Vinte Linhas 313

O exclusivo do Benfica em troca de uma noticia censurada

No passado dia 28 pelas 13 horas um jornalista do Diário de Noticias contactou o presidente do Getafe, Angel Torres por causa da contratação do guarda-redes Stojkovic. Durante a conversa (e sem ninguém lhe perguntar) o dirigente espanhol adiantou que Quique Flores lhe tinha dito o melhor possível de Quim guarda-redes do Benfica confirmando não ter problemas em prescindir dele pois tinha três jogadores de qualidade semelhante para o lugar. Alguém do Benfica, durante a tarde tentou desmentir que Quique Flores tivesse falado com o dirigente do Getafe sobre Quim. Já durante a noite um elemento do Benfica contactou o jornalista propondo a retirada da notícia por troca com um exclusivo mas sem revelar qual. No dia seguinte uma rádio conotada com o Benfica colocou no ar declarações do presidente do Getafe a confirmar que Quim lhe foi oferecido mas a desmentir, numa frase inacabada, ter falado com Quique Flores. Acto contínuo o site do Benfica emitia um comunicado em que o clube dizia estranhar as declarações proferida ao Diário de Notícias. A pesada máquina do Benfica funcionou mais uma vez. Como já tinha funcionado no falso centenário de 2004 e na paranóia das Ligas de 1935 a 1938 – como se o Campeonato de Portugal tivesse sido apagado da História do Futebol Português. Lembrei-me logo de uma cena do Eusébio que no meio da confusão dos festejos num dos campeonatos dos anos 60 agrediu um pobre adepto que só queria festejar. Pois no dia seguinte lá estava a «boa imprensa» no hospital a registar a entrega de uma camisola e de uma bola autografada. Isto já foi há 40 anos mas aquela gente não se cansa de tentar reescrever a história. Uma vez mais.

Saturday Press Fever

Sol, Expresso, Público, Correio da Manhã, 24 Horas, Visão, Sábado, TVI e SIC dão trabalho a profissionais responsáveis pelas notícias, editoriais, direcção e administração. Toda essa minha gente tem nome e família (isto é um supónhamos). Não será também exagerado antecipar que possuam algumas noções básicas de moral, ética, deontologia, direito, jurisprudência, cidadania, civismo, dignidade e bem comum. Estas são as minhas suspeitas, pelo que me permito elaborar a hipótese de este pessoal saber o que faz e achar bem que se faça assim. Já tenho menos suspeitas (aliás, nem uma) de que eles se consigam aguentar à bomboca caso a sua privacidade entre em regime de devassa pública.

Entregar a chefia da investigação aos noticiários, como advoga o Pacheco, corresponde à anulação do Estado de direito. Quero só lembrar que estamos perante um dos principais temas tratados por Ésquilo, um gajo que escrevia tragédias.

Breve canção para «A balada das baleias»

Tantas bocas à espera

Da riqueza da baleia

Na lancha da Primavera

Não tememos maré-cheia

Os velhos lobos-do-mar

Sentados na nostalgia

Já nada podem pescar

Quando chega o fim do dia

Botes, lanchas e vapores

Na Vigia da Queimada

As vozes dos trancadores

São tempestade poupada

Quando o mar é labirinto

Quando saudade é memória

Tudo aquilo que eu sinto

Faz nascer a nova história

Aqui no centro do Mundo

Casa dos botes, meu lar

Sentimento mais profundo

Tem a fundura do mar

Com chapéu ou em cabelo

Há nestes homens cansados

As muralhas dum castelo

Batido por todos os lados

Mulheres são como sereias

Lanchas com nome escrito

Fazem as horas mais cheias

Quando se pesca em conflito

As Filarmónicas perdidas

Chegam o som junto ao cais

No mapa das nossas vidas

Há baleias de nunca mais

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(nota: A Balada das Baleias é um livro de Sérgio Ávila, Ermelindo Ávila e Sidónio Bettencourt, da Ver Açor Editores)

