João Vacas continua a fazer de conta que não percebe onde é que meteu água. Mas eu volto a explicar: foi ao estender a todos os partidários do “Sim” uma declaração que, a corresponder ao que li, é profundamente infeliz: “para os defensores do SIM, o facto de criar uma criança sair mais caro que abortar é razão suficiente para liberalizar o aborto.”
Já está a ver a marosca? Apenas uma pessoa, o tal “cavalheiro careca, de barba e óculos” terá dito esse disparate. Não “os defensores do SIM” em geral, como lhe daria por certo jeito. Aposto que não gostaria de ler algo como “os defensores do NÃO defendem a castidade como único método anticoncepcional aceitável, publicam folhetos com fotos a escorrer sangue, mesmo que sejam de fetos com 24 semanas, mas não se coíbem de mandar as filhinhas para Londres quando o azar reprodutivo bate à porta.” No entanto, trata-se precisamente do seu método: tomar a parte idiota pelo todo, insultando de caminho todos os adversários que não foram tidos nem achados na tirada em apreço. Chama-se a essa técnica da erística “desonestidade intelectual”.
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Portuguese Ass Suckin’
O Nuno é que os topa bem. Desde o lançamento do Presto que não se via um glutãozinho tão aplicadinho na conversão de nódoas em brancura ilimitada. Qualquer sombra de suspeita lançada sobre o nosso brilhante, impoluto, genial, proactivo e presciente Governo é logo erradicada e apresentada ao papalvo como virtude óbvia e incontornável.
Os voos provavelmente carregados de clientes para umas sessõezitas de tortura só não são vigorosamente denunciados pelo MNE pois este, coitado, apesar de todos os seus cojones, não pode “menosprezar o impacto que isso teria nos tais acordos bilaterais” e a tonta da Ana Gomes é que anda a perturbar a corajosa, astuta e mui confidencial “manobra do governo português”.
A mensagem de Ano Novo de Cavaco é, afinal, um desbragado encómio à actividade de Sócrates, o glorioso timoneiro que já nos colocou no “caminho certo”.
A crise que assola a classe média afinal não existe. A prova? Há muita gente nos centros comerciais.
E por aí afora, num autêntico festival do mais refulgente e militante graxismo.
Este rapaz vai longe, sim senhor. Ainda não lhe arranjaram um emprego na Lusa ou coisa que o valha?
Rall rules!
A Wikipedia no seu melhor
“There is raely no need to talk about Phish becaus they are a sucky band who has no life. All they are is fat hippies who tihnk they live in the seventies. They probably jsut want to bring ack the peaceful hippy age which sucked cuse hippies suck. While you think they are making music they are actualy eating your babies and protesting about how the government is evil. PSHISH SUCKS there is realy no need to talk about phish because they happen to be the worst band that ever xisted.”
Belíssimo excerto da entrada sobre os Phish.
Something entirely different
Sabichões de teclado

Desconheço se o helicóptero de socorro poderia mesmo ter chegado mais depressa aos náufragos do “Luz do Sameiro”. Mas gostava de saber se os iluminados que interrogam agora os cadáveres sobre o paradeiro dos seus coletes salva-vidas alguma vez tiveram um vestido. Sobretudo enquanto tentavam trabalhar dentro de um barco minúsculo. Pois é.
State of Denial # Coreia do Norte


George W. pulled Bandar aside.
“Bandar, I guess you’re the best asshole who knows about the world. Explain to me one thing.”
“Governor, what is it?”
“Why should I care about North Korea?”
Algum Físico Nuclear na plateia?

