Todos os artigos de Aspirina B

Vampiro

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Na campanha de Manuel Alegre, as praças e as ruas foram substituídas pelos cemitérios. Não há morto famoso que possa descansar em sossego. Todos os finados arriscam-se a ser reivindicados pelo político-cantor. Depois de Álvaro Cunhal, Alegre atacou Sousa Franco. A viúva protestou e resfolegou, o candidato não se atemorizou: quem é a viúva para reivindicar o marido, contra a vontade de Alegre? É óbvio que a viúva está imersa numa imensa conspiração para prejudicar a campanha do candidato “independente”. Sabe-se lá se a mulher viveu com Sousa Franco? Verdade, verdadinha, é que Alegre viveu com Cunhal!
A dúvida instala-se: o candidato faz campanha para ser eleito, ou para reescrever a história à medida da sua versão generosa? Um dia vamos descobrir que, para além do preâmbulo da Constituição, da acção de Che Guevara, da resistência anti-fascista, a roda e até o fogo foram descobertos por Manuel Alegre. Já a Biblia garantia que “a princípio era o verbo”, numa clara referência ao poeta.

Nota: mandei fazer para os meus amigos uma placa, em metal indestrutível, a dizer que independentemente das circunstâncias do nosso eventual falecimento não queremos o poeta no funeral, nem sequer uma aparelhagem sonora a debitar a “a trova do vento que passa”.
Por 10 euros pode levar a plaquinha. Infelizmente, isso não garante que não seja vítima de um elogio na imprensa, a exemplo do artigo que o poeta escreveu quando morreu Agostinho Neto, em que ficámos a saber como Neto admirava intensamente Alegre e que não havia no mundo pessoa que Neto achasse tão poderosamente inteligente e tão absolutamente decisiva no universo…

Trilogia do livrinho de Natal

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(Gravura de Raoul Haussmann)

Como todos os lares burgueses, recebemos este Natal o livro de Filomena Mónica, o terceiro volume da biografia de Cunhal (de Pacheco Pereira) e o romance de Philip Roth. Os dois primeiros estão lidos em velocidade, nos intervalos da campanha, o terceiro vai demorar mais algum tempo.
Sobre o em busca do tempo perdido da socióloga não me apetece falar. Emprestei-o à minha mãe que o está a apreciar. Sobre a obra do historiador-político, acho-a muito bem elaborada. Gosto deste volume de Pacheco Pereira, parece-me o mais conseguido dos três: o número de fontes citadas e o trabalho envolvido parece-me inteligente. Ao contrário do anterior volume, em que as páginas sobre “reorganização” afiguravam-se demasiado ligadas à entrevista feita pelo o autor a Vasco Carvalho, este parece-me muito bem argumentado. Não se pede a ninguém que não tenha ideias e preconceitos. Pacheco tem-nos aos molhos, mas isso não condena esta sua obra. Pacheco Pereira não fez disto um panfleto acéfalo, mas um investimento intelectual sério, que acessoriamente (não há bela sem senão) pode servir para branquear algumas das suas posições políticas mais primárias. Mas isso não determina, nem condena obrigatoriamente o livro.
Isaac Deutscher, com quem Pacheco foi erradamente comparado por Mário Soares, dizia que a história dos comunistas era demasiado importante para ser deixada apenas aos ex-comunistas e aos anti-comunistas, infelizmente parece ser este o destino de Portugal. O PCP é pouco inteligente nessa matéria: em vez de mostrar a grandeza daqueles que resistiram, imersos na vida real, assumindo erros e falando das questões mais polémicas, tem tendência de querer apagar tudo o que não coincide com a história dos santos. Ora os santos têm muito pouca piada, o valor de gente como Álvaro Cunhal foi a sua humanidade, a sua capacidade de transcender os erros e as fraquezas. Não se faz uma história politicamente séria, nem uma política com futuro, recorrendo a verdades instrumentais. As traições de Lindolfo, a presença de Francisco Martins Rodrigues na fuga de Peniche, o assassínio de Manuel Domingues, o “caso” Carolina Loff, fazem parte da história do PCP. Podem torná-la trágica e humana, mas não a fazem menos heróica.

