Só para quem gosta de lutas na lama

Quando há sangue no ar, surge depressa a bicharada necrófaga. Desta vez, anda por aí a rabiar uma “senhora” que pretende equiparar um seu plágio descarado ao faux pas da Joana Amaral Dias. Claro que nada existe de similar entre os dois casos. A JAD teve um deslize, um momento menos feliz, c’est tout. A “Joana” do Semiramis foi apanhada a copiar parágrafos e parágrafos para depois se gabar da sua erudição. A melhor defesa que conseguiu então apresentar passava por negar a cópia de conteúdos de um site, admitindo no entanto o plágio de um ou mais livros. Como se tal fosse desculpa para o esbulho sem tino nem vergonha do trabalho alheio.
Agora, apanha boleia de um caso díspar para vomitar alguns insultos e apodar de “matilha de trogloditas” todos os que lhe toparam, e bem, a careca. Tentei responder no local próprio com um comentário. Mas começo a suspeitar que ele nunca irá ver a luz do dia. Assim, e por muito que me desagrade mexer nesta imundície, deixo a seguir o texto que deveria estar apenso ao delírio mitómano da plagiadora.

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O glauco regresso de uma palavra na moda

Há coisa de um ano, a palavra “glauco” merecia honras de litros e litros de tinta de jornal. Tudo e mais alguma coisa podia ser “glauco”. Na secção de crítica cinematográfica do Expresso, então, era um fartote: bastava aparecer por aí um filme assim um pouco soturno ou desprovido de números musicais para ser logo promovido à temida mas fina categoria de objecto “glauco”.
Com a repetição teimosa desta ocorrência lexical, fui começando a entender que este adjectivo era usado como sinónimo de “sombrio”, “opressor” ou coisa que o valha. O que me continua a parecer estranho, tendo em vista que ele significa, de acordo com este dicionário, tão somente “de cor verde-mar; esverdeado”.
Há pouco, verifiquei que não era o único a dar pelo estranho fenómeno. Mas andava já convencido que a moda passara. Até ler hoje uma crónica de Eduardo Prado Coelho, no Público, em que ele revive a sua mortificante experiência num hospital português. E, certo como o destino, lá vem o animalejo: “entram num espaço desconhecido, inóspito e glauco”. Por infeliz coincidência, li esta passagem no hospital Dona Estefânia. Ainda olhei à minha volta para ver se o verde fora adoptado como nova cor oficial dos estabelecimentos tutelados pelo Ministério da Saúde. Mas não. Continuam pouco glaucos, os nossos hospitais.

Fame: I wanna live forever

A única coisa que tenho contra as pessoas famosas é o facto de elas perturbarem o fluxo das conversas que tenho com os meus amigos. Quando estou a conduzir, por exemplo, é muito fácil um amigo encetar o seguinte diálogo:

– Olha, não é o João Pinto?
– Pois é. Ele agora está no Boavista.
– És parvo ou quê? Tou a falar do meu primo.

É que todos os meus amigos conhecem pessoas homónimas de gente famosa. Como é óbvio, já tomei consciência do facto e, por isso, pode acontecer eu ir na rua com alguém e

– Olha, João, vai ali a Armanda Passos.
– Ai é? A tua vizinha já voltou dos Estados Unidos?
– Vizinha? Então não vês que aquela é a pintora?

Não vejo não, porque sou péssimo fisionomista. Também já optei pelo silêncio, mas em vão.

– Olha, o Belmiro.
– …
– Tens alguma coisa contra o Belmiro?
– …
– Ouviste o que eu disse?
– (suspiro) Ouvi, claro. E não, não tenho nada contra o Belmiro: até o acho um belíssimo empresário.
– Ha-ha-ha, que piada. Vamos mas é atravessar a rua que parece mal não irmos cumprimentar o pai da tua namorada.

Todas as notícias de política nacional, por exemplo, têm para mim sempre duas leituras possíveis. «Sampaio recusa afastamento de Souto Moura» pode muito bem querer dizer que o padeiro do meu amigo Zé não vai despedir o empregado, facto que, de resto, me parece imensamente mais relevante que aquilo que a notícia quererá eventualmente dizer. Ou seja: se o mundo é pequeno, as pessoas famosas tornam o meu minúsculo e, já agora, ó Luís – posso saber como é que tu conheces a Joana Amaral, minha querida (e gira) contabilista?

