Arquivo da Categoria: José do Carmo Francisco

Vinte Linhas 546

Hoje há gralhas nas páginas do jornal Oje ou as ampolas

Na sala de espera de um Hospital ofereceram-me um jornal cujo título chama logo a atenção – OJE. Foi no passado dia 4-11-2010 de manhã e reparei logo na página 4. O título era apelativo: «Portugal paga juro mais alto por venda de dívida». No corpo da notícia pode ler-se: «O Estado português colocou 500 milhões de euros nos títulos de dívida pública com maturidade (sic) em Fevereiro de 2011, à taxa média de 1,818%, acima dos 1,595% da emissão de 06 (sic) de Outubro (sic), com a procura a superar a oferta em 2,2 vezes.» Mais à frente, na mesma notícia escreve-se de novo «com maturidade em Outubro de 2011» e, ainda noutro parágrafo, «Para a maturidade a 12 meses a procura também superou a oferta em 2,2 vezes». Vamos então ao caso. Vale a pena. Maturidade em bom português no velhinho dicionário de Moraes significa «madureza, idade adulta, estado dos frutos ou das sementes que chegaram ao grau de desenvolvimento que devem alcançar na planta mãe». Maturity date em bom inglês commercial significa «termination of the period than an obligation has to run». Está tudo isto muito bem explicadinho no Webster´s Seventh New Collegiate Dictionary da editora Merriam-Webster de Springfield – Massachusetts – USA.

Confundir Maturity com Maturidade é um erro crasso e não é preciso ter trabalhado na área do comércio internacional para o saber. Há quem lhe chame erro de simpatia mas para mim é ignorância. Faz lembrar o emigrante que dizia: «Ó primo em França trabalha-se muito e ganha-se bem mas o que estraga tudo são as ampolas!» Anos depois descobri que ele se referia a «les impôts». Ora bolas para as ampolas…

Bakerloo Line

Em Paddington e Charing Cross, estações
Nos lugares mais laterais da carruagem
Procurei como num puzzle de emoções
Mas a princesa não vinha nesta viagem

Procurava uma mulher de mãos de fada
Uma princesa esquecida do passado
As mãos traziam esses jornais de nada
O rosto voltava-se para o outro lado

Mais à frente no branco dos corredores
Um homem canta canções de agora
Tal como eram os antigos trovadores
Ele acaba de cantar e vai-se embora

Procurava uma mulher de mãos de fada
Não desisto de procurar o rosto altivo
Sou eu o trovador na minha estrada
E a princesa é a canção e o seu motivo

O corvo de Papillons Walk

Cai aqui uma chuva macia e certa
Na estrada do domingo de manhã.
Teimoso e obstinado, o corvo corre
Nos intervalos dos poucos automóveis.
Será o resto de um pão preso ao asfalto
Deixado cair por uma criança indolente.
Mal surge o som e a imagem na curva
De Morden Road, o corvo salta da rua.
Nada sabemos deste corvo capaz de viver
Dentro do tempo de duas guerras mundiais.
Em 1914 terá fugido ali para Greenwich
Matando a fome na cantina da Academia.
Em 1939 escondeu-se no Rio Quaggy
Onde não chegavam as bombas alemãs.

O corvo de Papillons Walk salta
Por cada automóvel que aqui passa.
Nada sabe da chuva desta manhã
Nem dos cânticos da igreja ao lado.
Sem idade nem memória, só futuro
Há nele uma pujante razão de ser.
Não se distrai com os esquilos
Que cruzam os jardins das moradias.
Não se concentra nas crianças da rua
Nas suas roupas, gritos e abóboras.
Não se envolve no trânsito da rua
E no som do guarda-lamas nas lombas.
Em Papillons Walk o corvo come
Um pão que não seca nem termina.

