Magna Magnani

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Nesta sexta-feira passou na Cinemateca L’Amore, de Roberto Rossellini. Sala cheia e vedetas, Paulo Rocha em cadeira de rodas, João Botelho bonacheirão, outros da indústria, outros do circuito, outros. Todos para ver dois filmes num; mas o melhor é escrever “dois filmes numa”, Anna Magnani a uni-los. O primeiro, Una Voce Umana, é a adaptação do texto de Jean Cocteau, La Voix Humaine (1930). São 35 minutos de rosto. Nesse rosto há uma voz, contínua, opressiva, desesperada — precisa é de ser vista, a voz, para se conseguir escutar. O segundo, Il Miracolo, tem argumento de Fellini; o qual também se estreia na representação, algo que só iria repetir em 1982. É um marco na história do cinema, um milagre este Miracolo, por mais razões do que aquelas que me cabem no verbo e no texto.

Uma pobre de espírito, indigente, delirante, cruza-se com um melífluo sátiro, mudo e quedo, que a embriaga e viola. Descobrindo-se grávida, reclama uma paternidade divina, incônscia outrora agora. A comunidade humilha-a, não quer santos na terra. E agride, expulsa a louca. Ela foge para as alturas, para o refúgio de uma igreja. Mas, nas alturas, até as igrejas estão vazias. É a solidão completa. E nela, na solidão dela, nasce a alegria. Não do seu corpo, mas pelo seu corpo. Do seu corpo só o seio que tira para dar a uma boca que chora e faz rir de espanto.

Ter este filme alegórico, telúrico e superlativo — uma narrativa que se corta no fio da navalha que atravessa e cujo sangue escorre em nós; filme intempestivo do fundador do neo-realismo, realizado 2 ou 3 anos depois do fim da Segunda Guerra — sido exibido nas vésperas do referendo, só acrescentou pathos e pungência ao momento.

Há um certo tipo de opinião que reprova as escolhas de Bénard da Costa para a Cinemateca, ou seja lá para o que for. É uma opinião que se crê culta, mas não o é, que não gosta de filmes anteriores a 1960, porque nem sequer os entende, e que talvez um dia se imponha autoritária. Por isso, porque o Diabo anda sempre a tecê-las, o melhor é ir à Cinemateca no dia 21 do corrente. Volta L’Amore, volta uma experiência de um tempo em que ainda havia pessoas e quem as filmasse.

Anna Magnani, a mais funda expressão do feminino no cinema? Sim, claro. E transparente.

27 thoughts on “Magna Magnani”

  1. Não me parece que alguém se recuse a apreciar as escolhas do homem por não apreciar filmes anteriores seja lá a que ano for. Mas é sempre conveniente e fácil atribuir burrice aos que não concordam connosco, não é?

  2. alegórico, telúrico e superlativo — uma narrativa que se corta no fio da navalha que atravessa e cujo sangue escorre em nós

    Que raios quererá isto dizer?

  3. Receita para a crítica poético-obscura: juntar uns lugares comuns que saem do armário sempre que se fala de cinema europeu (o risível “telúrico” e o igual a nada “superlativo”) a uma frase de bonito efeito mas que significa apenas que o crítico se sentiu tocado, profundamente tocado, pela obra. E pronto. Depois, é só acusar quem estranha de cegueira e incapacidade de ler as estratosféricas ideias do iluminado.

  4. Anonymous das 10.50 AM

    Onde é que foste buscar essa do “telúrico” ser lugar-comum do cinema europeu?! Espera, não me irás responder, pois não fazes a menor ideia.

    “Superlativo” é igual a nada? Talvez, mas não para mim.

    Confessa lá, viste o filme? Ou nem precisas de ver os filmes para não gostar deles?