A outra vítima dos kamikazes: a verdade

“O que faz um kamikaze na Palestina?” Esta pergunta pungente saiu da pena de Helena Matos. É mais uma das “Coisas que não entendi”. O gatilho para a prosa inflamada foi um título do Libération: “Un kamikaze tue un Israélien et deux autres Palestiniens”. Uma “pequena mas veemente introdução à questão palestiniana”, em suma.
Então vamos lá à explicação: “o que fazem os kamikazes no meio da Palestina? Nada. Simplesmente nada, porque os kamikazes pertenciam ao exército japonês durante a II Guerra Mundial. Mas indo buscar esta designação exótica acaba-se a evitar palavras incómodas como ‘terrorista’ ou ‘bombista’.”
Não ocorre à jornalista que nenhum dos “sinónimos” que ela propõe descreveria um bombista-suicida. Nem que o termo kamikaze talvez já não seja assim tão “exótico” para os leitores franceses. Mas essas coisas agora não interessam nada. Interessa mesmo é proclamar que, “habituada a viver da diabolização de Israel, sofrendo frequentemente dum forte anti-semitismo”, a imprensa europeia anda à nora com o que se passa por ali hoje em dia. Por isso, onde antes se liam exaltações com a Intifada, “não existe agora espaço para dar conta dos raptos de jornalistas e estrangeiros (…) na mesma Faixa de Gaza e na Cisjordânia.”
Chama-se a isto aldrabice pura. No próprio dia em que saiu o título que indignou Helena Matos, o mesmo Libé dava notícia que “Le processus électoral n’est pas seul pris en otage par les groupes armés, trois Britanniques ont encore été enlevés hier dans le sud de Gaza.” Deve dar muito trabalho ler um jornal por inteiro, suponho.
Hoje mesmo, surge por lá um balanço sombrio da situação na Palestina: “Les faits restent que c’est la première fois qu’une institution officielle des Nations unies a été prise pour cible par les miliciens de Gaza. Une évolution très préoccupante dans un contexte de chaos grandissant dans les territoires autonomes” ; “La sécurité palestinienne a fait preuve de son inefficacité abyssale à la faveur des cas d’enlèvement qui se sont multipliés depuis l’été.” Eis a preocupante cegueira de um jornal europeu enlouquecido pelo tal anti-semitismo.
Mas voltemos aos kamikazes: consultando um dicionário online de Francês, até descobrimos o termo por lá referenciado. Mas mais curioso é o exemplo escolhido para ilustrar o seu emprego: “Les Israéliens attaquent en kamikazes et sèment la mort, le désordre, la défaite, après avoir parcouru 400 kilomètres de désert et d’empoignade, sans sommeil depuis soixante-douze heures (J.-F. HELD ds Le Nouvel Observateur, 3 janv. 1968, p. 30, col. 2)”. Ironias do destino: há quase 40 anos, o tal termo “exótico” foi usado para descrever… o exército israelita. Suponho que a cronista também encontraria uma explicação adequada para tal; sobretudo uma que envolvesse anti-semitismo a rodos.

Uma coisa que Helena Matos não entende

No passado sábado, Helena Matos encerrou o ano no Público com a enumeração de algumas dúvidas prementes que a andam a angustiar.
Uma delas até é de cariz cultural, imagine-se. Com aquele “ar” matreiro de quem infiltra um fatal grão de areia na sinistra engrenagem do adversário, ela deixa-nos a questão venenosa: “resta-me uma dúvida incontornável: em que se distingue o gosto de Berardo do de Champalimaud?” Não se trata de uma mórbida fascinação com o estilo de vida dos ricos; tem sim tudo a ver com a recente decisão governamental de forçar o CCB a albergar a colecção do empresário madeirense. Continua o rosário de perplexidades: “o que já não entendo é que em relação à colecção Champalimaud se tenha usado como argumento o facto de esse acervo resultar do gosto pessoal do empresário para se justificar o desinteresse do Estado português por esta colecção. De que resultará a colecção Berardo?”
Eu explico-lhe em escassas palavrinhas: resulta não de um gosto pessoal mas sim de uma declarada intenção de criar um núcleo museológico capaz de nos dar uma perspectiva alargada de todo o modernismo do sec. XX, com particular ênfase no pós-guerra. Aliás, nem vejo como é que um gosto pessoal conseguiria ser de tal forma vasto que abarcasse as mais de 4.000 peças desta colecção. E, já agora, quem realmente enformou a génese da colecção foi Francisco Capelo; este, contando com os milhões de Berardo e com a depressão do mercado internacional de Arte, é que dirigiu as aquisições.
A colecção de António Champalimaud é mais simples em âmbito: resume-se às pinturas, mobiliário e porcelanas da sua antiga habitação. Ao que parece, ele gostava de se rodear de belos objectos. E tinha uma marcada preferência pelo rococó francês e por paisagens italianas. Mas, de acordo com Anísio Franco, do MNAA, ele sabia que tal nunca bastaria para dar origem a um museu e “tinha a consciência de que era simplesmente o recheio de uma casa rica onde as coisas eram boas e poderiam facilmente ser liquidadas”.
Como comparar o espólio de um milionário com bom-gosto a uma das maiores colecções privadas da Europa? Muito provavelmente, algumas das peças de Champalimaud seriam excelentes acrescentos para o Museu Gulbenkian, por exemplo. Mas com a colecção Berardo vamos ter em Lisboa um grande museu de Arte moderna; um pólo de educação para o nativo e de atracção para o turista. Algo que sempre nos faltou.
Claro que Helena Matos até devia saber disto. Mas dá sempre jeito ter estas “dúvidas incontornáveis” à mão para obscurecer as questões.

