Todos os artigos de Nuno Ramos de Almeida

Erro de avaliação ou mudança de ponto de vista?

“Talvez seja a grande revolução que ele fez num país cansado de crispação; trazer a afectividade para a política. É, a par com a coragem, a sua arma mais eficaz. E por isso ele é, de facto, irresistível. E também imprevisto. Com o Mário, o inesperado pode sempre acontecer. Desenganem-se os que o julgam sentado sobre uma por vezes aparente lassidão. De repente ele salta. Para sacudir o marasmo e de novo forçar o destino.”
Escreveu isto Manuel Alegre, no seu infausto “Arte de Marear”. Esta passagem coroa oito páginas de panegíricos à figura de Soares. E segue-se à descrição da forma como Alegre pôs “os delegados a ferver” num congressos do PS, enquanto o chefe, na mesa da presidência, “barafustava: este gajo está-me a lixar o Congresso.” Claro que tudo se sanou com uma palmadinha no ombro e a admissão por Soares de que o seu amigo “é um tribuno temível”.

Hoje, Alegre espera que o seu ex-amigo não sacuda coisa nenhuma nem force o destino que o parece condenar à derrota sem glória nem proveito. Hoje, o exorbitante ego do poeta-candidato já não se deixará apaziguar com festinhas e elogios utilitários. Hoje, ambos surgem à luz impiedosa da atenção dos media como dois velhos de costas voltadas, tremendos no seu egoísmo, naufragados bem longe das correntes que estão já a moldar as costas de um novo mundo.

Hoje a Música, amanhã o mundo!

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Diz o psicólogo Adrian North que a omnipresença do formato mp3 está a minar os laços emocionais que nos ligam à música.
“No sec. XIX, a música era vista como um tesouro precioso, com poderes fundamentais e quase místicos de comunicação humana”, garante o cientista, depois de um estudo onde acompanhou 346 indivíduos no seu convívio diário com a arte de Orfeu. Hoje, criámos “uma geração de pessoas que não apreciam seriamente canções ou desempenhos musicais”.
Se a simples disponibilidade massificada de uma forma de arte basta para nos deixar apáticos e incapazes de avaliar a sua beleza ou complexidade, que maldades indizíveis nos terá já feito esta sociedade da comunicação? A primeira vítima a merecer sentidos obituários foi o Cinema: com a TV, os downloads e outras piratarias, também já perdeu valor, sendo por certo avaliada por muitos como mais uma mercadoria indiferenciada e desprovida de valor.
Agora, o que se seguirá? A poesia? A filosofia? O pensamento, tout court? Se calhar, e bem vistas as coisas, ainda alguém vai recensear a blogosfera como mais uma inimiga da inteligência: afinal, disponibilizar trabalho mental assim, para todos, de graça e sem mais aquelas, só pode vir a acabar mal.

E de vez em quando ele vinga-se

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Mais de 340 pessoas morreram hoje esmagadas pela multidão em Mina. No último dia da Hajj, a peregrinação que todos os muçulmanos saudáveis devem realizar pelo menos uma vez na vida.
Não é o primeiro ou sequer o mais sangrento incidente destes a ocorrer no que já é considerado o momento mais perigoso da peregrinação: o ritual de apedrejamento do diabo. Os participantes devem arremessar entre 49 e 70 pedras ao mafarrico, num espaço onde se acumulam dezenas de milhares de pessoas.
Ironia: não contentes em inventar divindades, tratamos de lhes dar oponentes e, a estes, oportunidades para nos massacrar.

Agit-prop em cheio no alvo

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Boas razões tem Jerónimo para não embarcar no ataque generalizado à imprensa que Soares lançou: é que a sua candidatura prefere atacar o mal na fonte. Assim, neste preciso momento dois esforçados militantes estão às portas do edifício do “Expresso” distribuindo com assinalável diligência (e cortesia, aliás) os seus folhetos. Se a próxima edição do semanário do tio Balsemão tiver como manchete qualquer coisa saída do Mais Livre, como “a cada dia Jerónimo avança!”, já sabem porquê.