  5. Onde fui buscar “essa”? A resmas de textos sobre o Buñuel mexicano, Straub, Leitão de Barros, Dreyer, o neo-realismo por atacado e sabe lá o Altíssimo quantos mais. Vai ao Google e pesquisa “cinema, europeu, telúrico”. Verás quantas centenas de vezes anteciparam a tua originalidade.
    Quanto ao resto, não vás por aí. “Superlativo” quererá dizer que a obra te pareceu muito boa, mas em nada ajuda o leitor a entendê-la. Já vi o filme, gostei bastante. A minha pega é mesmo só com este estilo de mandar umas frases estilosas para o ar e esperar que aterrem de modo a fazer sentido. Coisa que aqui não aconteceu, lamento.

  6. Anonymous

    Não, duvido que tenhas visto o filme. E, tão ao teu estilo, nem sabes do que se trata. Porque o Google pode dar umas quantas citações, mas – e acredita, vou-te ajudar com esta informação – o Google não pensa.

    Telúrico é um adjectivo que pode ter desvairado uso, obviamente, mas neste filme ele é preciso, e só vendo o filme se consegue relacionar. Telúrico não é termo que seja fácil de aplicar ao “neo-realismo por atacado”, como a tua esperteza saloia deixou para teu único consumo. Bastaria dizer que o neo-realismo tem características que remetem para o espaço urbano e para uma fotografia documental, onde só muito metaforicamente, muito subjectivamente, tal semântica ganha oportunidade. Pois não é o caso deste filme de que dizes ter gostado bastante e que deves ter visto no Google. Aliás, desafio-te a que digas em que outros filmes do neo-realismo calharia simpaticamente o carimbo “telúrico”. Estou em pulgas para aprender contigo, sumidade do ultra-neo-realismo por motor de busca.

    O mais curioso acaba até a ser o teu espasmo ou vómito. Parece que estás a protestar contra o simples facto de se falar no filme. Tu dizes que a neurose te nasce da alergia ao estilo, coisa fascinante para analisar em consultório, mas eu desconfio que o teu propósito é mais fascista do que de pedagogo interessado em corrigir as críticas de cinema que saiam fora dos teus ditames estilosos.

    Manda-me um email, e na próxima eu envio-te os textos antes de os publicar. Poderás depois aferir da sua originalidade, com o teu índice Google, e autorizares, ou não, que os mostre à malta. Serias, para mim, um superlativo.

  7. A tua pesporrência não te deixa ver o óbvio: eu não afirmei que “telúrico” era adjectivo apropriado seja para o que for, apenas que é usado a esmo e sem tino, como foi o caso aqui.

  8. Mas já que falas nisso, repara na pista que já te tinha dado: “Los Olvidados” seria excelente exemplo do tal adjectivo aposto a propósito. E o “Riso Amaro” de de Santis, não será outro?
    Criticar-te é eentão um “vómito”. Mas são os outros quem sofre de “neuroses”. Sim, senhor.

  9. Anonymous

    Devias ter mais respeito pela tua honestidade intelectual (a existir) e apagar o comentário das 11.18. É um conselho misericordioso.

    Os “excelentes exemplos” que dás configuram, então, o “neo-realismo por atacado”?!… E, por que razão, não há propósito na aplicação do termo “telúrico” a IL Miracolo de Rossellini? É espantosa a ignorância que mostras!! Milagre do pretensiosismo patético.

  10. Abrenúncio. Quando a soberba se alia à verborreia, é de temer o resultado.
    Escrevi que existem “resmas de textos” que atribuem esse estafado qualificativo a obras neo-realistas. É verdade.
    Não contesto a aplicação de coisa nenhuma a não ser a da vacuidade pomposa que queres fazer passar por opinião ilustrada. Existe “propósito” sim senhora: um propósito banal, estafado e previsível. O pior é mesmo a cena do “fio da navalha”, da “incônscia outrora agora” e demais amostras de má poesia de botequim.

  11. Xiça, que estas caixas de comentários andam ríspidas …

    Na minha modesta opinião o adjectivo telúrico é perfeito para classificar este filme.
    Valupi, é preciso paciência mas não desistas e sobretudo continua a escrever sobre cinema.

