Vivemos tempos estranhos. Parece ser mal visto pelos eleitores – todos, ricos e pobres – que se tenha compaixão e respeito pelos menos favorecidos, privilegiando-se o chicote das duplas punições para quem prevarica (ou entra ilegalmente num país). O humanismo como princípio de política não está a dar definitivamente. Nem aqui, nem na América, nem em Gaza, nem em Israel. Eleitoralmente, deixou de compensar.
Começando pela Câmara de Loures, eu própria estou inclinada a render-me ao não humanismo. Francamente não me choca que quem viva numa habitação social e por isso pague uma renda apenas simbólica veja essa benesse posta em causa a partir do momento em que decida queimar veículos de terceiros, atacar motoristas indefesos ou vandalizar as ruas só porque sim. Se essas pessoas têm filhos e mulher a viverem com eles, não seria melhor que pensassem nas consequências dos seus actos?
Muito bem, o tribunal decidirá das sanções a aplicar. Mas o agravamento da renda de casa para preços de mercado não deveria ser uma delas? Reparem que não estou aqui a advogar o despejo puro e simples. Apenas o fim de um privilégio que muitos não têm e que é perfeitamente legítimo perder, atendendo ao número de interessados em rendas sociais que suponho haver.
Assim, não duvido que, nas próximas autárquicas, o ou os partidos que defendam tais medidas restritivas tenham a aprovação da população – rica, pobre e vizinha – de Loures. Diria que é mais bem visto ser justo do que ser humanista.
E por falar em humanismo, durante anos e anos a Europa acolheu refugiados e emigrantes de todo o mundo, incluindo do Médio Oriente, na sequência de conflitos muitas vezes criados por outros, sem critério (sim, também porque eram necessários), confiando que o humanismo do acolhimento tornasse os acolhidos para sempre agradecidos e, com o tempo, integrados. Nem tudo correu de feição. Sobretudo com os do Médio Oriente. Até ao ponto em que é obrigada a reconhecer, infelizmente por força da extrema-direita racista e xenófoba por natureza, que esteve a importar conflitos religiosos há muito ultrapassados, mortos e enterrados e um conflito civilizacional com o islão, dado o número considerável de praticantes e fanáticos prontos a usar da violência que passaram a compor essas comunidades. Como se constata, qualquer agitação no Médio Oriente que seja sentida como ofensiva dos muçulmanos eriça automaticamente todos os que para aqui vieram, que automaticamente defendem as origens, por mais arcaicas e inaceitáveis que sejam nos dias de hoje e para a sociedade em que era suposto integrarem-se.
Penso que não é já possível não reconhecer a existência de um problema. Achar que são tudo boas pessoas (apesar das más que também há por cá) e que o islão não é já uma religião de conquista é cegueira, ingenuidade e humanismo a mais.
Também em relação à Rússia, a camaradagem com um facínora e sabotador está a sair-nos cara. Aqui a questão é bizarra, porque a extrema-direita, que berra contra os imigrantes, pretende instaurar nos países europeus um regime semelhante ao da Rússia, o que iria destruir a União Europeia. Putin tem aqui aliados. Talvez esta seja a única razão pela qual a extrema-direita ainda não tem facilidade em aceder ao poder. Mas demasiado humanismo pode facilitar as coisas. Se calhar, começar a praticar o não-humanismo contra os extremistas não humanistas não fosse má ideia.
Nos Estados Unidos – e caso não tenha havido fraude nas eleições, como Trump parece ter sugerido ao desincentivar publicamente os seus eleitores de votarem porque já tinha votos que chegassem – parece que o pessoal gosta é do chicote. Deportações de estrangeiros, perseguições a juízes, ocupação das instituições do Estado por fiéis ao líder, caça aos opositores, tudo isto foi prometido por Trump e apreciado pelos eleitores, incluindo familiares dos deportáveis. Humanismo? Para quê?
Tempos difíceis, estes. Está tudo em causa. Até a nossa vontade de não sermos violentos.