Todos os artigos de Luis Rainha

O país paradoxal

Lido num jornal de distribuição gratuita (o Metro):

«A marca que mais cresceu em termos de vendas em Portugal foi a Maserati, com 11 carros vendidos entre Janeiro e Novembro, um aumento de mais de mil por cento face a 2004. Com subidas nas vendas estão também as marcas Bentley, Ferrari e Porsche.»

O fatal minuto final

Na declaração com que Cavaco Silva fechou o debate desta noite, dirigida aos eleitores indecisos, aconteceu um daqueles lapsos que nem a mais bem oleada campanha consegue evitar. De repente, Cavaco saiu-se com qualquer coisa como isto: «dirijo-me aos portugueses que ainda não decidiram votar em mim, provavelmente por terem a sua vida organizada e não se preocuparem com o futuro» — ideia reforçada, mais à frente, com o apelo para que esses eleitores ainda-não-convencidos-a-votar-em-Cavaco pensem nos filhos e no futuro desses filhos. Por uma vez, a essência do pensamento cavaquista, sempre tão blindado e escondido atrás de frases feitas, veio à superfície com uma nitidez assustadora. Os outros, os que não pensam votar nele, os que não viram a luz que o há-de conduzir a Belém, estão confortavelmente instalados na vida (presume-se) e não querem saber do futuro do país e da prole. Extraordinário.
Vindo de quem antevê o cenário de uma invasão de pelo menos dez milhões de imigrantes ou de quem considera que duas pessoas sérias e informadas têm que ter a mesma opinião sobre um mesmo assunto, a atoarda não espanta. Mas deve servir de reflexão justamente aos indecisos que Cavaco, desta forma canhestra, pretendia convencer.

O último debate*

Aconteceu o que se previa: Soares ao ataque, por vezes devastador, com a brutalidade e o desprendimento de quem não tem nada a perder; Cavaco à defesa, titubeante, nervosíssimo, a pedir aos jornalistas, com os olhos, o fim daquele martírio. Soares seguiu a estratégia do boxeur sabido, acumulando golpes e mais golpes nos pontos sensíveis do adversário. Foi para estúdio com um único objectivo: reduzir Cavaco à sua insignificância política de tecnocrata que governou «em tempo de vacas gordas». E conseguiu. Cavaco tartamudeou, encolheu-se, deu mostras de fraqueza e aflição. Quando Soares lembrou que a esfera de interesses do outro não vai além da Economia, ao mesmo tempo que o apelidava de economista apenas “razoável”, foi mortal. A partir daí, Cavaco repetiu as mesmas frases uma e outra vez («eu estou aqui para falar do futuro», «o dr. Soares ainda não defendeu as suas ideias», etc) e limitou-se a conter os estragos, sem luta, sem garra, sem capacidade de resistência à adversidade. O seu escudo, adivinha-se na pose e no estilo, é o falso unanimismo e a vantagem nas sondagens. Resta saber como se aguentará esse escudo nos 32 dias que ainda faltam para a verdade das urnas.
Resumindo (como fez o Luis): é evidente que a derrota expressiva de Cavaco, mesmo se apenas num debate televisivo, não deixa de ser recompensadora. Mas confesso que houve momentos em que desviei o olhar do ecrã. Não gosto, nunca gostei, de assistir a vitórias por KO.

* Último debate até 22 de Janeiro (porque é evidente que Cavaco não vai querer desgastar-se mais do que já se desgastou). Mas na segunda volta, para mal dos pecados dele, a estória vai ser outra.

Ipsis verbis

Subscrevo, uma a uma, as palavras de João Miguel Tavares, no DN de hoje, sobre o caso sórdido e trágico, para lá de todos os limites, da bebé que está em coma há vários dias devido aos maus tratos e abusos sexuais que lhe infligiram os próprios progenitores:

«Há uma névoa que nos impede sequer de compreender como é possível que um pai e uma mãe agridam e abusem sexualmente de uma filha de 50 dias até a deixarem em estado de coma, com convulsões, fracturas cranianas, lesões por todo o corpo e cega de um olho. O que aconteceu a Fátima Letícia não tem explicação – é um daqueles terríveis momentos em que a brutalidade do mal cai a pique sobre nós, atingindo aquilo que nos é mais sagrado e que temos por inviolável: o amor que une um pai e uma mãe a um filho.
Mas se o que aconteceu a Fátima Letícia não tem explicação, alguém deverá ser obrigado a explicar como é que um bebé de apenas 50 dias, e já com uma longa história de passagens pelo Hospital de Viseu com indícios de maus tratos, foi deixado junto dos seus pais por uma comissão de protecção de menores que existe precisamente para impedir que tal aconteça. O hospital detectou o risco, a comissão foi alertada, a criança foi confiada aos cuidados da avó. Só que – pequeno detalhe que parece ter escapado às autoridades – a avó e os pais viviam debaixo do mesmo tecto. Como é que ninguém reparou?
Tendo isto em conta, afirmar, num caso com tamanha gravidade, que “o sistema funcionou” e que “não houve negligência nem omissão de ninguém” – como garantiu há dois dias o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco – é uma atitude despudorada e absolutamente inadmissível. Não, o sistema não funcionou. Sim, alguém foi negligente. Sim, alguém omitiu. Sim, alguém se esforçou menos do que deveria. Nos últimos anos assistimos a um desfile imperdoável de casos de violência sobre crianças em famílias que estavam devidamente assinaladas pelas autoridades. Neste momento, apurar todas as responsabilidades e repensar todo o sistema de protecção de menores é o mínimo que o Estado português pode fazer. É o mínimo que devemos a um bebé a quem tudo foi tirado, aos 50 dias de vida.»