Luz, Restelo, Tapadinha, Alvalade – Uma certa memória de Lisboa

No dia 8 de Setembro de 1966 cheguei a Lisboa de comboio e recebi instruções precisas para sair na estação do Rego onde apanhei um táxi até às Amoreiras. Vinha de Vila Franca de Xira e no dia seguinte começava a trabalhar no Banco Português do Atlântico da Rua do Ouro. Logo nesse primeiro dia utilizei o 24 (Praça do Chile – Carmo), o mesmo eléctrico onde iria viajar no dia 12 de Setembro até à Praça do Chile para tirar a chapinha dos Tuberculosos, envelope essencial para arranjar emprego. Aos poucos fui conhecendo a cidade sempre através dos eléctricos. Havia o 2 para o Sporting, o 5 para o Benfica, o 16 para o Belenenses, o 18 para o Atlético e o 17 para o Oriental. O poema Luz, Restelo, Tapadinha, Alvalade regista essa realidade hoje com 44 anos de memória. Outro poema Balada da Morais Soares faz a cartografia dos carros com atrelado na Morais Soares a caminho da Escola Patrício Prazeres. O som da campainha do segundo carro não morreu ainda. Logo a seguir aos eléctricos descobri os elevadores. No de Santa Justa pagava 2 tostões. Ao lado desse elevador havia a casa do ensaio da Banda da Carris. Devo a esse pormenor o primeiro poema do meu livro Transporte Sentimental. Além das expedições futebolística anteriores não devo esquecer o estádio do Jamor e a célebre raquete do eléctrico 15 (Praça do Comércio – Estádio) Estádio onde assisti ao vivo à vitória do Celtic sobre o Milan por 2-1 em 1967 na final da Taça dos Campeões Europeus com o endiabrado Jimmy Johnstone a ganhar o definitivo cognome de Lisbon Lion. Para além do futebol havia a escola à noite. Fui aluno do Instituto Comercial mas antes estudei na Veiga Beirão e também na Patrício Prazeres.

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Balada do piloto da carreira da Índia

Nossa Senhora do Monte
Sobranceira a Velha Goa
Na linha do horizonte
Tudo recorda Lisboa

A capela do Rosário
Ainda hoje debruçada
No roteiro do estuário
Vê sombra da Armada

Em desenhos e relatos
Cartas náuticas, roteiros
Confusões e desacatos
Onde estão os pioneiros

No porto de Mormugão
Enseada de descanso
No período da monção
Este mar ficava manso

Da Terra Firme a Pangim
Da Ilha Grande a Bardês
Entre baixios sem fim
Um galeão português

Com saudade de Lisboa
Envolvido em maresia
Chegou à barra de Goa
Conforme a cartografia

Sobre «A cidade do Homem» de Amadeu Lopes Sabino

Nas suas robustas, desafiadoras e substanciais 555 páginas de texto corrido, este livro da Sextante Editora, sem deixar de ser uma biografia imaginada e um romance de ideias que nos dá a ver o Mundo pelo olhar do protagonista é, também e ao mesmo tempo, o resultado de uma paixão paralela entre a vida do autor do livro e a do seu herói.

Amadeu Lopes Sabino (n. 1943, Elvas) é condenado em 1972 por crimes contra a segurança do Estado e despachado para Penamacor. Desconfiados, os comandos da Companhia Disciplinar dão-lhe um lugar de faxina na secção de justiça mas, aos poucos, sabendo-o licenciado em Direito, logo o encarregam de despachar dezenas de processo esquecidos nas gavetas da secção. Perante camponeses analfabetos, simples marginais, malteses pobres, acusados sem provas nem indícios, o faxina exerceu de facto as funções de oficial de justiça e libertou presos dos cárceres, muitos deles por simples motivo de prazos excedidos. Foi um acto poético e passados 38 anos muitos desses elementos da Companhia Disciplinar ainda lhe estão gratos.

