Dá ideia que este Governo — nascido de uma golpada judicial aproveitada, ou até alimentada, por Marcelo — é uma espécie de intervalo na condução do País. Destinado a durar só o tempo necessário para que o Pedro Nuno Santos elabore o programa para os próximos 10 a 15 anos de desenvolvimento económico e melhoria dos serviços públicos.
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Os parolos têm direitos como as restantes pessoas

A primeira vez que vi esta identidade visual da República Portuguesa estranhei a coisa. Começa por parecer simplista, habituados como estamos à densíssima carga simbólica da nossa bandeira. Depois, continuamos a estranhar a alteração na hierarquia e semiótica cromática, surgindo o amarelo como cor dominante e central. Finalmente, a ausência do texto simbólico acaba por destacar o vermelho visto ser o bloco que conclui a narrativa do objecto.
Seguiu-se o entranhamento. Quão mais vezes a via, mais gostava. A sua simplicidade e nudez heráldica passava a ser contemporaneidade, evolução, juventude. E o círculo amarelo a substituir a esfera armilar prestava-se a um subtexto de patriótica ironia, anunciando que as conquistas em que agora estávamos interessados chamavam-se turistas, aos quais se entregava a missão da descoberta do nosso régio sol.
Faz todo o sentido que o Governo do Montenegro e do Nuno Melo tenham logo no primeiro dia em funções mandado esta obra de arte para o galheiro. Quem é parolo também tem direito a cumprir-se como tal.
Costa do castelo
Sempre considerei António Costa um político medíocre — etimologicamente: mediano, comum. Isto, obviamente, nada diz a seu respeito. Só me caracteriza na minha ignorância, inexperiência e insolência. Mas valorizei uma indiscrição não desmentida (nem parecendo justificar tal) de Vicente Jorge Silva, em 2017 e remetendo para 2004, onde descreve um Costa assumidamente avesso à liderança do PS; portanto, do País. A ser verdade, talvez explique a base, a fonte, a natureza daquela que se veio a tornar a sua principal qualidade como governante, isso de não ter rival na capacidade de gerar confiança. O tipo de confiança mais importante na cidade, o sentido de responsabilidade e discernimento ao serviço do bem comum e do interesse nacional. Eis o seu castelo, donde conseguiu dar forças aos colegas da governação para ajudar a comunidade a suportar crises inauditas.
Infelizmente, o seu legado para o saneamento da Justiça, tomada por criminosos e justiceiros, é nulo. Tanto que acabou, e continua, vítima dessa sistemática violação do Estado de direito com os instrumentos judiciais. A sua atitude perante a Operação Marquês carece de mais informação acerca das acções de Sócrates alvo do processo, podendo acabar por se reconhecer que defendeu bem o partido ou que defendeu mal a liberdade de que Mário Soares foi paladino. Desfecho imprevisível, talvez só disponível para historiadores.
Agora que abandonou uma função pública a que não voltará, está ao mesmo nível de Guterres numa eventual candidatura presidencial. Se concorrer, ganha e passa 10 anos em Belém. Diria que melhor remédio após o desastre de Marcelo é difícil de sequer imaginar.
Povo, esse grande leitor
«Marcelo: "Entrou-se num tempo novo. Vamos ver como o povo lê o que se passou nestes meses e dias"»
E atão? Como é que o povo leu os meses e os dias onde se passou a golpada judicial que ofereceu a Marcelo a dissolução do Parlamento? Sem surpresa, não podemos contar com o actual Presidente da República para o descobrir. Ignoramos o que ele pensa a respeito da transformação da maioria absoluta socialista obtida em 2022 no Governo do Montenegro e do Nuno Melo em 2024. É um mistério o que os seus neurónios concebem a respeito do fenómeno que levou 1 milhão de taralhoucos e abstencionistas a verem no traste do Ventura o salvador da pátria.
