«Na cabeça de Sócrates»

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Saia de casa. Já. Compre o Público de hoje. Leia «Na cabeça de Sócrates», de Ricardo Dias Felner. Não perca um dos textos mais fascinantes – e perturbantes – do jornalismo português dos últimos tempos.

O primeiro-ministro português é, da cabeça aos pés, uma laboriosa e enervante mistura de «frontalidade» e «dissimulação»? Não me diga que não tinha reparado.

A festa do porco

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A propósito do Ano Novo chinês, o programa Nós, RTP, fez uma reportagem na Escola Chinesa de Lisboa. Entrevistaram petizes, entre os 6 e os 10 anos (suponho), os quais explicaram a seu modo, espontaneamente, a História e cultura dos seus pais e venerandos avós que assim se celebrava. Mas explicaram através de uma alma lusa, com todos os meneios e particularismos léxicos da Língua observáveis numa outra qualquer criança descendente de Afonso. Uma menina até chegou a ficar envergonhada quando nomeou o ano da Cabra, no que foi uma deliciosa prova de domínio semântico. A prosódia perfeita, para mais servida por singular fluência e confiança na expressão, criava um laço imediato que absorvia as diferenças faciais e etnográficas e as integrava na mesma identidade. Aquelas crianças são portuguesas, temos a mesma pátria. Então, os seus pais também podem ser nossos patrícios. E, indo por aí, chegamos finalmente à consciência de que há muita gente em Portugal à espera de cá chegar.

À espera de uma festa, onde se coma e beba bem. Onde se conviva, para viver melhor.

Eu, comovido a Oeste

Não, caros blogleitores. Não se trata de uma nova leitura do livro homónimo de Vitorino Nemésio. Eu comovido a Oeste sou eu mesmo. Eu, obscuro cronista numa manhã fria de Lisboa, pouco tempo depois de ter descoberto num alfarrabista o livro Litoral a Oeste de José Loureiro Botas. E fiquei comovido porque este livro agora por mim recuperado tem muito a ver com a minha educação sentimental. Alguns dos contos deste volume com capa de Manuel Ribeiro de Pavia estavam no livro de leitura do Ciclo Preparatório quando eu tinha dez anos. E fiquei comovido porque vi de novo aquelas figuras dos contos ao meu lado: a Tia Morganiça, o Pichelim, a Rita Rebocha, a Ana Fateixa, a Jacinta Caréoa, a Maria Rita, a Raposinha, a Leandra. Era gente que saltava das páginas dos livros e vinha para ao pé de nós, misturando as suas vidas e as suas lágrimas com as ondas do mar na Praia da Vieira. A própria história do autor do livro, filho de gente humilde, que começou a trabalhar com 12 anos e abriu uma pastelaria onde se juntavam escritores, me comoveu. Eu próprio sou filho de gente humilde, comecei a trabalhar com 15 anos e tirei o Curso Comercial como o José Loureiro Botas. Também a mim me disseram que não tenho nome para ser escritor como se a qualidade da escrita dependesse do bilhete de identidade de cada um. Também fiquei comovido pelo prefácio de Tomás Ribeiro Colaço, com palavras que deveriam estar à vista de todos em todas as redacções de todos os jornais e de todas as rádios: «Continue. Escreva mais, como sentir. Escrever é semear. É esperar, insistir. É amadurecer. É querer. É atirar pedaços de alma para uma folha de papel. É sofrer em silêncio e pensar em voz alta. É demandar perfeições que não se atingem, procurar ecos que não se ouvem, erguer castelos que ficarão desabitados, cantar ansiosas canções que ninguém escuta ou entende. Mas o espírito é terra abençoada à qual nunca se atira em vão uma semente viva; apenas sucede às vezes ser lento o germinar… E quando o escritor assim escreveu, sucede um dia que outros encontrem na sua obra todos os mundos que ele criou enquanto a servia». Fim de citação.

José do Carmo Francisco

Exageros familiares – 3 e 4

A Sininho ofereceu-nos um notável exagero, com versões feminina e masculina. Os nossos visitantes, que são maiores e baptizados (perdoe-se a cristandade da perspectiva), saberão qual uma e qual outra.

«Já nem se pode ver o futebol! É só novelas!»