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Vinte Linhas 103

Um iate, um cais, um copo de gin

Voltei as costas ao bulício da parte velha da cidade, aos sacos que já cheiram a compras de Natal, à pressa das pessoas nas escadas rolantes dos armazéns e às iluminações da quadra que já estão nas ruas. Uma pequena viagem de Metropolitano é o suficiente para chegar ao Mar da Palha. Com a ponte Vasco da Gama à direita o Peter lá está à esquerda à minha espera. Um iate, um cais e um copo de gin – eis o lema que, desde sempre, fixei. Não tenho iate, cheguei aqui de Metro mas tenho à minha frente um cais e um copo de gin. Junte-se um livro e uma tosta feita com aquele pão tão especial e temos programa para uma tarde bem passada no Peter do Parque das Nações. Como já estamos no fim do Outono o dia começa a cair muito cedo. O cinzento vence o azul. Acendem-se as primeiras luzes do lado de lá. Sei muito bem que tenho à esquerda Alcochete e logo a seguir Samouco, Montijo, Barreiro e Seixal mas o meu espírito diz-me que ali em frente tenho na verdade a Ilha do Pico. As luzes do lado de lá podem ser da Madalena. Estou sozinho na mesa de quatro mas tenho à minha volta uma solidão povoada. Estão aqui comigo mesmo sem ninguém os ver a Eduardina, o Urbano Bettencourt, a Zezinha Lacerda, o Carlos Lobão, o Sidónio Bettencourt, o Emanuel Jorge Botelho, o Álamo Oliveira, o J.H. Santos Barros, o Emanuel Félix. E todos. E todas as vozes. E todos os livros. E todos os filmes a começar por «Gente feliz com lágrimas» de João de Melo e Zeca Medeiros. Sem um iate mas com um cais e um copo de gin eu posso convocar a paisagem e o povoamento dos Açores aqui no Parque das Nações. E ser feliz. Mesmo se for apenas nestes momentos de alegria breve numa tarde cor de cinza.

Memória justificativa dum título

Quem nas direcções trocadas me lembrou
Entre afazeres e normas e um governo
Talvez se tenha esquecido logo a seguir

A luz não chega a todos os recantos
Nem torna visíveis objectos e nomes
De quem desaparece noutra direcção

Aos sábados à tarde então passam jornais
Nos passeios eles estendem-se a dormir
Cansados de gritar a loucura do telex

Volto, sempre, à poesia como regulador
Escondo nas palavras o nome que procuro
Talvez brilho, talvez mãe – leme de luz

Vinte Linhas 545

Nos 70 anos de Pelé – mais uma vez o nojo do costume

Edson Arantes de Nascimento nasceu em 21-10-1940 e esta efeméride começa a ser festejada nos jornais. O Diário de Notícias de hoje (16-10-2010) recorda o rei Pelé mas da pior maneira: repetindo um erro cometido por jornalistas brasileiros ignorantes e complexados sobre o que se passou de facto em 1966 no Reino Unido. Na «caixa» intitulada «Uma carreira quase sempre em festa» surge a seguinte legenda: «A lesão no Mundial de 1966 no jogo com Portugal que deixou o Brasil fora da prova».

A verdade é outra: não foi Morais que arrumou Pelé em 19-7-1966 porque ele já estava «arrumado» desde o dia 12-7-1966. De facto o jogador Voutsov no jogo Brasil-Bulgária arrumou mesmo Pelé com uma entrada violenta. De tal modo foi a entrada violenta que no dia 15-7-1966 Pelé não alinhou no jogo com a Hungria sendo substituído pelo jogador Tostão. Em 19-7-1966 Pelé ainda não estava (nem podia estar) recuperado da cacetada de Voutsov mas o treinador brasileiro resolveu arriscar. Colocou Pelé no «onze» e fez alinhar um grupo de jogadores que não tinha jogado nos jogos anteriores: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silvas e Paraná. Foi um «tudo por tudo» que não resultou nem podia resultar pois estes jogadores nunca tinham jogado juntos no Mundial de 1966.

Fingir que Pelé não saiu lesionado no jogo com a Bulgária, fingir que Pelé não foi impedido de alinhar com a Hungria por lesão e afirmar que foi o jogo com Portugal que afastou o Brasil só por má-fé ou por ignorância. Basta! Não sabem? Agarrem-se aos livros! Já passaram 44 anos e está tudo explicado até em livros de autores brasileiros.

