Arquivo da Categoria: João Pedro da Costa

Colocar um aquecedor debaixo da minha secretária é, para já, a melhor ideia que tive em 2008 (mas ainda estamos em Janeiro, né)

Para variar, mais três propostas videomusicais. A primeira, «Be Good or Be Gone» de Fionn Regan (algures entre Nick Drake e Donovan) prova, apesar da beleza dos cenários, que as possibilidades de um videoclipe vão muito para além da imagem. A segunda, «Sun Lips» dos Black Moth Super Rainbow (para fãs dos Mercury Rev, Flaming Lips e Air) é um valosíssimo e hilariante exemplar de uma espécie em vias de extinção: o vídeo narrativo. Finalmente, a última proposta é tudo isto e muito mais: «Jesus Saves, I Spend» de St. Vincent (a minha grande descoberta musical de 2007) é das coisas mais originais e subtilmente sarcásticas que tive o prazer de conhecer nos últimos tempos: não se deixem enganar, aquilo é puro veneno.

Procura-se post

O sempre atento João Pedro da Costa faz, no nosso Aspirina B, uma observação devastadora. Esta.

Há uns valentes meses atrás (adenda: no dia 26 de Junho de 2005, segundo um não menos atento comentador), o Eduardo Pitta escreveu um post muito engraçado sobre o poeta (e meu amigo) Daniel Jonas. Tudo a propósito da edição, pela Cotovia, do livro de poemas Os Fantasmas Inquilinos. No dito post, o Eduardo Pitta lamentava, de forma muito engraçada, a ausência, no livro, de qualquer informação biográfica desse poeta «desconhecido» que teve a suposta honra de ver uma obra sua publicada na prestigiada colecção de poesia da Cotovia (isto é, de facto, mesmo super engraçado, porque toda a gente sabe que a poesia, e sobretudo a contemporânea, é simplesmente ilegível sem qualquer informação biográfica do respectivo autor). O post, que, repito, era mesmo muito mas muito engraçado, terminava com o resultado pictórico de uma pesquisa Daniel+Jonas no Google: uma fotografia janota de um simpático e homónimo cozinheiro.

Ora, entretanto, o post desapareceu. O que é uma pena, porque, de facto, o post era, como já o disse aqui algumas vezes, mas não custa nada repeti-lo, muito mas mesmo muito engraçado. Mas talvez mais engraçado ainda seja o facto de, nesse mesmo entretanto, o Daniel Jonas ter traduzido e anotado para a Cotovia o Paradise Lost de Milton, recebido inúmeros elogios (como este) pelo livro que serviu de mote ao post muito mas mesmo muito engraçado do Eduardo Pitta e publicado mais um belo e arrojado livro de poesia pela Cotovia (Sonótono), o que me leva a supor que, talvez, ele tenha deixado de ser «desconhecido», segundo os padrões do Eduardo Pitta. HTML volant, scripta manent, dirão alguns. É. E acrescento que, por vezes, esse voo é cirurgicamente assistido. Mas pode ser suspeita minha.

Like A Rolling Stone

Este ano, não vou maçar ninguém com listas dos vídeos musicais que mais fizeram vibrar a minha corda sensível em 2007, porque cheguei à conclusão que já falei aqui de quase todos eles. No entanto, gostaria de chamar a vossa atenção para aquele que considero, de longe, o mais belo videoclipe que alguma vez vi na minha vida. Foi produzido e realizado o ano passado por Koichiro Tsujikawa para o muito etéreo «Like Rolling Stone», um tema desta obra-prima de noise-pop que é Sensuous (2006) de Cornelius. Para além do enorme trabalho que terá estado por detrás da sua produção (aquilo é tudo stop-animation com uns muito subtis efeitos de chroma-key) e do facto do som e das imagens se fundirem num todo uno e indivisível, o que verdadeiramente me emociona ao ver este vídeo (e vocês nem sonham o quanto me custa confessar isto) é conseguir identificar naquela multidão de bonecos todas as pessoas que amei na minha vida. O meu pai, por exemplo, está lá com o seu inevitável fato azul e a sua mala de viagem, a gabardine preta por cima do braço e o chapéu todo estiloso que apenas conheço de fotografias antigas. É sempre bom matar saudades. Oxalá vos aconteça o mesmo.

Esqueçam lá a péssima resolução do You Tube, e vejam lá o meu pai e as pessoas que vos são queridas aqui (Quick Time).

Ticha, trate-me por Ticha

Ontem, para documentar a primeira visualização pública do É dreda ser Angolano, escrevi à pressão uma pequena (vá lá) rábula em que deslocava o protagonismo do documentário para… a ficha técnica. A ideia original era gravarmos isto em vídeo à entrada do São Jorge, logo a seguir à projecção. No entanto, a forma calorosa como as cerca de 100 pessoas que assistiram ao visionamento receberam o documentário impossibilitou a filmagem da coisa (o documentário vai entrar agora em fase de pós-produção para os retoques finais de imagem e sonoplastia). Como não sei quando irei convencer o Pedro Costa da Fazuma a gravar este mambo tipo reportagem-entrevista, deixo aqui o guião em bruto. A ideia original era bem gira e surgiu durante uma conversa entre mim, o Pedro Costa e a Carolina Bernardo. Se não gostarem da resultado final, a culpa é, naturalmente, deste vosso escriba.