Da raiva

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(Imagem gamada ao “Da Literatura”, o texto é só para justificar).

Falta raiva à política portuguesa. Estamos num país de falinhas mansas, em que todos aceitamos os pequenos insultos e as repetidas injustiças diárias, com um ar de destino complacente. Há anos que as nossas vidas pioram, e nós incorporamos o triste fado, como se de um caminho imutável se tratasse. Somos colaboracionistas do nosso próprio falhanço, da nossa total miséria, porque não conseguimos ter a coragem de dizer não.
Vivemos, independentemente do resultado destas eleições, em pleno rotativismo sovaquista (uma espécie de Sócrates com Cavaco). O país está na merda, mas os eleitores insistem em votar nos seus carrascos. Há quem garanta, como um aventurado apoiante de Cavaco, que Portugal está à beira do abismo e que o Professor é a nossa tábua de salvação. Resta saber o que faz uma tábua junto a um precipício: prancha de saltos?

A minha equipa de futebol

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No ISE, a minha equipa de futebol tinha o animado nome de “Tchernenko and the Coconuts”, conseguimos uma vez chegar às meias finais da taça de futebol da escola. Milagre ao nível da escola soviética, concorriamos com mais de 30 equipas e nós éramos um bando de coxos. Não foi nada mau!
É engraçado seguir as transferências de todos os atletas:
Guarda-redes: Miguel Portas (eurodeputado); defesas: eu e o Josue (economista na Sismet); ao meio-campo: Luís Carlos (grande gráfico), João Rosa (Banco de Portugal) e Paulo Madruga (Professor no ISE); ao ataque, o nosso ponta de lança: Sérgio Figueiredo (director do Jornal de Negócios).
Na altura, todos comunistas; hoje, só alguns. Como dizia o Guterres:”é a vida!”

Os novos cães de guarda

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Leio com espanto, como sempre acontece quando espreito as obras de João Carlos Espada, o anúncio da revista “Nova Cidadania”. A dita publicação, é, com a “Atlântico”, uma das duas revistas de ideias distribuídas e apoiadas pelo jornal “Público”, facto que expressa claramente a imensa pluralidade que grassa na cabeça de José Manuel Fernandes. Garante o anúncio: “6 anos politicamente incorrectos”. O meu comentário vai ater-se apenas a essa declaração, até porque, contrariamente à “Atlântico” que compro com alguma regularidade (revista a que o Rainha pediu emprego), só comprei uma vez a dita “Nova Cidadania”: não por razões políticas, mas por motivos estéticos. O grafismo desta publicação é uma clonagem, feita certamente por um designer maléfico, com vista à criação de um híbrido de uma revista da Coreia do Norte e de uma publicação de catequese.
Mas o que me interessa é o anúncio: “6 anos politicamente incorrectos”, quer dizer o quê?
– Opõem-se aos poderes estabelecidos? Estão contra os governos? Não têm lugar nas universidades? Contestam os banqueiros? Ameaçam a moral dominante? São perseguidos?
Nada disso! Limitam-se a ser uma espécie de “voz do dono”, ainda por cima querem silenciar outras vozes, garantindo que essas é que são politicamente correctas e hegemónicas. Olhando para a sociedade portuguesa: entre dinheiro, universidade e acesso a publicar a opinião, são os Espadas desta vida que são hegemonicamente ditatoriais.
O slogan mais conforme à “Nova Cidadania” seria: “6 anos a lamber botas”.

G’anda cena!

No Guardian estão ainda em exibição os resultados de uma interessante sondagem cinéfila: quais os momentos mais memoráveis do Cinema? Quais as imagens-chave que, ao longo dos tempos, foram ficando sedimentadas nos aluviões em technicolor da nossa memória?
A lista proposta arranca com o momento de revelação de “Os Suspeitos do Costume” e só pára pouco depois da “Música no Coração”. Pelo caminho, ficam algumas peças exóticas que talvez digam mais ao público britânico do que a nós.
Por falar nisso: quais seriam as vossas três primeiras escolhas?

