Algumas breves notas finais sobre o debate desta noite

Se ao intervalo já era possível detectar um claro ascendente de Louçã, que por várias vezes interpelou Cavaco a olhar para ele (assim contornando a rigidez do modelo destes debates e provocando no adversário uma sucessão de fugas atabalhoadas), na segunda parte o domínio acentuou-se. Sem ser excessivamente ríspido, radical ou agressivo (como contra Portas), Louçã foi encostando Cavaco à parede e terminou o debate em crescendo, enquanto o candidato da direita revelava, pela primeira vez nesta pré-campanha, sinais de desorientação e nervosismo.
Depois de todas as protecções, resguardos, filtros mediáticos e silêncios ostensivos, quando finalmente o obrigaram a falar e a dizer o que pensa sobre os temas mais importantes da vida política portuguesa actual (do desemprego ao desempenho do procurador-geral da República, dos défices acumulados ao futuro da Segurança Social, ou mesmo às questões “fracturantes”, como o casamento dos homossexuais e a posição em relação à guerra do Iraque), Cavaco foi vago, impreciso, dúbio e ainda mais redondo, em termos de retórica, do que Jorge Sampaio. Para quem anda a preparar esta candidatura há dez anos, ou perto disso, é pouco. É muito pouco. É surpreendentemente pouco.
Como se isto não bastasse, houve alguns momentos em que Cavaco meteu os pés pelas mãos:

– na discussão sobre o passado económico dos governos que chefiou, ao tentar omitir as suas responsabilidades (aliás nunca assumidas) no descalabro em que o país se encontra

– na gaffe, inadmissível num candidato que lidera as sondagens com tanto avanço, de ignorar os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social, discutidos há pouco tempo na Assembleia da República

– no patético exemplo que deu quando se discutia o problema da imigração, ao imaginar um cenário em que os imigrantes entrariam em tal catadupa que ultrapassariam o número dos cidadãos nascidos em Portugal («o momento de humor do debate», como logo comentou Francisco Louçã)

– e na forma como tentou explicar que esteve contra o modo como os americanos lidaram com a questão iraquiana, então defendida com unhas e dentes pelo seu delfim Durão Barroso, embora na prática nunca tenha assumido uma posição clara a esse respeito. Quando Louçã lhe atirou à cara que os grandes políticos vêem-se no modo como se comportam nos grandes momentos históricos, ficou-se. E depois, a fechar o debate, limitou-se a exibir um sorriso forçado e uma nota de optimismo bacoco, namorando pela enésima vez os jovens, os jovens, os jovens, ao melhor estilo IPJ.

Placard final (à la Luís Delgado): Louçã – 4; Cavaco – 0.

8 thoughts on “Algumas breves notas finais sobre o debate desta noite”

  1. Ó Zé Mário: e ainda quando Louçã lhe jogou à cara que um elemento preponderante da sua Comissão de Honra defendeu a liberalização dos despedimentos. Portanto, 5 a zero.
    Cumprimentos do Helder.

  2. Do ponto de vista da estratégia da esquerda, Louçã cumpriu com brilho a sua função de ariete demolidor do candidato da direita. Fez o que se lhe pede — e fê-lo muto bem. Resta agora que Soares faça o mesmo e entregue os seus pontos ao candidato melhor colocado junto da opinião pública para enfrentar Cavaco.

  3. “Se entrassem emigrantes com se propõe, os nascidos em Portugal, os portuguese poderiam ficar em minoria” (Pois claro, se entrassem 12 milhões de emigrantes em Portugal era do caraças…)

    “A corrupção existe, porque segundo um relatório nós estamos lá mencionados” (Fogo!!! Então porque raio não se paga aos gajos que fazem esses relatórios para tirarem de lá o nome de Portugal??!)

    “A idade da reforma tem que aumentar porque a esperança de vida pode chegar aos 90 anos” (Temos de ter muito cuidado com isso da esperança de vida… se ela chegar so 100 anos vamos ter reformas aí aos 85 anos!!)

    “Em relação ao passado já fui julgado pelos portugueses” (E tu não aprendeste?!?)

    “Os cidadãos estão preocupados com a qualidade dos políticos, e o Presidente pode ter aqui um papel importante” (Exactamente!!)

    “Só imediatismo permite que nos digam tudo, mas a verdade é que só há mais emprego se houver mais produção” (Palavras sábias!!)

    “A minha candidatura é suprapartidária, não foi decidida por directórios políticos.” (Pai Natal: este ano quero um boneco do Nodi)

    Pérola das pérolas:

    “Sadam invadiu o Irão e o Iraque” (É uma mania que ele tem…. é como os chineses que invadem a China… e os Portugueses que invadem Portugal… é uma chatice!!)

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