«Sempre a mesma coisa – futebol! Já nem se pode ver a novela!»

Mais um:

«Antigamente, levavas uma eternidade a ter as fotografias na mão».

Um exagero monumental, sobretudo se as podias ter num 1 HOUR SERVICE. Mas compreende-se o seu tanto. Actualmente, o tempo entre o disparo e a obtenção do «print» é desprezável. Mas acabou-se, também, de vez, qualquer romantismo da espera. Ah, mundo prosaico!

Letters from Iwo Jima — Clint Eastwood

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Vai ver este filme porque:

– Passas menos tempo na blogosfera, o que só te faz é bem.
– Tens uma razão para desligar o computador. Ou o televisor. Ou o DVD. Ou o IPOD. Ou a Playstation. Ou, nalguns casos, isto tudo ao mesmo tempo.
– Sais de casa. E, quando sais de casa, a tua casa agradece, pois as casas também precisam de estar uns tempos a sós.
– Aproveitas a ocasião para convidar um grupinho para ir contigo. Ou aquela pessoa que brilha mais do que o ecrã. E que até pode estar a viver contigo. E que continua a gostar, muito, de convites para ir ao cinema. Especialmente se vierem de ti.
– Recebes, por uma ninharia, magistral obra de arte de um homem que fará 77 anos em Maio, o que lhe deu já algum tempo para ter juízo.
– Aprecias o talento de Ken Watanabe. E o de Kazurani Ninomiya.
– Confrontas-te com uma questão fotográfica: é um filme a cores ou a preto-e-branco? A preto-e-branco não é, a cores não parece. Talvez seja um filme a cores em preto-e-branco.
– Descobres que todos os soldados, independentemente do posto ou do exército, são filhos da mãe. E gostam de o ser.
– Aprendes que a guerra é uma continuação natural da economia. Que a guerra é também uma indústria. E, por fim, uma feira.
– Contemplas esta intuição: sagrado é todo o solo onde vertemos o sangue. Mesmo o sangue invisível, mesmo o solo invisível. E começas a não deixar que te escolham as guerras.

«É VOCÊ O MEU PAI?»

Os autores do Aspirina têm acesso aos bastidores do blogue. Nada de transcendental, nem – habitualmente – de muito excitante. Mas ele há casos.

No post de 12 de Janeiro sobre as «lampreias», alguém – certa Sue – colocou, dias depois, um apelo. E, ontem ainda, informava que vem «todos os dias» ver se chegou resposta.

Como o Aspirina serve – também – para facilitar a vida, aqui se publicita, com este nosso discreto destaque, o apelo de Sue. Tal e qual. Com a sua grafia. E com a sua esperança.

janeiro 22, 2007 01:15 AM

Ola pessoal!
Feliz ano novo a todos aqui que sao adeptos!
Hora bem!
Estou a procura desde… nao sei quando do meu pai, Carlos Rodrigues Costa de Febres. Posso vos pedir este favor, querem me ajudar? Aqui encontrei muitas coencidencias com ele. O peixe, o mar, o estrangeiro…sao coisas que sei. Pai, se me leres, qual que sejas o que fizeste, sou tua filha Susana, nao te esqueceses de mim, porque vivo com sodades tuas.A Ultima vez que te vi, fui quando tua primeira neta Sydney Claudia (minha filha) nasceu. Eu vi tua imagem tua cara na Sexta feira 17 de dezembro 1999 e tu fizeste ano no dia seguinte. Tens um neto tambem Nils nascido uma sexta feira 22 de fevereiro de 2002 em Paris. Eles nao te conhencem mas falam de ti.Temos fotos, mas as imagems sao frias e sem sentimentos e carinhos. Eles tem esperança de te conhecer e eu de te fazer esta prenda, nos tres. Sou Susana Maria Santos Rodrigues Costa com meus meninos Sydney e Nils

fevereiro 17, 2007 03:49 PM

Boa tarde!
Venho aqui todos os dias, em vao, espero mesmo uma resposta.
Deixe meu email a vista : suebysue@msn.com assim se calhar e melhor, pois nao?!
Boa continuacao a todos!
Bye

Exageros familiares – 2

«Dantes não havia assim estes maus-tratos de crianças».