“Munique”: a polémica e o disparate

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A bronca já dá que falar: o último filme de Steven Spielberg, o muito discutido “Munique”, parece condenado a não poder ganhar qualquer prémio nos Bafta Awards, atribuídos pela academia britãnica de artes cinematográficas. Imagine-se que os DVDs entregues aos membros da dita academia foram codificados para a região norte-americana, o que impede a sua leitura nos aparelhos especiais — destinados ao visionamento de material de cópia interdita — distribuídos no Reino Unido. Pois; parece episódio português.
O filme de Spielberg, com argumento do dramaturgo Tony Kushner (Angels in America) recapitula a missão de um esquadrão de assassinos da Mossad em busca dos terroristas palestinianos que em 1972 raptaram e mataram atletas olímpicos israelitas. E já foi acusado de aceitar como equivalentes os dois actos: o ataque e a subsequente vingança. A ver vamos; o que é mais do que os membros da Bafta podem dizer.

Em directo

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Imagem do Primeiro Concílio Aspirínico, que decorre a esta hora. Temas em franca e leal discussão: o Vindaloo é ou não descendente da vinha d’alhos? A “Margarida” será na realidade um heterónimo do João Pedro? O Valupi consegue levitar? O Nuno é mesmo um horrendo divisionista? O Zé Mário conseguirá cumprir as suas resoluções para 2006? E quem é que fez a foto acima, se o Júlio ficou em Beja?

Confirma-se o sacrilégio


Já houve mundos a acabar por menos: “Jobs unveiled the first Intel-based Mac, an updated iMac. The machine will come in the same sizes as its Power PC processors and will cost the same, but Jobs said it will be two to three times faster because it uses Intel’s dual-core Duo chip.” E lá entra o bicho maldito nas nossas lindas maçãs.
De seguida, porque não suporto ver uma tal imagem afixada aqui, podem ver o momento em que o CEO da Intel, num grotesco disfarce que denuncia a sua aliança com as forças do Mal, entrega o primeiro processador a Jobs. Bem; pelo menos não é um Pentium…

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Os Quadrados

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As cerradas fileiras do Quadrado começam a mostrar algumas rachas inconvenientes. Hoje mesmo, Inês Pedrosa desceu do seu elevado pedestal — onde voga a grandeza estelar do Bardo Alegre — e tratou de puxar as orelhitas a um colega infractor: “vejo-me obrigada a intervir de novo neste blog para chamar a atenção de outro dos seus autores – neste caso o Carlos Brito – e para dar testemunho público da minha discordância relativamente a alguns posts aqui publicados, atacando outras candidaturas (foi a de Francisco Louça mas até odia ser a de Cavaco Silva), que julgo não serem consentâneos com o carácter civicamente exemplar que queremos dar a esta candidatura.”
O visado, quiçá temendo a imposição de uma coima ou castigo mais cruel, como ser obrigado a ler algum livro da acusadora, teve este débil assomo de defesa: “talvez pudesse ter-me dito directamente a mim o comentário que escreveu mais acima, mas adiante: quero dizer-lhe que o meu intuito era apenas polemizar e nunca agredir”.
Aliás, os comentários deste blogue mereciam, sem mais acrescentos, ser coligidos numa antologia de prosa poético-política. Desde coisas que eu, ao que parece, lá escrevi sem por tal dar conta (estão explicadas as olheiras com que tenho acordado ultimamente), até tesouros como “Louçã e Alegre são farinha da mesma saca divisionista”, da nossa estimada Margarida (tamanha produtividade, repartida por tanta paragem, deve dar emprego a tempo inteiro) e “como é que pode ser de ‘esquerda’ um candidato como o Louçã que nem uma única vez usou as palavras Constituição ou Abril”. Sem esquecer, claro, o último episódio da saga Luís Maria: “EU É QUE SOU O VERDADEIRO LUÍS MARIA, TODOS OS OUTROS NÃO PASSAM DE IMITAÇÕES FÚTEIS. FASCISTAS! EU NÃO ME CALO! EU NÃO ME CALO! COMIGO NINGUÉM BRINCA! COMIGO NINGUÉM BRINCA!”

Reivindicar mortos?