Para além de arrogante, mentiroso e corrupto, não esquecer que também é rabeta

O caso Freeport vai conhecer alguns dias de alívio, pelo que recomendo ao Sol, à TVI, ao Zé Manel e ao Pacheco que recuperem a não menos apelativa suspeita de paneleirice. Deixo aqui uma pista em forma de pergunta, inspirada na escola jornalística do Mário Crespo: existe algum DVD onde se veja Sócrates no truca-truca com o Diogo Infante? Se existe, queria pedir o favor de não mo mostrarem. Mantê-lo em segredo será um elementar acto de justiça; mas isto é apenas o meu critério, não quero ferir susceptibilidades. Aliás, se der para encontrar um outro DVD – ou mesmo VHS, que se lixe, a vizinha do 4º andar tem um leitor desses a funcionar ranhosamente, aproveito e vou lá a casa ver o filme; e ainda levo uma garrafa de ginja, é só do que ela bebe, a estouvada – com duas bifas, daquelas mesmo muito corruptas, bifas com fotos no Hi5 e cadastro na Praia da Oura, a dar à língua em zonas de protecção especial de bordas indefinidas, e pelo meio levantando a cabeça só para culpar Sócrates por não passar dum rabeta que as deixou ali abandonadas sem outro modo de ocupar o tempo, eu gostaria de pedir emprestada essa prova incriminatória por 2 ou 3 dias. Em nome da verdade nua e crua.

Um livro por semana 24

«A sagração da Primavera» de Aurélio Lopes

Depois de «Devoção e poder nas Festas do Espírito Santo» em 2004, o antropólogo Aurélio Lopes (natural dos Cunqueiros) volta a publicar um trabalho de grande fôlego: perto de 300 páginas nas quais pretende «levantar pistas de investigação para a compreensão das raízes remotas de muitas das nossas tradições primaveris, ainda existentes ou de recente desaparecimento.»

Organizado entre o Domingo de Ramos e o São João, este estudo incide também sobre o 1º de Maio e o Dia da Espiga. E começa por responder a três perguntas: «Porquê, ainda hoje, um pouco por todo o país, se enchem, nestes tempos, as igrejas de flores e ramagens e, em tempos passados, de andorinhas? Porque se apanham giestas (maias) e com elas se enfeitam e protegem habitações, animais e pessoas? Porque persistem práticas como o colher da espiga nos nossos campos, bosques ou searas?»

Ainda hoje em muitas povoações portuguesas se usa colocar maias (ramos de flores, cruzes e coroas) nas portas das casas e dos currais mas, explica o autor, «maias ou maios são igualmente as efígies ou as crianças que neste dia são adornados e coroados com flores, e também a árvore (árvore de maio) em redor da qual se dança e canta. Maias são ainda as mais comuns das flores silvestres da época, as giestas e, até, no norte transmontano, os cânticos (cantar as maias) que presidiam, em tempos idos, à solicitação de dádivas. Maio é o tempo que decorre, as personificações que o corporizam, as subversões daí emanantes e as conexões florais que aí se interligam em fecunda simbiose.»

(Editora: Edições Cosmos, Capa: Brian Sroud, Apoio: Câmara Municipal de Santarém)

Os básicos

Noventa minutos distam entre dois emails que permitiram à oposição acreditar, por breves instantes, que existe e serve para alguma coisa. A tonteira alastrou, conseguindo envolver o Primeiro-Ministro. Fernanda Câncio explica.