Teremos mais sorte se olharmos para a comunicação social. Tem patrões, os quais pagam as contas para desfrutarem das linhas editoriais que acham mais adequadas aos seus interesses. Para tal, põem no comando das redacções quem está disposto a aplicar a agenda. Estes rodeiam-se daqueles que estão disponíveis para os serviços inerentes ao contexto. E ai daqueles que levantem a bola contra o sectarismo pois de imediato serão carimbados como atacantes da sacrossanta liberdade de expressão e da imprensa. Não é difícil de perceber. Aliás, é tudo ostensivo. A dita “imprensa de referência”, RTP incluída, imita-se no jornalismo político e genérico ao ser uma fonte de sistemático sensacionalismo, alarmismo e intencional deturpação rapace das inevitáveis disfunções no aparelho do Estado. A violência emocional de um qualquer fulano com carteira de jornalista a entrevistar quem ele considere um alvo a abater (governantes e dirigentes socialistas, tudo o que fosse passível de ser relacionado com Sócrates) foi ainda mais tóxico para a salubridade do espaço público do que o exército de comentadores direitolas.
Mas o estado de maior derrelicção a abater-se sobre a comunidade vem do ocupante de Belém. Na véspera da golpada, Marcelo protagonizava sucessivas cenas caricatas, abstrusas, exibindo patológico descontrolo cognitivo. O seu papel nesta história que fez história não é só triste e lamentável, logo a começar na tomada de posse do Governo da maioria socialista e em crescendo a partir daí. Há também na sua conduta uma lição de antropologia: vulpes pilum mutat, non mores.
A nossa notícia do dia
Este blogue protege a saúde da democracia. Recomenda-se uma toma diária.
Revolution through evolution
Want to feel young? Protect your sleep
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Making the future too bright: How wishful thinking can point us in the wrong direction
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Human brains are getting larger. That may be good news for dementia risk
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Beethoven’s genes reveal low predisposition for beat synchronization
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Top Computer Scientists Say the Future of Artificial Intelligence is Similar to that of Star Trek
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Is it the school, or the students?
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Essays on democracy draw attention to critical threats, explore safeguards ahead of Jan. 6
Dominguice
Há boas razões para nos deixarmos cair na irracionalidade. E por lá ficar, adaptados e minimamente funcionais. Afinal, não só o absurdo é parte intrínseca do quotidiano como parece estar na origem e destino do universo. É fácil, e até lógico, desistir da procura de sentido. Mas há melhores razões para frequentarmos a racionalidade. Encontrarmos por lá uma casa, alugada ou construída de raiz.
As habitações na irracionalidade podem ser mais baratas e confortáveis. Dão muita vontade de passar o tempo fechados em casa. Mas só na racionalidade dá para conversar com os vizinhos. Ou com alguém.
Do autor da claustrofobia democrática
A nova diplomacia portuguesa. pic.twitter.com/3bONy8xi7k
— Luís Paixão Martins (@lpmpessoal) March 30, 2024
Curso instantâneo de política
Na governação de um país, qualquer, não se pode resolver os problemas de toda a gente, e a maior parte dos problemas não tem resolução imediata. Parece óbvio.
Na vida de cada um, qualquer, não se resolvem os problemas todos que se têm, e a maior parte deles não tem resolução imediata. Óbvio parece.
Donde, os últimos a quem devemos entregar a resolução dos problemas políticos são os que _____, e o primeiro a quem devemos exigir a resolução dos problemas pessoais é o ____ .
[preencher os espaços em branco e mandar para este fantástico blogue caso se pretenda ter o trabalho avaliado]
Vamos lá a saber
Serviço público
Pulhas de sucesso
«A democracia também é destruída quando Augusto Santos Silva é eleito segunda figura da Nação. Porque ele foi a figura absolutamente essencial de suporte político naquilo que foi o maior atentado ao Estado de direito da democracia portuguesa. Um homem que foi braço-direito de Sócrates de 2005 a 2011, que foi essencial quando os jornalistas estavam a ser perseguidos, quando os bancos estavam a ser tentados tomados de assalto, e Augusto Santos Silva foi a pessoa que esteve ali ao lado dele, muitas vezes a atacar a própria comunicação social, e eu não me esqueço disso.»
Ao lado do fulano estavam três cidadãos. Um com carteira de jornalista, outro licenciado em Direito e ainda uma das personalidades públicas com mais notoriedade em Portugal. Nenhum tugiu nem mugiu. O efeito na audiência é o de ficarem como “verdades” que dispensam contraditório, sequer explicitação, as calúnias pela enésima vez despejadas nesse programa, e por toda a comunicação social desde 2009. Calúnias contra Sócrates, contra o PS e contra a República e suas instituições políticas e judiciárias.