É mero efeito (e efeito benéfico) de uma sociedade mais aberta. Simplesmente, agora crescidinhos, vêm-nos o arrepio, e o susto, de termos estado, um dia, vulneráveis.

Conhece outros «exageros familiares»? Conte-nos.
Se minimamente nos reconhecermos, pomo-los em destaque.

Crónica para um menino que também perdi

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Escrevo-te, André, esta crónica triste descendo a Avenida Fontes Pereira de Melo, no mesmo lugar onde há vinte e quatro anos chorei as lágrimas mais quentes e mais grossas pela morte do teu irmão Paulo. É esta estranha e repetida geografia citadina que me leva hoje a recusar as lágrimas e pensar em ti não no passado mas no presente.

Tenho em casa, algures perdida numa gaveta, mas não perdida na minha memória, uma fotografia que tirámos na eira da casa da tua avó. É uma fotografia a preto e branco como, afinal, são todas as fotografias porque na verdade o nosso mundo não é a cores mas sim a preto e branco. Como aquela fotografia em que estamos todos felizes depois de um almoço de festa, cozinhado naquele fogão que é um monumento culinário e naquela cozinha que é um santuário da gastronomia. Mais do que felizes, estamos juntos, todos juntos à volta da festa de aniversário da tua avó que eu abusivamente resolvi, entretanto, tomar como minha.

Era Abril, o mês de todas as esperanças, depois de tantos anos de notícias censuradas, de músicas proibidas, de filmes cortados, de ruas sossegadas e de prisões cheias. Circulo hoje de mãos nos bolsos, cheio de frio e atónito perante a notícia da tua morte em Paris e a Avenida Fontes Pereira de Melo, onde soube da morte do teu irmão Paulo em 1982, esta avenida, transformou-se, de repente, num quadro cor de cinza onde o teu nome está escrito e não se apaga.

Quero que saibas, André, que continuamos todos naquela fotografia a preto e branco tirada à volta da avó na eira numa tarde de sol em Abril. Vamos continuar todos nessa fotografia porque ao lado da avó somos felizes e não há preço a apagar nem pelos beijos nem pelas lágrimas.

José do Carmo Francisco

Para um retrato de Fernanda

Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. São intervalos de alegria as viagens e os encontros. Na Índia, na Etiópia, no Egipto, em São Tomé e Príncipe, no Dubai ou em Marrocos, as viagens são um apelo difícil de recusar. Por isso Fernanda viaja no tempo e faz crónicas modernas de lugares antigos, lá onde o som das caravelas sulcando o oceano ainda persiste nos búzios entre os recifes, as areias e as dunas das praias mais quentes.

Os encontros começam nos almoços ruidosos onde a ementa principal é a troca de testemunhos e de opiniões. Continuam entretanto, tarde fora, entre os licores mais doces do Inverno e os refrescos mais apetecidos do Verão. Nos olhos de Fernanda existe e permanece uma melancolia serena, mas vigiada por intervalos de alegria. Por isso, quando se despede e a sua sombra se perde no fim da rua perto do Teatro Nacional, apetece parar o tempo dos relógios e fixar um tempo interior onde seja possível não o desgaste mas a permanência. Para que Fernanda fique e seja o ponto de encontro entre a memória e a alegria.

Nos olhos de Fernanda há o apelo da água. A mesma água de onde saíram os sons que animam todas as orquestras do Mundo e todas as notas que povoam as pautas de todos os músicos. Os olhos de Fernanda são a estante onde se projecta e repousa uma música muito antiga mas sempre pronta a subir do lugar da escrita até à sua arte final, cumprindo assim a tarefa principal de todas as melodias. Ou seja: trazer ao coração dos homens um tempo feliz mesmo que essa felicidade seja veloz. Mesmo assim valerá a pena toda essa brevidade.

