O glauco regresso de uma palavra na moda

Há coisa de um ano, a palavra “glauco” merecia honras de litros e litros de tinta de jornal. Tudo e mais alguma coisa podia ser “glauco”. Na secção de crítica cinematográfica do Expresso, então, era um fartote: bastava aparecer por aí um filme assim um pouco soturno ou desprovido de números musicais para ser logo promovido à temida mas fina categoria de objecto “glauco”.
Com a repetição teimosa desta ocorrência lexical, fui começando a entender que este adjectivo era usado como sinónimo de “sombrio”, “opressor” ou coisa que o valha. O que me continua a parecer estranho, tendo em vista que ele significa, de acordo com este dicionário, tão somente “de cor verde-mar; esverdeado”.
Há pouco, verifiquei que não era o único a dar pelo estranho fenómeno. Mas andava já convencido que a moda passara. Até ler hoje uma crónica de Eduardo Prado Coelho, no Público, em que ele revive a sua mortificante experiência num hospital português. E, certo como o destino, lá vem o animalejo: “entram num espaço desconhecido, inóspito e glauco”. Por infeliz coincidência, li esta passagem no hospital Dona Estefânia. Ainda olhei à minha volta para ver se o verde fora adoptado como nova cor oficial dos estabelecimentos tutelados pelo Ministério da Saúde. Mas não. Continuam pouco glaucos, os nossos hospitais.

11 thoughts on “O glauco regresso de uma palavra na moda”

  1. Talvez isto te ajude (os ajude):

    A lenda de Glauco: De homem a Deus marinho

    Para Anaximandro, o homem é um filho do mar, do inconsciente cósmico que caminha evolutivamente em busca da realização de sua humanidade. Glauco, o deus marinho, é filho de Posídon e de uma ninfa do mar chamada Naís. Nasceu mortal mas, um dia, tendo posto sobre as ervas da margem uns peixes que acabara de pescar, notou que eles se agitavam de um modo extraordinário e se lançavam no mar. Acreditou que estas ervas possuíam uma virtude mágica, provou-as e torno-se um deus marinho. Posídon e Tétis despojaram-no do que tinha de mortal e o admitiram como um Deus.

    O processo de individuação, de busca da totalidade, pressupõe uma atitude de luta e integridade na busca da consciência, além do conhecimento e a fé na unidade da vida espiritual e na imortalidade do espirito. No caso do mito de Glauco, o seu processo não é marcado por nenhuma dificuldade. Ao contrário, a sua descoberta da planta da imortalidade quase se dá por acaso. Ele não teve que trilhar nenhum caminho penoso e muito menos enfrentar ou matar um monstro para conseguir a planta da imortalidade. Mas, como Jung provou que o acaso não existe, a descoberta de Glauco aconteceu porque ele estava preparado pra “ver”, para o ato de conhecer, porque ele era um pescador. O pescador é, simbolicamente, aquele que se dedica ao ato de buscar no inconsciente, de “fisgar” o alimento da sabedoria para a consciência. Ele dedicava a sua vida à pratica do conhecimento e era possuidor da virtude da sabedoria, já era um iniciado.
    De forma geral, os mitos afirmam que o conhecimento, o criar consciência, é o caminho para a imortalidade. O conhecimento do bem e do mal retira o indivíduo do estado de alienação e o torna capaz de “ver” onde se encontra a Árvore da Vida ou a planta milagrosa que lhe dará a imortalidade, ou o conhecimento da eternidade do espírito. Glauco estava capacitado para “ver” e acreditou no que via. Apenas os peixes, o seu guia interior e os símbolos do Self foram os sinais que lhe apontaram o caminho da verdade. Glauco morre para o mundo profano e renasce para o mundo espiritual.
    Aquele que já provou dos frutos da Árvore da Ciência é um iniciado porque conhece o bem e o mal, se humanizou, e assim está preparado para comer os frutos da Árvore da Vida. Toda pessoa que se dedica ao ato da investigação do inconsciente com a finalidade de obter o conhecimento de si mesmo e da vida é um pescador. O conhecimento do mundo reside dentro de cada um. O novo deus marinho pode ser definido como aquele que sai da condição histórica, abandona o devir humano para fazer o caminho de volta, a reconciliação com o inconsciente, com a totalidade cósmica.
    O pensamento hermético concebe que a “Totalidade” é tanto o início quanto o encerramento de um processo, e isto constitui o segredo hermético, o que Jung e a psicologia junguiana, mais tarde, chamarão de individuação. A entrada para dentro de si mesmo corresponde à imersão, ao banho ritual. O costume do banho ritual, que depois tomou a forma do batismo, foi amplamente usado pelo cristianismo para designar os dois atos simbólicos, a imersão e a emersão. “O homem velho morre por imersão na água, e dá origem a um ser novo regenerado”. A própria água é um chamamento para a nudez como sinônimo de pureza, despojamento, abandono de atitudes antigas.

    http://www.fflch.usp.br/df/geral3/glaucio2.html

  2. Não é por nada, mas Eduardo Prado Coelho utilizou muito bem o adjectivo. Confesso que até lhe desconhecia o sentido primeiro: o da cor verde-mar, esverdeado. Se me tivessem dito: “Cláudia, o que é glauco?”, na minha cabeça, as imagens teriam sido as seguintes: cataratas, lentes embaciadas, substância viscosa.

  3. Essa ligação, Claudia, deve vir através do substantivo “glaucoma”. Mas mesmo este remete para a cor: “doença dos olhos com enfraquecimento da vista, deformação da pupila, e cor esverdinhada do fundo do órgão visual.”

  4. Só queria acrescentar algo em relação ao texto do Monty. Eu mal li “processo de individuação” e logo após isso “Jung” deixei de ler. Sou avessa a psicologias baratas. Leio mitos e não interpretações desses padres camuflados que são os psicólogos.

  5. Será glauco o Glauco Mattoso,podólatra e poeta, ex-concretista, hoje sonetista desembestado, por mor de glaucoma galopante? O gajo tem sítio na net. Os de estômago mais sensível, ou mais dados a papoilas, passaradas e quejandos, levem saco que o enjoo é garantido.Obs: não são servidas aspirinas.

  6. Interessante o uso do termo, nem sabia que existia essa possibilidade! Sabia que meu nome significava uma cor e da mitologia, mas um adjetivo não.

  7. Muito bom o texto sobre o Deus Glauco, e as referencias ao ‘pescador’ e a ‘agua’….em religião, realmente, nada se cria, tudo se copia! Pesquisando o assunto descobri que tbm ouve um Glauco, que foi rei de Corinto.

  8. “Glauco” tbm remonta ao mito de Glauco, filho do rei Minos e de Pisefea, deusa da lua.

    Segundo esse mito, na versão de Apolodoro, Glauco teria morrido ao cair em um jarro de mel e retornado do mundo dos mortos graças a ajuda do adivinho Poliídeos que fora trancado na tumba de Glauco junto com seu cadaver sob a designação dos “Kouretes”, adivinhos superiores. Poliídeos, “aquele de muitas idéias”, contextualiza o mito através da co-relação ( ainda que implicita ) do sagrado com o natural; da experiencia espiritual e sabidamente assustadora com um poder atingivel da re-conexão entre “mundos diferentes”, ou entre o seu Eu e um Outro, no qual ele busca o Glauco, “o azul acinzentado”.

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