Atente-se ao grau máximo de diabolização pretendido:
– “Democracia destruída” com a eleição de Augusto Santos Silva para presidente da Assembleia da República. É fétida e fanática alucinação, funcionando como táctica que retira os holofotes de cima de Ventura e do Chega, branqueando os seus apelos à violência social e política.
– “Maior atentado ao Estado de direito na democracia portuguesa” consistindo em suspeitas politicamente motivadas que a própria Justiça, também ela politicamente motivada, nunca sequer conseguiu transformar em processos judiciais (embora tenha tentado). Lembre-se que na Operação Marquês, onde havia todo o interesse dos procuradores em soterrarem Sócrates no maior número de acusações possível de engendrar, a cassete dos “jornalistas perseguidos” e da “banca assaltada” não teve sequer capacidade para ser repescada.
– “Jornalistas estavam a ser perseguidos, bancos estavam a ser tomados de assalto” bolça o caluniador no conforto de um estúdio TV. Não se distingue esta estratégia de comunicação em nada dos clássicos discursos de apelo ao ódio, causadores de milhões de mortos ao longo da História, onde os alvos têm de ser caricaturados como possuidores de características inumanas. No caso, Sócrates primeiro-ministro teria ainda arranjado tempo para perseguir jornalistas e tentar tomar de assalto bancos sem que as vítimas, e as autoridades policiais e judiciais, mais o sistema político onde havia partidos e um Presidente da República chamado Aníbal Cavaco Silva, tivessem conseguido reagir, atemorizados perante a fúria da besta socrática. Mas eis que um punhado de heróis se ergueu e iniciou a resistência. Um desses heróis, e provavelmente o mais importante (é perguntar-lhe para confirmar), foi o próprio JMT, ao lado do José Manuel Fernandes e da Helena Matos. Este pequeno grupo de valentes, por estarem a defender no limite das suas forças a liberdade contra a tirania, acabou triunfador do homérico conflito com tão monstruoso inimigo.
O Tavares encheu e continua a encher o bolso à conta da perseguição canalha a Sócrates. Faz todo o sentido pois foi Sócrates quem lhe deu esta específica carreira como caluniador ao ter pedido, em 2009, que os tribunais repusessem o seu bom nome, e da sua mãe, por causa de um texto cobarde assinado por JMT. Mas enquanto este Tavares não passa de um arrivista que se deu bem no pós-Portalegre, Marques Mendes é um tubarão do regime, um cavalheiro de indústria que atravessa os corredores alcatifados das maiores empresas, dos mais poderosos gabinetes de advogados, do PSD, do Conselho de Estado, e depois ainda vai para o império Balsemão, em canal aberto, tratar da sua agenda. E Marques Mendes igualmente difunde as mesmas calúnias acerca de Sócrates, do PS e das instituições políticas e judiciárias da República.
O que me leva à seguinte conclusão: para as vedetas do negócio do ódio, arraia-miúda ou figuras gradas, a mais alta realização política a que vão chegar consiste em chafurdarem na pulhice.
Começa a semana com isto
Revolution through evolution
Closing Gender Gaps in Career Advancement
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Fear may lead women and men to make different decisions when choosing short-VS-long-term rewards
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Landmark study shows that ‘transcendent’ thinking may grow teens’ brains over time
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Feeling apathetic? There may be hope
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Breathe, don’t vent: Turning down the heat is key to managing anger
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Beneficios del voluntariado para la salud
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Your dog understands that some words ‘stand for’ objects
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Continuar a lerRevolution through evolution
Dominguice
A democracia nunca existiu. Nem pode existir. Porque a multidão é vária, variada e avaria. O que pode existir, com o mesmo nome, é a escolha livre de uma oligarquia. Para que essa oligarquia transitória não se transforme numa oligarquia perene, a democracia impõe a lei como garante da liberdade. A lei nada mais é do que um texto onde permanece invisível o poder da turbamulta. Poder só no verbo inteiro e pleno porque intangível, imutável.
A democracia é um ideal impossível, e o que mais possibilidades cria para as comunidades e os indivíduos.
Perguntas simples
Nobel do cinismo e da pândega
1.169.836
O Chega tem mais deputados e mais votos do que o PAN, Livre, PCP, BE e IL juntos. Em percentagem eleitoral, está muito mais próximo do PS e da AD do que dos restantes partidos, de facto acabando com o bipartidarismo. Conquistou o Algarve e o voto emigrante. Isto não é apenas uma curiosidade histórica, é uma profunda alteração no sistema partidário que só encontra um relativo paralelo nas eleições de 1985, onde o PRD obteve 45 deputados com apenas três meses de existência.