Dilema do quadrado

Experimentem lá jogar este jogo. Há um quadrado vermelho que tenta escapar incólume ao contacto com outras quatro figuras geométricas. Ou seja, o objectivo é não tocar e não ser tocado. Tarefa difícil, a exigir rapidez de movimentos e capacidade de fuga (o meu melhor score ficou-se pelos 15 segundos).
Como é óbvio, qualquer semelhança entre este passatempo algo básico e a candidatura de Manuel Alegre não passa de pura coincidência.

Rescaldo

Na SIC-Notícias, a inenarrável editora de política da estação e o seráfico Nuno Rogeiro analisam o debate. Resumo da coisa: elogios e mais elogios à «inteligência» de Cavaco, por se ter recusado a responder aos reptos e argumentos de Louçã. Referências às gaffes e inconsistências do candidato da direita: nenhuma.
Ou eu estou louco, ou eles estão cegos e surdos, ou simplesmente não assistimos ao mesmo debate.

O momento zen

Perto do fim, as mãos de Cavaco, visivelmente acossado, começaram a tremer. E os papéis que tinha sobre a mesa, até então impecavelmente alinhados e muito quietos, ameaçaram levantar voo. Num candidato tão mecânico, tão previsível, tão pré-programado, foi quase comovente ver uma centelha de humanidade naquelas folhas A4 rebeldes.
A esta hora, porém, os assessores cavaquistas já devem ter resolvido a inoportuna falha do sistema.

Algumas breves notas finais sobre o debate desta noite

Se ao intervalo já era possível detectar um claro ascendente de Louçã, que por várias vezes interpelou Cavaco a olhar para ele (assim contornando a rigidez do modelo destes debates e provocando no adversário uma sucessão de fugas atabalhoadas), na segunda parte o domínio acentuou-se. Sem ser excessivamente ríspido, radical ou agressivo (como contra Portas), Louçã foi encostando Cavaco à parede e terminou o debate em crescendo, enquanto o candidato da direita revelava, pela primeira vez nesta pré-campanha, sinais de desorientação e nervosismo.
Depois de todas as protecções, resguardos, filtros mediáticos e silêncios ostensivos, quando finalmente o obrigaram a falar e a dizer o que pensa sobre os temas mais importantes da vida política portuguesa actual (do desemprego ao desempenho do procurador-geral da República, dos défices acumulados ao futuro da Segurança Social, ou mesmo às questões “fracturantes”, como o casamento dos homossexuais e a posição em relação à guerra do Iraque), Cavaco foi vago, impreciso, dúbio e ainda mais redondo, em termos de retórica, do que Jorge Sampaio. Para quem anda a preparar esta candidatura há dez anos, ou perto disso, é pouco. É muito pouco. É surpreendentemente pouco.
Como se isto não bastasse, houve alguns momentos em que Cavaco meteu os pés pelas mãos:

– na discussão sobre o passado económico dos governos que chefiou, ao tentar omitir as suas responsabilidades (aliás nunca assumidas) no descalabro em que o país se encontra

– na gaffe, inadmissível num candidato que lidera as sondagens com tanto avanço, de ignorar os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social, discutidos há pouco tempo na Assembleia da República

– no patético exemplo que deu quando se discutia o problema da imigração, ao imaginar um cenário em que os imigrantes entrariam em tal catadupa que ultrapassariam o número dos cidadãos nascidos em Portugal («o momento de humor do debate», como logo comentou Francisco Louçã)

– e na forma como tentou explicar que esteve contra o modo como os americanos lidaram com a questão iraquiana, então defendida com unhas e dentes pelo seu delfim Durão Barroso, embora na prática nunca tenha assumido uma posição clara a esse respeito. Quando Louçã lhe atirou à cara que os grandes políticos vêem-se no modo como se comportam nos grandes momentos históricos, ficou-se. E depois, a fechar o debate, limitou-se a exibir um sorriso forçado e uma nota de optimismo bacoco, namorando pela enésima vez os jovens, os jovens, os jovens, ao melhor estilo IPJ.

Placard final (à la Luís Delgado): Louçã – 4; Cavaco – 0.

No intervalo do debate Louçã-Cavaco

Alguém devia explicar ao Prof. Cavaco Silva, conhecido por não perceber de literatura mas ser muito bom em números, que mil milhões só é um bilião nos Estados Unidos. Em Portugal, mil milhões são mil milhões. E é de Portugal que ele quer ser presidente.
Quanto ao debate, é bom constatar que nem todos os candidatos se ajoelham perante o putativo futuro inquilino do Palácio de Belém. Ao contrário de Alegre, Louçã tem atacado o seu adversário de todos os ângulos possíveis, desmontando o mito da prosperidade cavaquista, e está a vencer folgadamente um debate centrado (o que não deixa de ser irónico) naquele que é o ponto forte de Cavaco: a Economia.

45 minutes

De há uns tempos para cá, a SIC Notícias tem amputado, sem qualquer tipo de justificação, um dos melhores programas da sua grelha informativa: o mítico 60 Minutes. Não sei a que se deve o corte, mas o certo é que em vez de quatro excelentes reportagens, agora oferecem-nos apenas três excelentes reportagens. E o programa que conta os minutos fica, como dizer, assim para o coxo.
Se o problema é da SIC ou da CBS, a estação que produz estes conteúdos nos Estados Unidos da América, é-me indiferente. Num caso como no outro, parece-me que o Mário Crespo, tão propenso aos auto-elogios por apresentar aquela pérola, deve-nos uma explicaçãozinha.