Os que saíram à rua em ceroulas e entraram felizes no berreiro, protestando contra a mentira e propaganda miserável que nos oprime, devem ser louvados. Consciente, subconsciente, inconsciente ou asininamente, esta malta imagina que o Governo, ou parte dele, quis mesmo enganar a populaça. E que não teria encontrado melhor área para o fazer do que a da Educação, nem melhor forma do que através dum estudo que ficaria ao dispor de qualquer mariola para ser analisado e servir de prova condenatória. Parece que os estou a ver, os olhares malignos desses diabólicos governantes soltando fagulhas, a congeminar o genial plano. Primeiro, mandar um email onde se diga que o estudo é da OCDE. Depois, esperar hora e meia para enviar a versão corrigida. Pronto, ’tá feito. Mais uma brilhante manipulação do grande mentiroso – o qual, como é óbvio, óbvio e evidente, do que precisa é de repetidas situações onde se veja confrontado com insultos e ataques à sua imagem. Especialmente agora, particularmente na Educação e precisamente com peças propagandísticas com a tipologia do relatório em causa.

Parabéns, estais aptos a frequentar o ensino básico.

O tapete voador

Os mecanismos comunicacionais vivem da “novidade”. A lógica do seu desenvolvimento depende de haver novas informações todos os dias. Se não for assim, o caso Freeport (como qualquer outro) conhecerá um pico e depois cairá progressivamente no esquecimento, até ao dia em que as mesmas informações já esquecidas aparecerão como nova “novidade”, ou quando haja mesmo “novidades”. Este mecanismo pouco tem a ver com a substância da questão, quando esta existe fora da sua mediatização, como é o caso Freeport. O seu relançamento não se deveu a qualquer fuga processual para os jornais (como sugeriu falsamente o Primeiro-ministro), mas sim a um dia de buscas da PJ e às informações relevantes (declarações de familiares de José Sócrates) que se lhe seguiram. Agora, manter ou não a questão na agenda dos media, cada vez mais depende da orientação editorial desses mesmos media. O situacionismo ou a independência vão ser mais nítidos agora do que nos dias de brasa destes fins de semana, em que era impossível ocultar que havia um “caso” em curso (e mesmo assim a RTP nalguns noticiários e o Jornal de Notícias procederam assim). O que se sabe, informações, contradições, declarações, são de uma gravidade que não pode ser ignorada nem esquecida. No passado, em relação a muitos outros casos de menor importância, a comunicação social manteve-os como “escândalos”, dando-lhe sequência investigativa e persistência editorial, fazendo exigências de clarificação e não deixando que haja esquecimento. Este caso, talvez o que mais gravemente afecta o centro do poder (o único precedente idêntico foi o “caso Emáudio” e houve aí uma deliberada desvalorização para não atingir Mário Soares), não pode ser escondido debaixo de um tapete. Já se sabem coisas a mais para perceber que ele não cabe debaixo de um tapete.

Pacheco

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João Miranda aconselha longa memória para estes dias marcados pelo nevoeiro de guerra. Por razões contrárias às suas, dou-lhe absoluta razão. Quem dera que o caso Freeport permanecesse na memória de todos por muitos e bons anos. Porque, de facto, a sua gravidade pede consequências, pede responsáveis e pede castigos. Neste momento, eu sou um dos derrotados, porque assisto a um ataque ao regime democrático usando-se como arma o que o regime tem de melhor: a liberdade.

Constate-se o que um passarão do calibre de Pacheco Pereira se permite afirmar. No parágrafo citado encontramos as seguintes mensagens:

- O caso Freeport só sobrevive na comunicação social com recurso a "novidades".
- As verdadeiras "novidades", porém, ainda não apareceram.
- O caso Freeport existe para além dos mecanismos mediáticos.
- O que está na origem do caso Freeport é matéria de justiça e investigação policial.
- O Primeiro-Ministro mentiu quando referiu o papel da comunicação social.
- É naturalíssimo que algum jornalista conheça previamente, ou simultaneamente, as buscas efectuadas.
- O trabalho dos jornalistas não está sujeito a escrutínio, podendo-se confiar no que publicam (uma entrevista truncada, por exemplo).
- Entrámos numa fase em que cada órgão de comunicação social irá revelar as suas linhas editoriais.
- Os órgãos que deixarem cair o caso provarão a sua conivência com os interesses do Governo e do PS.
- Antes deste Governo PS, e em relação a outros casos, a comunicação social manteve certos casos como "escândalos", fazendo exigências e impedindo o esquecimento. Por isso, é o que deve voltar a acontecer, no mínimo.
- O que se sabe do caso Freeport impossibilita o seu silenciamento, como se tem feito noutros casos.