O futuro do Chega é evidentemente imprevisível. Parece ter chegado ao seu máximo possível mas será estulto perder tempo com esse cálculo. Importa é olhar para o seu presente. 1.169.836 eleitores merecem tanto respeito democrático como os restantes que foram votar. São parte da soberania, e uma parte que tem um peso que deveria ter consequências. São pessoas que não estão preocupadas com o Estado de direito, os valores humanistas, a própria democracia. Daí terem dado poder a quem ameaça esse regime nascido de Abril. Logo, justifica-se democraticamente que o seu voto tenha um efeito político relevante por serem tantos.
Umas já começaram, com a crescente exibição mediática da qualidade política e cívica desse grupo. Outras virão das posições que forem assumindo no Parlamento. E há ainda a esfera da relação pessoal com esses concidadãos, onde os podemos ouvir, questionar e compreender. Para os aceitar como actualmente são e às suas escolhas nos idos de Março? Não, pá, isso já está garantido pela liberdade de que desfrutam. Temos é de ir falar com eles para os ajudar a perceber a merda que fizeram.
Vamos lá a saber
300 mil Augustos Santos Silvas
A patacoada de ter sido Augusto Santos Silva quem “fez crescer o Chega”, no cumprimento da sua responsabilidade como Presidente da Assembleia da República (2ª figura na hierarquia do Estado) a lidar com deputados arruaceiros e biltres, tem apenas racional persecutório. Os mesmos que a repetem seriam os primeiros a acusar Santos Silva de passividade e falha grave no seu dever caso ele não tivesse pedido e exigido respeito institucional a Ventura nas cenas insultuosas e injuriosas que protagonizou. Então, voltariam a dizer que tinha sido o socialista a “fazer crescer o Chega” ao aceitar e normalizar atitudes indecentes e aviltantes nas sessões parlamentares.
Mas o argumento, na sua piramidal estupidez, consegue ter graça. Dá para imaginar três fulanos a verem diariamente o Canal Parlamento em sessões contínuas na ânsia de descobrir em quem votar. Um deles inclina-se para o PSD, outro para a IL, e o terceiro tem sido abstencionista. Vão acompanhando os debates, interessam-se pela legislação proposta e aprovada, e tiram notas para avaliar qual o partido, ou coligação, que melhor defenderá os seus interesses. Nisto, apanham o Ventura no púlpito a cascar na ciganada. Que são bandidos, carimba, que é uma comunidade fora-da-lei, berra. Santos Silva interrompe-o para lhe dizer: “Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal. Solicito-lhe que continue livremente a sua intervenção, como é seu direito, respeitando este princípio.” Que efeito teve nos nossos três indecisos concidadãos o episódio? Só um, garante a pulharia: irem a correr para os braços do Chega por não suportarem o pundonor e hombridade do Presidente da Assembleia da República face a um racista.
A direita acusa o PS de ser quem “fez crescer o Chega” para apagar ter sido o PSD quem fez nascer o Ventura, Passos Coelho quem o alimentou, Cavaco e Ferreira Leite quem lhe sorriu, e Rui Rio quem o tratou como coisa benévola. A direita que anda há 20 anos a criar as condições sociológicas para o aparecimento de um partido populista de extrema-direita com eficácia eleitoral não pode, obviamente, culpar-se a si própria. Seria um haraquiri.
Mas no campeonato de se identificar quem e o quê “fez crescer o Chega” aponto, por gozo analítico, para um insuspeito influenciador: Ricardo Araújo Pereira. Ao excluir Ventura das suas entrevistas aos líderes partidários, uma provável consequência terá sido a de reforçar o poder de atracção de Ventura junto dos eleitores não politizados. A mensagem transmitida pelo ostracismo era a de Ventura ser especial, tão forte que até uma das vedetas mais importantes em Portugal lhe dava um tratamento exclusivo. O que na intenção era um castigo acabava na lógica do fanatismo por ser um prémio, a prova de que Ventura metia medo ao humorista. Num quadro psicológico susceptível a dinâmicas de culto do líder, como será nos segmentos mais jovens e com menos habilitações, o Sr. Araújo poderá ter valido 300 mil Augustos Santos Silvas aos protofascistas.