Todos os artigos de Aspirina B

Nhurrice

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Não adianta mesmo tentar dizer a algumas almas que realidades situadas a milhares de quilómetros, factos que envolvem décadas de história e milhares de pessoas talvez não sejam fáceis de descrever com meia dúzia de palavras organizadas em slogans de efeito garantido e utilidade duvidosa.
Aparecerá sempre alguém de dedo acusador em riste reclamando o rápido retorno à segurança dos lugares-comuns, por norma com um reportório de graçolas à laia de acompanhamento. Desta vez, dizem-me que eu pareço acreditar que o Hamas é “uma IPSS no poder”, um bando de “filantropos”, portanto. Outra variante, menos chocarreira, postula que eu tratei de “perdoar”, através do “tom”, “uma organização terrorista por além de pôr bombas e matar muitas pessoas também ter creches e hospitais”. Ora esta intensão apenas vive em entrelinhas imaginárias: nunca me caberia “perdoar” coisa alguma. Tal como não me passaria pela cabeça culpar todo o Israel pelas mortes de civis que tem causado, em números desproporcionados, nos últimos anos.
Pois é. Não adiantou, como já se adivinhava, escrever que o Hamas “continua a manter uma ala de activos terroristas”; nem tentar explicar que não estamos em presença de uma estrutura monolítica mas sim de uma organização que por vezes hesita “entre dois pólos: a brutalidade pura e dura e a procura de soluções negociadas”.
“Ignorar que o Hamas é muito mais do que um grupo terrorista é simplesmente fechar os olhos à complexidade dos factos”, disse eu. Verdade, confirma quem prefere mesmo os chavões, as simplificações acéfalas. É que ler livros dá muito trabalho. E até assimilar umas parcas linhas de informação sobre a génese do Hamas, partindo do movimento de apoio aos refugiados Da’wah, é esforço excessivo para tão simples meninges. E, no entanto, bem explicadinha, a coisa até parece fácil de entender: o Hamas é um grupo terrorista. E é muito mais do que isso. Como iremos confirmar muito em breve.

Da história enquanto farsa

“-Peguem num exemplo histórico: o que distingue o fascismo português dos seus congéneres europeus? A priori, quase tudo os aproxima: contexto temporal, natureza de classe, até características precisas da ideologia e do funcionamento do Estado e do partido – o enquadramento das massas, o culto da personalidade, a militarização da vida social – you just name them. Mas como sempre, um olhar mais chegado à realidade observada permite descobrir diferenças significativas, nomeadamente as que resultam dos atavismos próprios às distintas variantes nacionais da espécie humana e que são aquelas em que eu me quero concentrar agora, por serem as mais ricas de ensinamentos e que maior valor explicativo possuem. Sem pretender de algum modo recuperar a memória do nosso fascismo, que foi justa e inapelavelmente condenado pela história, parece-me todavia evidente a sua benignidade relativamente a outras manifestações mais virulentas do género na Europa: tomem-se por termo de comparação o nazismo alemão com a sua demência genocida ou mesmo o franquismo espanhol com a sua sanguinolência incontinente e facilmente se entenderá o que pretendo afirmar. Coloca-se então a questão de saber porquê: Seremos nós melhores que os outros? Não, do ponto de vista moral nós somos tão maus quanto, porque em bom rigor tão mau é quem mata um como quem mata um milhão: o pequeno ou médio criminoso terá menos eficiência e menor notoriedade, concedo, mas uma dose de culpa igual à do grande. A razão é diferente: o que faz a nossa força (e nos torna menos maus que os outros, so to say) são justamente as nossas fraquezas, e o que nos safa é a nossa profunda e afinal tão estimável falta de convicção – o famoso “desinteresse” que Vaillant aqui descobriu na década de trinta e com o qual compôs, vinte anos depois, o seu Don Cesare. O “desinteresse”, como é sabido, é uma doença do sistema volitivo central que afecta a vontade e a crença e se exprime pela apatia e pelo cepticismo; entre nós, até as forças da repressão ele atacou. Pensem nas SS e na GNR, por exemplo: pensem primeiro em efebos correndo nus pelas florestas onde Armínio desbaratou as legiões de Augusto, à cata de fantasmas wagnerianos e de alguma paneleirice, e depois pensem nos gordos da GNR. (De novo a questão: serão estes melhores que aqueles? Não; os gordos eram igualmente perversos e até igualmente ridículos, apenas mais sornas e preferindo eventualmente cabeleireiras a rapazinhos). Ora enquanto o führerprinzip era um credo para ser levado a sério, e os nazis acreditavam mesmo nas parvoíces obscuras e complicadas que o Hitler inventou, com uma credulidade que fazia sorrir os seus homólogos nacionais, estes esforçavam-se apenas por viver “normalmente”, e o seu salazarismo não era mais do que uma mera conveniência, um expediente sem princípios elevados, e em última instância uma farsa; pois como disse a este propósito um erudito inglês, while some believed in the weirdest misteries, others believed in nothing but a succulent meal and a satisfying coïtus. Percebem?”

Bravo!

Trinta e um anos depois, com a esquerda dividida em cinco candidatos e com o seu próprio candidato caladinho que nem um rato, a direita lá ganhou umas presidenciais. Agora só precisam de desembalsamar o homem antes da cerimónia de posse.

RUI TAVARES

Sem emoções para os espanhóis

El País, 21.01.2006

“La larga campaña electoral (portuguesa) no ha sido nada vibrante, aunque tenía todos los ingredientes para serlo, ya que se enfrentaban dos de los pesos pesados de la política portuguesa de los últimos 30 años, Aníbal Cavaco Silva y Mario Soares. Los secundarios también eran interesantes, el representante del partido de izquierdas que más subió en las últimas legislativas, Francisco Loua (???); el secretario general del Partido Comunista que mejor resiste al paso del tiempo en la Unión Europea, Jerónimo de Sousa, y uno de los políticos más carismáticos de la historia de la democracia en Portugal, el poeta Manuel Alegre, que no cuenta con el apoyo de su partido.”

Meu Deus…

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Pela primeira vez desde o fim de Novembro, passei um dia sem pôr olhos em cima desta página. De regresso a Lisboa, já a meio da noite, ainda fui tentado por um reluzente quiosque de Internet numa estação de serviço toda modernaça. Mas resisti com galhardia; sempre me ensinaram que não devemos ceder aos nossos vícios em público. E em boa hora o fiz: não sei se conseguiria concentrar-me na restante jornada depois de confrontado com as dimensões da teofania que varreu este canto da blogosfera (sim, já reparei que os cantos das esferas são de topografia inconstante e traiçoeira).
Deus, pá, que sejas bem-vindo!