José do Carmo Francisco

Borralho do Referendo — “ainda ninguém”

Durante a campanha, que começou mediaticamente em Novembro/Dezembro, cada lado apresentou quase todos os argumentos legítimos, e ainda uma imensidade de ilegítimos. Ao se chegar ao período oficial, as últimas duas semanas de intenso e ubíquo debate público, coabitavam a inevitável saturação e um fenómeno curioso: os iluminados de última hora. Tal como em Jerusalém, onde alguns se descobrem Messias antes de se descobrirem internados, foi comum encontrar personalidades que usaram profeticamente a fórmula “ainda ninguém”, seguida de vocábulos variáveis relativos a pensamentos e discursos inauditos. Foram protagonistas de súbita iluminação, onde estaria em causa ver o problema segundo um especialíssimo ponto de vista — o seu, acabadinho de pensar e de imediato revelado. Eram argumentos com ferro decisório para converter o opositor ou reduzi-lo a má vontade. O Fernando até nos deixou (involuntariamente) um exemplo disto, vindo da pena de Miguel Sousa Tavares. Mas eu assisti a vários, o mais caricato deles com a Clara Pinto Correia. A senhora começou a berrar e a agitar furiosamente os braços, provocando um vórtice de pânico que os restantes participantes nesse debate, mais respectiva jornalista, deixaram gravado nos seus lívidos e paralisados rostos.

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Magna Magnani

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Nesta sexta-feira passou na Cinemateca L’Amore, de Roberto Rossellini. Sala cheia e vedetas, Paulo Rocha em cadeira de rodas, João Botelho bonacheirão, outros da indústria, outros do circuito, outros. Todos para ver dois filmes num; mas o melhor é escrever “dois filmes numa”, Anna Magnani a uni-los. O primeiro, Una Voce Umana, é a adaptação do texto de Jean Cocteau, La Voix Humaine (1930). São 35 minutos de rosto. Nesse rosto há uma voz, contínua, opressiva, desesperada — precisa é de ser vista, a voz, para se conseguir escutar. O segundo, Il Miracolo, tem argumento de Fellini; o qual também se estreia na representação, algo que só iria repetir em 1982. É um marco na história do cinema, um milagre este Miracolo, por mais razões do que aquelas que me cabem no verbo e no texto.

Uma pobre de espírito, indigente, delirante, cruza-se com um melífluo sátiro, mudo e quedo, que a embriaga e viola. Descobrindo-se grávida, reclama uma paternidade divina, incônscia outrora agora. A comunidade humilha-a, não quer santos na terra. E agride, expulsa a louca. Ela foge para as alturas, para o refúgio de uma igreja. Mas, nas alturas, até as igrejas estão vazias. É a solidão completa. E nela, na solidão dela, nasce a alegria. Não do seu corpo, mas pelo seu corpo. Do seu corpo só o seio que tira para dar a uma boca que chora e faz rir de espanto.

Ter este filme alegórico, telúrico e superlativo — uma narrativa que se corta no fio da navalha que atravessa e cujo sangue escorre em nós; filme intempestivo do fundador do neo-realismo, realizado 2 ou 3 anos depois do fim da Segunda Guerra — sido exibido nas vésperas do referendo, só acrescentou pathos e pungência ao momento.

Há um certo tipo de opinião que reprova as escolhas de Bénard da Costa para a Cinemateca, ou seja lá para o que for. É uma opinião que se crê culta, mas não o é, que não gosta de filmes anteriores a 1960, porque nem sequer os entende, e que talvez um dia se imponha autoritária. Por isso, porque o Diabo anda sempre a tecê-las, o melhor é ir à Cinemateca no dia 21 do corrente. Volta L’Amore, volta uma experiência de um tempo em que ainda havia pessoas e quem as filmasse.

Anna Magnani, a mais funda expressão do feminino no cinema? Sim, claro. E transparente.

Dies irae

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O Abrupto até em terramotos é bom. E não em último lugar pelos seus correspondentes. Veja-se o que escrevia, de Faro, Sérgio de Almeida Correia.

A natureza é insondável e não há maior sensação de pequenez, impotência e inutilidade do que aquela que nos atravessa durante um tremor de terra. Só espero que agora não venha aí uma dessas almas da campanha do “Não” dizer que este foi um primeiro sinal da ira divina por causa do resultado do referendo de ontem. Num país em [que] o clero ainda ameaça excomunhões automáticas por delito de opinião tudo é possível, até terramotos por encomenda.

Devo dizer que tive, de imediato, o mesmo pensamento. Não do castigo, mas do clero.

«Onde há amor, não há aborto»

A comentadora que assina Sininho escreveu isto, que importa ‘puxar’ para aqui.

