Todos os artigos de Luis Rainha

Diogo Freitas do Amaral

Tem as suas incoerências, ai pois tem. Tem as suas peças de teatro com cheiro a naftalina, ai pois tem. Tem o rosto associado, na memória dos gajos de esquerda como eu, a um certo modelo de casaco verde escuro assustador, ai pois tem. Tem aquela vozinha professoral particularmente irritante, ai pois tem. Tem uma certa arrogância intrínseca que a recente “deriva esquerdista” (tão verberada pela direita) não apagou, ai pois tem. Tem no currículo a mais ridícula nota alguma vez emitida por um ministério, desde que Mohammed Saeed al-Sahaf (o genial ministro da Informação de Saddam Hussein) foi inexplicavelmente afastado do cargo por essa força obscura chamada realidade, ai pois tem. Mas caramba, não se pode dizer mal de um homem que utiliza em 2006, ainda por cima com propriedade, a palavra topete, um dos mais preciosos e esquecidos substantivos da nossa língua.

Ah g’anda Regina

Na rubrica Selecção Nacional, do Público, fizeram a Regina Guimarães (apresentada como “escritora, professora universitária”) a seguinte pergunta: Neste momento, Portugal exporta calçado e têxteis, faz obras públicas e tem a AutoEuropa. Como quer que, na sua área, Portugal seja em 2026?
E a Regina Guimarães, mostrando que tem a língua solta (como prova o facto de ter sido letrista da banda Três Tristes Tigres), responde assim: «Começaria por dizer que não tenho área pessoal – como, cago, devaneio, durmo, sonho, suo e trabalho como quase toda a gente».
O resto do depoimento é, digamos assim, relativamente normal. Mas esta frase tem muito daquele desassombro de que andamos precisados como de pão para a boca.

Secretarias de Estado para todos, já!

Muito se tem dito e escrito sobre o último faux pas de Cavaco Silva: a ideia de sugerir ao Governo a criação de «uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todas as empresas estrangeiras e, de vez em quando, falar com cada uma delas para indagar sobre problemas com que se defrontem». Ao contrário do que se escreveu no Aspirina, e sobretudo aqui, eu até concordo com a proposta cavaquista. E a medida, se querem que vos diga, só peca por defeito.
É que não são só as empresas estrangeiras que precisam de acompanhamento. Assim de repente, acho que se justifica a criação:

– de uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todos os futebolistas estrangeiros e, de vez em quando, falar com cada um deles para indagar sobre problemas com que se defrontem [pensem no Liedson; lembrem-se do que aconteceu ao Pinilla]

– de uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todas as raparigas estrangeiras que se despem em clubes nocturnos e, de vez em quando, falar com cada uma delas para indagar sobre problemas com que se defrontem [a renda em atraso da Irina; os imbróglios da Marilene, às voltas com a burocracia do SEF]

– de uma Secretaria de Estado para fazer a lista de todos os reformados estrangeiros que vivem no Algarve em resorts de luxo e, de vez em quando, falar com cada um deles para indagar sobre problemas com que se defrontem [a entorse no pulso de Bob, contraída numa cervejaria, a desmanchar lavagantes; a ruptura do stock de Chanel 5 em algumas lojas de Vilamoura]

São as que me ocorrem agora. Mas haverá decerto mais sectores profissionais a precisarem de atenção e desvelo governamental, tudo para que se mantenham por cá, tudo para que não se deslocalizem.

O futuro do futuro

Hoje, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, o “É a Cultura, Estúpido!” vai ensaiar um balanço cultural do ano de 2005, feito por Pedro Mexia e por este vosso escriba. Na rubrica “O que não ando a ler”, falar-se-á dos livros que não lemos em 2005 e dos que não tencionamos ler em 2006.
No tema do mês vamos tentar compreender se o futuro terá futuro quando o futuro for presente. Para discutir a questão, nos seus aspectos científicos, filosóficos, práticos ou nem por isso, estarão presentes na mesa Nuno Crato (matemático e divulgador de ciência) e João Barreiros (autor de Ficção Científica e especialista deste género literário). A conversa será moderada pelo Pedro Mexia, cabendo-me a função de “agente provocador”.
Relatos das outras sessões e tudo o mais que há para saber no blogue do EACE.