Diz o Nuno que Alegre reivindicou o nome de Álvaro Cunhal. Depreende-se daqui que o candidato terá mencionado o falecido líder comunista como que invocando um possível apoio post mortem.
Pelo que ouvi e consigo agora ler, não estou a ver que este rapto seja assim tão óbvio: Alegre afirmou que “durante muitos anos ninguém foi tão livre como os homens que aqui estiveram presos, venho aqui buscar a inspiração da sua coragem, da sua determinação, do seu inconformismo e da sua rebeldia”. A propósito de Álvaro Cunhal “e de muitos outros que resistiram aos maus-tratos, às torturas, à violência e nunca se renderam”, deu destaque a um episódio específico: “evadindo-se do Forte de Peniche, infligiram ao fascismo uma estrondosa derrota”. Francamente, não leio aqui esse intento de “reivindicar” Cunhal “contra o partido que ele ajudou a construir”. Aliás, o contra-ataque de Alegre foi certeiro: “não há donos de personalidades históricas, mesmo que tenham sido secretários-gerais”.
Não está aqui em causa a óbvia mitomania de Alegre. Desde que li a sua “Arte de Marear”, palpita-me que ele tem grande dificuldade em distinguir a realidade das suas fantasias de glória pessoal. Quando ele diz que conheceu Guevara, não duvido que esteja mesmo a acreditar nisso; sempre que o ego incha sem tino, acaba por nos obstruir a vista do mundo.
E atenção, que Alegre já fez, sem margem para dúvidas, aquilo de que o Nuno o acusa, mas com outra vítima defunta. Sem qualquer amostra de pudor, garantiu ele ontem: “sei que o Salgueiro Maia gostaria de me ouvir dizer o que estou aqui a dizer”. Isto aproveitando-se do apoio e da presença da viúva do capitão de Abril. Vergonhoso.
Mal no meio desta história, fica também a reacção de Jerónimo Sousa. Dizer que Alegre já tinha “insultado” Cunhal, “por via do seu projecto” é um disparate que hoje prosseguiu: “Manuel Alegre falou tão mal de Álvaro Cunhal e do seu projecto que também não teve uma atitude decente”. Discordar veementemente de um “projecto” passa assim a ser um insulto pessoal.
Neste lapso estratégico, o candidato comunista deixou cair a máscara de avôzinho simpático — ainda que com umas ideias vagamente destrambelhadas — revelando pela primeira vez, mas com toda a clareza, as linhas duras do político sectário e intransigente.

Metamorfoses de Janeiro


Quem hoje em dia visite o conhecido Afixe leva com uma surpresa. No seu lugar está um blogue de novo nome — De Vagares — e com uma filosofia que não podia ser mais distinta da do frenético Afixe: poucos posts, todos bem matutados e delongadamente maturados. A coisa promete; pelo menos à vista é já bem agradável. Os nostálgicos do Afixe em estado de crisálida podem sempre voltar ao passado.
Esperemos para ver. E que metamorfose terá sofrido o imarcescível Monty desta vez?

As imagens assassinas

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Mário Soares sabe bem que vai perder estas eleições. Mais: deve desconfiar que se arrisca mesmo à derrota maior: ficar atrás de Manuel Alegre. À laia de primeiro discurso de admissão do descalabro, já suspira que entrou na luta “tarde demais”. Mas a culpa não poderia ser só dele, claro; a Imprensa continua por certo no seu diabólico “exercício de falta de independência e isenção absoluta que certas televisões e certos grupos económicos têm tido a propósito de um candidato que querem entronizar a Belém”. No sítio do costume, as “provas” amontoam-se: agora é o Expresso com uma foto desagradável de Soares na capa, sendo que no interior do mesmo jornal assistimos a um contraponto doloroso: “Cavaco Silva em todo o esplendor, Manuel Alegre vigoroso, Soares amparado a sair de uma carruagem”. É demasiado, conclui o Ivan, preferindo ignorar que a caixa mesmo ao lado dessa foto aleivosa nos anuncia que Soares tem demonstrado uma “energia estonteante e uma lucidez que parece reavivar-se em cada dia”.
Há dias, João Miguel Tavares recordou o episódio, hoje já disseminado por milhares de dowloads, em que Soares se confunde ao falar de Ribeiro e Castro, “numa atrapalhação mental tão grande que ao pé dela até a gafe do PIB empalidece. Pergunta: porque não passaram essas imagens mais vezes? Porque é que elas, como aconteceu com Guterres, não foram repetidas até à exaustão?”
Muito boa pergunta, com efeito. E a resposta é simples: a comunicação social continua a proteger Soares. Mas de forma diversa da do passado. Hoje em dia, protege-o de si mesmo, finge não reparar nas suas gaffes — ou menoriza-as — e olha para o outro lado quando os sinais de menor agilidade mental sobem ao palco. Em off, os jornalistas gozam o espectáculo e divulgam episódios cómicos pelos amigos; face à sua audiência, reprimem as histórias, omitem os pormenores, fazem de conta de que pouco se passou. Por isso o lapso de Guterres foi notícia, por isso o de Soares circula quase clandestino pela net. É que a idade de Mário Soares continua a ser o interdito absoluto de todos os comentários à campanha eleitoral; não devemos apontar muitos holofotes para um deslize pois tal pode ser visto como crueldade ou, pior ainda, como uma referência velada à idade avançada do candidato.
Aos soaristas, no entanto, esta cosmética por omissão já não basta. O que eles gostariam mesmo é de manter um filtro rosado permanente sobre o seu candidato: Soares surgiria sempre confiante na vitória, enérgico e a dispensar amparos, fluente, heróico e quase sobre-humano nas suas virtudes.
O pior é que as máquinas fotográficas continuam menos submissas a decoros, pudores e outras subjectividades. Dia após dia, elas teimam em dar-nos — com a anuência de editores implacáveis, é certo — o retrato de um ancião triste e consciente da aproximação de uma derrota anunciada.