Ou seja, o Pacheco declara-se possuidor de conhecimentos e critérios que lhe conferem uma autoridade moral para julgar com radicalidade a conduta de toda a comunicação social. Quem não se conformar ao seu entendimento da questão, estará a servir os interesses do inimigo. Isto não é discurso de comentador, publicista, crítico, não. O que vemos e ouvimos é um militante, um agitador, uma cheerleader que puxa pela claque. Ele afirma que algo de muito grave aconteceu, algo que Sócrates, Governo e PS querem esconder. Daí a necessidade de lutar, lutar pela manutenção do caso na agenda diária. Estamos no reino do maniqueísmo, não se admitem neutralidades nem se fazem prisioneiros.

Ora, quem alinhar com o Pacheco precisa de ter consciência de que se está a alistar no exército dos pulhas e dos imbecis (é escolher). Porque, nesta altura, não pode haver ninguém mais interessado na completa investigação do caso do que o PS, os seus militantes, os seus eleitores e, foda-se!, todo e qualquer cidadão com um pingo de vergonha na cara. O pior que pode acontecer à democracia é retirar-se este caso da atenção mediática, pois isso levaria a que o mal espalhado não pudesse mais ser reparado. Pelo contrário, a investigação tem de bater célere no fundo e, sem uma pausa, continuar a escavar. Está a ser feito um assalto à dignidade do regime. E ver esta questão como um problema de segurança nacional não será exagerado. Das duas, uma: ou o Primeiro-Ministro – e sabe-se lá que outros altos quadros governativos, partidários e políticos – é culpado do mais grave caso de corrupção em Portugal, tendo de ser imediatamente exonerado; ou há portugueses (pelo menos estes) que se dispõem a destruir o Estado de direito, a Constituição e a democracia representativa através da infâmia sobre os seus legítimos representantes.

Eis a suprema ironia: admitindo a hipótese de ter razão, e Sócrates ser culpado, Pacheco continuará a ter agido como uma reles figura. Porque para ele não há presunção de inocência, bastam as percepções, boatos e suspeitas para fazer campanha contra a honra de alguém. As suas afirmações repetem a ideia de que o interesse de Sócrates está em que nada se investigue para além das questões legais (entretanto dilucidadas publicamente ao mais ínfimo pormenor, como talvez nenhuma outra decisão governativa na contemporaneidade); adivinhando-se a sua desilusão por nada de errado ter sido descoberto nesse plano, até apareceu uma autoridade como Freitas do Amaral a validar o processo. Nenhuma prova abonatória o satisfaz ou sossega, e não se coíbe de envolver centenas, e milhares, de pessoas nessa cumplicidade que denuncia impiedoso – jornalistas, deputados, comentadores, militantes, cidadãos. Todos a trabalharem para o encobrimento, o esquecimento, a mentira. Todos contra o Pacheco, pairando por cima de nós no seu tapete voador.