Sapataria

(à Teresa, à Clara, à Luísa)

Calçam repetidos números
Modelos vários, cores
Por entre vozes falsas

Não procuram – dizem
Dúvidas e notas contadas
Num balcão pequeno

Não explicam – pedem
O que não percebem
Na palavra presa

Calçam repetidas horas
Nos pés cansados
À porta mal fechada

Relógio parado, saudade
Abre a porta ao vento
No pó das caixas, no lugar

Um livro por semana 201

«A Cidade do Homem» de Amadeu Lopes Sabino

A Cidade é Elvas (soldados e padres) e o Homem é António Dinis (juiz auditor e poeta), o autor do célebre poema O Hissope. Amadeu Lopes Sabino (n.1943, Elvas) assina neste seu nono livro a biografia imaginada do poeta-magistrado (1731-1799). Um texto povoado de guerras e de querelas: os soldados de Elvas, mal pagos e mal alimentados, desertavam; os padres (e o povo) tinham dois partidos desde que o deão José Carlos se recusou a dar o hissope ao bispo D. Lourenço. A sombra de Sebastião José chega a Elvas: «O conde pode não ser um santo mas reforma as mentes deste reino de parasitas». Com o Reino de relações cortadas com a Santa Sé, já se espera uma Igreja Nacional. Mas nem tudo é linear e simples; os mais esclarecidos elvenses sabem que «as catedrais humanas assentavam nas divinas, como a Cidade do Homem tinha alicerces na Cidade de Deus». Neste contexto António Dinis discute com o escrivão e conclui: «A Justiça é a vontade do monarca». A condessa de Olivença, mesmo sabendo que a sociedade local é «jesuítica, provinciana e hipócrita», proclama: «A injustiça é uma mercadoria abundante, o mais comum de todos os bens à disposição dos seres humanos». O pano de fundo desta biografia é Elvas, o Alentejo, Lisboa, o Brasil e o Mundo mas este é também um romance de ideias. Um dos protagonistas afirma: «A Europa necessita de uma cadeia de comando. Em cada Estado, em cada família, em cada cidade, em cada regimento, em cada tribunal, deve haver um Pai, um Comandante…» E outro adverte: «Como é possível viver livremente da pena num país governado pela censura e pelo preconceito, e onde fidalgos e burgueses não lêem livros nem sequer os que compram ou encomendam ou pagam?». Um livro fascinante – da biografia dum poeta-magistrado se alcança a biografia do Portugal do século XVIII.

(Edição: Sextante Editora, Capa: Henrique Cayatte e Susana Cruz)

Vinte Linhas 544

EDP – de vão de escada em vão de escada até ao absurdo

Dirigi-me no passado dia 11-10-2010 aos balcões da EDP na loja do cidadão dos Restauradores. Levava na mão um cheque e um documento com o timbre da EDP com datas que são para cumprir. O pagamento estava marcado para 11-10-2010 e eu não queria falhar. Pois a menina do atendimento não me quis indicar uma das cinco mesas onde cinco solícitos empregados não tinham ninguém para atender e obrigou-me a ir pagar a verba em causa numa tabacaria que me indicou dentro do Metro dos Restauradores. Fiquei furioso e senti-me enganado: dirijo-me a um balcão de uma empresa com um cheque emitido em seu nome e com um documento a indicar uma data limite para o pagamento e sou obrigado (sem qualquer explicação) a dirigir-me a um outro espaço que se dedica a outro negócio e onde tive uma longa fila de espera – coisa que não acontecia no balcão da EDP na loja do cidadão. Sou levado a pensar que isto traz água no bico. Ao desviar os pagamentos do seu balcão, a EDP está a fazer com que alguém receba uma comissão de modo artificial. Faz-me lembrar um incidente com um banco comercial da Rua do Ouro que mandava alguns clientes no ano de 1966 para Algés. As letras entregues nesse balcão pagavam uma comissão extra porque Algés pertence a Oeiras – não Lisboa. Só que a Inspecção Geral de crédito e Seguros multou o dito banco comercial. E a EDP quem a multa por este abuso? É um abuso de posição dominante pois uma pessoa acaba por se dirigir à tal tabacaria porque se não o fizer incorre numa multa. E a EDP quem a multa? Afinal como será se a tabacaria delegar o negócio numa firma de vão de escada entre pedintes, saxofones velhos e pandeiretas?