Melhoras na Imprensa

O Diário de Notícias de hoje parece irreconhecível: está francamente melhor, tanto em termos gráficos como em conteúdo. Era muito bom que finalmente houvesse uma alternativa informativa ao Público. Vamos ver se a qualidade se mantém. Não resisto à tentação de passar um diálogo, recolhido pelo jornalista Pedro Correia, na campanha de Manuel Alegre:
” – Olha vamos aparecer na televisão logo à noite.
– Mas tu percebeste bem quem é o homem?
– Sei lá, é um político.
– É um ministro!
– Chama-se Jerónimo de Sousa, acho.
– E esse é ministro?
– Isso não interessa nada. O que interessa é que vamos aparecer na televisão.
– Eu queria aparecer na TVI. Porque dá os Morangos…

Já o Expresso está ligeiramente melhor: não vi a crónica da Bomba Inteligente, espero continuar a ser poupado.

Alegres mentiras

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Manuel Alegre tem uma concepção de si ligeiramente exagerada. Nas suas palavras, foi “a” voz, “o” fundador e o primeiro responsável da rádio “Voz da Liberdade”; garante ter convivido longamente com Che Guevara; “relembra” ter encabeçado e preparado audazes acções de luta armada e, por último, em resposta a Jerónimo de Sousa, afirma ter vivido com Álvaro Cunhal e poder reivindicar o nome do comunista, por ter conhecido Cunhal antes de Jerónimo.
Sejamos claros: Alegre só reivindica Cunhal porque ele está morto e não lhe pode responder. Acerca do resto, há muita gente viva para o corrigir, só não têm provavelmente vontade de perder tempo. Por isso, aqui ficam algumas “precisões” que Alegre necessita para reavivar a memória. Manuel Alegre participou na Rádio Voz da Liberdade, foi uma das suas, muitas, vozes, não foi fundador da emissora de Argel, nem sequer na Frente Patriótica de Libertação Nacional era o responsável da rádio; nunca encabeçou nenhuma acção armada e “conheceu” Che Guevara, entre croquetes a aperitivos, numa recepção na embaixada de Cuba em Argel. Sobre a sua longa convivência com Cunhal, o facto pode resumir-se ao seguinte: Alegre ficou largos meses na casa do PCP em Argel, onde vivia o responsável do PCP (Pedro Ramos de Almeida) e família, e que acolhia os dirigentes do PCP, quando de visita à capital argelina, mas isso não lhe dá o direito de “reivindicar” o dirigente do PCP contra o partido que ele ajudou a construir.

Cartinha de agradecimento

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Li com agrado que o presidente da Síria poderá ter que falar a uma instância internacional para se apurar o envolvimento do seu governo na eliminação física de políticos libaneses que se opõem ao domínio do seu país pela Síria.
Acho que é um bom começo, espero com impaciência a chegada de igual convocatória para o presidente Bush: por ter mandado assassinar algumas dezenas de milhar de pessoas, numa invasão sem mandato da ONU, e sobre pretextos confirmadamente falsos.
Tenho a certeza que só a confusão de cartas na época natalícia terá impedido o Sr. George W. Bush de ter recebido a justa missiva. Não acredito que isso do direito internacional, seja uma coisa para vencedores: uma espécie de “lei dos mais fortes” em papel timbrado. Acho que só com um grande cinismo é que é possível concordar com a afirmação de Kissinger de que o direito internacional só acontece quando as grandes potências estão interessadas que suceda.
Sobre a luta contra o terrorismo, eu sou um “Acidental”, acho que dezenas de civis palestinianos alegadamente mortos por bombas do exército israelita são completamente diferentes de dezenas de civis assassinados por um bárbaro bombista terrorista e suicida. Até as vítimas, com ajuda do Pacheco Pereira, sabem reconhecer a diferença: uns foram limpos por armas legítimas, pagas contra factura e o IVA de lei e outros foram assassinados por armas do mercado negro, que provavelmente escaparam aos negociantes oficiais.
Ninguém de boa fé poderá dizer que é a mesma coisa gente torturada por uma democracia e por uma ditadura: há obviamente choques eléctricos legítimos e outros que são bárbaros. Estou aliás convencido que se a energia eléctrica for fornecida pela Iberdrola, saber-se-á que se tratam de choques santos, ou não fosse a firma representada em Portugal por um “cardeal”.