Um livro por semana 25

«Salir d´Outrora» de Carlos Marques Querido

Já foram recenseados nesta coluna diversos livros sobre reis portugueses. Mas isso é (como diz o Povo) outra história. Este livro trata da História daquela gente que não deixa de ser importante só porque não é conhecida. Estas crónicas, antes publicadas nas páginas da «Gazeta das Caldas», tratam duma memória qualificada de Salir de Matos mas também de Santa Catarina, Alvorninha, Benedita e Carvalhal Benfeito, povoações que ao longo de quase setecentos anos tiveram verdadeiras «guerras» com o Mosteiro de Alcobaça. O autor baseia as crónicas em documentos (Torre do Tombo, Biblioteca Nacional, Cartórios Paroquiais, Arquivos Municipais) porque sem documentos não há história mas sim lenda e este não é um livro de lendas. Nestas páginas desfilam figuras de destaque como o arquitecto de Salir de Matos, o conjurado do Carvalhal e o morgado do Formigal (século XVII) ou o deputado do Carvalhal e o Bispo de Santa Catarina (século XIX). Mas não só. Também as pessoas humildes que vivem e trabalham nas vilas dos coutos de Alcobaça são protagonistas. Eles e os seus problemas a propósito de águas e açudes, cadeias e pelourinhos, azenhas, lagares ou moinhos. E do relego – espécie de monopólio da venda do vinho. São terríveis as páginas sobre as vítimas da Inquisição em Salir de Matos: Duarte Lopes, Simão Luís, Francisco Álvares e Violante Gomes sofrem terríveis perseguições até à morte. Tal como são terríveis as páginas da vida de Maria da Purificação, uma jovem mulher casada com um homem mais velho que lhe dava jóias e vestidos mas não lhe dava aquilo que ela queria – usufruir da intensa vida social de Lisboa, muito mais intensa que os Casais da Ponte, onde tinha sido criada.

(Editora: PH – Estudos e Documentos, Grafismo: Inês Querido, Prefácio: Iria Gonçalves, Introdução: Nicolau Borges
)

Demasiado Crespo

De um lado tínhamos um dos ministros mais irritantes do Governo, rival em agrado público do apatetado Pinho, protótipo de amanuense governativo e clone de Sócrates. Não se lhe conhece uma ideia política, filosófica ou artística, nem isso parece fazer falta para o cumprimento das suas funções. Do outro tínhamos a coqueluche do jornalismo português, ícone e figura de culto que congrega simpatias transversais. O destino estava traçado, o Ministro perfilava-se na parede de fuzilamento enfrentando espingardas, metralhadoras, granadas e morteiros. Antes mesmo da primeira questão, entravam na entrevista com o resultado em 10 a 0 a favor do jornalista.

Depois, as supostas fraquezas dum e forças doutro intensificaram as forças daquele e as fraquezas deste. Pedro Silva Pereira esteve impecável, até na pequena parte em que se deixou tomar pela natural emoção. E Mário Crespo falhou espectacularmente, até nas partes que lhe correram melhor. E porquê? Porque enquanto o Pedro se manteve dentro da responsabilidade institucional e política que se exige no seu cargo, o Mário foi para a entrevista como se fosse juiz num tribunal sem advogados. A informação ao seu dispor, a sua lista, não lhe deixava dúvidas: havia merda da grossa. A quantidade de escabrosas suspeitas, fundadas em semanas de crescente pressão na comunicação social que culminaram com declarações de familiares e intervenção policial e judicial, tinham atingido um volume que tornava inaceitável qualquer outro desfecho que não fosse o de uma confissão em directo. Daí veio o permanente acinte, o contínuo preconceito, que se transformou em ofensa na famigerada pergunta: Era possível, no ambiente governativo que se vivia, obter favores por dinheiro?

Mas que filha da puta de pergunta! Que se pode responder? Vamos imaginar que o interrogado respondia com Ora, deixa cá ver… bom… Agora que penso nisso… sim… Acho que sim! Esta seria a ocasião para o interrogador poder gritar Ah! Eu não disse? Apanhei-te! Posturas primárias e infantilóides à parte, o que a pergunta de Mário Crespo pretende é desqualificar a resposta negativa. De facto, responder negativamente é sempre tautológico quando se reclamou previamente a inocência. Para se inquirir da possibilidade de corrupção é necessária uma de duas intenções: ou sair do contexto e circunscrever a pergunta a uma abstracção (do género: Acha que os sistemas políticos são imunes à corrupção?); ou disfarçar uma tese dando-lhe a forma de interrogação (passando a mensagem de que o visado detém informação relativa ao tópico, logo aumentando a probabilidade tanto da possibilidade da corrupção como de o interrogado ter sido cúmplice no caso em discussão). Este sofisma, onde se introduz um subtexto inextricavelmente ligado ao contexto, é particularmente canalha, tóxico, e não se distingue de um ataque que ultrapassa todos os limites deontológicos do jornalismo.