Tenho a sensação que, neste momento, muitos homens sentem um “aperto” ao pensar que, numa situação futura, poderão ver a sua parceira a tomar essa decisão [de interromper a gravidez] de uma forma autónoma, perdendo eles o direito a participarem nessa decisão tão grave e, por fim, irreversível.

No entanto, como mulher e mãe, gostaria de dizer que a maioria das mulheres que aborta, fá-lo por se sentir só, abandonada pelo seu parceiro.

Fá-lo por medo de não conseguir suportar a imensa responsabilidade de colocar neste mundo um ser, sozinha. Fá-lo porque sente essa responsabilidade muito antes do homem, à medida que o seu corpo se transforma. Fá-lo por falta de amor, diálogo, compreensão, apoio… Onde há amor, não há aborto.

Sininho

Com 8 anos e 8 meses de atraso

Recordo-me bem da surpresa da vitória do NÃO em 98. Ninguém imaginou que tal fosse possível, tirando os que nada percebem das situações onde se encontram. O voto da rua, a minha — urbana, jovem, classe média —, era maciçamente pelo SIM. Quem se anunciasse pelo NÃO era visto com estranheza, até repúdio, como se fosse um anacronismo ambulante e falante. Não fazia parte do Portugal da Expo 98, do aparecimento da Optimus com a promessa de telemóveis para todos, da feérica abundância consumista de Guterres. E tal estado de ausência de espírito era também uma consequência da demissão dos nossos pais, os quais se tinham alheado da discussão desde sempre, desde a educação em casa que nunca fizeram. Por outro lado, a ideia de que Portugal era um país católico configurava uma grotesca anedota. Portugal já não é católico, sequer cristão, desde o século XIX, desde 1820 — e é para ser brando, pois o povo, em nenhum período da nossa História, se mostrou muito católico, e as elites ainda menos. Acontecia, apenas, que as igrejas e os clérigos faziam parte da economia e da vida social; coisa bem diferente de terem sido influenciadores de ideias e comportamentos, pois não o foram. Não havia estádios, cinemas, televisão, discotecas, centros comerciais, havia igrejas, missas, festas religiosas. Era só isto, não tem mistério.

Pois a rua não mostrava transcendência, e a única imanência era a da mulher grávida, senhora da vida e da morte. Por isso as sondagens diziam em 1998 o que os resultados deste domingo de 2007 repetiram: a maioria dos portugueses, se obrigada a tomar uma decisão, escolheria a despenalização total do aborto. Tudo bem, venceu a democracia, dirão os democratas. E se o NÃO tivesse ganho? Alguns dos que na noite passada louvaram o discernimento dos portugueses votantes teriam vindo falar em manobras e conspirações das forças ocultas, não teriam sido capazes de encontrar uma vitória comum na sua derrota pessoal. Também o ódio surdo à democracia faz parte da democracia, essa fêmea que a todos alimenta.

E agora? Agora, alegremo-nos com a subida da participação num referendo. Portugal não tem uma cultura de discussão intelectual, apenas de conflito pífio. As mudanças geracionais demoram gerações a acontecer, se não estou em erro. Por isso, haja paciência, a maior de todas as virtudes. Demora — e pede um tipo especial de intelectual — a criar uma comunidade de pensadores. Os pensadores precisam de aliar ao consumo da informação a disponibilidade para sacrificar o seu produto. Os debates são verdadeiras lutas, onde se corre o risco de se ser ferido numa convicção, ver mutilado um raciocínio, morta uma ilusão. Entretanto, nem a escola, nem a universidade, nem a imprensa se interessaram por ensinar os portugueses a pensar. Claro, os políticos ainda menos se interessam, pois os nossos actuais políticos sobrevivem à custa da manutenção do charco onde sobra em lama o que falta em profundidade. Acreditei, e ainda acredito, que os blogues podem contribuir para essa causa do crescimento intelectual. Daí, os textos reflexivos e polémicos que foram saindo, e vão continuar a sair, relativos a estas fascinantes temáticas da nossa vida comunitária.

Quanto ao aborto, todas as boas vontades estão unidas nos mesmos propósitos, e o futuro assim o mostrará; pouco importando onde deixaram hoje a cruz, ou para onde a carregaram.