Vinte Linhas 543

Dois mundos em confronto – passado e presente

Descobri na Livraria 1870 «Nos bastidores do jornalismo» de Rafael Ferreira, edição Romano Torres com data de 1945. O nasceu em 1865; tinha 80 anos quando o volume surgiu. Um dos temas é a comparação entre dois mundos: «Os rapazes de hoje são, na sua maioria, criaturas de muito mais juízo do que nós fomos, mas julgo que menos felizes do que nós. São pessoas práticas, muito pautadas, que gozam até metodicamente. Arrastam-se nos tangos e nós estonteávamo-nos nas valsas. As nossas ilusões, as nossas ingenuidades, até as nossas tolices ou loucuras, eram próprias da mocidade: E nós queríamos vive-la, para mais tarde não nos arrependermos de não termos sido novos. Mas não aconselho os de hoje a seguirem o nosso exemplo. Os tempos são outros, as responsabilidades muito maiores e cada vez mais se adivinha menos um futuro de tranquilidade e é preciso pensar em faze-lo melhor. Entendo que os velhos não têm o direito de embirrar com os novos, quando nestes reconhecem talento ou vontade de acertar e probidade na maneira de proceder. Em relação aos novos, sou de opinião de que não devem esquecer-se que nem todos os velhos dão maus exemplos e que alguns fornecem lições, senão de inteligência e saber, ao menos de atitudes morais e cumprimento de deveres que à mocidade convém aproveitar». De uma ideia curiosa («Se O Dia foi a minha instrução primária do jornalismo, O Século foi o meu liceu») evoca histórias e nomes: Raul Brandão, José Sarmento, João Correia de Oliveira, Francisco Tavares, Hermano Neves, Adriano Merea, Sousa Costa, Amadeu Cunha, António Guimarães, Câmara Manuel, Machado Correia, Júlio de Lacerda e outros.

Casa da Ilha

Minha casa, minha vida
Sendo antiga é moderna
Fica longe não esquecida
Como a água da cisterna

Bebida no púcaro de barro
Entre o curral e o palheiro
Antes de guardar o carro
Com as artes de garageiro

Casa de empena fechada
Duas lojas e um balcão
Quase lhe chega à entrada
O mar em rebentação

Forno exterior, chaminé
Desenho em proporção
Empurra a vida esta fé
Todo o dia em oração

Giesta em flor, rasteira
Cheira bem entre os muros
Socalcos da vida inteira
Onde os frutos são seguros

Casa entre mar e terra
Limites da geografia
Onde o vento faz a guerra
E é relógio todo o dia

Soneto pouco perfeito para Fernando Grade

É o soneto que mais nos aproxima – talvez.
Fiz hoje esta descoberta extraordinária
Enquanto me escondia atrás da secretária
A fazer as contas deste meu fim do mês.

Enquanto tu trazes os livros com ternura
Numa grande mala onde cabe quase tudo
Eu fico aqui sem dizer nada – quase mudo
Não sei se a fugir da rima se à procura.

No elevador da Glória sem lugares sentados
Há apenas lugares em pé na plataforma
Que é onde te fui encontrar no outro dia.

Daqui te mando dois abraços apertados
Do poeta-funcionário a pensar na reforma
Para poder andar na rua com a poesia.

Da poesia, da oração, do amor e da morte

Os Estados existem com seus rituais, suas fronteiras e seus hinos mas as pessoas, sejam essas pessoas cidadãos ou súbditos, não se regem pela mesma norma. Um exemplo: em Abril de 1897 disputou-se entre Madrid e Ávila o primeiro campeonato de Espanha de ciclismo de estrada, a prova que ficou conhecida como os «100 quilómetros de Ávila». Apesar de os favoritos serem oriundos de Réus, Valência e Torrijos, o vencedor foi José Bento Pessoa que veio com a sua bicicleta Raleigh duma cidade portuguesa chamada Figueira da Foz. Outro exemplo: já em 1829 o pintor Bernardo López Piquer tinha registado em óleo sobre tela a figura de Maria Isabel de Bragança, portuguesa, mulher de Fernando VII, grande aficionada das Belas Artes e fundadora do Museu do Prado.