Acontece que não é crível que Mário Crespo seja um canalha. A explicação para o seu erro será antes do foro cognitivo, pois ele revelou ter ido para a entrevista genuinamente convencido do sentido do que ia ouvir; a entrevista era uma mera formalidade e o entrevistado não tinha como escapar aos factos. A sua taça estava cheia, o que viesse de novo iria escorrer para fora. E não seria um badameco dum ministro de terceira categoria, industriado para vir mentir ao público, que lhe iria dar a volta. Logo a ele, o grande Crespo! Por isso perdeu por completo o pé, na sequência do justíssimo protesto pela sua perfídia, e deu neste diálogo:

– O tio era, ou não, tio do Primeiro-Ministro?
– O tio era… Está-me perguntar se o tio era, ou não, tio do Primeiro-Ministro?!
– Era ou não? Ou não? É?…
– Ó Mário Crespo… Está-me a desiludir profundamente…
– Temos casos… Desculpe, desculpe…
– Está-me a perguntar se o tio era tio, e se a prima era prima…
– Não, não… Não brinque com palavras comigo que eu não brinco com certeza.

Este jornalista que não brinca com palavras chegou ao fim da entrevista cabisbaixo, nervoso e a falar em realidades que são matéria de investigação. E, last but not least, ainda levou a estocada final – terminou com voz de falsete a agradecer a entrevista, dizendo que esta tinha sido um prazer. Do outro lado veio uma resposta que me obriga a colocar Pedro Silva Pereira no pódio dos ministros favoritos: Foi uma obrigação.

Espada ou pistola?

No jornalismo, em casos como o do Freeport (ou do BPN), há quem valorize o que acusa e há quem valorize o que iliba. O que não se pode fazer é, em casos como o Freeport (no que diz respeito a Sócrates por exemplo) valorizar o que iliba, e no caso do BPN (no que diz respeito a Dias Loureiro por exemplo) valorizar o que acusa. Como não se pode exigir responsabilização ética (para além da legal) nuns casos e noutros não. No comentário passa-se o mesmo, mas o comentário é opinativo, enquanto que se supõe que o jornalismo é informativo.

Pacheco

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Não há comparação entre os casos Freeport e BPN. No primeiro, estamos perante uma suspeita que cruza um Ministro, vários Secretários de Estado, inúmeros técnicos, autarcas, advogados e familiares de políticos. A gravidade do que está aqui suposto, envolvendo de forma cúmplice as figuras do Conselho de Ministros e a do Presidente da República, é inaudita e incomensurável. A ter acontecido o duplo chumbo ambiental do projecto de modo a que os promotores aceitassem pagar fosse o que fosse, as implicações atingem os próprios fundamentos do regime. E mais: a ter acontecido neste caso, presume-se que tenha acontecido em muitos outros. No segundo, trata-se de uma suspeita que recai sobre um administrador de uma entidade privada. De resto, foi o próprio que aumentou o peso da dúvida ao revelar bovinamente o modus operandi interno: ninguém reunia com ninguém, e Oliveira e Costa reunia com cada um em separado. Isto que foi dito publicamente já é assunção de corrupção, mesmo que mais nada seja apurado que incrimine Dias Loureiro. E se a logística da corrupção no Freeport parece inverosímil pela quantidade e perfil dos políticos responsáveis, já no BPN ninguém estranha que os negócios conduzidos por Dias Loureiro possam encobrir falcatruas.

