
O primeiro sinal de alarme, incomodativo, veio do BE. O Bloco tinha capital intelectual e espaço mediático para ser oposição. Mas não o conseguiu, porque não se muda de identidade como quem muda de votação; aí está o PCP para o provar à saciedade. Fica-se pelo folclore. O segundo sinal de perigo, dramático, veio do PSD. Barroso destruiu o PSD ao entregá-lo a Santana em vez de a Ferreira Leite. Com Marques Mendes, e sem chefe seguinte à vista, o PSD não existe, criando um pesado vazio de poder que é nefasto para a democracia. O terceiro sinal de desastre, trágico, vem agora dos críticos de opinião. O coro que tem tentado, em ondas sucessivas, macular a imagem de Sócrates, está finalmente afinado. Consideram que se pode estabelecer analogias entre os casos de merda que têm entretido abutres nos últimos 2 anos de Governo e aquilo que foi a inscrição do salazarismo na História de Portugal. Fosse eu patrão destes escrevinhadores, estavam todos despedidos. Alguns, sovados.
Quando se tem o topete de afirmar que Sócrates, seja de que forma for, está a reduzir a liberdade dos portugueses, há algo que imediatamente se torna óbvio: o autor da afirmação acaba de perder a credibilidade. É preciso já não ter a noção do que seja a responsabilidade (e o ridículo) para despejar nos meios de comunicação tamanha boçalidade. É preciso estar possuído por uma soberba que esmaga até o espólio político e cultural mais próximo, a nossa História recente de 30 anos. É preciso ignorar os fundamentos da democracia, estar tão envenenado pelo cinismo que se deixou de sentir qualquer pertença à comunidade — só restando as ligações ao ressentimento oriundo de uma megalomania atrofiada e atrofiante.
Esta semana foi fértil em exemplos de irresponsabilidade, até maldade, em políticos e publicistas, mas nenhum é mais revelador do que o processo disciplinar ao professor Fernando Charrua. Ainda sem se conhecerem os factos na origem do caso (que exibem um quadro de oportunismo e disfunções individuais), culpou-se Sócrates pela decisão de Margarida Moreira. Fantástica indução, a qual abole todos os critérios de sensatez e boa-fé. Como se fizesse sentido denunciar um monstro de manipulação e, em concomitância, atribuir-lhe um erro tão grosseiro — e tão prejudicial para o próprio intento tirânico — como esse de perseguir um professor por uma boca de corredor. Sinceramente, perdeu-se a vergonha de se passar por imbecil. Mais: tal postura é conforme ao desinteresse em falar dos verdadeiros tiranetes do País, aqueles que se passeiam noutros corredores bem mais silenciosos e recatados.
De maneiras que é isto: até os nossos críticos estão a precisar de reforma. Sócrates tem sido areia a mais para muita camioneta, e a maior parte deles nem nunca viu um tractor. Ainda estão agarrados à charrua, pensando sempre a direito, devagarinho.