O momento zen

Perto do fim, as mãos de Cavaco, visivelmente acossado, começaram a tremer. E os papéis que tinha sobre a mesa, até então impecavelmente alinhados e muito quietos, ameaçaram levantar voo. Num candidato tão mecânico, tão previsível, tão pré-programado, foi quase comovente ver uma centelha de humanidade naquelas folhas A4 rebeldes.
A esta hora, porém, os assessores cavaquistas já devem ter resolvido a inoportuna falha do sistema.

3 thoughts on “O momento zen”

  1. É preciso contextualizar: Cavaco é, apesar de tudo, um homem…(não será possível reduzir a forma da letra com que escrevemos determinadas palavras?)…sensato. Apresenta-se com uma roupagem sebastiânica regateada nalgum “souk” de Boliqueime assente num “halo académico” (??) em economia e finanças. Quer replicar a fórmula salazarenta de governação e aplicar uma geometria glaciar de défice zero para o Estado e de miséria infinita para as pessoas que o enchem. Do outro lado, temos, não um bodegueiro de província, mas sim um Economista que, mesmo não tendo caído nas graças dos psitacídeos do regime, tem uma estatura académica difícil de igualar cá no burgo (é favor fazer uma busca na Amazon antes de contra-argumentações estéreis). Cavaco sabe-o muito bem e, feliz ou infelizmente, a universidade funciona um bocado como a caserna: respeitinho pela hierarquia; e outro tanto como a igreja: genuflexão perante o pregador mais ilustre e ilustrado. No fundo, o bobo que quer ser rei entrou para o debate com pavor de que Louçã lhe fizesse o que ele fez ao iconográfico bolo-rei, ou seja, que o triturasse desalmadamente, regurgitando as migalhas soçobrantes. Daí a tremideira da manápula, não apenas “perto do fim”, mas sim durante todo o debate. A determinada altura, algures entre a chamada de atenção para a gaffe da segurança social e o escárnio perante a profética onda de imigração diluviana, julguei que Cavaco iria erguer as suas mãos trémulas para o céu, rogando o fim do suplício… Não o fez, mas as suas preces foram atendidas: sessenta minutos de provação para cinco anos de governação em cooperação estratégica com o desgoverno de Sócrates: alguém me dá a cicuta, por favor…

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