Pacheco Pereira nivela os casos, equipara-os, diz que é farinha da mesma saca. É uma espantosa ofensa, mais uma, de alguém que afirma não acreditar na palavra de Sócrates – logo, que também não acreditará na palavra de Rui Gonçalves, Pedro Silva Pereira e seja quem for que diga alguma coisa que desmonte a suspeita-certeza que o desvaira. Em tempos idos, tal afronta seria imediatamente resolvida com um duelo.

É a família, estúpido

A brigada dos imbecis exultou com um facto que nem os deuses podem alterar: a família é a família é a família e volta a ser a família. Quem é que, uma única vez que fosse, não se serviu da família, ou serviu a família, em matéria de favores? Estranho, impiedoso, cruel seria aquele que recusasse ajudar um familiar em Portugal. Afinal, vegetamos numa sociedade pobre, de extremos de poder e estatuto, onde as instituições são disfuncionais, a cultura é provinciana, a cunha vale mais do que o carácter. Os que já concluíram pela culpa de Sócrates, pois, foram rápidos a transportarem-se para uma situação análoga onde se aproveitariam ao máximo das oportunidades. Ter um sobrinho ministro numa área que interfere em negócios milionários de terrenos? Ui, ui, só um acabado taralhouco é que não trataria da vidinha. E quem seria o político tão otário que recusasse 4 milhões? É óbvio que os aceitou, concluem os imbecis explicando como teriam eles feito a coisa. A projecção egóica corre solta, pintam o apetecido bode expiatório com as troca-tintas que guardam em casa.

Ora, as relações familiares distinguem-se de todas as outras pelo facto de serem apriorísticas e necessárias. Ninguém escolhe a família, à excepção dos cônjuges. E a família implica, ou suscita, as mais melindrosas promiscuidades. Não há função onde a família possa ser mais perigosa do que no exercício de cargos políticos. Quão maior a responsabilidade do cargo, maior a carga explosiva potencial. Neste caso, um tio e um primo arrivistas chegam e sobram para salpicarem de nódoas indeléveis o Primeiro-Ministro. Vários serão aqueles que, perante os factos já conhecidos, não precisarão da verdade para nada, pouco importando que Sócrates esteja completamente inocente. Esses irão até ficar indispostos e violentos calhando a investigação confirmar que o suspeito não passa de uma vítima. Dirão que a declaração de inocência é prova da sua culpa. A inocência será vista como a prova que faltava, a prova final. Esta patarata patologia já tem nome: Síndrome Pacheco Pereira. Caracteriza-se por uma alternância de estados eufóricos com estados depressivos sendo, tecnicamente, um distúrbio bipolar de origem ideológica. É o que justifica, por exemplo, um completo apagamento da ofensa de Manuela Ferreira Leite a um jornalista, a uma empresa e ao Governo. Estes são os sintomas de uma funda depressão. Simetricamente, considerar que as autoridades policiais, judiciais e autárquicas que investigaram (ou investigam) os casos da licenciatura e casas de Sócrates, juntamente com os responsáveis académicos e técnicos respectivos, e ainda o próprio, estejam todos a mentir, eis um sintoma de euforia. O entusiasmo com que se desabona a honra de tanta gente, e de tantas instituições, exprime um napoleónico delírio de grandeza.

Seja como for, pelo menos de uma coisa Sócrates não vai conseguir escapar: aquele tio e aquele primo não podem ser demitidos nem despedidos. É ter esperança que voltem a atacar.

Vinte Linhas 312

«Se não acreditam no futebol, não vão ao futebol» – frase de um pobre homem que não percebe nada disto

Vítor Pereira, presidente da comissão de arbitragem da Liga de Futebol, proferiu esta frase que foi considerada uma das frases da semana que passou. Para quem, como eu, andou pelos jornais desportivos de 1979 a 2006 e fez entre 1997 e 2006 reportagens pelo País de Braga a Faro, Madeira, Açores e Itália, a frase não faz qualquer sentido. As pessoas não acreditam no futebol mas continuam a ir ao futebol por uma única razão – a sua paixão clubista. É a sensação de pertença, é a felicidade passageira de estar noventa minutos num estádio com um filho, com um neto ou com um amigo. Desde 1983 em particular que a verdade desportiva não existe pois surgiu na cidade do Porto uma nova norma – «é preciso ganhar sempre, custe o que custar e doa a quem doer».

