Porque basta uma oração

No silêncio quase total

Para renascer a devoção

Na Capela do Formigal

Vinte Linhas 427

Será que o acaso não existe?

Há um mistério entre as recordações e a memória, uma terra de ninguém onde os sons se perdem, as imagens se diluem e as revelações se deixam apagar por um empurrão do acaso. O acaso não existe – alguém teima em repetir no encontro casual numa livraria das Escadinhas do Duque. O dono da livraria sorri e dá razão a toda a gente. Para cada um sua verdade – título de um livro, lema de vida para quem tem uma porta aberta, sujeito aos diários encontros e desencontros do acaso.

Um poeta que veio do Brasil passou aqui e escreveu o poema das Escadinhas do Duque sem saber ainda que o livro onde o poema seria incluído seria dado à estampa numa editora das Escadinhas do Duque.

O acaso não existe – é a frase que teima em permanecer no meu espírito. Acabo de sair de um Tribunal e avanço disparado para a beira-rio. Passo pelo interior de um parque de estacionamento, percorro esplanadas diversas e páro no Peter. Mando vir pão com atum e um gin tonic. Envio mensagens a alguns amigos dizendo onde estou. Que te faça bom proveito – respondem calorosos. O acaso não existe – é a conclusão provisória desta crónica. Porque somos nós a fazer minuto a minuto as nossas escolhas do momento. Viver é escolher, estamos sempre a escolher o que julgamos ser o melhor para nós e para os nossos. O acaso não existe? Talvez. Só o presente se vive, nunca ninguém meu conhecido viveu no futuro e este gin tonic não é do passado. Mas quem é que me pode explicar quem, que força estranha me conduziu do Tribunal à mesa do Peter na beira-rio de Lisboa numa destas tardes cinzentas a ameaçar chuva?

Vinte Linhas 426

«O mar em Casablanca» de Francisco José Viegas

O título está na página 222 quando se percebe a diferença entre cinema e realidade («Não estou a falar do filme. Estou a falar da cidade.») e entre pessoas e personagens: «Ingrid Bergman esteve até ao fim sem saber com quem ia ficar – Rick ou Victor». Este conflito de uma mulher entre dois homens surge no espírito do inspector Jaime Ramos: «Deter Mariana Serra, acusada da morte de Benigno Mendonça e, provavelmente, de Joaquim Seabra». Em resumo é este o enredo da história: «o nome de Mariana Serra é associado a um carro de matrícula diplomática conduzido por Benigno Mendonça, Mariana é associada a Isabel Castro, desaparecida em Luanda em 1977, Isabel Castro é associada a Juvenal Serra, fuzilado em 27 de Maio de 1977, Mariana aparece associada a Adelino Fontoura a bordo de aviões da TAP de Luanda para Lisboa e de Lisboa para o Rio de Janeiro, Adelino Fontoura é associado a Isabel Castro, mãe de Mariana, como antigo namorado em 1975 quando Isabel decide colaborar na revolução de Angola». Benigno Mendonça aparece nos acontecimentos de Luanda em 27-5-1977 a partir das «13 Teses» de Nito Alves: «ele subiu na história do partido desde 1978. Quem assinou as ordens de fuzilamento? Agostinho Neto não teve tempo de assinar todas – a velocidade a que a demência tomara conta de Luanda não permitia que se cumprissem todas as exigências. Decapitados na estrada do aeroporto. Presos durante anos. Mortos à porta de casa. Mulheres grávidas fuziladas». Jaime Ramos percebe a história mas não é historiador, é apenas o inspector que deslinda mais um caso entre livros lidos na sala e petiscos na cozinha: «Temo a morte, leio jornais irlandeses, deito-me cedo».

(Editora: Porto Editora, Capa: Corbis/VMI, Foto: Pedro loureiro)

Posta-restante

Há anos escreveria para a posta-restante

Hoje sei que o teu telemóvel foi trocado

Uma semana num congresso importante

Desviaram o teu sorriso para outro lado

Para a luz de uma Madrid sem humidade

Onde o trânsito mais nervoso se atropela

Não há tempo para soletrara uma saudade

No teu quarto de hotel bem junto à janela

Há anos escreveria para a posta-restante

Uma estação de correios aí na Gran Via

Onde tu ias ao fim da tarde num instante

Para saber de uma carta que eu te remetia

Não sabendo o novo número nada digo

Não vale a pena eu mandar mensagens

No bolso guardo o poema que persigo

E espero aqui o teu regresso da viagem

Vinte Linhas 425

A sorte que a Policia Municipal teve esta manhã

Esta manhã duas viaturas da Policia Municipal («30 74 IZ» e «60 00 VT» têm estado estacionadas em cima do passeio na Travessa de São Pedro mas não foram multadas. Se por acaso tivesse acontecido isto no dia 16 de Junho de 2009 (o dia da grande carnificina) sem dúvida que teriam sido bloqueadas como nesse dia foram todas as outras.

Esta ratoeira foi criada pelos Sapadores Bombeiros perante a indiferença da Câmara Municipal ao lado do autismo da Junta de Freguesia e na qual a Policia Municipal vem periodicamente «cobrar» em bloqueadores e dinheiro vivo (um vizinho meu pagou 210 euros em dois dias…) mereceria um estudo mais alargado. O que pode levar uma instituição como os Sapadores (que depende da Câmara) assumir-se como uma espécie de pólo inatingível pela mesma Câmara («não podemos fazer nada que eles não deixam» – frase ouvida por mim quando era membro da Assembleia de Freguesia da Encarnação).

O que pode levar pessoas ditas normais a embarcarem numa paranóia autista que tem semeado nervos à flor da pele entre os moradores doo Bairro Alto que foram burlados pela EMEL quando os obrigou a trocar um documento que lhe garantia direitos (estacionar) por outro que só os deixa circular – exactamente o oposto?

No momento em que termino este texto a viatura «60 00 VT» ainda lá está em cima do passeio e estacionada ao contrário do sentido do trânsito – com a parte da frente voltada para o Jardim de São Pedro de Alcântara como se estivéssemos em Inglaterra, país onde se circula pela esquerda. Mas a sorte deles é que hoje a Polícia Municipal não veio bloquear e multar os automóveis da nossa rua. Havia de ter graça…

As três meninas

Ao sábado chegam a casa as três meninas

Sobem as escadas num porte de princesa

Em cada rosto há uma luz de tangerinas

As suas vozes ligam a Cultura à Natureza

São teses, são diplomas ou são mestrados

Novos conceitos na História, na Educação

A nova sementeira à espera dos resultados

Num campo onde é preciso saber ter razão

Das janelas vê-se a serra e as suas ravinas

Pressentem-se ribeiros, o Tejo e afluentes

Ao contrário da cidade com ruas e esquinas

Onde os dias são iguais embora diferentes

Ao domingo à noite a casa fica sombria

A linha da alegria fica logo interrompida

Sai então a Paula, sai depois a Ana Maria

E logo a seguir sai também a Margarida