Frei Espada vs. Elton John

João Carlos Espada continua a ser o comic relief que anima o leitor, cansado depois de passar os olhos pelos milhões de caracteres de mais uma edição do Expresso. Hoje, ele aproveita o seu cantinho para pregar contra o casamento entre homossexuais.
Eu até o entendo um pouco. Ver a sua adorada Albion tombar sob o assalto das tribos gays, carregadas de pó-de-arroz e sedentas de novos direitos, deve custar ao homem. Imaginar os corredores dos seus queridos clubs — onde ainda consegue cheirar a presença tímida do afável fantasma de Sir Karl — pejados de parzinhos de homens de mão dada ou de mulheres a lambiscarem-se… deve ser mesmo demais para uma alminha tão frágil e pequena.
Mas ele até se entreteve a congeminar uns argumentos para concluir que não existe qualquer discriminação no acesso exclusivo dos pares “normais” aos casamento. O primeiro é o do “proverbial slippery slope (declive escorregadio)”: se permitimos esta aberração, quem sabe o que virá aí a seguir? A poligamia? A poliandria? O incesto? Começaremos a testemunhar enlaces matrimoniais entre robustos agricultores beirões e voluptuosas vacas mertolengas? (Atenção, que só inventei a última hipótese.)
Eu, por acaso, sempre tive como certo que a culpa do alcoolismo recai sobre os ombros do primeiro fulano que se lembrou de beber água; depois, vieram logo o capilé, a cerveja, a aguardente e as cirroses. Não se está mesmo a ver?
Para Frei Espada, é a mesma coisa um par homossexual querer casar e não poder ou um homem ser impedido de desfilar numa passagem de lingerie feminina. Com efeito, outra aplicação do princípio do “proverbial slippery slope (declive escorregadio)” é que nunca deviam ter estendido a alfabetização aos tontos; estava-se mesmo a ver que ainda íamos dar com eles a encher páginas no Expresso.
Por fim, ele argumenta que o casamento, sendo uma convenção social, só poderá ser alterado com a conivência da maioria. É que “em democracia resta saber se a maioria considera ou não que o sexo dos parceiros é relevante para a definição do casamento perante a lei.” Olha… tinha eu ideia que é mesmo isso que se pretende: que os poderes da nossa democracia representativa tomem essa decisão. Mas parece-me excelente a ideia de ter a maioria no papel de guardiã dos direitos das minorias. Na realidade, julgo que os direitos dos judeus, na década de 40, estavam mesmo bem entregues ao arbítrio da populaça alemã; e que ninguém poderia decidir melhor qual o lugar dos negros americanos do que as lynching mobs do Alabama.
Cada vez que leio uma prosa deste senhor, até fico convencido que o João Pereira Coutinho é dono de opiniões ponderadas e civilizadas.