No meu caso concreto continuo a ir ao futebol porque ainda me revejo mo emblema do meu clube, na bandeira, no cachecol, na memória afectiva do passado e do futuro. Lembro Dinis Machado que, levado à sede do Benfica no Jardim do Regedor para ver a sala de troféus, respondeu ao pai: «Não posso ser do Benfica porque já apertei a mão ao Jesus Correia!». Não posso esquecer o meu neto a passear junto do Observatório de Greenwich em Londres com uma camisola branca onde está escrito a verde «Sporting since 1906». E quando digo que tenho lugar cativo é porque de 15 em 15 dias estou cativo de me encontrar com o meu filho nas bancadas do estádio José Alvalade. Um pobre homem como Vítor Pereira nunca poderá compreender isto. As pessoas não acreditam no futebol português mas ainda vão aos estádios enquanto sentirem a força da sua paixão clubista. O resto é conversa da treta e concerto de apitos de latão velho.

Canção breve para «Canção para Carlos Paredes» de Luísa Amaro

Vem a melodia precisa

Em escala de Primavera

Que surpresa de Luísa

Ouvido que não espera

Quando era só companhia

Da guitarra grande a voar

Apenas olhava e ouvia

Na vertical do meu lugar

De «Devaneios flutuantes»

Ao «Jogral» já encantado

Juntando mundos distantes

Num som puro, imaculado

São raízes, são razões

Dum rio que vem dizer

A letra destas canções

Na pronúncia de mulher

Com Luísa de surpresa

Som numa nave central

A guitarra portuguesa

Faz da igreja a catedral

Tal como numa oração

Junta mundos dispersos

Para fazer uma canção

Já não precisa de versos

Basta-lhe ritmo, vertigem

Duma escala musical

Para chegar à origem

Do som que é Portugal

Um livro por semana 26



«A mulata do engenheiro» de Inácio Rebelo de Andrade

Poderia chamar-se «O futuro não estava lá» porque esta narrativa de 315 páginas tem essa conclusão: trata-se de um logro, uma ilusão, uma mentira. Carolina, menina nascida em Angola, filha de um branco e de uma negra, andava de olhos abertos mas não via. No Colégio de Nova Lisboa as criadas e as serventes eram negras; as professoras eram brancas. Na missa dominical os brancos ficavam nas filas da frente e os negros nas filas de trás. Na estação de comboios a caminho da fronteira com o Catanga (ao tempo belga) via as carruagens com bancos estofados para os passageiros brancos e bancos de ripas para os negros. Nem uma prolongada estadia em Lisboa onde frequentou a Universidade e onde conheceu o marido afastou da sua mente a ingenuidade de pensar que em Angola era possível uma convivência cordial entre brancos e negros. Foi preciso um empregado do Clube da Companhia de Caminhos-de-ferro de Benguela adverti-la de modo brutal para descobrir essa verdade: «A senhora não pode nadar aqui. Esta piscina é só para brancos. Faça o favor de sair!» O episódio da piscina provoca na protagonista uma amarga reflexão: «Tão segura das suas certezas, com tantas leituras, com tantos estudos, porque ignorara até esse dia que na sua terra, onde nascera meio-branca, meio-negra, os brancos mandavam porque eram brancos e os negros obedeciam porque eram negros?» Obrigada a regressar a Lisboa por não suportar o ambiente hostil da sua terra, Carolina percebe que está condenada a viver entre duas terras, entre dois mundos, entre dois universos. Viaja no paquete Príncipe Perfeito em Novembro de 1959 do Lobita para Lisboa mas sabe que o seu futuro não está em Lisboa tal como não estava em Angola.

(Editora: Novo Imbondeiro, Capa: Francisco Amorim)