Continuar a lerTicha, trate-me por Ticha

É dreda ser Angolano

É só para avisar a malta que se interessa por essas coisas (há gajos para tudo, né) que amanhã, 6.ª-feira, às 20h, no âmbito da extensão VIMUS do Festival Cosmopolis, o Cinema São Jorge irá ser o palco da primeira visualização pública de É dreda ser Angolano, um mambo tipo documentário inspirado nessa obra-prima da música urbana lusófona que é Ngonguenhação do Conjunto Ngonguenha. Tudo muito humildemente produzido e enrolado pela Rádio Fazuma. Graças ao gentil convite do Pedro Costa (que, a par do Luaty da Silva, é o verdadeiro mentor deste projecto), tive o privilégio de colaborar na feitura do documentário e, se tal não colocasse em cheque a minha lendária modéstia, diria que o resultado de quase dois anos de trabalho é absolutamente avassalador.

Até lá, fiquem com o videoclipe do tema «É dreda ser Angolano» do Conjunto Ngonguenha, que funciona como um mambo tipo trailer do mambo tipo documentário. Apareçam: verão que não se irão arrepender. Ah: e se houver um gajo a manifestar-se de forma histérica durante a projecção, já sabem que sou eu.

Olha que giro: «Tags (separate multiple tags with commas: cats, pet food, dogs)»

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A melhor coisa do mundo é, obviamente, a Roísin Murphy. Sempre me pareceu que a vocalista dos Moloko tinha um superavit de carisma e talento que não era compatível com o facto de se apresentar ao mundo sob o nome de uma dupla. Por isso, foi com grande alegria que, dois anos após o excelente Ruby Blue, acabo de ouvir finalmente o não menos admirável Overpowered. O novo vídeo da menina foi realizado pelo grande Daniel Wolfe e é um digno sucessor desta pequena obra-prima. Tanto a música como o vídeo constituem uma reencarnação de uma das duplas mais geniais da década de 80: Michael Jackson e Quincy Jones. Ou não houvesse hoje em dia mais ninguém no mundo capaz de encher de forma tão sublime um videoclipe com dois passinhos de dança trajada com uma roupa tão catita (esta última frase é particularmente gay, eu sei, às vezes dá-me para isto, mas reparem agora como vou tentar disfarçar com a última frase deste post). Aquelas pernas bem que poderiam frequentar alguns cafés da cidade do Porto.

Aspirina Box

immmm.jpg Coisas novas na box. Em primeiro lugar, temos Emily Haines (uma das grandes surpresas do ano) com o hipnótico «Crow Surf On A Cliff», seguido da Robert Wyattíssima versão de «Hasta Siempre Comandante» (absolutamente inacreditável o que ele faz com este clássico), Radiohead com «Reckoner» (um dos grandes momentos do novo álbum, muito DJ Shadow), Animal Collective com «Reverend Green» (sem dúvida a melhor canção que ouvi este ano), Of Montreal com uma canção cheia de grrove que ouvi há algumas a fechar um episódio do Weeds, Jens Leckman com o genialmente retropiroso «Postacard To Nina» e Familjen com o muito dançante «Det Snurrar I Min Skalle» (lembram-se do vídeo?). Depois há duas viagens ao passado distante: Serge Gainsbourg & BB em «Bonnie & Clyde» e a mais bela canção que Bob Dylan escreveu na década de 80: «Blind Willie McTell». Termino à bruta com «Staturate» dos Chemical Brothers.

Panda Bear: «Comfy in Nautica»

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É oficial: nunca ouvi tanta música boa como em 2007. Para além dos novos discos de Robert Wyatt, Radiohead, Studio, Animal Collective, Of Montreal, LCD Soundsystem, The Field, Phay Grand (prometo falar desse génio do rap angolano em breve), Emily Haines, Blonde Redhead, Bat For Lashes, Deerhof, Jens Lekman, The National, The Bees e Wilco, há um disco que tem estado permanente a bombar no meu ipod: o inqualificável Person Pitch de Panda Pear, um dos vocalistas e percussionista dos já citados Animal Collective e que, pelos vistos, vive há já alguns anos em Lisboa. Tive a oportunidade de ouvir o rapaz tocar o disco ao vivo em Serralves e a experiência foi absolutamente magnífica e hilariante (Noah Lennox conseguiu despachar metade da assistência ao fim de poucos minutos de uma imparável sequência non-stop digna de fazer corar de vergonha qualquer soundsystem). Faltava, no entanto, um videoclipe que fosse capaz de transpor em imagens o universo musical do mais digno herdeiro do espírito de Syd Barrett e Brian Wilson. Após o psicadelismo descontrolado (e meio decepcionante) que foi o vídeo de «Bros», Patrick O’Dell conseguiu finalmente fazer justiça ao disco, via «Comfy in Nautica». A sério, ouçam e vejam esta maravilha de som e luz solar nas calmas e com o coração aberto. É, de longe, o mais belo e inspirado videoclipe que vi este ano.