Um mistério a menos

Ao folhear as últimas páginas do Austerlitz deparei com pormenor insólito: uma assinatura a deslizar orgulhosamente sobre uma página que se esperava em branco. Primeiro, rebobinei de cabeça a compra daquele exemplar: como é que na Feira do Livro alguém conseguira profanar a minha compra? Depois, pensei que se tratava de um genial estratagema, prescrito pelo autor: que melhor forma de fechar este livro (sobre um homem que a páginas tantas descobre que o nome que sempre usara não é o seu) do que com um truque capaz de nos pôr a questionar o seu caminho até chegar às nossas mãos?
Vá lá que me lembrei de me informar com quem sabe destas coisas. Afinal, trata-se de uma mania de editor. O senhor da Teorema acha-se no direito de mandar imprimir a sua assinatura em obras alheias. Está bem. É capaz de ser coisa normal.

Eu até já vi uns filmes sobre essas coisas…

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Soares não está só, em termos de gaffes. No jantar de campanha de ontem, em Torres Vedras, um dos oradores saiu-se com esta funesta tirada: “Mário Soares tem uma pessoa dentro dele”.
Note-se que isto não foi um deslize de um espontâneo nervoso; José Augusto Carvalho já foi secretário de Estado da administração local. E estava a ler o brilhante (e assustador) discurso.

Cadáveres de crianças como arma de propaganda

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Henrique Raposo, à laia de balanço minimalista, descobriu o “facto revelador de 2005”. E tem a ver com o massacre que vitimou 31 crianças em Bagdade, em Julho passado. A história, como a conta ele, é simples e tem uma moral clara:
1- Um terrorista mata dezenas de crianças que recebiam doces das mãos de soldados americanos.
2- “Porém, na Europa, continua-se a usar os termos ‘insurgentes’ e ‘rebeldes’ para descrever estes actos terroristas”; “quando o relativismo reduz um massacre de crianças a uma ‘insurgência’, então, estamos mesmo no caminho escolhido pela brigada multiculturalista: destruição do Ocidente a partir do seu interior.”
3- Pegando de forma despropositada em Lévi-Strauss, HR denuncia que uns tais “marxistas culturalistas” (?) andam a disseminar a ideia de que é “preciso sentir vergonha por ser-se ocidental”.
4- Este ponto tem de ser transcrito por inteiro, para não perdermos uma só vírgula: “Por tudo isto, a culpa, segundo este culturalismo relativista, não é do terrorista que matou as crianças. É, isso sim, do soldado que, malvado e sem vergonha do seu chocolate ocidental, oferecia esse mesmo chocolate a um grupo de crianças. É mesmo preciso não ter vergonha nenhuma, de facto.”

Numa coisa ele tem razão: é preciso uma desvergonha total… para escrever esta prosa previsível, simplista, mal informada e mentirosa.
Comecemos pela tal Europa pusilânime e cúmplice dos assassinos de crianças. Indaguemos, por exemplo, o sinistro Libération que, segundo Helena Matos, é um bom exemplo do anti-semitismo e da cegueira que nos estropia o entendimento. Como descreveram eles este evento? “Massacre d’enfants à Bagdad”? Mau. E falaram ao menos de “insurgência”? Não. Pior: até dão voz a um reaccionário local que não teve pejo em afirmar “Ceux qui ont fait cela ne sont pas des résistants, ce sont des criminels qui tuent nos enfants”. Pouco depois, o diário de eleição dos tais “multiculturalistas” ainda descreveu o atentado em termos brutais, daqueles que raramente se lêem por cá: “Sur les lieux de l’attentat, gisaient des dizaines de paires de sandales baignant dans le sang, ainsi que des morceaux de chair et des bras démembrés.” Diria eu que nem com muito esforço se poderá ler aqui qualquer desculpabilização dos terroristas. Deve ser erro de paralaxe causado pelo meu “multiculturalismo”.

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“Please, Arik, not now!”

Este é um dos comentários que se podem ler na notícia do Haaretz que anuncia o grave AVC que Ariel Sharon sofreu. Mesmo depois de novas revelações no escândalo dos subornos, com a ameaça de danos severos a Sharon, o seu partido continuava em alta nas sondagens. Agora, com o Kadima ainda a meio do processo de nascimento, sem listas aprovadas, sem estrutura e sem capacidade para substituir Sharon, a confusão política promete imperar nos próximos tempos, em Israel. Para desespero do leitor do Haaretz e preocupação do resto do mundo.