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Alexandre Herculano – 200 anos depois um exemplo

«Estamos pobres, somos ignorantes, vivemos na corrupção e no aviltamento»

Alexandre Herculano (1810-1877) foi poeta, romancista, historiador, polemista e jornalista. Duzentos anos depois do seu nascimento, há sempre aspectos novos na personalidade do escritor-soldado: vejamos a sua ligação ao mutualismo e as respostas ao chamado questionário de Proust.

Sobre as Caixas Económicas, precursoras do Montepio Geral, escreveu este autor: «As caixas económicas são primeiro e agigantado passo para a solução do problema que as leis ainda não tentaram resolver; as caixas económicas são o contraste, a negação do patíbulo. Matam a perversão popular nas suas causas em vez de a punir nos seus efeitos. Criam o futuro para milhares de indivíduos que nunca imaginariam tê-lo, criando-lhes o gozo da propriedade, e nesta, um recurso para a hora da aflição e escassez, tão próxima entre as almas vulgares da hora do crime. O facto de não aparecer o nome de um único depositante das caixas económicas nas listas dos sentenciados em França e em Inglaterra é a consequência natural dos princípios em que esta instituição se estriba».

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Balada para uma loja na Rua da Madalena

Brinquedos de madeira
Cavalos de papelão
De repente é uma feira
Numa aldeia no Verão
Um eléctrico amarelo
Dá nas vistas nos postais
Mais do que loja, modelo
O balcão parece um cais
Olho a mala de viagem
Convite a uma excursão
Onde é grátis a portagem
Nas fronteiras da paixão
Escrevo no bloco-notas
Com os lápis da verdade
Passam por cima gaivotas
Notícias de tempestade
Mais do que loja, atitude
Sabonete perfumado
Contributo de saúde
Vai para todo o lado

Se pensa gastronomia
Em gerações populares
Sal e bolacha sadia
O azeite dos lagares
Os lenços de namorados
Poemas em despedida
Os livros encadernados
Tudo faz parte da vida
Na rua da Madalena
Portugal num fragmento
Há uma loja pequena
Nome Temperamento
Prateleiras infinitas
Caixas, frascos de cola
Malas garridas, bonitas
Ardósias da antiga escola
No mundo em mudança
Na confusão desta vida
Há sorrisos de criança
Na hora da despedida

Vinte Linhas 542

Ricardo Parreira e a OML em homenagem a Carlos Paredes

Na noite de 2-10-2010 no Largo de São Carlos aconteceu um concerto extraordinário de um músico que eu desconhecia em absoluto e que passo a considerar um intérprete absolutamente excepcional no difícil instrumento que é a guitarra portuguesa. Trata-se de Ricardo Parreira que, em parceria feliz com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direcção de Pedro Neves, homenageou Carlos Paredes – e com ele a cidade de Lisboa. O concerto arrancou com Saint-Saens, Frederico de Freitas e Darius Milhaud mas o ponto mais alto em termos de emoção foi a «suite» para Carlos Paredes. A orquestração é de Tiago Derriça.

A minha emoção advém do facto de ter conhecido Carlos Paredes a partir de 1980 (foi-me apresentado na FIL por José Gomes Ferreira e Wanda Ramos) e de me ter dado a ideia (talvez errada) que o notável intérprete Ricardo Parreira mantém a pose discreta, modesta e simples do grande músico que homenageou. Ao ouvir a música dos «Verdes anos» e de outros clássicos de Carlos Paredes, foi como se estivesse a ouvir de novo a música de seu pai Artur Paredes e de seu avô Gonçalo Paredes lá pelas bandas de Coimbra. Foi como se tivesse ouvido de novo as campainhas daqueles eléctricos da Estrada de Benfica (o 5 e o 1) onde morava o Carlos Paredes. Foi como se tivesse voltado de novo àquela noite na FIL na Junqueira em que Carlos Paredes, perante aplausos que não terminavam, se voltou para José Gomes Ferreira e para Wanda Ramos a dizer da sua estranheza pelo volume e duração dos aplausos. Simples, modesto e discreto como sempre e como na noite de Lisboa Ricardo Parreira tão bem o recordou.