1 + 1 = 3

mashpic.jpgUm mashup consiste, por antonomásia htmélica, na junção de duas canções aparentemente oriundas de universos musicais distintos numa só. Embora seja possível fazer remontar as raízes deste género bastardo da música pop à década de 50 (e ao conceito híbrido de «autor» da música folk), a verdade é que o formato atingiu o auge da sua popularidade com a consolidação da Internet entre os melómanos. Essa prática tem, nos últimos anos, dado origem não apenas a alguns memoráveis MP3 e bootlegs, caso do mítico Grey Album de Danger Mouse, mas também a algumas edições oficiais de grande sucesso como a de Collision Course dos Linkin’ Park com Jay Z. Apesar desta génese musical (em tudo comparável a alguns exercícios literários do Oulipo e aos famosos cut-ups de William Burroughs), a verdade é que o conceito se alargou para outro tipo de exercícios verdadeiramente fascinantes. Reza a lenda que, em 2004, o DJ inglês Mark Vidler, responsável por mais de uma centena de mashups através da sua Go Home Production, lembrou-se de cantar no chuveiro a letra de «Riders Of The Storm» dos Doors, enquanto ouvia na rádio «Rapture» dos Blondie (uma canção absolutamente revolucionária que ficou na história por ter sido, em 1981, o primeiro tema rap a chegar ao primeiro lugar da Billboard, cinco anos antes dos Run DMC terem reinventado Walk This Way dos Aerosmiths). Surpreso pela forma como as duas canções se encaixavam, Mark Vidler concretizou no mesmo dia «Rapture Riders» no PC e disponibilizou-o na Internet, obtendo de imediato um enorme sucesso. Quase dois anos depois, o genial «Rapture Riders» não somente foi editado oficialmente pela GHP, como a EMI o incluiu em Sound + Vision, a mais recente compilação de êxitos da Blondie. A feitura do vídeo foi entregue ao colectivo Addictive TV que pretendia executar um mashup visual dos dois telediscos originais. A maior dificuldade residiu no facto de os Doors nunca terem chegado a gravar qualquer vídeo para «Riders Of The Storm». O problema acabou por ser ultrapassado com a descoberta de imagens inéditas de Jim Morrison , o que, para além de constituir um atractivo extra para essa cambada de doentes que são os fãs dos Doors, possibilitou a abertura de um novo capítulo na história dos vídeos musicais: o do mashup music video.

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Xavier

Gostaria que ficasse registado nos anais que hoje, entre as 14 e as 17 horas do dia 27 de Outubro de 2007, esteve-se marabilhosamente bem na cidade do Porto. Para além da temperatura amena e da total ausência de vento, a luz possuiu aquela rara qualidade descrita em alguns versos do Eugénio de Andrade e inscrita em muitas páginas de Vergílio Ferreira. O HTML também serve para isso: para nos recordar as tardes felinas de um pretérito mais-que-perfeito.

Sempre quis escrever um post com um título assim

Como toda a gente sabe, não há pessoa mais indicada para escrever textos formais de agradecimento do que eu. Por isso, vou ser curto e delgado: muito obrigado Paulo Honey e muito obrigado Catarina Fields pelo apoio (eufemismo) que nos deram na migração do Aspirina para esta nova plataforma. Como é óbvio, nada disto seria possível sem vocês. E gostaria também de agradecer ao Fernando Venâncio que me vai fazer o favor de prometer nesta caixa de comentários nunca mais escrever uma entrada toda a negrito, pode ser? Menino lindo. Qualquer dia vou aí a Amesterdão fumar um ramalhete de charros.

O fim do Aspirina B

A única coisa que me consola com o fim do Aspirina B é o facto de me ver finalmente livre da Susana, do Valupi e do Fernando Venâncio (os outros, confesso, mereciam muito melhor pousio do que este). Só me resta desejar uma coisa: que este blogue não renasça fruto de alguma metempsicose traiçoeira. Um grande abraço a todos os comentadores. Os que me veneram, é claro. Os restantes que se fodam. Amém.

Eu gosto muito da REN e os ignorantes que se fodam – II

emilyhh.jpgA utilização de câmaras térmicas no universo dos vídeos musicais não é novidade nenhuma (assim, de repente, lembro-me deste, deste e deste), mas nenhum chega aos calcanhares da absoluta maravilha que Jaron Albertin realizou para o não menos admirável «Our Hell» de Emily Haines (vocalista dos Metric). Descubram lá a REN que há em cada um de nós. Podem ver o vídeo em alta-resolução aqui (Quick Time).