Eu “copy paste” me confesso (a imagem é gira, é pena não ter nada a ver)

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Quando trabalhava na revista Focus, o patrão Jacques Rodrigues decidia todas os conteúdos editoriais, tendo a certa altura mandado fazer uma capa que era igual à de uma revista Veja, saída há poucas semanas. Os rapazes da Sábado, atentos, descobriram e denunciaram o facto. A notícia terá chegado à própria publicação do outro lado do mundo, uma colega nossa, brasileira, que em tempos tinha trabalhado na Veja, recebeu um telefonema de “gozação” de um editor da dessa revista. Dizia ele, mais ou menos, o seguinte: “já sei que copiaram a nossa capa, fizeram muito bem, nós fartamo-nos de copiar as revistas dos Estados Unidos e outras, e sei que eles também copiam quase tudo. Quando descobrirem, o cara que inventou essas coisas, dêem-lhe os parabéns que a gente não lhe agradeceu, porque ainda não o conseguiu descobrir.”
Eu confesso, não vá o Luís Rainha descobrir, que nunca tive uma ideia original: as poucas que consegui, foi porque me enganei a copiar umas tantas letrinhas.
Irrita-me esta ideia de autoria. Sonho que um dia o projecto Xanadu esteja completo e se descubra que andamos todos, desde o início dos tempos, a copiarmo-nos todos.
Claro que o meu comentário é parcial: como eu gosto de ler a Joana Amaral Dias, desagrada-me esta polémica. Provavelmente se fosse sobre a Bomba Inteligente, eu nem ligava.

Adivinhem quem não gostou de ser apanhada

A Joana Amaral Dias deu pela adivinha por aqui postada. E, surpresa das surpresas, diz que não plagiou nada. Foi coisa bem mais simples: “fiz a minha súmula. O único pedaço que está ipsis verbis, questão que LR enfatiza de várias formas, é o bilhete que Cocteau escreveu o que, naturalmente, não pretendi alterar.”
Ora temos então que o texto a armar ao pingarelho cultural da Dr.ª Joana é apenas uma “súmula”. Pena foi que não nos tivesse de tal dado conta logo na altura, como é normal entre gente intelectualmente honesta.
E mais: quando escreveu “doze dias depois, Cocteau anuncia a colaboração de Picasso num ballet de Diaghilev, com música de Erik Satie. Assim foram para Roma, uns meses depois, e estrearam em Paris em Maio de 1917”, estará ela a fazer uma “súmula” ou uma tradução bem próxima do original que até admitiu ter lido? É que as diferenças são ínfimas: “only twelve days later, Cocteau announced that Picasso had agreed to collaborate on a new ballet for Diaghilev, Parade, with music by Erik Satie. It took them to Rome in February 1917, premiered in Paris that May”.
Mais: o tal “bilhete” surgiu directamente sacado à tradução brasileira incluindo expressões como “bati chapas” e até a introdução de Fernando Costa: “sobre o encontro, o autor das fotos escreveu no dia seguinte num bilhete para uma amiga”. E isto, será “súmula” ou copy/paste?
Ao espernear, JAD ainda me acusa de “cortar, através das reticências, partes do meu texto de forma a que batam mais ou menos certo com os excertos supostamente plagiados”. Imaginem a perfídia: cortei um texto mas descuidei-me e deixei bem clara a indicação correspondente: as reticências!
Depois, começa a parte cómica desta resposta da JAD: fazendo do ataque uma espécie de defesa, vem dizer que “seria a mesma coisa que eu dizer, que LR fez plágio” no post sobre a obra Move 36. Mas claro que é a mesmíssima coisa! Com a pequena, mesmo ínfima, diferença de eu ter incluído links para o site que ela aponta e de nenhuma das passagens em questão ser tradução ou cópia de coisa alguma.
Tendo gasto horas a peneirar os meus textos, JAM exulta com outra prova. “Esquecendo” mais uma vez que estava lá o obrigatório (digo eu) link para a fonte que citei: o proto-evangelho de Tiago. Claro que o facto de eu ter descrito a acusação feita a José e de esse “pormenor” não figurar (como a origem da história, aliás) no texto que a JAD aponta também parece coisa de somenos.

Em resumo, Joana: não, não é a “mesma coisa”. O que a senhora fez, em vez de comentar um livro que supostamente leu, foi traduzir e copiar textos alheios sem qualquer menção ou link aos verdadeiros autores e só depois de apanhada explicar que, afinal, a amostra de erudição era uma mera “súmula”.
É que não existem de todo as “outras intenções” que a sua imaginação (olha, afinal tem-na) me atribui. Eu apenas detesto ver gente a usar trabalho alheio para se fazer passar por algo que patentemente não é.