  12. Anonymous

    O facto de existirem centenas ou milhares de textos onde exista a coincidência dos termos “neo-realismo” e “telúrico” é completa e aparvalhadamente irrelevante. Dá-se o caso de neste filme, Il Miracolo, o adjectivo “telúrico” ser, num certo sentido, obrigatório. E eu tenho de considerar que o teu tonto protesto prova que nunca viste o filme (coisa que, como é óbvio, não tem mal nenhum). É que é impossível recusar a associação.

    No entanto, se te consideras conhecedor de cinema, saberás também que este filme marca uma deriva em Rossellini. O filme não segue o ideário usual do neo-realismo, nós nem sequer sabemos qual a época retratada. E é depois deste filme (na prática, ao mesmo tempo) que se inicia um segundo ciclo onde muitos que o aplaudiram antes já não largam loas. Por isso, e também por isso, a dimensão telúrica apenas se compreende como mecanismo ao serviço da ambiguidade moral e metafísica.

    Entretanto, tu apresentas-te como o controleiro das opiniões que se querem passar por ilustradas, e resolves marrar comigo. Não te invejo a sorte.
    __

    Gabriel

    Continuarei, muito obrigado. Este Anonymous ladra e os textos passam. É só isto.

  13. Continuas a responder a coisas que ninguém afirmou: a falar sozinho, como é típico dos soberbos. A que proósito virá isso do “ideário usual do neo-realismo”? Afirmei eu que se tratava de obra neo-realista?
    Por outro lado, vejo que já restringes a explicação da tua tirada piroso-poética a uma só palavra. A consciência infiltra-se.
    Por fim se isso do “ladrar” é a tua ideia de dialéctica, podes ficar aí a uivar à Lua sozinho. Aposto que, a teus olhos, ela é a tua cara chapada.

  14. Anonymous

    Tens toda a razão, e devo-te um pedido de desculpas. Relendo tudo o que escreveste, constato que nada afirmaste. Na verdade, tu só querias dizer-me que me achas soberbo. E eu, confesso, concordo contigo.

  15. Anonymous

    Sim, presunçoso. E com orgulho. É só para quem pode, não leves a mal.

    Já tu… andas um bocado aos caídos. Tens de tentar levantar a cabeça.

  16. Não é para quem pode, mas sim para quem pensa que pode. Daí também ser sinónimo de “afectado”. Daí a tua poesia de alguidar.
    Mas o teu brilho ofusca-nos como um novo Sol. Fica difícil levantar a cabeça quando confrontado por um tal astro-rei.Com tanta e tão óbvia qualidade, andas a estragar-te por isto dos blogues.

  17. Anonymous

    Parece-me que tu és um bebedor compulsivo do alguidar onde eu lavo os meus poéticos pés. Não diria que te estás a estragar nestas humildes caixas de comentários, diria que não sais delas porque estás já todo estragado.

    Enfim, espero que não te afecte (muito) falar-te com tanta lhaneza.

  18. Blegh! Que nojo!
    Vou mas é dormir. E deixar-me de cenas de lan(h)a caprina (e não vou cair na baixeza de explicar este trocadilho). A esta hora, ainda me arrisco a começar a achar-te piada.

  19. Grande abalo terramôtico e só por causa do estilo do Valupi, muito bom e pra mim ganhou 5 a 1 easy peasy golinhos neosrealistas e foi muito humano e Magnanimo, parece que tem o satiro no corpo o homem tem resposta pra tudo o que dizem, ainda bem que é dos Nãos eu enjoiei esta conversa e quero vir aqui a este blog mais vezes e quero ouvir falar de todos os directors dos neosrealismos maçoniques e anti-papais e virgem Maria e dos ladróes de biciqueletas e Roma cidade aberta à menos anos que Braga, eixecelente, eixcelente à brava é só o que tenho para dizer, volte anonimous, please quando ouver mais coisas della Arte filmografica e anti-Mac-Artista. Obrigado a todos.

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