Segundo Jeffrey Lewis, no blogue Arms Control Wonk, o teste nuclear Norte-Coreano não terá sido coisa impressionante. Nos comentários, há quem discorde e até aponte notícias que referem a eventualidade de um segundo teste em breve.
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Update
No New York Times: Blast may be only a partial success, experts say.
Michele Alliot-Marie (Ministra da Defesa da França): “it was an explosion with a force of about half a kiloton, which is not an extremely powerful explosion, or it shows that there could have been a failure.”
E o que vem a ser a diplomacia?
Why won’t the Bush administration talk bilaterally and substantively with NK, as the Brits (and eventually the US) did with Libya? Because the Bush administration sees diplomacy as something to be engaged in with another country as a reward for that country’s good behavior. They seem not to see diplomacy as a tool to be used with antagonistic countries or parties, that might bring about an improvement in the behaviour of such entities, and a resolution to the issues that trouble us. Thus we do not talk to Iran, Syria, Hizballah or North Korea. We only talk to our friends — a huge mistake.
Donald Gregg (National Security Advisor na Presidência de Reagan)
Quando o Direito se adapta às circunstâncias
What is the world to make of the fact that the United States relies on artifice and technicality to avoid the plain meaning and import of the Geneva Conventions, and therefore appears willing to countenance situations like this one?
Prosecutor: Did you know that what you were doing to the detainee would cause him severe physical pain?
Defendant: Yes sir.Prosecutor: Did you know it would permanently disfigure him?
Defendant: Yes.Prosecutor: Did you know it would prevent him from being able to walk?
Defendant: Yes.Prosecutor: And were you doing it for the purpose of obtaining information or a confession?
Defendant: Yes.Prosecutor: Isn’t that torture?
Defendant: No sir. Read the statute. I knew those harms would occur, but I did not specifically intend any of them. Causing those harms was not my conscious objective.
Prof. John Mikhail, no Georgetown Law Faculty Blog
Lendo a Liberalosfera nacional
Alguns tópicos de moda:
– Salazar, esse exótico discípulo do capitalismo, das sociedades urbanas e da rule of law;
– A Monarquia do Sr. D. Carlos e o parto terrorista da República;
– A vida antes da vida do feto;
– A escravatura do ponto de vista econométrico.
No princípio, aconteceu o liberalismo. Na verdade, foi inventado. Individualista. Progressista. Internacionalista, nacionalista quando convinha. Chegou cá atrasado e o engenho luso foi às compras, adaptou-o, fê-lo nosso à nossa maneira. Castiço. Composto. Liberal, mas… conservador. Eis o Liberal Português. É como aquele velho anúncio da rádio que falava dos dois pólos, o pólo norte e o pólo sul…depois havia o polilon. Por cá, do liberalismo sobra-nos o polilon. Com algum terylene.
Era uma vez no país dos checks and balances
Uma história “exemplar”
The lawsuit filed today alleges that Howards was arrested in retaliation for having exercised his First Amendment right of free speech, and that his arrest violated his Fourth Amendment protection against unlawful seizure.
O Novo Paradigma
Na New Yorker, Jane Mayer ensaia um relato perturbador acerca das mentes legais que, sob a liderança de David S. Addington, suportam Dick Cheney, uma equipa que parece revelar uma notória incapacidade para governar em democracia sob o incómodo dos tais “checks and balances”:
“Known as the New Paradigm, this strategy rests on a reading of the Constitution that few legal scholars share—namely, that the President, as Commander-in-Chief, has the authority to disregard virtually all previously known legal boundaries, if national security demands it. Under this framework, statutes prohibiting torture, secret detention, and warrantless surveillance have been set aside. A former high-ranking Administration lawyer who worked extensively on national-security issues said that the Administration’s legal positions were, to a remarkable degree, “all Addington.” Another lawyer, Richard L. Shiffrin, who until 2003 was the Pentagon’s deputy general counsel for intelligence, said that Addington was “an unopposable force.”
Pode o Direito ser a alternativa à cegueira de uma Guerra Perpétua?
Douglas Burgess, na Legal Affairs
TO UNDERSTAND THE POTENTIAL OF DEFINING TERRORISM as a species of piracy, consider the words of the 16th-century jurist Alberico Gentili’s De jure belli: “Pirates are common enemies, and they are attacked with impunity by all, because they are without the pale of the law. They are scorners of the law of nations; hence they find no protection in that law.” Gentili, and many people who came after him, recognized piracy as a threat, not merely to the state but to the idea of statehood itself. All states were equally obligated to stamp out this menace, whether or not they had been a victim of piracy. This was codified explicitly in the 1856 Declaration of Paris, and it has been reiterated as a guiding principle of piracy law ever since. Ironically, it is the very effectiveness of this criminalization that has marginalized piracy and made it seem an arcane and almost romantic offense. Pirates no longer terrorize the seas because a concerted effort among the European states in the 19th century almost eradicated them. It is just such a concerted effort that all states must now undertake against terrorists, until the crime of terrorism becomes as remote and obsolete as piracy.
But we are still very far from such recognition for the present war on terror. President Bush and others persist in depicting this new form of state vs. nonstate warfare in traditional terms, as with the president’s declaration of June 2, 2004, that “like the Second World War, our present conflict began with a ruthless surprise attack on the United States.” He went on: “We will not forget that treachery and we will accept nothing less than victory over the enemy.” What constitutes ultimate victory against an enemy that lacks territorial boundaries and governmental structures, in a war without fields of battle or codes of conduct? We can’t capture the enemy’s capital and hoist our flag in triumph. The possibility of perpetual embattlement looms before us.
If the war on terror becomes akin to war against the pirates, however, the situation would change. First, the crime of terrorism would be defined and proscribed internationally, and terrorists would be properly understood as enemies of all states. This legal status carries significant advantages, chief among them the possibility of universal jurisdiction. Terrorists, as hostis humani generis, could be captured wherever they were found, by anyone who found them. Pirates are currently the only form of criminals subject to this special jurisdiction.
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Motivos de orgulho
A nossa Vitriolica Webb foi seleccionada para os “blogs of note” do Blogger.
A alternativa Shakespeare
Eu até compreendo a raiva dos muçulmanos diante dos 12 cartoons injuriosos.
Mas näo compreendo, nem tolero, a sua resposta.
Bandeiras queimadas? Ataques a embaixadas? Embargos e ameaças de morte? Ódio generalizado ao ocidente, sem distinçöes? Eis a mais estúpida e apocalíptica das reacçöes, a meio caminho entre a loucura e a barbárie.
Se eu fosse um muçulmano indignado, deixava as pedras no chäo e citava Shakespeare.
Aquilo do Hamlet, sabem, sobre haver “algo de podre no reino da Dinamarca”?
Para além de ser mais elegante, era também mais verdadeiro. É que até pode haver algumas coisas “podres” lá para os lados de Copenhaga (os malfadados cartoons, por exemplo) mas o resto do país e os seus habitantes näo merecem levar por tabela.
Charada
Uma coisa que eu tenho que dizer, por causa das coisas
Infiltrações Acidentais
Anda pelas bandas do Acidental um interessante debate/arruaça sobre a árvore genealógica das alucinações esquerdistas e as suas possíveis ligações a Carl Schmitt ou a Adolf Hitler.
Mas não é isto o que me mais intriga neste blogue; nem escrevo estas linhas apenas para agradecer a simpática referência que o PPM fez ao nosso duro parto.
O que eu gostava mesmo que me explicassem é porque é que a cada vez que acedo ao Acidental, o meu iMac denuncia o carregamento de um ficheiro chamado “fuckfore.rm”. Será aquilo um sinistro dispositivo de spyware, ligado ao Echelon? Ou, ajuizando pelo nome do ficheiro, tratar-se-á antes de uma brava incursão pelos mais lucrativos e menos regulamentados domínios da pornografia online?
Perdeu-se na tradução
Porque será que o programa “Esquadrão G” inclui um especialista em “Lazer” e o original americano, “Queer Eye for the Straight Guy” fala de uma coisa chamada “Culture”?
Imagino o pessoal da programação a comentar esta adaptação:
— Cultura? Mas vocês estão malucos? Não sabem que o povo lê isso e começa logo a pensar em bailado, exposições e coisas ainda mais chatas, como livros?
Depois, malta desta anda pelos cafés a comentar que os americanos é que são uns palonços rústicos, incapazes de apontar no mapa a localização de Lisboa…
Geografias subjectivas

