Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.
Creio que se impõem alguns esclarecimentos sobre a minha entrada, hoje e a más horas, no Aspirina B:
1) Eu sou mesmo o José Mário Silva, o verdadeiro, o ex-BdE ressacado e em busca de um equivalente HTML da metadona
2) Podem ficar descansados: o Luis Rainha não tem heterónimos líricos e minimalistas
3) Se é ele que assina estes meus primeiros posts, é porque… olhem, para ser sincero não faço a mínima ideia
4) Isto de um gajo não perceber patavina de informática tem o seu lado triste
5) Espero que a situação seja transitória
6) É que escrever disparates a solo ainda vá, mas implicar pessoas inocentes parece-me pouco ético
Nos tempos do saudoso Ruínas Circulares, por mais de uma vez disse para os meus botões (ou para o fecho éclair do blusão azul que comprei nos saldos, já não me lembro bem):
«Não quero morrer sem antes ter partilhado um mesmo blogue com o sacana deste JPC que, além de ser um borgesiano tripeiro e cabeludo, é bom nisto como o caraças, pá!»
Pronto. Já posso ser atropelado por um camião TIR da Ikea.
Depois de ler um post do troposférico e glauco 1bsK que elogia uma minha cabriolice textual, que metas poderão sobejar? Depois de assim alcançado, sem mérito nem denodo, o meu desejo último enquanto penetra da blogosfera, que demanda me poderá prender aqui, com mil raios?
Os motins em França podem bem ter sido coisa simples. Obra de miúdos divorciados da realidade por horas demais frente à Xbox. Quem sabe? Já há décadas foram armadas experiências nas quais alguns voluntários demoliam automóveis à marretada numa rua penumbrosa; não tardava até que inocentes transeuntes, atraídos pelo clamor da destruição e pela aparente impunidade, desatassem também a escaqueirar as pobres viaturas. A alcateia não precisa de fome nem de instinto; por vezes morde apenas porque sim. Quem sabe?
Ou talvez seja mesmo verdade que outro estudo, bem mais recente, tenha revelado que em 100 respostas a anúncios de emprego, 14 franceses com nomes árabes conseguem entrevistas, enquanto que citoyens de nomes puros, mas com as mesmíssimas qualificações, despertam o interesse de 75 empregadores.
Não vos parece rastilho suficiente para todos os ódios, para incêndios mil? Claro que não. A resposta não está no racismo encapotado, mas sim na inadmissível cobardia, no suicida laxismo de quem recebe e acarinha malta apenas interessada em drogas, Islão e subsídios de desemprego: o terrível “multiculturalismo” é que tem mesmo a culpa. O mal não está em recusarem-lhes emprego; está em não os obrigarem a uma integração perfeita — escondendo, se preciso for, apelidos exóticos e peles pouco francesas (seguindo a prudente receita de um emigrante português, entrevistado há dias pela SIC, que não permitiu que a filha meio argelina herdasse qualquer nome da sua mãe).
Olhem que há gente que acredita nisto. Talvez a mesma gente que aplaude como profeta um analista que ainda há um ano nos garantia que “à sombra do multiculturalismo, discute-se seriamente hoje em dia em França a possibilidade de ser introduzida no ordenamento jurídico nacional a lapidação para certos crimes, embora restrita à comunidade muçulmana”. A atmosfera em Urano aparenta ser algo intoxicante. Ou talvez seja apenas mais um caso de dedicação excessiva a jogos de computador, daqueles que nos deixam incapazes de distinguir ficção e realidade…
Pego no “Expresso” e a namorada irrompe furibunda pela sala adentro:
— Mas já estás a ler o jornal? E o jantar, quem é que o faz?
Resposta honesta e apaziguadora:
— Não o estou a ler, amor meu. Estou só a espreitar as partes mais cómicas à procura de inspiração para um postzito. E sabes bem o jeito que o Espada e o Saraiva dão…
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