Com intervalo de dias, falei com dois conhecidos que estiveram há pouco tempo em Luanda. Estranhamente, os guiões das duas conversas seguiram por veredas opostas, rumo a duas cidades totalmente diversas.
Para um deles, Luanda é uma cidade maravilhosa e aberta, onde um europeu pode fazer o seu jogging matinal sem qualquer sobressalto, acarinhado pela hospitalidade de uma população que acorda agora de um longo pesadelo, de novo em paz com a vida. E Angola é uma espécie d El-Dorado, terra de oportunidades sem fim para qualquer alma empreendedora.
O outro dos meus conhecidos garantiu-me que Luanda continua a deslizar no pesadelo: violência sem tino pelas ruas, perigos vários a cada esquina, corrupção a proibir qualquer veleidade de fazer negócios sem um general local de permeio. Ele só sai do seu condomínio devidamente acompanhado, arriscando-se no exterior o menos possível.
Qual destas Luandas existirá mesmo? Porque não as duas? Ou mais ainda?
Se calhar, a cada grande cidade correspondem milhares e milhares de mapas diferentes. A geografia dos medos, afectos, recordações e desejos sobrepõe-se facilmente às minudências topográficas e sociológicas da realidade. Cada cidadão move-se por labirintos muito seus, obedecendo a itinerários intransmissíveis, evitando obstáculos que mais ninguém vê, demandando destinos que só a ele se revelam.
Para uns, o mapa da sua cidade estará para sempre pejado de avisos sobre monstros e perigos terríveis, para outros cada cruzamento liga jardins felizes, bairros solarengos, vizinhos amistosos. Podem até julgar que vivem perto uns dos outros; mas nunca se encontrarão em terreno comum. E não serão os alicerces mais importantes de uma cidade aqueles cavados nos territórios mentais dos seus habitantes?
O meu 25 de Novembro

Há 30 anos, eu tinha a idade que hoje o meu filho mais velho tem. Treze anos; o suficiente para então entender parte do que se passou, para me assustar com as notícias de combates, com o tremor dentro das vozes adultas que gaguejavam em surdina a temida “guerra civil”.
Mas de que me lembro mesmo, desse dia? De algumas imagens a preto-e-branco que desconfio ter surripiado bem depois à televisão, de bailados de helicópteros nos céus aflitos de Lisboa. Pouco mais. Estranho: nem como figurantes menores consigo extrair da memória as silhuetas dos meus pais nesse dia. Por certo que a minha mãe se preocupou, sem saber de mim; talvez o meu pai até tenha saído à minha procura. Terei levado uma descompostura aliviada no regresso? Não sei.
Agora, olho para o meu filho e tento adivinhar o que irá ele guardar, daqui a outros trinta anos, do 25 de Novembro de 2005, dia sem qualquer evento notável. Que fantasmas irrelevantes e puídos sobrarão dos meus abraços, das pequenas aventuras que hoje me parecem mais vitais que o bater do meu coração?
Eu, se o improvável acontecer, talvez venha a esforçar-me — em 2035 — por recordar que estranha deficiência da alma me levava a conceder tanta atenção e tão pouca confiança à memória.



